quarta-feira, 20 de abril de 2016

Manoel de Barros.

Eu estava encostado na manhã como se um pássaro 
à toa estivesse encostado na manhã. Me veio uma
aparição: Vi a tarde correndo atrás de um 
cachorro.  Eu teria 14 anos.Essa aparição deve
ter vindo de minhas origens. Porque nem me
lembro de ter visto nenhum cachorro a correr de
uma tarde. Mas tomei nota desse delírio. Esses
delírios irracionais da imaginação fazem mais
bela a nossa linguagem. Tomei nota desse delírio
em meu caderno de frases. Àquele tempo eu já guardava
delírios. Tive outra visão naquele mês. Mas preciso
antes contar as circunstâncias. Eu exercia um
pedaço da minha infância encostado à parede da
cozinha no quintal de casa. Lá eu brincava de
cangar sapos. Havia muitos sapos atrás da cozinha.
A gente bem se entendia. Eu reparava que os sapos
têm o couro das costas bem parecido com o chão.
Além de que eram do chão e encardidos. Um
dia falei pra mãe: sapo é um pedaço de chão 
que pula. A  mãe disse que eu estava meio variado.
Que sapo não é um pedaço de chão. Só de fosse no
meu delírio. Isso até eu sabia, mas me representava
que sapo é um pedaço de chão que pula. Hoje estou
maiorzinho e penso no Profeta Jeremias. Ele tanto
lamentava de ver  a sua Sião destruída e arrasada
pelo fogo que em casa lhe veio esta visão: Até
as pedras da rua choravam. Ao escrever a um amigo,
mais tarde, na paz de sua casa, se lembrou do
delírio: até as pedras da rua choravam. Era tão
bela a frase porque irracional. Ele disse.