segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Segunda-feira poética: Com Camisa, Sem Camisa, Carlos Drummond de Andrade.

Cardin consulta o Novo Testamento
(um grão de cultura ajuda o talento):
O primeiro homem não tinha camisa,
expunha o tórax ao beijo da brisa.
O sol lhe imprimia uns toques bronzeados,
Eva, no peito, lhe fazia agrados...
Tão bacaninha! Pierre decretou:
"Camisa, mes chers, agora acabou."
Os camiseiros já fundem a cuca,
fecham-se teares, em plena sinuca.
"Olha só que pão!" exclama no cock
a moça vidrada, e tenta um bitoque
em cada tronco miguelangelesco
em que o pêlo põe grácil arabesco.
Um convidado (?) chega de repente,
manda parar a prática inocente:
"Um lençol! uma toalha! um guardanapo
para cobrir o nu, depressa, um trapo,
um jornal de domingo,bem folhudo
que esconda o peito, a perna, o pé e tudo!
Tem estátua pelada no salão?
Mesmo em foto é demais a apelação!
Nu, nem no banheiro. Tá compreendido?
Melhor é ensaboar-se alguém vestido."
Viste, Pierre Cardin, o que fizeste?
Ante o rigor de repressão tamanha,
era uma vez tua última façanha.

ANDRADE. Carlos Drummond. O poder ultra jovem e mais 79 textos em prosa e verso. 3ª ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1974, p.122