quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Infância, Manuel Bandeira


Corrida de ciclistas.
Só me lembro de um bambual debruçado no rio.
Três anos?
Foi em Petrópolis.
Procuro mais longe em minhas reminiscências.
Quem me dera recordar a teta negra de minh’ama-de-leite…
… meus olhos não conseguem romper os ruços definitivos do tempo.
Ainda em Petrópolis… um pátio de hotel… brinquedos pelo chão…
Depois a casa de São Paulo.
Miguel Guimarães, alegre, míope e mefistofélico,
Tirando reloginhos de plaquê da concha da minha orelha.
O urubu ousado no muro do quintal.
Fabrico uma trombeta de papel.
Comando…
O urubu obedece.
Fujo, aterrado do meu primeiro gesto de magia.
Depois… a praia de Santos…
Corridas em círculos riscados na areia…
Outra vez Miguel Guimarães, juiz de chegada, com seus presentinhos.
A ratazana enorme apanhada na ratoeira.
Outro bambual…
O que inspirou a meu irmão o seu único poema:
“Eu ia por um caminho,
Encontrei um maracatu.
O qual vinha direitinho
Pelas flechas de um bambu.”
As marés de equinócio.
O jardim submerso…
Meu tio Cláudio erguendo do chão uma ponta de mastro destroçado.
Poesia dos naufrágios!
Depois Petrópolis novamente.
Eu, junto do tanque, de linha amarrada no incisivo de leite, sem coragem de puxar.
Véspera de Natal… Os chinelinhos atrás da porta…
E a manhã seguinte, na cama, deslumbrado com os brinquedinhos trazidos pela fada.
E a chácara da Gávea?
E a casa da Rua Don’Ana?
Boy, o primeiro cachorro.
Não haveria outro nome depois
(Em casa até as cadelas se chamavam Boy).
Medo de gatunos…
Para mim eram homens com cara de pau.
A volta a Pernambuco!
Descoberta dos casarões de telha-vã.
Meu avô materno — um santo…
Minha avó batalhadora.
A casa da Rua da União.
O pátio — núcleo de poesia.
O banheiro — núcleo de poesia.
O cambrone — núcleo de poesia (‘La fraicheur des latrines!’).
A alcova de musica — núcleo de mistério.
Tapetinhos de pele de animais.
Ninguém nunca ia lá… Silêncio… Obscuridade…
O piano de armário, teclas amarelecidas, cordas desafinadas.
Descoberta da rua!
Os vendedores a domicílio.
Ai mundo dos papagaios de papel, dos piões, da amarelinha!
Uma noite a menina me tirou da roda de coelho-sai, me levou, imperiosa e ofegante, para um desvão da casa de dona Aninha Viegas, levantou a sainha e disse mete.
Depois meu avô… Descoberta da morte!
Com dez anos vim para o Rio.
Conhecia a vida em suas verdades essenciais.
Estava maduro para o sofrimento
E para a poesia.