terça-feira, 30 de junho de 2015

Melhores Livros Infantis

Desde 2008, trago para o blog os  melhores livros infantis do ano, escolhidos pela Revista Crescer. Hoje vou deixar a listinha dos primeiros colocados de cada ano. 
É uma reprise, eu sei.  Para comprar o livro clique no ano.


A Menina das Estrelas, Ziraldo


A Comilança, Fernando Vilela


Girafas Não Sabem Dançar, Giles Andrade e Guy Parker-Rees

O Livro Redondo, Caulos

Animais, Arnaldo Antunes e Zaba Moreau

2013 -  Nesse ano eu esqueci de fazer a postagem

Eloisa e os Bichos, Jairo Biutrago e Rafael  Yockteng

O Nascimento de Celestine, Gabriele Vincent

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Segunda-feira poética: Marina Colasanti

Atrás do Tronco


Toda vez que o nome do meu pai
ou a expressão "meu pai"
vem combinada com a palavra "guerra"
uma alta palmeira cresce em mim
e atrás do tronco há um homem escondido.
Um homem escondido que pode ser um morto
ou pode ser um assassino
um homem tão oculto quanto oculto
é o seu destino.
É o inimigo
ali posto pela voz do meu pai
quando lhe perguntei
se havia matado muitos nas tantas guerras
de que se orgulhava.
Na guerra 
disse ele
é impossível saber
se o inimigo escondido atrás de um tronco
aquele em que atiramos em defesa
e que não mais se vê
está vivo
está morto
está ferido
ou sequer estava
atrás do tronco.

Gargantas Abertas, Marina Colasanti. Rio de Janeiro:  Rocco,1998

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Na Terra do Se, Martha Medeiros


Se quem luta por um mundo melhor soubesse que cada revolução começa por revolucionar antes a si próprio.
  Se aqueles que vivem intoxicando sua família e seus amigos com reclamações fechassem um pouco a boa e abrissem suas cabeças, reconhecendo que são responsáveis por tudo o que lhes acontece.

Se as diferenças fossem aceitas naturalmente e só nos defendêssemos  contra quem nos faz mal.
Se todas as religiões fossem fieis a seus preceitos, enaltecendo apenas o amor e a paz, sem se envolver com as escolhas particulares de seus devotos.

Se a gente percebesse que tudo o que é feito em nome do amor ( e isso não inclui o ciúme e a posse) tem 100%  de chance de gerar boas reações e resultados positivos.

Se as pessoas fossem seguras o suficiente para tolerar opiniões contrárias às suas sem precisar agredir e despejar sua raiva.

Se fôssemos mais divertidos para nos  vestir e mobiliar nossa casa, e mens reféns de convencionalismos.
Se não tivéssemos tanto medo da solidão e não fizéssemos tanta besteira para evitá-la.
Se todos lessem bons livros.
Se as pessoas soubessem que quase sempre vale mais gastar dinheiro com coisas que não vão para dentro dos armários, como viagens, filmes e festas para celebrar a vida.
Se valorizássemos o cachorro-quente tanto quanto o caviar.
Se mudássemos o foco e concluíssemos que infelicidade não existe, o que existe são apenas momentos infelizes.
Se percebêssemos a diferença entre ter uma vida sensacional e uma vida sensacionalista.
Se acreditássemos  que uma pessoa é sempre mais valiosa do que uma instituição que deve servir a ela, e não o contrário.
Se quem não tem bom humor reconhecesse sua falta e fizesse dessa busca a mais importante da vida.
Se as pessoas não se manifestassem agressivamente contra tudo só para tentar provar que são inteligentes.
Se em vez de lutar para não envelhecer, lutássemos para não emburrecer.
Se.

Feliz por nada, Martha Medeiros - 4ª edição - Porto Alegre,2012

terça-feira, 23 de junho de 2015

Hoje é São João



Nesta quarta-feira, abro espaço para a música. 
Hoje  é dia de São João, e deixo vocês com Gilberto Gil cantando:



Luis Gonzaga e José Fernandes


Olha pro céu, meu amor
Vê como ele está lindo
Olha praquele balão multicor
Como no céu vai sumindo

Olha pro céu, meu amor
Vê como ele está lindo
Olha praquele balão multicor
Como no céu vai sumindo

Foi numa noite igual a esta
Que tu me deste o coração
O céu estava assim em festa
Pois era noite de São João

Havia balões no ar
Xote, baião no salão
E no terreiro o teu olhar
Que incendiou meu coração

domingo, 21 de junho de 2015

Segunda-feira poética: Elisa Lucinda





Saudade



Meu Brasil partiu

lá pro meio de Los Angeles

Foi falar língua espanhola

foi sumir não sei pra onde

Meu Brasil foi sentir frio

lá no meio de Los Angeles

a 20 graus abaixo de zero

e eu choro de tanto esmero

Meu Brasil foi pra Los Angeles

Nem notícias nem telefone

Me deixou sem nome

Rose,Carina,Solange

Foi cantar no microfone

lá pras moças da América

Eu fiquei patética

sem rima, sem métrica

perdi a estética

Meu Brasil partiu

saiu  pra Los Angeles

Meu peru

meu  panetone

ciclone do meu Natal

Meu Brasil internacional
Me deixou pasmada

sem cheiro, sem beijo

me deixou tão só

sem aviso, sem  jeito

sem dó

Me deixou ressabiada

tão  garganta, tão nó

Me deixou tão largada, tão passada

tão  Maceió.



O Semelhante, Elisa Lucinda – 5ª edição – Rio de janeiro: Record, 2006

sábado, 20 de junho de 2015

Desafio do Facebook- 4º dia: Mia Couto


               De vez em quando sou convidada a participar de algum desafio lá no Facebook, sempre aceito e posto o que for pedido Desta vez, achei por bem trazer para o blog o desafio que recebi da Marilda: 4 textos, de qualquer gênero, estilo, autor. Um por dia durante quatro dias. Hoje encerro o desafio.

 Para Ti


Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

No livro “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”

Veja também:
1º dia: Adélia Prado 
2º dia:Rubem Alves 
3º dia:Octávio Paz

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Desafio do Facebook - 3º dia: Octávio Paz

             De vez em quando sou convidada a participar de algum desafio lá no Facebook, sempre aceito e posto o que for pedido. 
Desta vez, achei por bem trazer para o blog o desafio que recebi da Marilda: 4 textos, de qualquer gênero, estilo, autor. Um por dia durante quatro dias.



3º  dia:
A Chama, A Fala



Num poema leio:

“conversar é divino.“

Porém, os deuses não falam:

Fazem e desfazem mundos

enquanto os homens falam.

Os deuses, sem palavras,

jogam jogos terríveis.



O espírito desce

e desata as línguas,

porém não fala palavras:

fala lume. A linguagem,

pelos deuses acesa,

é uma profecia

de chamas e uma torre

de fumo e um colapso

de sílabas queimadas:

cinza sem sentido.



A palavra do homem

é filha da morte.

Falamos porque somos

mortais: as palavras

não são signos, são anos.

Ao dizer o que dizem,

os nomes que dizemos,

dizem tempo: dizem-nos.

Somos nomes do tempo.



Mudos também os mortos

pronunciam as palavras

que nós, os vivos, dizemos.

A linguagem é a casa

de todos, a casa suspensa

no flanco do abismo.

Conversar é humano.
Sobre o autor:
OCTAVIO PAZ (1914-1998) — Mexicano. Prêmio Nobel de Literatura em 1991. Importante ensaísta e conferencista (El Laberinto de la Soledad, El Arco y la Lira, El Mono Gramático, Los Hijos del Limo, Sor Juana Inés de la Cruz o las Trampas de la Fe). Alguns livros de poesia: Piedra de Sol, Salamandra, Blanco, Vuelta, Árbol Adentro.
Veja também:
1º dia: Adélia Prado
2º dia: Rubem Alves
4º dia:Mia Couto
                                               

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Desafio do Facebook - 2º dia: Rubem Alves


   De vez em quando sou convidada a participar de algum desafio lá no Facebook, sempre aceito e posto o que for pedido. 
Desta vez, achei por bem trazer para o blog o desafio que recebi da Marilda: 4 textos, de qualquer gênero, estilo, autor. Um por dia durante quatro dias.   
Vamos lá, então:


O Jogo Peteca-lembrança   

Escrever me dá muita alegria pelo retorno que recebo dos meus leitores. Pena que não haja formas de responder a todos, um por um. A arte é muito longa, e o tempo é muito curto. Mas, de vez em quando...É o que aconteceu. Recebi uma carta de uma pessoa, a propósito de um texto meu. vou transcrever:
  
                     
     Rubem Alves, você escreve para a alegria de nossas almas. Alimenta quem os anos já embranqueceram os cabelos, a memória já esvaindo-se, mas com a sensibilidade à flor da pele. A crônica "Amar sem esperar retribuição", refererindo-se ao jogo das petecas, cativou-me... Tenho mais de oitenta anos, sou viúve, fiz cinquenta anos de casada e ainda tenho a peteca-lembrança , bem guardada... A princípio joga-se com o companheiro: paixão, risos, castelos, ilusões. Depois, já se derruba a peteca: briguinhas, ressentimentos; mas o jogo continua gostoso e atraente. A peteca cai a gente ergue, e o jogo segue com pequenas interrupções. então um triste dia, o parceiro parte, e o jogo interrompe. Como fazer para continuar o jogo sozinho, sem o sabor do companheirismo? Dei uma solução: o jogo-peteca lembrança. Guardei-a numa caixa, amarrei-a com uma fita verde-esperança. Um dia encontrarei o amado parceiro em outro degrau da vida e jogaremos eternamente, de mãos dadas.
                                                                       Assinado: Lurdes Camargo de Moura

Fiquei comovido com a carta de Lurdes. Mas, e o endereço?
Aí me chegou pelo correio, uma carta. Era dela! E ela contou detalhes:
Ter mais de oitenta anos, mudar de cidade, ser viúva, não é só fazer tricô, crochê e ver novelas. Resido há cinco anos em Campinas, com minha filha, genro e três netos. Se me perguntarem se está tudo "joia", eu respondo: "É só bijuteria"... Tenho as duas pernas fraturadas, um único rim, pressão alta. Em contrapartida, sou alegre, bem humorada, e uma bengala é o meu veículo precioso. Sem boas qualidades físicas, as espirituais estruturam a minha vida...
   Lurdes! O que você escreveu fez bem para a minha alma! Corrijo-me: você fez bem à minha alma! Você sabe que eu sou psicanalista e vivo andando pelos caminhos da alma. E há uma pergunta  para a qual não consigo encontrar resposta: Onde se encontram as fontes de alegria? Alguns acham que elas se encontram nas experiências infantis, que somos alegres ou tristes por causa das coisas que outros nos fizeram, quando éramos crianças. Eu não acredito nisso não. Acho que as fontes da alegria não se encontram no tempo. Acho que as fontes da alegria não são administradas pelo pai ou pela mãe. Minha suspeita é que elas se encontram na eternidade. A alegria é sempre inexplicável. Tem um profeta do Velho Testamento, Habacuque, que escreveu uma das orações mais lindas que conheço, e ela é linda por causa de uma única palavra: todavia. Ele começa a oração descrevendo campos devastados, árvores frutíferas sem frutos, currais sem vacas ou ovelhas. De repente ele interrompe o rol de desgraças e diz: " Todavia eu me alegrei..." Não há razões para a alegria. Ela é uma fonte da eternidade que emerge no tempo. Obrigado por você existir.
   Só há uma coisa que não entendi no que você escreveu. Você diz que chegará o dia em que você encontrará  o parceiro , e você tirará a peteca da caixa  em que você a guardou e vocês então jogarão peteca eternamente, de mãos dadas. Que estória é essa? Nunca vi ninguém jogar peteca de mãos dadas. Não tem jeito. Suspeito mesmo é que você não tem intenções de jogar peteca e que essas mãos dadas anunciam um jogo muito mais divertido...Quando o jogo de peteca é bom, terminado o jogo, guardada a peteca, um outro jogo a dois pode começar... Que assim seja, querida Lurdes.

(Se Eu Pudesse Viver Minha Vida Novamente...Rubem Alves Org. Raissa Castro Oliveira- 22ª ed.Campinas SP 2011)  Imagem: site da Revista Crescer.

Veja também:

1º dia: Adélia Prado
3º dia:Octávio Paz
4º dia:Mia Couto
 

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Desafio do Facebook - 1º dia: Adélia Prado

              De vez em quando sou convidada a participar de algum desafio lá no Facebook, sempre aceito e posto o que for pedido. 
Desta vez, achei por bem trazer para o blog o desafio que recebi da Marilda: 4 textos, de qualquer gênero, estilo, autor. Um por dia durante quatro dias.   

Vamos lá, então: 


         Dona Doida
Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso
com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois.  Não encontrei minha mãe.
 A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha, 
com sombrinha infantil e coxas à mostra. 
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
                                          meu marido ficou triste até a morte,
                                          eu fiquei doida no encalço.
                                          Só melhoro quando chove.


"
Poesia Reunida", Editora Siciliano - 1991, São Paulo, página 108.


Veja também: 
2º dia: Rubem Alves

3º dia: Octávio Paz
4º dia: Mia Couto