segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Segunda-feira poética: Companheiros, Mia Couto



Quero
escrever-me de homens
quero
calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho
e quando ficar sem mim
não terei escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados
deixo
a paciência dos rios
a idade dos livros
mas não lego
mapa nem bússola
porque andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me
às vezes
viver
hei-de inventar
um verso que vos faça justiça
por ora
basta-me o arco-íris
em que vos sonho
basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço
companheiros

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Adeus, Mr. Chips

Despertadas pelo calor do fogo e pelo suave aroma do chá, vieram-lhe milhares de recordações emaranhadas dos velhos tempos. Primavera de 1896. Tinha Chips quarenta e oito anos, uma idade em que uma permanência de hábitos começa a se fazer predizível. Acabava de ser nomeado diretor do internato; com isso e com as aulas de clássicos ele tinha arranjado na vida um lugarzinho confortável e movimentado. Durante as férias de verão, subiu Chips ao Lake District com Rowden, um colega seu; caminharam e escalaram montanhas, uma semana inteira, até que Rowden teve de partir subitamente por causa de assuntos de família. Chips ficou sozinho em Wasdale Head, onde se hospedou em pequena granja. Um dia,  escalando o Great Gable, deu com uma rapariga que acenava excitadamente do alto dum recife de aspecto perigoso. Julgando-a em dificuldades, Chips precipitou-se na direção dela, mas ao fazer isso, escorregou e deslocou o tornozelo. Acontecia que a moça não se achava absolutamente em apuros, mas estava apenas a fazer sinais para uma amiga lé em baixo na encosta da montanha. Tratava-se duma alpinista experimentada, muito melhor que Chips, que já era bastante bom. Foi assim que ele se viu em posição de socorrido em vez de na de socorredor, e para nenhum desses dois papéis tinha Chips muito gosto.  Porque, como ele próprio dizia sempre,  não fazia caso das mulheres, nunca se sentia bem ou à vontade na companhia delas. E aquela criatura monstruosa a respeito de quem se começava a falar - a Mulher Nova do fim do século - enchia-o de horror. Era ele uma pessoa tranqüila  e convencional e o mundo, olhando do seu refúgio de Brookfield, parecia-lhe cheio de inovações intragáveis. Havia um sujeito chamado Bernard Shaw que tinha as opiniões mais estranhas e censuráveis; havia também um tal Ibsen, com suas peças perturbadoras; e ainda aquela mania  doida pela bicicleta que se estava apoderando tanto dos homens como das mulheres. Chips não concordava com todas essas novidades e liberdades modernas. Tinha a vaga noção, talvez jamais formulada, de que as mulheres deviam ser frágeis, tímidas e delicadas e que os homens deviam tratá-las com um cavalheirismo polido mas um pouco distante. Não esperava, portanto,  encontrar uma mulher no Great Gable; mas como se lhe  tivesse deparado uma que lhe pareceu necessitar de apoio masculino, o mais horrível ainda  foi que os papéis se invertessem  e viesse ela a socorrê-lo. Porque isso foi o que a moça fez. Ela e a amiga. Chips mal podia caminhar e difícil tarefa foi fazê-lo descer a íngreme trilha que levava a Wasdale. 
     Chamava-se Katherine Bridges; com os seus  25 anos, bem podia ser filha de Chips. Tinha olhos azuis e fulgurantes, faces pintalgadas de sardas e cabelos lisos cor de palha. Achava-se também hospedada  na granja, gozando férias em companhia da amiga. Como se considerasse responsável pelo acidente de Chips, costumava montar na sua bicicleta e, perlongando  a margem do lago, ir até a casa onde aquele tranquilo senhor de ar sério se encontrava em repouso. Foram estas as suas primeiras impressões dele. E Chips, porque a visse andar de bicicleta a visitar sozinha e sem medo um homem na sala duma casa-de-campo, ficou a fazer reflexões sobre os rumos que o mundo ia tomar. A luxação de Chips pô-lo à mercê da rapariga.  E em breve ele havia de ter a revelação do quanto podia precisar daquela mercê.  Miss Bridges era uma governanta em disponibilidade e senhora de pequenas economias; lia e admirava Ibsen; acreditava em que as mulheres deviam ser admitidas nas Universidades; achava mesmo que deviam ter o direito de voto.  Em política, era radical com inclinações pelas doutrinas de homens como Bernard Shaw e William Morris.  Durante aquelas tardes de verão em Wasdale Head, ela expôs livremente à Chips todas as suas ideias e opiniões. E ele, que não era palrador, a princípio achou que não valia a pena contradizê-la. A amiga de Kathrine Bridges foi embora, mas ela ficou.  Que é que a gente pode fazer com uma criatura assim? - pensou Chips. Apoiado em bastões, costumava sair a manquejar pela estrada de pedra junto da parede e era agradável ficar sentado ali, com o rosto voltado para a luz do sol e para a majestade pardo-esverdeada do Gable, a escutar a charla duma - certo, Chips tinha de reconhecer, duma linda moça.
     Nunca encontrara ninguém como ela. Sempre achava que o tipo moderno, aquela história de " mulher nova", havia de causar-lhe repulsa. E lá estava Miss Bridges a fazer que ele ficasse positivamente ansioso por avistar  a sua bicicleta baixa a correr pela estrada que beirava o lago. Ela por sua vez não conhecia ninguém como ele. Achara sempre que esses senhores de meia-idade, que lêem o Times e não aprovam as coisas modernas, são terríveis maçadores; no entanto lá estava Chips, a atrair-lhe a atenção e o interesse mais do que muitos moços da idade dela. Miss Bridges gostava de Mr. Chipping, inicialmente porque ele era tão difícil de se conquistar, porque tinha maneiras tranqüilas e delicadas, porque suas opiniões datavam daquela incribilíssima época da casa dos setenta e dos oitenta no século passado e mesmo de antes, mas opiniões, entretanto, que por tudo isso mesmo eram absolutamente honestas; e porque - porque seus olhos eram castanhos e ele ficava encantador quando sorria.
     - Está claro que eu vou te tratar por Chips também - declarou ela que era esse o seu apelido na escola.
     Dentro de uma semana estavam perdidamente enamorados um do outro; antes de Chips poder caminhar sem a ajuda de bengalas, eles se consideravam noivos. Casaram-se em Londres uma semana antes do princípio do trimestre de outono.

(Cap. IV, Adeus Mr. Chips, James Hilton. Ed Record 1962 - )

Mantida a grafia original

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Amigo Secreto de LivroErrante

                 Chegou um dos melhores momentos de meu querido grupinho de leitura: o amigo secreto. Os presentes?  Livros, claro. O que é que um bando de viciados-quase-traça ia pedir se não livros?   Bem organizado e com participantes interessados, alguns presentes já começaram a chegar

Qual desses livros eu vou ganhar?




Eu Sou Malala,  Malala Yousafzi e Christina lamb



 Quando o Talibã tomou controle do vale do Swat, uma menina levantou a voz. Malala Yousafzai recusou-se a permanecer em silêncio e lutou pelo seu direito à educação. Mas em 9 de outubro de 2012, uma terça-feira, ela quase pagou o preço com a vida. Malala foi atingida na cabeça por um tiro à queima-roupa dentro do ônibus no qual voltava da escola... (Saraiva)




        Memórias De Uma Beatnik, Diane Di Prima

Um clássico da literatura erótica. Memórias de uma Beatnik retrata a boemia da Nova York dos anos 1950 e 1960, com seus cafés, clubes de jazz, poetas, drogas e sexo. Uma fascinante narrativa sobre a coragem de uma mulher que fez da sua rebeldia uma arte.(Saraiva)




O Cérebro Nosso de Cada Dia, Suzana Herculano Houzel 

Nos 47 ensaios deste livro, Suzana Herculano-Houzel apresenta descobertas da pesquisa sobre o cérebro relacionadas ao cotidiano. 'O cérebro nosso de cada dia' espera despertar no leitor a curiosidade e a vontade de entender como o cérebro faz do ser humano o que ele é e o que faz em seu dia a dia.(Cultura)




O Professor, Cristóvão Tezza

O professor Heliseu será homenageado por uma carreira exemplar na universidade à qual dedicou a maior parte de sua vida. Enquanto prepara o discurso de agradecimento — justo ele, tão acostumado a transformar assuntos espinhosos em grandes aulas — é tomado por uma sucessão incontrolável de memórias e revisita momentos nem sempre felizes de sua vida: a convivência com o pai rígido; a morte da mãe, o tempo no seminário; o casamento com Mônica... ( Saraiva)




Por Um Sentido Na Vida, Amy Purdy


Em "Por Um Sentido na Vida", Amy divide com fãs e leitores de todo o mundo sua jornada, uma prova da força de vontade que reside dentro de cada um de nós e do poder que todos temos de sonhar mais alto, quebrar paradigmas e reescrever nossas histórias. Com a certeza de que o mundo espiritual lhe deu uma segunda ...(Saraiva)






































































































































































































































































































terça-feira, 24 de novembro de 2015

Melhor livro do ano:Hibisco Roxo, Chimamanda Ngozi Adichie



 Kamili é o nome de uma adolescente nigeriana filha de  pai praticante de um cristianismo absurdo, que se resume em culpa e pecado. Nessas condições que somadas à exacerbada vaidade do pai, rico industrial nigeriano, que precisa em tudo e sempre se apresentar  como melhor e perfeito, vivem Kamili e sua pequena família. 
O livro é narrado por Kamili. 

A adolescente conta a vida de sua família que não tem preocupações financeiras e que vive  unicamente de seguir regras pré- estabelecidas  para estudar, ler, ouvir música frequentar a igreja.  

 A jovem, pelo fato de não ter um mínimo de liberdade e convívio com outras pessoas fora da família ou colégio (religioso)  vê seu cotidiano com inocência e resignação.  Não tem noção real do que se passa com sua mãe quando esta aparece com olho marcado, por exemplo.
  Chimamanda, de forma brilhante vai levando o leitor a  ver os atos agressivos do pai de Kamili nos pequenos detalhes desde o início da narrativa.  O livro escancara  a vida insegura e a corrupção na Nigéria. Em alguns detalhes nós brasileiros podemos ver semelhança entre os dois países. 
  
Eugene, o pai de Kamili, é dono do jornal mais crítico do país e é também um benfeitor.  No entanto, é uma pessoa que rejeita o pai por não ser cristão e a irmã por não ter a mesma linha religiosa dele e espanca a filha porque esta dormiu na mesma casa em que um pagão (o próprio pai) dormiu. 
Para mim foi uma leitura impactante.  Me levou  a pensar nas mulheres,e são tantas, que ainda estão presas a regras religiosas,  submetidas a maridos (ou líderes) opressores, dependência econômica, violência de toda e qualquer espécie.  
A autora, Chimamanda Ngozi Adichie,  me surpreendeu maravilhosamente.  Escreve simples e claramente.  Vai dando as informações sutilmente nos detalhes  e  o leitor vai acumulando os fatos de forma que chega ao final como a mãe de Kamili, carregada de motivos.
O livro Hibisco Roxo, prende o leitor rapidamente.
Chimamanda Adichie
Costumo ler um livro imediatamente após outro,  porém estou sem ler nada há uma semana tal foi o impacto que  Chimamanda me causou.
Hibisco Roxo foi o melhor livro que li em 2015.  Recomendo a todos.



Obras da autora:

Meio sol amarelo (Cia da letras,2008 )
Americanah (Cia das letras,2014)
Sejamos todos feministas (Cia das letras,2015)

Meio sol amarelo adaptação para o cinema, numa produção da Nigéria e Reino Unido vai ser lançado em breve.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Eu e o Estante Virtual.

                       Comecei a gostar de sebos a partir do site Estante Virtual.  Já conhecia os sebos do Recife e não tinha boas experiências com eles. Foi quando conheci um site que reunia vários sebos do país inteiro e a gente ainda poderia vender através dele. Gostei da ideia e arrisquei. Minha primeira compra (2006) foi um livro formidável de Érico Veríssimo: Incidente em Antares.
O exemplar era bem velhinho, comprei tão barato! 

Aprovei o serviço e recorro ao site até hoje. 

Verifiquei que nesses meus 9 anos, já fiz 69 compras. 



 Minhas duas últimas aquisições foram: 


 O livro mais recente de José Eduardo Agualusa  A Vida no Céu

                                                                                                                    Arquitetura do Silêncio, um livro de Manoel de Barros e Adriana Lafer.  

Recomendo  os três livros. 


O site Estante virtual comemora 10 anos e eu estou há 9 anos com ele. 

                 Eu adoro comprar em sebos. Não só pelo fato de encontrar melhores preços e ou livros que já não existem mais em livraria, mas também pelo fato de que livro usado, quase sempre vem com uma anotação, um detalhe.... algum vestígio de que alguém passou por suas páginas.   
                 Aliás, falei e mostrei uns desses vestígios numa postagem que fiz em 2013.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Quarta-feira é dia de: O Homem da Cabeça de Papelão, João do Rio




                                      No País que chamavam de Sol, apesar de chover, às vezes, semanas inteiras, vivia um homem de nome Antenor. Não era príncipe. Nem deputado. Nem rico. Nem jornalista. Absolutamente sem importância social.
      O País do Sol, como em geral todos os países lendários, era o mais comum, o menos surpreendente em idéias e práticas. Os habitantes afluíam todos para a capital, composta de praças, ruas, jardins e avenidas, e tomavam todos os lugares e todas as possibilidades da vida dos que, por desventura, eram da capital. De modo que estes eram mendigos e parasitas, únicos meios de vida sem concorrência, isso mesmo com muitas restrições quanto ao parasitismo. Os prédios da capital, no centro elevavam aos ares alguns andares e a fortuna dos proprietários, nos subúrbios não passavam de um andar sem que por isso não enriquecessem os proprietários também. Havia milhares de automóveis à disparada pelas artérias matando gente para matar o tempo, cabarets fatigados, jornais, tramways, partidos nacionalistas, ausência de conservadores, a Bolsa, o Governo, a Moda, e um aborrecimento integral. Enfim tudo quanto a cidade de fantasia pode almejar para ser igual a uma grande cidade com pretensões da América. E o povo que a habitava julgava-se, além de inteligente, possuidor de imenso bom senso. Bom senso! Se não fosse a capital do País do Sol, a cidade seria a capital do Bom Senso!
      Precisamente por isso, Antenor, apesar de não ter importância alguma, era exceção mal vista. Esse rapaz, filho de boa família (tão boa que até tinha sentimentos), agira sempre em desacordo com a norma dos seus concidadãos.
      Desde menino, a sua respeitável progenitora descobriu-lhe um defeito horrível: Antenor só dizia a verdade. Não a sua verdade, a verdade útil, mas a verdade verdadeira. Alarmada, a digna senhora pensou em tomar providências. Foi-lhe impossível. Antenor era diverso no modo de comer, na maneira de vestir, no jeito de andar, na expressão com que se dirigia aos outros. Enquanto usara calções, os amigos da família consideravam-no um enfant terrible, porque no País do Sol todos falavam francês com convicção, mesmo falando mal. Rapaz, entretanto, Antenor tornou-se alarmante. Entre outras coisas, Antenor pensava livremente por conta própria. Assim, a família via chegar Antenor como a própria revolução; os mestres indignavam-se porque ele aprendia ao contrario do que ensinavam; os amigos odiavam-no; os transeuntes, vendo-o passar, sorriam.
      Uma só coisa descobriu a mãe de Antenor para não ser forçada a mandá-lo embora: Antenor nada do que fazia, fazia por mal. Ao contrário. Era escandalosamente, incompreensivelmente bom. Aliás, só para ela, para os olhos maternos. Porque quando Antenor resolveu arranjar trabalho para os mendigos e corria a bengala os parasitas na rua, ficou provado que Antenor era apenas doido furioso. Não só para as vítimas da sua bondade como para a esclarecida inteligência dos delegados de polícia a quem teve de explicar a sua caridade.
      Com o fim de convencer Antenor de que devia seguir os tramitas legais de um jovem solar, isto é: ser bacharel e depois empregado público nacionalista, deixando à atividade da canalha estrangeira o resto, os interesses congregados da família em nome dos princípios organizaram vários meetings como aqueles que se fazem na inexistente democracia americana para provar que a chave abre portas e a faca serve para cortar o que é nosso para nós e o que é dos outros também para nós. Antenor, diante da evidência, negou-se.
      — Ouça! bradava o tio. Bacharel é o princípio de tudo. Não estude. Pouco importa! Mas seja bacharel! Bacharel você tem tudo nas mãos. Ao lado de um político-chefe, sabendo lisonjear, é a ascensão: deputado, ministro.
     — Mas não quero ser nada disso.
     — Então quer ser vagabundo?
     — Quero trabalhar.
    — Vem dar na mesma coisa. Vagabundo é um sujeito a quem faltam três coisas: dinheiro, prestígio e posição. Desde que você não as tem, mesmo trabalhando — é vagabundo.
     — Eu não acho.
     — É pior. É um tipo sem bom senso. É bolchevique. Depois, trabalhar para os outros é uma ilusão. Você está inteiramente doido.
      Antenor foi trabalhar, entretanto. E teve uma grande dificuldade para trabalhar. Pode-se dizer que a originalidade da sua vida era trabalhar para trabalhar. Acedendo ao pedido da respeitável senhora que era mãe de Antenor, Antenor passeou a sua má cabeça por várias casas de comércio, várias empresas industriais. Ao cabo de um ano, dois meses, estava na rua. Por que mandavam embora Antenor? Ele não tinha exigências, era honesto como a água, trabalhador, sincero, verdadeiro, cheio de idéias. Até alegre — qualidade raríssima no país onde o sol, a cerveja e a inveja faziam batalhões de biliosos tristes. Mas companheiros e patrões prevenidos, se a princípio declinavam hostilidades, dentro em pouco não o aturavam. Quando um companheiro não atura o outro, intriga-o. Quando um patrão não atura o empregado, despede-o. É a norma do País do Sol. Com Antenor depois de despedido, companheiros e patrões ainda por cima tomavam-lhe birra. Por que? É tão difícil saber a verdadeira razão por que um homem não suporta outro homem!
 Um dos seus ex-companheiros explicou certa vez:
      — É doido. Tem a mania de fazer mais que os outros. Estraga a norma do serviço e acaba não sendo tolerado. Mau companheiro. E depois com ares...
      O patrão do último estabelecimento de que saíra o rapaz respondeu à mãe de Antenor:
        — A perigosa mania de seu filho é por em prática idéias que julga próprias.
        — Prejudicou-lhe, Sr. Praxedes?
        Não. Mas podia prejudicar. Sempre altera o bom senso. Depois, mesmo que seu filho fosse águia, quem manda na minha casa sou eu.
      No País do Sol o comércio ë uma maçonaria. Antenor, com fama de perigoso, insuportável, desobediente, não pôde em breve obter emprego algum. Os patrões que mais tinham lucrado com as suas idéias eram os que mais falavam. Os companheiros que mais o haviam aproveitado tinham-lhe raiva. E se Antenor sentia a triste experiência do erro econômico no trabalho sem a norma, a praxe, no convívio social compreendia o desastre da verdade. Não o toleravam. Era-lhe impossível ter amigos, por muito tempo, porque esses só o eram enquanto. não o tinham explorado.
      Antenor ria. Antenor tinha saúde. Todas aquelas desditas eram para ele brincadeira. Estava convencido de estar com a razão, de vencer. Mas, a razão sua, sem interesse chocava-se à razão dos outros ou com interesses ou presa à sugestão dos alheios. Ele via os erros, as hipocrisias, as vaidades, e dizia o que via. Ele ia fazer o bem, mas mostrava o que ia fazer. Como tolerar tal miserável? Antenor tentou tudo, juvenilmente, na cidade. A digníssima sua progenitora desculpava-o ainda.
       — É doido, mas bom.
      Os parentes, porém, não o cumprimentavam mais. Antenor exercera o comércio, a indústria, o professorado, o proletariado. Ensinara geografia num colégio, de onde foi expulso pelo diretor; estivera numa fábrica de tecidos, forçado a retirar-se pelos operários e pelos patrões; oscilara entre revisor de jornal e condutor de bonde. Em todas as profissões vira os círculos estreitos das classes, a defesa hostil dos outros homens, o ódio com que o repeliam, porque ele pensava, sentia, dizia outra coisa diversa.
      — Mas, Deus, eu sou honesto, bom, inteligente, incapaz de fazer mal...
      — É da tua má cabeça, meu filho.
      — Qual?
      — A tua cabeça não regula.
      — Quem sabe?
      Antenor começava a pensar na sua má cabeça, quando o seu coração apaixonou-se. Era uma rapariga chamada Maria Antônia, filha da nova lavadeira de sua mãe. Antenor achava perfeitamente justo casar com a Maria Antônia. Todos viram nisso mais uma prova do desarranjo cerebral de Antenor. Apenas, com pasmo geral, a resposta de Maria Antônia foi condicional.
      — Só caso se o senhor tomar juízo.
      — Mas que chama você juízo?
      — Ser como os mais.
      — Então você gosta de mim?
      — E por isso é que só caso depois.
      Como tomar juízo? Como regular a cabeça? O amor leva aos maiores desatinos. Antenor pensava em arranjar a má cabeça, estava convencido.
      Nessas disposições, Antenor caminhava por uma rua no centro da cidade, quando os seus olhos descobriram a tabuleta de uma "relojoaria e outros maquinismos delicados de precisão". Achou graça e entrou. Um cavalheiro grave veio servi-lo.
        — Traz algum relógio?
        — Trago a minha cabeça.
        — Ah! Desarranjada?
        — Dizem-no, pelo menos.
        — Em todo o caso, há tempo?
        — Desde que nasci.
     — Talvez imprevisão na montagem das peças. Não lhe posso dizer nada sem observação de trinta dias e a desmontagem geral. As cabeças como os relógios para regular bem...
       Antenor atalhou:
       — E o senhor fica com a minha cabeça?
       — Se a deixar.
       — Pois aqui a tem. Conserte-a. O diabo é que eu não posso andar sem cabeça...
       —Claro. Mas, enquanto a arranjo, empresto-lhe uma de papelão.
       — Regula?
      — É de papelão! explicou o honesto negociante. Antenor recebeu o número de sua cabeça, enfiou a de papelão, e saiu para a rua.
      Dois meses depois, Antenor tinha uma porção de amigos, jogava o pôquer com o Ministro da Agricultura, ganhava uma pequena fortuna vendendo feijão bichado para os exércitos aliados. A respeitável mãe de Antenor via-o mentir, fazer mal, trapacear e ostentar tudo o que não era. Os parentes, porem, estimavam-no, e os companheiros tinham garbo em recordar o tempo em que Antenor era maluco.
       Antenor não pensava. Antenor agia como os outros. Queria ganhar. Explorava, adulava, falsificava. Maria Antônia tremia de contentamento vendo Antenor com juízo. Mas Antenor, logicamente, desprezou-a propondo um concubinato que o não desmoralizasse a ele. Outras Marias ricas, de posição, eram de opinião da primeira Maria. Ele só tinha de escolher. No centro operário, a sua fama crescia, querido dos patrões burgueses e dos operários irmãos dos spartakistas da Alemanha. Foi eleito deputado por todos, e, especialmente, pelo presidente da República — a quem atacou logo, pois para a futura eleição o presidente seria outro. A sua ascensão só podia ser comparada à dos balões. Antenor esquecia o passado, amava a sua terra. Era o modelo da felicidade. Regulava admiravelmente.
      Passaram-se assim anos. Todos os chefes políticos do País do Sol estavam na dificuldade de concordar no nome do novo senador, que fosse o expoente da norma, do bom senso. O nome de Antenor era cotado. Então Antenor passeava de automóvel pelas ruas centrais, para tomar pulso à opinião, quando os seus olhos deram na tabuleta do relojoeiro e lhe veio a memória.
      — Bolas! E eu que esqueci! A minha cabeça está ali há tempo... Que acharia o relojoeiro? É capaz de tê-la vendido para o interior. Não posso ficar toda vida com uma cabeça de papelão!
       Saltou. Entrou na casa do negociante. Era o mesmo que o servira.
      — Há tempos deixei aqui uma cabeça.
      — Não precisa dizer mais. Espero-o ansioso e admirado da sua ausência, desde que ia desmontar a sua cabeça.
      — Ah! fez Antenor.
      — Tem-se dado bem com a de papelão? — Assim...
     — As cabeças de papelão não são más de todo. Fabricações por séries. Vendem-se muito.
      — Mas a minha cabeça?
      — Vou buscá-la.
      Foi ao interior e trouxe um embrulho com respeitoso cuidado.
      — Consertou-a?
      — Não.
      — Então, desarranjo grande?
      O homem recuou.
      — Senhor, na minha longa vida profissional jamais encontrei um aparelho igual, como perfeição, como acabamento, como precisão. Nenhuma cabeça regulará no mundo melhor do que a sua. É a placa sensível do tempo, das idéias, é o equilíbrio de todas as vibrações. O senhor não tem uma cabeça qualquer. Tem uma cabeça de exposição, uma cabeça de gênio, hors-concours.
      Antenor ia entregar a cabeça de papelão. Mas conteve-se.
      — Faça o obséquio de embrulhá-la.
      — Não a coloca?
      — Não.
      — V.EX. faz bem. Quem possui uma cabeça assim não a usa todos os dias. Fatalmente dá na vista.
      Mas Antenor era prudente, respeitador da harmonia social.
      — Diga-me cá. Mesmo parada em casa, sem corda, numa redoma, talvez prejudique.
      — Qual! V.EX. terá a primeira cabeça.
      Antenor ficou seco.
      — Pode ser que V., profissionalmente, tenha razão. Mas, para mim, a verdade é a dos outros, que sempre a julgaram desarranjada e não regulando bem. Cabeças e relógios querem-se conforme o clima e a moral de cada terra. Fique V. com ela. Eu continuo com a de papelão.

     E, em vez de viver no País do Sol um rapaz chamado Antenor, que não conseguia ser nada tendo a cabeça mais admirável — um dos elementos mais ilustres do País do Sol foi Antenor, que conseguiu tudo com uma cabeça de papelão.

(Mantida a ortografia original)