quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Conhecendo novos autores: Manuel Alegre.


Minha mãe teve sempre para mim grandes desígnios. Quais eles fossem não sei. Nem ela própria o saberia. Era uma força que vinha de dentro dela, uma obstinação. Ela queria  grandes coisas para mim, um destino, talvez um milagre. Transmitiu-me desde pequeno essa crença em algo de superior que me esperava ou que eu devia cumprir. Talvez por isso vivi sempre uma tensão extrema, creio que muitas vezes à beira da ruptura. Por vezes desorganizava-se, adoecia. Ela não descansava: estava sempre interiormente orientada para um fim. E nunca satisfeita.  Nem consigo nem com os outros. Não sei ao certo o que ela exigia. Nem talvez ela própria soubesse. Sei que me incitava. Era uma fé que quase me obrigava a corresponder, sob pena de eu próprio me considerar um fraco. Não que me estimulasse a ser o melhor, nem sequer a competir. O que ela queria é que eu fosse diferente: o outro, o único. Por ser seu filho. O seu. Sublinhado. Por isso tinha que deixar na vida um sinal, um marco, a marca. Ou cumprir a missão que nenhum de nós sabia ao certo qual fosse.
     Tão grande era sua confiança que de certo modo ela acabou por me transmitir a convicção de ter nascido para um desígnio. Não era fácil. Eu tinha de ser diferente, de pensar de outro modo, de encontrar a palavra, o gesto, a gesta. Era fazer ou ser como nunca ninguém. Um encargo para ela, por assim dizer um cargo, algo que ela não podia nunca descuidar. E se acaso as coisas não corriam como queria, se acaso eu não correspondesse, a culpa não era minha nem estava na ideia  que de mim ela tinha construído, a culpa vinha de fora, da incompreensão dos outros, da pequenez, da inveja e da incapacidade de ver o óbvio: que eu era diferente e estava destinado a fazer o nunca feito.
     Ora isso acabava por ter consequências: à força de representar esse papel não sei se não acabei por me tornar o personagem por ela imaginado. Cada um, disse não sei quem, talvez André Gide, é sempre aquilo que imagina que é. Não sei se não sou, em parte, quem a minha mãe engendrou que eu fosse. O actor e o seu duplo, a máscara, a persona, o heterónimo.
     Havia regras. Por exemplo: não acusar ninguém, nem permitir nunca que outros pagassem por mim. O que me conduzia ao exagero de ser eu a pagar pelos outros. Alguém cometia uma falta e a classe era responsabilizada em bloco. Eu levantava-me e dizia; fui eu.
     Era um comportamento ditado pela alta ideia que aminha mãe fazia de mim e que ela depois interpretava como mais um sinal que não vinha senão confirmar a sua íntima convicção.
    Assim se foi criando um círculo vicioso em que as exigências e os padrões de comportamento foram sendo sempre cada vez mais elevados. Ela não se importava que eu não tivesse aas melhores notas. Mas não admitia, não concebia sequer que eu não fosse o mais corajoso, o mais capaz e responder quando todos tinham medo, ou mesmo, em certas circunstâncias, o único, aquele que tinha  de o  fazer porque para isso de certo modo  tinha nascido.  A inabalável convicção de minha mãe tornou-se a razão de ser da sua vida. E transmitiu-se, com excepção do meu  pai, ao resto da família, aos próprios amigos, senão mesmo aos inimigos. Tive muitas vezes a impressão de que me exigiam o que não estavam dispostos a fazer e o que não esperavam de mais ninguém. Por isso, desde pequeno, vivi sempre, de certo modo, junto ao risco. A minha mãe não concebia que eu não vivesse intensa e perigosamente. Quando muito mais tarde eu fui preso por razões  políticas, ela não entrou em pânico, nem sequer ficou aflita. Portou-se   como se estivesse  à espera e como se aquela prova fosse até certo ponto, desejável e desejada. Ou simplesmente inevitável. A sua principal preocupação foi saber se eu aguentaria. Quando lhe disseram que sim ficou satisfeita. Mas como quem acha que nem poderia ser  de outro modo. Para ela era como se tudo estivesse escrito.
     Uma tal exigência provocava tensões e tinha uma lógica irrefragável: para ser o que ela queria que fosse eu teria que me rebelar conta sua tendência para capitanear  a minha vida. Foi a sua grande e insuportável contrariedade: ela controlou quase sempre toda a gente, mas a mim não. Transmitiu-me confiança e energia suficientes para lhe escapar. Mas não se confunda essa vontade de comando com recusa ou frieza. A minha mãe era terna. E tínhamos grandes ritos de afectividade. Eu nunca adormecia sem a minha mãe me vir trilhar a roupa e dar um beijo. Era um momento bom e único e insubstituível. Para ela eu corria sempre que sentia a tal bicada na nuca o arrepio, a sensação de morte iminente. Ela incitava-me à guerra. Mas era a paz. Pelo menos naquele tempo marcado pelos ritmos lentos das estações, da suas tarefas, das suas doenças, dos seus ritos e dos seus jogos.
     Tudo girava à volta da casa à volta da avó Beatriz e de minha mãe. De certo modo havia uma luta pelo poder, que talvez fosse, também, por mim. A minha mãe exigia, a minha avó protegia. Eu sabia que junto dela, fizesse o que fizesse, estaria sempre perdoado.
     A minha irmã era ainda muito pequena. E o meu pai passava a semana quase toda fora. Às vezes mesmo quando estava, era como se não estivesse completamente. Há pessoas que estão sempre ausentes mesmo quando fisicamente estão ali.  O meu pai era um pouco assim: partir frequentemente para não sei onde, talvez para outro tempo, talvez para outro espaço, o das serras da Beira Baixa, atrás de perdizes  impossíveis de caçar. Um pouco como na poesia, onde, havia de o aprender depois, se anda sempre atrás de um verso que não há.
     Naquele tempo as relações entre eles eram instáveis, ora muito boas ora muito más. Às vezes o meu pai ia uma temporada de castigo para o quarto do fundo. Normalmente por ciúmes de minha mãe, provocados por histórias que lhe vinham contar. Não que ele fosse propriamente um corredor de saias. Mas era um homem atraente, que agradava às mulheres. Talvez não tivesse muita paciência para conquistas. Era mais de sua natureza deixar-se conquistar.
     Mas apesar das tensões, das zangas, dos ciúmes, havia entre eles uma relação forte, algo que se lhes impunha, talvez até contra a vontade de um e de outro. Seria a atracção dos contrários, porque eram diferentes em quase tudo, no físico ( minha mãe pequenina, meu pai bastante alto) , no temperamento (contemplativo, o do meu pai, frenético, o de minha mãe), na atitude (empreendedora, profundamente burguesa, a e minha mãe, desprendida, senhorial, a do meu pai). Casaram-se à revelia dos meus avós, quase clandestinamente, apadrinhados pelo Marquês. Só depois de eu nascer se reconciliaram com as famílias. Fui assim o fruto de uma atracção conflitual que havia de tornar-se, com o tempo, numa cumplicidade mais forte do que as diferenças e as próprias desavenças.
    Mas naquele tempo havia, por vezes, grandes cenas. Minha mãe e minha avó juntam-se e pregavam sermões ao meu pai. Eu não percebia porquê, creio que ele também não. Talvez nem elas próprias ao certo percebessem. Falavam, falavam e o meu pai olhando pata mim, imitava com a mão o movimento de uma manivela. A fúria dos Farias, dizia minha avó. Devo confessar que compreendia o meu pai. Achava até que ele devia explodir mais vezes, porque sempre que tal acontecia restabelecia- se um equilíbrio de forças e havia um período de paz dentro de casa.
     Era uma cena curiosa de se ver. Elas falavam, falavam. Quando menos se esperava o meu pai dava um berro e um salto depois ia buscar uma mala, metia roupa lá dentro e atirava tudo   ao ar. Por vezes, se a fúria fosse mais profunda, armava a espingarda, a minha mãe, a minha avó e as criadas gritavam e fugiam, eu assistia, meio assustado, meio divertido, para não dizer entusiasmado. O meu pai metia dois cartuchos na espingarda, corria para o jardim e disparava  dois tiros para o ar. Depois começava a rir, até as lágrimas. Fazia-me uma festa na cabeça, quase tão rara com as que fazia ao cão, e eu já sabia que, a seguir era a paz.  Nessa noite já ele não dormia no quarto do fundo. E no dia seguinte até a minha avó lhe falaria a sorrir, amenamente, quase com intimidade, o que só  acontecia depois das grandes tempestades.
     Um dia não me contive.
     - Porque é que o pai dá dois tiros para o ar?
     - Eu não dou dois tiros para o ar.
     - Então contra quem é?
     - Há perguntas que não se fazem – disse.
     E soprou o fumo que saía ainda nos canos da espingarda.


ALEGRE, MANUEL in: Alma, Lisboa:BBL2002 p.95-100
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