sábado, 20 de fevereiro de 2016

Juarez Machado



Às seis horas da manhã, o artista plástico Juarez Machado (67) pula da cama, assobiando, feliz da vida. O motivo do astral estratosférico: em minutos estará na frente do cavalete, exercendo o ofício que dá sentido à sua vida. "O centro do meu universo é meu cavalete, meu ateliê", diz o catarinense para quem o humor é o primeiro estágio da inteligência. O artista de múltiplos talentos - pintura, desenho, escultura, teatro, mímica - diz desenhar "para irritar o diabo". "Ele gostaria de ter o meu talento", afirma, com humor.
Há muito tempo Juarez Machado ganhou o mundo. Primeiro foi o Rio, onde foi viver em 1965, e cidade pela qual se apaixonou. Em 1978 começou a "ir para fora": Londres, Nova York, Estrasburgo, na França, Alemanha, Itália. Até que em 1986 se estabeleceu em Paris - outra paixão. Foi passar um ano, acabou ficando. Seu mundo pessoal, leia-se o ateliê em que expressa seu rico e premiado universo interior, ocupa todo um prédio no bairro boêmio de Montmartre. "Não tenho casa, tenho ateliê, o que para mim significa pátria, não importa o lugar", define. E foi esse lugar especial que o artista, dois ex-casamentos, três filhos, uma neta e agora namorando a jornalista catarinense Melina Mosimann (39) abriu para a revista CARAS.
- Como foi se estabelecer em Paris na década de 1980?
- Fui passar um ano, trabalhar, estudar, pôr filho na escola (João Manoel Machado), e acabei ficando. O João, hoje com 30 anos, se tornou cineasta e roteirista e foi embora para Los Angeles. E eu continuei por aqui. De vez em quando, alugo ateliês em lugares como Veneza, Boston, L.A. Fico pulando a cerca (risos). Sou fiel, mas não sou exclusivo desse casamento com Paris e Rio. São duas mulheres, duas cidades femininas. Não agüento nem uma nem outra mais de três meses.
- Como é sua relação com a pintura e o desenho?
- Acordo às 6 da manhã para pintar, numa alegria total. O centro do meu universo é meu cavalete, meus ateliês no Rio, em Paris, em Joinville e Florianópolis. A palavra ateliê tem um sentido maior. Não é lugar de trabalho, como para mim casa não é refúgio, meu lar. Ateliê para mim é pátria, não importa o lugar do mundo. Meus pincéis estão dentro de vasos Lalique, dou respeito a meus instrumentos de trabalho. Meus pincéis são meus bisturis. Estou cercado de quadros, livros, fotos. Não jogo nada fora, nem as rolhas do champanhe que bebo. Por isso vou comprando apartamentos onde colocar tudo isso. Moro em seis andares, tenho cinco banheiros, um luxo que nem o presidente Nicolas Sarkozy tem. A empregada fica furiosa quando uso todos.
- Há algum ritual para pintar?
- Eu me arrumo para pintar. Mando fazer roupas especiais, mesmo sabendo que não há ninguém para ver, aplaudir. Uso polainas, plastron, jóias que mando fazer. Tenho um alfaiate que me adora. Sou um maluco, não uso prêt-àporter, quero sob medida, apesar de a minha medida ser universal.
- Você se dá bem com você?
- Eu me adoro. Eu durmo comigo há 64 anos, acordamos juntos. Compro presentes para mim e falo com partes do meu corpo. Por exemplo: 'Ah, meus pés, vocês andaram tanto ontem que merecem um sapatinho'. Eles agradecem e em retribuição saem andando, me levando para passear. Falando nisso, os sapatos são meu fetiche. Tenho mais de cem pares, todos bicolores, prateado com preto, com marrom. Causam certo frisson, mas os franceses já se acostumaram. Dia desses comprei um sapato prateado, com verniz. Eu e Melina íamos sair para jantar e combinamos uma cena: ela deixaria cair o brinco e perguntaria 'ai, não sei onde meu brinco caiu'. Em seguida eu apontaria o brinco com meu sapato, 'está ali, meu bem'. Nos divertimos muito.
- Sua família influenciou na escolha profissional?
- Meu pai (João Machado, já falecido) me incentivou muito. Ele queria ser artista, tinha talento, mas era caixeiro viajante. Isso lhe dava uma visão ampla do mundo. Ele trazia coisas que comprava no interior, eu ia brincando com isso e assim começou minha relação com a arte. Minha mãe, Leonora Busch Machado, hoje com 92 anos, pintava leques de seda. Eu cresci no meio das tintas. Além disso, minha mãe teve dois filhos únicos: meu irmão é 13 anos mais novo, portanto cresci mimado e sozinho. Tomo café com a mão direita e com a esquerda desenho personagens para me acompanhar - atribuo muito isso ao fato de ter de brincar sozinho na infância.
- Como você começou a namorar Melina Mosimann?
- A Melina é catarinense. Nos cruzamos lá, somos amigos há muito tempo. Ela tinha um programa de entrevistas na televisão. De uns três meses para cá essa amizade virou amor. No começo fiquei com medo de transformar essa relação e perder a amiga. Mas tomei a iniciativa e deu certo. Nosso relacionamento é de muita amizade, muito riso, muita piada. É uma coisa muito leve. A Melina me conquistou porque é o tipo de pessoa que ri até de fratura exposta. E humor é uma coisa boa. Eu convivi a vida toda com humoristas. Quando cheguei ao Rio em 1965, recém formado em Belas Artes, caí no meio da inteligência carioca: Millôr, Ziraldo, Jaguar, Henfil.
- E como é a frequência de encontros, em razão da distância?
- Ela passa temporadas aqui. Às vezes sou eu que vou. E tem e-mail e telefone, dia sim, noite também. Estou legal, estou muito bem. Tenho uma relação boa com as pessoas. Não tenho gato nem cachorro, gosto de gente. Gente me emociona. As pessoas são carentes, exigem, choram, riem... é extremamente gratificante.
- Que técnica você usa?
- Óleo sobre tela. Já os desenhos são feitos com lápis, crayon, caneta. O desenho é um processo mais interior. Eu desenho para irritar o diabo (risos). Ele gostaria de ter o meu talento. Já Deus não liga para essas coisas. - Defina seu estilo. - Modestamente eu diria que tenho estilo machadiano. Sou eu mesmo. Tenho uma coisa muito personalizada. Tudo muito teatral. Minha proposta sou eu, é meu universo de forma egocêntrica.
- Você pretende voltar a viver no Brasil?
- Quero envelhecer aqui. No Rio não vão me dar bola, vão roubar minhas jóias, me assaltar (risos). Aqui todos me adoram, é a comuna de Montmartre. Quando Ayrton Senna morreu, a rua inteira veio me dar os pêsames. Serei aquele velhinho na janela, que os vizinhos dão bom-dia.

(Da Revista Caras
(Imagem: www.gravura.art.br)
(Nota: entrevista concedida antes da reforma ortográfica)