quarta-feira, 23 de março de 2016

Nostalgia em vez de greia, José Teles

     
No primeiro ano do ginasial havia um garoto rico na minha turma. Rico pros padrões de então, em que a classe média possuía geladeira e TV. Telefone e carro eram coisa pra classe média alta. A família desse meu amigo possuía uma grande concessionária de automóveis. Era, pois, milionária. Eu e Thomas, o menino rico,nos tornamos muito amigos pela paixão em comum pelos Beatles e aqueles conjuntos todos da época, Gary and Pacemakers, The Monkees, Jay and The Americans, The Five Americans (do sucesso Western Union, cuja versão foi gravada por meu amigo Paulo Diniz), Renato e Seus Blue Caps, por aí.
     Época de provas, esse meu amigo me convidou pra estudar na casa dele. Fui, pensando nos discos, porque ele ganhava tudo que era LP. Mas uma governanta que tomava conta da casa ficou de olhos e a gente teve de se concentrar nos estudos. Neste tempo, me apelidavam no colégio de Zé Dez, por motivos óbvios. Quando cheguei no científico, o dez virou zero, mas ai é outra história. Meio dia a governanta sugeriu  que a gente tomasse banho pra almoçar. Banheiro de rico era diferente, imaculadamente branco, com muito mais bregueço do que sabonete que a gente usava em casa. Xampu não era coisa de macho. Se os garotos sentisse o aroma ia haver arreação a tarde inteira. Meu amigo devia usar aquele  xampu por isso os cabelos dele ficavam todos soltos e brilhantes feito os dos Beatles.  Arrisquei um pouco de xampu. Muito pouco porque a turma batia forte. Menos no meu amigo rico. Ele era rico, podia usar xampu.
     O almoço foi servido numa mesa forrada com uma toalha branca de cambraia, num jardim de inverno ao lado da casa. Serviram salada, feijão leve, sem aquelas carnes todas lá de casa, arroz branco cheiroso, temperado não sei com que, filé ao molho ferrugem (acho) e ervilhas, graúdas, bem verdes. Eu só vira ervilhas assim antes em anúncio das revistas O Cruzeiro e Realidade. Mastiguei as ervilhas bem lentamente degustando-lhe o sabor. A governanta notou que apreciei as ervilhas e me serviu outra porção generosa. Fomos deixados no colégio pelo motorista do pai do meu amigo.
     Em casa, o pessoal quis saber como foi na casa do rico, o que eu tinha gostado mais de lá, o que vira de mais diferente. Não titubeei:"Ervilhas. eles comem ervilhas no almoço". Ervilhas pra mim, durante muito tempo, foram a diferença  entre nós, da humilda classe média brasileira dos anos 60, e os ricos. Os são diferentes, o que me foi corroborado por Scott Fitzgerald num conto que li num exemplar antigo da primeira versão da revista Senhor. "Deixem que eu lhes fale dos muito ricos. São diferentes de nós - de mim e de vocês. Têm prazeres e posses desde cedo e isso exerce certo efeito sobre eles, tornando-os moles, onde somos duros, cínicos onde somos confiantes, a ponto de ser difícil compreender para quem não nasceu rico". O conto era O Moço Rico, belissimamente traduzido por Mário Faustino.
     A senhora, tava demorando, me interrompe, perguntando onde tá a graça da conversa. Em parte alguma. A situação não tá pra risos, nem pra flozô.

(Crônica publicada em Curto&Grosso de 20.3.16, Jornal do Comércio)

José Teles é autor de vários livros, veja aqui.