quinta-feira, 23 de junho de 2016

Chegada, Michael Ondaatje

         
Chegamos sorrateiramente à Inglaterra durante a noite. Depois de tanto tempo no mar, não pudemos assistir à nossa entrada no país. Somente a barcaça do prático, com sua luz azul piscante, nos esperava na entrada do estuário, nos guiando para o Tâmisa ao longo de uma costa desconhecida e às escuras.
    Sentimos um cheiro súbito de terra. Quando o sol por fim iluminou o que havia a nosso redor, parecia que estávamos num local humilde. Não vimos margens verdejantes, cidades famosas nem grandes pontes levadiças capazes de erguer dois arcos a fim de nos abrir passagem. Tudo lembrava os resquícios de uma antiga era industrial - molhes, pântanos de água salgada, entradas de canais dragados. Deixamos para trás navios-tanque e boias de amarração. Procuramos pelas ruínas heráldicas estudadas a milhares de quilômetros dali numa aula de história em Colombo. Vimos uma flecha de torre e depois chegamos a um lugar cheio de nomes: Southend, Chapman Sands, Blyth Sands,Lower hope, Shornmead.
     O navio soltou três apitos breves, houve uma pausa, outro apito e começamos a encostar vagarosamente no cais de Tilbury. O Oronsay , que durante semanas regulara nossa vida, por fim descansou. Mais a montante do rio, mais para o interior daquele canal oriental do Tâmisa, ficavam Greenwich, Richmond e Henley. Mas agora havíamos parado, os motores tinham sido desligados.
     Perdi Cassius e Ramadhin de vista tão logo cheguei ao pé  da rampa de desembarque. Poucos segundos haviam se passado e já estávamos separados, perdidos uns dos outros. Não houve um último olhar nem a tomada de consciência do que acontecera. Depois de cruzar vastos mares, fomos incapazes de nos encontrar naquele terminal de passageiros na margem do Tâmisa. Em vez disso, abríamos caminho nervosamente em meio à multidão, sem saber direito para onde estávamos indo.
     Algumas horas antes, eu havia tirado da mala minhas primeiras calças compridas e calçara as meias que estavam entupindo meus sapatos. Por isso, descia sem jeito junto com os outros passageiros a rampa larga que nos levava ao cais. Tentava ver quem era minha mãe. Já não tinha recordação clara de sua aparência. Possuía uma fotografia, porém estava no fundo da minha pequena mala.
     Só hoje tento imaginar aquela manhã em Tilbury sob a ótica de mamãe, procurando pelo filho que deixara em Colombo quatro ou cinco anos antes, tentando imaginar minhas feições com base num instantâneo recente em preto e branco que lhe tinham enviado para ajudá-la a identificar um menino de onze anos em meio à horda de passageiros que descia do navio. Deve ter sido um momento promissor ou terrível, prenhe de possibilidades. Como ele se comportaria com ela? Um menino cortês mas reservado ou alguém carente de afeição? Suponho que me vejo melhor através dos olhos dela e de suas necessidades enquanto ela examinava a multidão, como eu fazia, em busca de alguma coisa que nenhum dos dois conhecia, como se o outro fosse um número a ser aleatoriamente tirado de dentro de um chapéu, mas que se tornaria um parceiro íntimo por toda a década seguinte, quem sabe pelo resto de nossas vidas.
     " Michael?"
     Ouvi   "Michael" pronunciado por uma voz que temia muito ter se enganado. Voltei-me e não vi ninguém que eu conhecia. Uma mulher pousou a mão em meu ombro e repetiu: "Michael". Passou a mão na minha camisa de algodão e disse: "Você deve estar com frio, Michael". Lembro-me que repetiu meu nome várias vezes. No começo eu só olhava para as suas mãos, seu vestido,mas a reconheci ao ver eu rosto.
     Descansei a mala no chão e a abracei. Era verdade que estaca sentindo frio. Até aquele momento só tinha me preocupado em não ficar perdido para sempre. Porém agora, por causa do que ela havia dito, senti frio. Minhas mãos se entrelaçaram atrás de suas costas largas. Ela se inclinou e me olhou, sorrindo, dando um passo à frente para me apertar ainda mais. Eu podia ver parte do mundo ao lado dela, as pessoas circulando velozes sem prestar muita atenção ao fato de que estava abraçado à minha mãe, tendo ao lado a mala que me fora emprestada e que continha todas as minhas posses.
    Então vi Emily caminhando com seu vestido branco e passadas firmes. Ela parou para me olhar, e foi como se tudo tivesse cessado e voltado atrás por um instante. Lançou-me um sorriso cuidadoso. Depois regressou e pousou suas mãos quentes sobre as minhas, plantadas nas costas de mamãe. Um toque delicado, depois um pouco mais de pressão, como algum tipo de sinal. em seguida se afastou.
     Achei que ela tinha dito alguma coisa.
     " O que foi que Emily falou?" , perguntei à minha mãe.
     "Acho que disse que era hora de ir para a escola."
     Já distante, antes de desaparecer no mundo, Emily fez um aceno de adeus.

A Mesa da Ralé, Michael Ondaatje; tradução Jorio Dauster - 1ª ed. - São Paulo;Cia das Letras 2014.Págs.274-277. 
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