quinta-feira, 9 de junho de 2016

Quarta-feira é dia de: Se Eu Fosse Esqueleto, Ricardo Azevedo

Se eu fosse esqueleto não ia poder tomar água nem suco porque ia vazar tudo e molhar a casa inteira.
Tirando isso, ia acordar e pular da cama feliz como um passarinho.
É que ser uma caveira de verdade deve ser muito divertido.
Por exemplo. Faz de conta que um banco está sendo assaltado. Aqueles bandidões nojentões, mauzões, armados até os dentões, berrando:
- Na moral! Cadê a grana?
Se eu fosse esqueleto, entrava no banco e gritava: bu!
Bastaria um simples bu e aquela bandidagem ia cair dura no chão, com as calças molhadas de úmido pavor.
O gerente e os clientes do banco iam agradecer e até me abraçar, só um pouco, mas tenho certeza de que iam.
Se eu fosse caveira, de repente vai ver que eu ia ser considerado um grande herói.
Fora isso, um esqueleto perambulando na rua em plena luz do dia causaria uma baita confusão. O povo correndo sem saber para onde, sirenes gemendo, gente que nunca rezou rezando, o Exército batendo em retirada, aquele mundaréu desesperado e eu lá, todo contente, assobiando na calçada.
Um repórter de TV, segurando o microfone, até podia chegar para me entrevistar:
- Quem é você?
E eu:
- Sou um esqueleto.
E o repórter: 
- O senhor fugiu do cemitério?
Aí eu fingia que era surdo:
- Ser mistério?
E o repórter, de novo, mais alto:
- O senhor fugiu do cemitério?
- Assumiu no magistério?
- Cemitério!
- Fala sério? Quem?
Aí o repórter perdia a paciência:
- O senhor é surdo?
E eu:
- Claro que sou! Não está vendo que não tenho nem orelha?
Se eu fosse esqueleto talvez me levassem para a aula de Biologia de alguma escola. Já imagino eu lá parado e o professor tentando me explicar osso por osso, dente por dente, dizendo que os esqueletos são uma espécie de estrutura que segura nossas carnes, órgãos, nervos e músculos.
Fico pensando nas perguntas e nos comentários dos alunos:
- Como ele se chamava?
- É macho ou fêmea?
- Quantos anos ele tem?
- Tem ou tinha?
- Magrinho, não?
- O cara sabia ler ou era analfabeto?
- E a família dele?
- Era rico ou pobre?
- O coitado está rindo de quê?
E ainda:
- Professor, ele era careca?
Enquanto isso, eu lá, no meio da aula, com aquela cara de caveira, sem falar nada para não assustar os alunos e matar o professor do coração.
Uma coisa é certa. Deve ser muito bom ser esqueleto quando chega o Carnaval. Aí a gente nem precisa se fantasiar. Pode sair de casa numa boa, cair no samba, virar folião e seguir pela rua dançando, brincando e sacudindo os ossos. Parece mentira, mas, no Carnaval, porque é tudo brincadeira, a gente sempre acaba sendo do jeito que a gente é de verdade.
Se eu fosse esqueleto, quando chegasse o Carnaval, ia sair cantando: 

Quando eu morrer
Não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela
Gravada com o nome dela
 

Todo mundo sabe que o maior amigo do homem é o cachorro.
O que a maioria infelizmente desconhece e a ciência moderna esqueceu de pesquisar é que o pior inimigo do esqueleto late, morde, abana o rabo, carrega pulgas e aprecia fazer xixi no poste.
E se eu fosse esqueleto e por acaso um vira-lata me visse na rua, corresse atrás de mim e fugisse com algum osso dos meus?



Sobre o autor:
 
Ricardo Azevedo,  escritor e ilustrador. Já escreveu mais de 100 livros para crianças e jovens, entre eles Trezentos Parafusos a Menos (Ed. Companhia das Letrinhas) e Contos de Espanto e Alumbramento (Ed. Scipione). 
Fonte: www.novaescola.org.br