sexta-feira, 30 de outubro de 2015

sábado, 24 de outubro de 2015

Sobrinha de Fernando Pessoa abre a Fliporto 2015

Acabei de conhecer o nome de uma escritora portuguesa: Manuela Nogueira. Ela tem quase 90 anos e é sobrinha de Fernando Pessoa.  Em entrevista concedida ao site da Feira Literária, Manuela Nogueira narra, com aquele jeito bem lusitano de falar,como soube da morte do tio predileto:

Fliporto:Quando morreu o seu tio, o grande poeta Fernando Pessoa, a Sra. tinha apenas dez anos de idade. Lembra-se da notícia dessa morte e qual o impacto causou em si?
 
Resposta: Meu tio Fernando morreu quando eu tinha dez anos. Nesse inverno, anormalmente, ficámos na casa do Estoril porque a casa era nova. Minha mãe (irmã de Fernando Pessoa) fazia anos a 27 de Novembro, e ele sempre vinha aos nossos aniversários e não apareceu e mandou um telegrama de parabéns. Tinha havido um ciclone e estávamos sem telefone. Minha mãe que estava imobilizada com uma perna partida ficou muito preocupada. Meu pai foi de comboio a Lisboa e ninguém atendeu quando tocou à porta. Então meu pai soube pelas vizinhas do lado (Tias de Jorge de Sena) que ele não estivera bem e tinha ido para o Hospital de S. Luís acompanhado por um amigo e um primo. Meu pai visitou-o no hospital e não parecia muito grave (não havia meios de diagnóstico). Meu pai tornou ao hospital no dia seguinte e o estado era estacionário. Dia 30 minha mãe recebeu a notícia fatal e deixou-se estar deitada. Ela sempre fora, apesar de mais nova, uma irmã protetora. Eu, pela empregada, soube da triste notícia. Fiquei como paralisada e sem coragem para ir ter com a minha mãe. No quintal, frente à casa, continuei a jogar “à macaca” sem parar porque nem sabia como enfrentar outras pessoas, especialmente a minha mãe.  Era um tio que amava muito e que sempre me divertira com as suas brincadeiras “de faz de conta”. Como encarar os meus pais?! Tinha dois tios da parte de minha mãe que raro via porque viviam em Inglaterra e um tio da parte paterna que era oficial de marinha e estava sempre em viagem. Tias não tinha. Assim o Tio Fernando morria e era uma notícia terrível. A primeira morte na minha da minha curta vida. Uma morte inesperada.

Veja aqui a entrevista completa.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Livro Encalhado Nunca Mais.



          Quando meus filhos ainda eram crianças, comprei uma pequena estante de livros. Era uma promoção de uma editora renomada. A pequena estante, em madeira, de aproximadamente 55cm vinha com alguns livros. Sim!  Era estante COM livros. Infantil e adulto. 
      Lembro que todos foram lidos por eles, sendo que os exemplares do Manual do Escoteiro Mirim fizeram mais sucesso. 
     De minha parte ficou um, Babbit de Sinclair Lewis, que jamais consegui chegar à metade.     Com o passar dos anos todos foram doados. 
       Segundo Austin Kleon, um dos segredos para ler muitos livros é não insistir em um que não esteja agradando. Na matéria que li aqui,  ele até sugere jogar  o livro na parede. 
       Não cheguei a tanto com Babbit. Deixei o exemplar  num banco de  praça no bairro da Torre. Há muito tempo adotei o hábito de deixar livro lido em lugares públicos para que alguém leve e leia também.   Afinal, por que guardar livro lido?        
       Por que mesmo a gente compra e não lê, mas guarda?  Sobre isso, o jornal El País trouxe matéria mostrando inclusive alguns livros encalhados em estantes.   Também a esse respeito o LivroErrante, mostrou o resultado de um estudo divulgado pela BBC, com os livros mais vendidos, porém menos lidos.  São os mais menos.
Agora, dá licença que vou deixar em lugar público um livro que eu li....


Os Componentes da Banda, Adélia Prado  acaba
de ser deixado numa mesa do quiosque La Vita è Bella no supermercado Bompreço da Benfica - Recife.


Gostaria de, um dia, saber que alguém leu e passou adiante.


terça-feira, 20 de outubro de 2015

Vamos votar?


                                                          Amigos,  o blog LivroErrante está aqui há 8 anos.  Durante todo esse tempo, tentei trazer coisas interessantes e de forma correta.  Frequentemente recebo mensagens de apoio ou de internautas dando sugestões ou pedindo alguma informação. Essa é a melhor parte. O contato com o internauta é o que mais me deixa feliz. 

Bem, mas vamos ao ponto. 

 
Estou novamente participando do TopBlog e gostaria de contar com sua colaboração. Que tal votar no LivroErrante?

É rapidinho. Basta clicar no selo azul ali do lado direito da tela.   

Pronto.  Muito obrigada.





segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Segunda-feira poética: Trova do Vento Que Passa



Trova do Vento Que Passa

Manuel Alegre


Pergunto ao vento que passa

notícias do meu país

e o vento cala a desgraça

o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam

tanto sonho à flor das águas

e os rios não me sossegam

levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas

ai rios do meu país

minha pátria à flor das águas

para onde vais? Ninguém me diz.

Se o verde trevo desfolhas

pede notícias e diz

ao trevo de quatro folhas

que eu morro por meu país.

Pergunto à gente que passa

por que vai de olhos no chão.

Silêncio - é tudo o que tem

quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos

direitos e ao céu voltados.

E a quem gosta de ter amos

vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada

ninguém diz nada de novo.

Vi minha pátria pregada

nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem

dos rios que vão pró mar

como quem ama a viagem

mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir

(minha pátria à flor das águas)

vi minha pátria florir

(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada

e fale pátria em teu nome.

Eu vi-te crucificada

nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada

só o silêncio persiste.

Vi minha pátria parada

à beira dum rio triste.

Ninguém diz nada de novo

se notícias vou pedindo

nas mãos vazias do povo

vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro

dos homens do meu país.

Peço notícias ao vento

e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo

liberdade quatro sílabas.

Não sabem ler é verdade

aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia

dentro da própria desgraça

há sempre alguém que semeia

canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste

em tempo de servidão

há sempre alguém que resiste

há sempre alguém que diz não.
Ivanildo Sampaio citou no Jornal do Commércio e eu procurei conhecer um pouco desse escritor português.  Ele tem um bela história e vasta obra.  Sugiro que conheçam mais de Manuel Alegre de Melo Duarte. Quem quiser me emprestar algum livro dele, faça contato. Prometo devolução rápida.Obrigada.

sábado, 17 de outubro de 2015

Javier Cercas vem para a Fliporto 2015

                                           Estou acabando de ler Soldados de Salamina, meu primeiro livro de Javier Cercas. Um fato real, a guerra civil da Espanha é o cenário da história de Sánchez Mazas, que realmente existiu. É sobre ele que um jornalista escreve. Quando, por fim, termina o livro, acha que ele não ficou bom e volta a seu trabalho num jornal. Nessa ocasião, conhece o escritor Roberto Bolaños que diz ter lido dois livros seus. O jornalista é o próprio Javier e os livros lidos por Bolaños existem realmente... Não vou falar mais. Recomendo a leitura de Soldados de Salamina       

Javier Cercas vem para Olinda em novembro. O escritor, deu essa pequena entrevista para o site da Fliporto.

Ah, não conheço os autores brasileiros que ele citou.


                                                                                                        

  Quem conta melhor uma mentira: um político ou um escritor? 

Se o escritor é um escritor de ficção e bom, o escritor de ficção. Cabe acrescentar que o escritor de ficção não só está autorizado, está obrigado a fazê-lo. 

Os irmãos Goncourt falaram da História como um romance verdadeiro. A história é uma ficção baseada na realidade? 

Não: se acaso a história é uma realidade baseada na ficção; mas não é uma ficção. Pode ser literatura, e da boa, mas não – repito – uma ficção. E quem diz que o é não sabe o que é uma ficção. Nem o que é a história. 

Quais são os autores brasileiros que Javier Cercas mais gosta de ler? 

Conheço mal a literatura brasileira, mas gosto de Machado de Assis e Guimarães Rosa. Entre os mais jovens, li Michel Laub e Daniel Galera; ambos me parecem muito bons.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Enquanto a Fliporto não começa.

Rápida entrevista com Miguel Souza Tavares, escritor português que estará na Fliporto deste ano, aqui em Olinda.


Pergunta: Equador é seu melhor livro ou vale aquela ideia de que o melhor livro de um autor ele ainda está a escrever ou vai fazê-lo?

Resposta: Percebo que digam que Equador é o meu melhor livro, pois a trama e a
narrativa são de fácil adesão: é que se costuma chamar um “pageturner”, mas, sendo o meu primeiro romance, seria difícil que eu próprio o considerasse o melhor, visto que, obviamente, fui melhorando a escrita com os livros seguintes – ou, pelo menos, é o que eu penso. Costumo dizer que o meu melhor livro é um livro infantil chamado Ismael e Chopin, que é um grande esforço de uma narrativa capaz de atrais crianças e contar-lhes uma história que dê que pensar. Mas, não sendo um romance, nunca é chamado à comparação – assim como um livro a que chamei “um quase romance”, de 90 páginas, com o título No teu deserto (ambos editados no Brasil). Esse é, seguramente, o mais poético. Mas também devo dizer que, 12 anos depois, olhando para o Equador não o acho um livro envelhecido e que eu não escreveria hoje. O meu próximo livro, em cuja escrita me arrasto penosamente, há-de ser, espero, o melhor de todos.


Pergunta: Existe ainda preconceito em Portugal, como em outros países, quanto a jornalistas que também são romancistas?

Reposta: Sim, esse preconceito existia muito, e com alguma razão, na época em que eu publiquei o Equador. Hoje em dia, talvez menos, porque, de fato, as duas atividades têm cada vez mais zonas de sobreposição: há reportagens, por exemplo, que têm muito de escrita literária e há romances que seguem uma estrutura narrativa típica do jornalismo.


Pergunta: O que mais lhe dá gosto no Brasil, e o que mais desgosta?

Resposta: O que eu mais gosto no Brasil é da alegria. Uma alegria contagiante e presente em tudo: na língua, na paisagem, nas conversas, nas praias, na música, na arquitetura, na literatura.
Decerto que os brasileiros, como todos os outros povos, também sofrem, mas não é um sofrimento como o nosso, por exemplo, que é feito de fado, saudade e choradinho. O que eu menos gosto no Brasil é do desgoverno, da desorganização, das facilidades que se prometem e que nunca são cumpridas. Da sensação de que o Brasil é um país eternamente adiado, onde se espera o milagre de ver tudo resolvido de uma vez, em lugar de pôr mãos à obra no trabalho de sapa de ir resolvendo os problemas, um a um.

(Fonte: www.fliporto.net)

 

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Quarta-feira é dia de crônica.

                                                                                                      Menino

                                               Fernando Sabino

                                        Menino, venha pra dentro, olhe  o sereno! Vá lavar essa mão. Já escovou os dentes? Tome a bênção a seu pai. Já pra cama!
     Onde é que aprendeu isso, menino? coisa mais feia. Tome modos. Hoje você fica sem sobremesa. Onde é que você estava? Agora chega, menino, tenha santa paciência.
     De quem você gosta mais, do papai ou da mamãe? Isso, assim que eu gosto: menino educado, obediente. Está vendo? É só a gente falar. Desça daí, menino! Me prega cada susto... Pare com isso! Jogue isso fora. Uma boa surra dava jeito nisso. Que é que você andou arranjando? Quem lhe ensinou esses modo? Passe pra dentro. Isso não e gente para ficar andando com você.
     Avise a seu pai que o jantar está na mesa. Você prometeu, tem de cumprir. Que é que você vai ser quando crescer? Não, chega: você já repetiu duas vezes. Por que você está quieto aí? Alguma você está está tramando... Não ande descalço, já disse! Vá calçar o sapato. Já tomou o remédio? Tem de comer tudo: você acaba virando um palito. Quantas vezes já lhe disse para não mexer aqui? Esse  barulho, menino! seu pai está dormindo. Pare com essa correria dentro de casa, vá brincar lá for. Você vai acabar caindo daí. Peça licença a seu pai primeiro. Isso é maneira de responder a sua irmã? Se não fizer, fica de castigo. Segure o garfo direito. Ponha a camisa para dentro da calça. Fica perguntando, tudo você quer saber! Isso é conversa de gente grande. Depois eu dou.Depois eu deixo. Depois eu levo. Depois eu conto. Depois.
     Agora deixa seu pai descansar - ele está cansado, trabalhou o dia todo. Você precisa ser muito bonzinho com ele meu filho. Ele gosta tanto de você. Tudo que ele faz é pra seu bem. Olhe aí, vestiu essa roupa agorinha mesmo, já está toda suja. Fez seus deveres? Você vai chegar atrasado. Chora não, filhinho mamãe está aqui com você. Nosso senhor não vai deixar doer mais.
     Quando você for grande, você também vai poder. Já disse que não, e não, e não. Ah, é assim? pois você vai ver só quando seu pai chegar. Não fale de boca cheia. Junte a comida no meio do prato. Por causa disso é preciso gritar? Seja homem. Você ainda é muito pequeno para saber essas coisas. Mamãe tem muito orgulho de você. Cale essa boca! Você precisa cortar esse cabelo.
     Sorvete não pode, você está resfriado. Não sei como você tem coragem de fazer assim com sua mãe. Se você comer agora, depois não janta. Assim você se machuca. Deixa de fita. Um menino desse tamanho, que é que os outros hão  de dizer? Você queria que fizessem o mesmo com você? Continua assim que eu lhe dou umas palmadas. Pensa que a gente tem dinheiro para jogar fora? Tome juízo, menino.
     Ganhou agora mesmo e já acabou de quebrar. Que é que você vai querer no dia de seus anos? Agora não, que eu tenho o que fazer. Não fique triste não, depois mamãe dá outro. você teve saudades de min? 
      Vou contar só mais uma, que está na hora de dormir. Agora dorme, filhinho. Dê um beijo aqui - Papai do Céu lhe abençoe. Este menino, meu Deus.  

(A Mulher do Vizinho)

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Segunda-feira poética - dia das crianças

 Dedico a Theo a simplicidade e singeleza desse poema.








O cavalinho branco
Cecília Meireles

À tarde, o cavalinho branco
está muito cansado:
mas há um pedacinho do campo
onde é sempre feriado.
O cavalo sacode a crina
loura e comprida
e nas verdes ervas atira
sua branca vida.
Seu relincho estremece as raízes
e ele ensina aos ventos
a alegria de sentir livres
seus movimentos.
Trabalhou todo o dia, tanto!
desde a madrugada!
Descansa entre as flores, cavalinho branco,
de crina dourada!

Escrito por Cecília Meireles com 9 anos de idade

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Nobel 2015 vem da Bielorússia.



Chama- se Svetlana Alexievich  a ganhadora do Nobel de literatura de 2015.  Sobre a escritora, a imprensa informa que não existe edição brasileira nem mesmo de seu livro mais famoso "Vozes de Chernobil".



Sobre o livro e a autora,  um dos jurados do Prêmio Nobel, explica:


"Não é só uma história dos eventos, mas das emoções. É um mundo emocional. Os fatos históricos em seus livros, como o desastre de Chernobil ou a guerra soviética no Afeganistão, são apenas pretextos para explorar os indivíduos", afirmou. "Desse modo, ela oferece uma história do ser humano e, ao mesmo tempo, uma história das emoções, uma história da alma."
Para escrever seu livro mais famoso, "Vozes de Chernobil", Alexievich entrevistou mais de 500 testemunhas da maior catástrofe nuclear da história.



 O Fim do Homem Soviético é o único livro de 
Svetlana Alexsievich em português.  Mas temos de comprá-lo em Portugal.

Vamos aguardar. Provavelmente com a premiação 
alguma editora brasileira.

O Prêmio Nobel tem, contando com Svetlana, 14
mulheres agraciadas.

Veja aqui quem são elas.

Minhas Últimas Leituras e Compras


Acabei de ler meu terceiro Federico Andahazi, um escritor que eu gostaria de conhecer.Dos autores latinos, no momento, é que acho mais interessante. Os outros livros dele que li anteriormente foram: A Cidade dos Hereges e  O Anatomista. Recomendo os três. São livro fortes, prendem o leitor logo nas primeiras páginas.

O Livro dos Prazeres Proibidos é um romance intenso ambientado na era medieval e tem como protagonista, Gutenberg. Sim, o inventor da imprensa que aprendemos nas aulas de história. É um excelente retrato da sociedade e cidades europeias daquela época.  Sexo, religião, morte, roubo... brilhantemente colocados num romance imperdível. 




Comprei num sebo - adoro sebos - 4 livros fininhos porque há tempos não lia nada com menos de 200 páginas.  As Avós, foi indicação de Ladyce do blog Peregrina Cultural. Vargas Llosa eu escolhi porque fazia tempo não lia nada dele.  Braz Bexiga e Barra funda, eu comprei pra conhecer o livro mais falado de Alcântara Machado.  Sabia que se tratava de crônicas de uma época e lugar específicos. Detestei, nem cheguei à metade. 





                                 Meu primeiro Doris Lessin foi esse aí: As Avós.  Estou quase no fim. Na verdade, termino daqui há pouco. É a história de duas avós que não estão tricotando, ajudando a trocar fraldas... nada disso.  São vovós que estão vivendo seus amores pouco convencionais. Uma história narrada de forma simples e instigante.  Recomendo.


                      O Gato E O Escuro é um livro infantil de Mia Couto.
Só conhecia o autor em literatura para adultos e comprei esse livro pra Theo, meu netinho fofo. 
Com belas ilustrações o livro fala, poeticamente, como é da verve de Mia, sobre o medo do escuro.  Recomendo para adultos e crianças a partir de 5 anos.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Quarta-feita é dia de crônica

Gasolina

Valter Hugo Mãe


                 Há uns anos, quando abastecíamos o carro de gasolina no posto da Auto Bemguiados, havia um rapaz que nos dava beijinhos no pescoço. Era um rapaz com uma condição mental especial, é verdade, mas era absolutamente simpático. Talvez alguém lhe tivesse ensinado aquela malandrice, que era uma malandrice bonita, para surpreender as pessoas com um sorriso muito grande. Imagino que fosse algo que fizesse com candura em casa, aos avós, aos pais e às visitas. Dava um beijinho logo em fugida, recuando uns passos, alegre e expectante.
               Costumava vê-lo por ali. Às vezes, passava também pelo perímetro das escolas, caminhava um pouco como quem procurava divertir-se, como quem procurava amigos. Ao menos, amigos pequenos, daqueles de cinco minutos e muito entusiasmo. Lembro dele quando eu ainda era aluno de liceu. Gostava de lhe dizer olá. Ele sorria sempre e tinha jeito de quem se preparava para o jogo do gato e do rato, como uma criança eterna.
              Tenho uma ternura profunda pelas crianças eternas. Sei que são sobretudo pessoas afectivas. Cumprem uma inteligência que vem intensamente do coração. Esperam dos outros um carinho criativo e incansável. Vivem o instante num frenesi. Mas também são capazes de entristecer profundamente, num desalento que nos destrói de ver. As crianças eternas precisam de uma espécie de festa contínua, uma prova ininterrupta de que tudo está bem, de que gostamos delas e podemos seguir a brincar.
                 Não sei quem seria aquele rapaz. Digo rapaz, mas deve ser já um senhor, hoje, talvez até mais velho do que eu. Nunca nos dizia o nome. Eu creio que não saberia falar. O seu discurso era feito com o olhar. Via as coisas como quem saltitava. Havia um mundo de aventuras no seu espírito. Um funcionário do posto de gasolina falava-lhe, dava-lhe um certo abraço, a reprimir os beijinhos quando algum cliente o estranhava demasiado. Tantas vezes eu expliquei, especialmente às senhoras mais pudicas, que o rapaz estava apenas a chamar-nos para dentro da sua particular felicidade. Não era uma maldade, era a mais inofensiva ideia.
               Comecei a conduzir à revelia. Quando miúdo, achava que me faltava o talento para os carros, supunha que morreria num acidente, estaria na estrada com medo. Digo que comecei a conduzir à revelia porque o fiz apenas para poder levar o meu pai ao hospital no tempo horrível do seu declínio com o cancro. Em certas alturas, a gerir numa profunda tristeza a situação do meu pai, a surpresa daquela brincadeira no posto de gasolina da Auto Bemguiados era a única beleza do dia. Perante a inocência daquele rapaz, o mundo simplificava-se. Por um breve instante, o meu amigo de cinco minutos sorria genuíno e brincalhão, e aquela era uma normalidade que me fazia muitíssimo bem. As pessoas diziam coisas, chamavam-lhe malandro. Ele escapulia-se de um lado para o outro e estava tudo certo.
             Costumava pensar que aquele rapaz nunca poderia conduzir o pai ao hospital. Nem que fosse à revelia da sua vontade. As crianças eternas não conduzem carros. Isso levava-me a sentir uma clara responsabilidade.
             Subitamente, deixei de o ver. Tenho a impressão de ainda lhe haver percebido os cabelos grisalhos. Já estava mais parado, sem os beijinhos, um pouco mais gordinho. Muita gente já nem é do tempo daquela brincadeira. Gente com menos sorte do que eu, do que tantos de nós. Sigo passando para abastecer, mas não há senão a equipa de funcionários, alguns também já demasiado recentes. Ficou apenas uma história da única gasolineira com beijinhos do mundo.
              Quando os miúdos esperavam os autocarros à porta do liceu, era comum fazerem-lhe perguntas. Como apenas sorria, fantasiavam-se as respostas. Achávamos que ele tinha mil anos e duraria para sempre. Era inventado pelo céu, como uma cria de deuses feita só para ser feliz. Lembro-me bem de o defendermos. Era fundamental que não se assustasse, que não entristecesse, que fosse feliz. Fazíamos uma pequena roda em torno dele para sermos um escudo protector. Ele, de vez em quando, escolhia uma menina e dava-lhe um beijinho. Era um amor ao acaso. Bonito. Puro.

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segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Segunda Feira Poética:Enquanto Chove e a Noite é Triste

Austro Costa


- Ter alguém junto a mim, nesta noite tão fria!
Exclamo, e fico a espiar, através da vidraça,
a rua, agora tão deserta e sem poesia,
a rua, ao Luar vazia,
onde somente cai a chuva, e ninguém passa...

Ah, ter alguém aqui, mas, alguém que reunisse
ao Mistério a ternura amorável! Aquela...
Aquela que eu não sei se é Dulce, ou Alda, ou Alice,
porém cuja meiguice
há de o estilo possuir das lindas cartas dela!


... E ela é apenas Mistério. Ama-me, e tem receio
de que eu lhe saiba o nome! E nem vem ... Mas, virá?
Sonho-a, entanto, imagino-a aqui junto ao meu seio,
lendo os poemas que eu leio
ou traduzindo, ao piano, uns motivos de Bach.

Sinto-lhe a mão macia em meu ombro. Tão leve!...
Ouço-lhe a doce voz, feita de suaves trenos.

Olho-a e sinto que a mão não a pinta  ou descreve:
Ela é a Branca de Neve
que eu apero, final, nos meus braços morenos.

Sonho-a apenas, entanto. Ela não vem agora...
E eu - tão feliz na  minha ingênua Fantasia!
-Sim; alguém há de vir ...
                                       - mas, será ela?
                                                                - Embora!
E o luar de Inverno, fora,
tem, na rua molhada, uma melancolia...

Ter alguém junto a mim! ... E, através da vidraça,
espio a rua. E chove... E a noite vai no fim...
Quanta sombra de Amor dentro em meu Sonho passa
e logo se desfaz: névoa, cinza, fumaça!...

- Tê-la junto a mim!...

Mulheres e rosas;Vida e sonho;De monóculo, Austro Costa. 2ªed revista - Recife;Cepe 212

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sábado, 3 de outubro de 2015

Bienal do Livro de Pernambuco (3º dia ) Domingo

 
 
No Espaço Paulo Freire 
16h às 17h:

Maciel Salú e Isaar França Reincorporam Ascenso

Intervenção musical e poética em homenagem a Ascenso Ferreira.
17h às 18h:

Sentidos da Literatura

A homenageada da Bienal do Livro, Luzilá Gonçalves Ferreira, conversa com o crítico literário Alexandre Furtado sobre sua obra e a criação em sua vida.
18h às 19h

Brasil. É possível uma pátria educadora?

No debate, a Deputada Estadual de Pernambuco - Teresa Leitão - fala sobre os desafios que envolvem a criação de um país comprometido com a causa da educação e os reflexos dos avanços e desafios políticos dessa pauta de interesse público.




No Ascenso  Café

10h às 11h
Lançamento livro | Estudante da Rede Estadual | Camaragibe Autor do Poema “As magias do meu barreiro” - Gustavo Messias de Amorim Barbosa – Prêmio 4a. Olimpíada de Língua Portuguesa “Escrevendo o Futuro” - Categoria Poema.
11h às 12h
Lançamento Livro | Professor da Rede Estadual | Casa Amarela | Recife Zanoni Carvalho da Silva – Professor de Matemática – Escola Caio Pereira, autor dos livros:
“Histórias, confissões e ficções do Caio”- 2003
“Métodos Numéricos” - 2010
Participa da Coletânea “Memórias de Água Fria” - 2011
“Raízes” - 2013
“Rabiscos e Literatices” - 2014
14h às 15h

Interpoética Convida
Dê enter e me conte uma história

Uma conversa sobre o panorama literário infanto-juvenil em Pernambuco, com Gerusa Leal, Iracema Rodrigues e Izabela Domingues.
15h às 16h

Mercado Editorial: crises, impasses e futuro

O editor João Scortecci fala do cenário do mercado editorial nos últimos 15 anos.
16h às 17h

Cultura e Negócios – como sua rede social pode desafiar a crise

Na conversa com a produtora cultural Dulce Reis e Márcia Lira, escritora e responsável pelo projeto Menos 1 na Estante, o público poderá conhecer estratégias de como tornar o seu serviço um case de sucesso, com ideias para o mercado criativo tendo como eixo a cultura e a gestão de projetos inovadores. Mediação do produtor cultural Danilo Carias.
17h às 19h

Eu tenho um blog, e você? - II Encontro de blogueiros literários de Pernambuco

A conversa é uma oportunidade para que o público blogger se encontre para tirar dúvidas, discutir sobre a cena literária na web e a cyber-militância nas redes sociais digitais. A ideia é fortalecer a cadeia do livro leitura e literatura com interface entre Economia Criativa e Redes de Cooperação entre jovens e produtores de conteúdo. Debatedores: Marcos Tavares (www.capaetitulo.com.br ) e Danni Barbosa (www.garotaselivros.com ).
19h às 20h

Moisés Neto

Fala sobre Abismos da Poeticidade em Jomar Muniz de Brito.