quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O Bobinho, Monteiro Lobato

O passeio que Narizinho deu com o Príncipe foi o mais belo de toda sua vida. O coche de gala corria por sobre a areia alvíssima o fundo do mar conduzido por Mestre Camarão e tirado por seis parelhas de hipocampos, uns bichinhos com cabeça de cavalo e cauda de peixe. Em vez de pingalim, o cocheiro usava os fios de sua própria barba para chicoteá-los - lept ! lept!...
     Que lindos lugares ela viu! florestas de coral, bosques de esponjas vivas, campos de algas das formas mais estranhas. Conchas de todos os jeitos e cores. Polvos, enguias, ouriços - milhares de criatura marinhas tão estranhas que até pareciam mentiras do Barão de Münchausen*.
     Em certo ponto Narizinho encontrou uma baleia dando de mamar a várias baleinhas novas. Teve a ideia de levar para o sítio uma garrafa de leite de baleia, só para ver a cara de espanto que Dona Benta e Tia Nastácia fariam. Mas logo desistiu, pensando:
   "Não vale a pena. Elas não acreditam mesmo...".
     Nisto  apareceu ao longe um formidável espadarte. Vinha com o seu comprido esporão de pontaria feita para o cetáceo, que é como os sábios chamam a baleia. O Príncipe assustou-se.
     Lá vem o malvado! - disse ele. - esses monstros divertem-se em espetar as pobres baleias como se elas fossem almofadinhas de alfinetes. Vamo-nos embora , que a luta vai ser medonha.
     Recebendo ordem de voltar, o Camarão estalou as barbas e pôs os "cabecinhas de cavalo" no galope.
     De volta ao palácio o Príncipe deixou a menina e a boneca na gruta de seus tesouros, indo cuidar dos preparativos da festa. Narizinho pôs-se a mexer em tudo... Quantas maravilhas! Pérolas enormes aos montes. Muitas, ainda na concha, punham as cabecinhas de fora, espiavam a menina e escondiam-se outra vez de medo de Emília. Caramujos,então, era um nunca se acabar - de todos os jeitos possíveis e imagináveis. E conchas! Quantas, Deus do céu!
     Narizinho teria ficado ali a vida inteira, examinando uma por uma todas aquelas joias, se um peixinho de rabo vermelho  não viesse da parte do Príncipe dizer que o jantar estava na mesa. 
     Foi correndo e achou a sala de jantar ainda mais bonita que a sala do trono. Sentou-se ao lado do Príncipe e gabou muito a arrumação da mesa.
     - Artes das senhoras sardinhas - disse ele. São as melhores arrumadeiras do reino.
     A menina pesou consigo:
     "Não é à toa que sabem arrumar-se tão direitinhas dentro das latas...".
     Vieram os primeiros pratos - costelas de camarão, filés de marisco, omeletes de ovos de beija-flor, linguiça de minhoca - um petisco que o Príncipe não gostava muito.
     Enquanto comiam, uma excelente orquestra de cigarras e pernilongos tocava a música do fium, regida pelo Maestro Tangará, de batuta no bico. Nos intervalos três vaga-lumes de circo  fizeram mágicas lindas, entre as quais foi muito apreciada a de comer fogo. Para lidar com fogo não há como eles.
    Encantada com tudo aquilo, Narizinho batia palmas e dava gritos de alegria. Em certo momento, o mordomo do palácio entrou e disse umas palavras ao ouvido do Príncipe.
     - Pois mande-o entrar - respondeu este.
     - Quem é? - quis saber a menina
     - Um anãozinho que nos apareceu aqui ontem para contratar-se como bobo da corte. Estamos sem bobo desde que o nosso querido Carlito Pirulito foi devorado pelo peixe-espada.
     O candidato ao cargo de bobo da corte entrou conduzido pelo mordomo e logo saltou para cima da mesa, pondo-se a fazer graças. Narizinho percebeu incontinênti que o bobinho não passava do Pequeno Polegar, vestido com o clássico saiote de guizos e uma carapuça também de guizos na cabeça. Percebeu mas fingiu não ter desconfiado de nada.
     - Como é o seu nome? - perguntou-lhe o príncipe 
     - Sou o gigante Fura-Bolos! - respondeu o bobinho sacudindo os guizos.
     Polegar não tinha o menor jeito para aquilo. Não sabia fazer caretas engraçadas, nem dizer coisas que fizessem rir. Narizinho teve um grande dó dele e disse-lhe baixinho:
     - Apareça na no sítio de vovó, senhor Fura-bolos. Tia Nastácia faz bolinhos muito bons para serem furados. Vá morar comigo, em vez de levar essa vida idiota de bobo da corte. Você não dá para isso.
     - Nesse momento reapareceu na sala a baratinha de mantilha, de nariz erguido para o ar como quem fareja alguma coisa.
     - Achou o fugido? - perguntou-lhe o Príncipe
     - Ainda não - respondeu ela -, mas aposto que anda por aqui.Estou sentindo o cheirinho dele.
     E farejou outra vez o ar com seu nariz de papagaio seco.
     Apesar de ser muito burrinho, o Príncipe desconfiou que  o tal Fura-Bolos fosse o mesmo Polegar.
     -Talvez esteja - disse ele. - Talvez Polegar seja o bobinho que veio oferecer-se para substituir o Carlito Pirulito. Para onde foi? - indagou correndo os olhos ao redor. - Estava aqui ainda agora, não faz meio minuto...
     Procuraram o bobinho por toda parte, inutilmente. É que a menina, mal viu entrar na sala a diaba da velha, disfarçadamente o tinha agarrado e enfiado na manga do vestido.
     Dona Carochinha remexia por todos os cantos, até dentro das terrinas, sempre resmungona.
     - Está aqui, sim. Estou sentindo o cheirinho dele cada vez mais perto. Desta feita não me escapa.
     - Vendo-a aproximar-se mais e mais, Narizinho perturbou-se. E para disfarçar gritou:
     - Dona Carochinha está caducando. Polegar usa as botas de sete léguas e, se estivesse aqui, já deve estar na Europa.
     A velha deu uma risada gostosa.
     - Não vê que não sou boba! Assim que desconfiei que ele andava querendo fugir, fui logo tratando de trancar suas botas na minha gaveta. Polegar fugiu descalço e não me escapa.
     - Há de escapar, sim! - gritou Narizinho em tom de desafio.
     - Não escapa, não! - retrucou a velha -, e não escapa porque já sei onde está. Está escondido na sua manga, ouviu? - e avançou para ela. 
     Foi um reboliço na sala. A velha atracou-se com a menina, e certamente que a subjugaria se a boneca, que estava na mesa ao lado de sua dona, não tivesse tido a bela ideia de arrncar-lhe os óculos e sair correndo com eles.
     Dona Carochinha não enxergava nada sem óculos, de modo que ficou a pererecar no meio da sala como cega, enquanto a menina corria a esconder  o Polegar na gruta dos tesouros, bem lá no fundo de uma concha.
     - Fique aqui bem quietinho até que eu volt - recomendou-lhe.
     E regressou à sala, muito lampeira de sua façanha.

*Militar alemão karl Friedrich von Münchausen narrava suas aventuras de maneira fantasiosa e ficou conhecido como "barão das mentiras"
   
Reinações de Narizinho,  Ed.Globo, São Paulo 2009.