segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Balada do Poema Que Não Há, Manuel Alegre

Quero escrever um poema 
Um poema não sei de quê 
Que venha todo vermelho 
Que venha todo de negro 
Às de copas às de espadas 
Quero escrever um poema 
Como de sortes cruzadas 

Quero escrever um poema 
Como quem escreve o momento 
Cheiro de terra molhada 
Abril com chuva por dentro 
E este ramo de alfazema 
Por sobre a tua almofada 
Quero escrever um poema 
Que seja de tudo ou nada 

Um poema não sei de quê 
Que traga a notícia louca 
Da história que ninguém crê 
Ou esta afta na boca 
Esta noite sem sentido 
Coisa pouca coisa pouca 
Tão aquém do pressentido 
Que me dói não sei porquê 

Quero um poema ao contrário 
Deste estado que padeço 
Meu cavalo solitário 
A cavalgar no avesso 
De um verso que não conheço 

Que venha de capa e espada 
Ou de chicote na mão 
Sobre esta noite acordada 
Quero um poema noitada 
Um poema até mais não 

Quero um poema que diga 
Que nada há que dizer 
Senão que a noite castiga 
Quem procura uma cantiga 
Que não é de adormecer 

Poema de amor e morte 
No reino da Dinamarca 
Ser ou não ser eis a sorte 
O resto é silêncio e dor 
Poema que traga a marca 
Do Castelo de Elsenor 

Quero o poema que me dê 
Aquela música antiga 
Da Provença e da Toscânia 
Vinho velho de Chianti 
Com Ezra Pound em Rapallo 
E versos de Cavalcanti 
Ou Guilherme de Aquitânia 
Dormindo sobre um cavalo 

E com ele então dizer 
O meu poema está feito 
Não sei de quê nem sobre quê 

Dormindo sobre um cavalo 

Quero o poema perfeito 
Que ninguém há-de escrever 
Que ele traga a estrela negra 
Do canto e da solidão 
Ou aquela toutinegra 
De Camões quando escrevia 
Sôbolos rios que vão 

Que venha como um destino 
Às de copas às de espadas 
Que venha para viver 
Que venha para morrer 
Se tiver que ser será 
E não há cartas marcadas 
Só assim poderá ser 
O poema que não há 

Manuel Alegre, in "Babilónia" 
(Fonte: www.citador.pt)
Imagem: Lavandula stoecha do site: www.biovip.pt