quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Fechou a Janela e Foi Corrigir Provas, Carmem Vieira


             Chegara tão silencioso que, quando Guardia abriu o quarto, já o viu de cuecas a colocar o pijama. Sobre a cômoda um pacote amarrado com uma fita azul, temia, falava por si, olhava para o chão. A matemática de Osvaldo sobre a cama, um maço de provas e um lápis vermelho preso por um elástico na maçaroca de papéis. Vestiu-se completamente. Acendeu o cigarro e caminhou em direção à mulher que estava à porta segurando um pedaço de linho, agulha e alguns desenhos.

Tudo branco. Um raminho de flores.

     - A janta está pronta?

     - Todos já estão na sala. Esperam-lhe.

     -Todos, Joaquim já chegou de escola? Escolástica?

     Descobrira Pessoa, Madame Bovary junto a uns figurinos debaixo da cama. Reclamara e veio a promessa de que toda leitura passaria primeiro por suas mãos. Nunca mais vira poesias  e romances dentro de casa. Vasculhara sempre. Passou a frequentar todas as missas, novenas, tornou-se Filha de Maria, passou a dar aulas de catecismo duas vezes Poe semana, cuidava do jardim. Prometera também não mais falar com o primo que trabalhava como equilibrista de circo.

     - A menina já está na igreja, foi se confessar.

     - Se confessar. Devasso, poeta, palhaço.

     - Os bordados estão prontos. Amanhã montarei a camisola. Já encomendei as cobertas. Ursulino chegará daqui a uns quinze dias. Os ais virão com ele, parece que também um irmão. Disseram-me que ele virá para negociar a compra da casa. Bem pertinho de nós. Os convites já estão prontos, as flores encomendadas, igreja com data.

     À mesa ele não dera uma palavra, além do agradecimento a Deus pela comida. Os meninos entreolhavam-se. Pensavam nos docinhos, na gasosa e no bolo da festa. Tentaram falar no assunto e o clima era gélido. Sem resposta.

     O rádio sem o noticiário das oito. Ouvia-se apenas o rangido da cadeira de balanço e o tictaquear do relógio. O cuco tocava nove horas.

     A menina não chegou, vou até a igreja. Terminou a novena.

     - Não adianta, Guardia, ela não voltará.

     Mal dera aulas, após ter recebido no balcão da escola uma série de cartas escritas à máquina, em que não havia  acento e faltavam algumas letras. Todas endereçadas ao primo. Algumas respostadas.

     - Bem que eu lhe disse que não era para deixar  ela estudar e muito menos aprender datilografia. Mulher sabida demais dá no que aconteceu.

     Fechou a janela, respirou o ar puro da noite e foi corrigir provas.



(A Rua Pela Vidraça, Carmem Vieira,Calibar Editora 2010)