sexta-feira, 29 de maio de 2015

Minha Vida de Cão, Ariane Bomgosto



                        
  Pela frestinha da janela posso ver o sol entrar. Sinal que já é de manhã. Pior. Sinal que é hora de acordar. Não é que eu tenha preguiça. Afinal, preguiça de quê? Já sei que meu dia, como todos os outros trezentos e poucos dias que se passaram desde que vim ao mundo junto com os meus outros doze irmãozinhos, será mais um dia de sono, até que este mesmo sol, que vejo raiar agora, faça o favor de ir embora. Só nesta hora, enfim, poderei sair para passear, como também já é de costume.
     Minha orelha esquerda levantou. Opa. Esta é a prova definitiva de que o relógio está marcando exatamente sete horas da manhã. Vamos lá. Um olho de cada vez. Primeiro o direito, lentamente. Deste ângulo, vejo dois pezinhos pequenos encostarem no chão. Dois seriam se eu não tivesse esquecido mais uma vez de abrir o olho esquerdo. Admito. A memória não é lá o meu forte. Pois bem, são quatro. Agora com certeza. Os dois de mamãe e os dois de papai. Demorei um pouco para me acostumar a chamá-los assim, afinal, mamãe e papai verdadeiros, não vejo desde que eu nasci. Eles ficaram na minha antiga casa, de onde fui tirado quando este casal, que agora vejo bem nitidamente, resolveu me adotar.
    Eu gostava da “casinha de sapé” – nome que eu e meus doze irmãozinhos combinamos de chamar àquela casinha pequenina em que nascemos. Lá, tudo era pequenino e vivíamos todos amontoados, uns caindo por cima dos outros. Mas mamãe fazia com que tudo estivesse sempre aconchegante. Não estou reclamando da minha casa de agora. Aqui é bem maior e é pertinho da praia, onde posso fazer aqueles buracos na areia e me esconder depois. Já não me lembro mais nem do nome, nem da carinha daqueles doze danadinhos que nasceram junto comigo. Desta vez, não vou por a culpa na minha memória. É uma daquelas coisas explicadas por essas circunstâncias da vida que não têm explicação. Quando saí de lá, eu só tinha cinco dias de vida, então, dá um desconto.
Meu nome original - aquele que recebi quando nasci - é Joca, mas desde que cheguei aqui, percebi que os seres humanos demonstram carinho com nomes terminados em “inho”. Pois bem, passei a me chamar Binho. A única coisa de que não gosto muito é quando a mamãe – essa de carne e osso – fica apertando minhas orelhas. Fico logo bravo e mostro os dentes para ela. A outra mamãe – aquela de pêlos como os meus – não fazia isso.
     Mas o que ainda estou fazendo aqui debaixo da cama? Me perdi nos meus pensamentos e nem vi a hora passar. Vou lá na cozinha porque mamãe, como todos os dias pela manhã, já deve ter posto o meu leite naquela tigelinha. Exagerada como mamãe, eu nunca vi. Tirou uma foto minha e colou neste pratinho. Achei meio infantil. Na verdade, acho que meu pai e minha mãe não se deram conta que a idade biológica de uma pessoa não corresponde à idade biológica de um cãozinho como eu. Portanto, com um ano e pouco, já sou adulto.
Eles saíram, foram trabalhar. Ainda não entendi por que os humanos trabalham tanto. Acho que quero ser um deles na minha próxima encarnação. Ou melhor, não quero não. Esta vida de dormir, passear na praia e brincar com os meus donos é muito boa. Se pudesse ser outra coisa na minha próxima vida, seria um cãozinho de novo, só que com menos pêlos, porque estes insistem em cair no meu rosto, e, quando esbarram no meu focinho, me dão vontade de espirrar.

 

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Quarta-feira é dia de conto.

 

A Velha Engolida Pela Pedra
Mia Couto
 
          Não sou homem de igreja. Não creio e isso me dá tristeza. Porque, afinal, tenho em mim a religiosidade exigível a qualquer crente. Sou religioso sem religião. sofro, afinal, a doença da poesia: sonho lugares em que nunca estive, acredito só no que não se pode provar. E, mesmo se eu hoje rezasse, não saberia  que pedir a Deus. Esse é o meu medo: só os loucos não sabem o que pedir a Deus. Ou não se dará o caso de Deus ter perdido fé nos homens? Enfim, meu gosto de visitar igrejas vem apenas da tranquilidade desses lugarinhos côncavos, cheios de sombras sossegadas. Lá eu sei respirar. fora fica o mundo e suas desacudidas misérias.
   pois numa dessas visitas me aconteceu o que não posso evitar relembrar. A igrejinha era de pedra crua, dessa pedra tão idosa como a terra. Nem parecia obra de humano traço. Eu apreciava as figuras dos santos, madeiras com alma de se crer. foi quando escutei uns bichanos. Primeiro duvidei. Eram sons que não se traduziam em nada de terrestre. estaria eu a ser chamado por forças do além? Estremeci. Quem está preparado para dialogar com a eternidade? Os sibilos prosseguiam e, então, me discerni: era uma velha que me chamava. Estava meio encoberta por uma coluna, Orava com o corpo todo, debruçada nessa pequenez de quem pede mais do que é devido. Voltei a ouvir seu murmurinho;
   - Pssst, pssst.
   - Eu?
   - Sim, você próprio. Me ajude levantar. 
   Tentei ajuda-la a se erguer. Desconsegui. nem eu esperava peso tão volumoso daquela mínima criatura. Voltei a puxar. Nem uma carne nela se moveu. A velha não conseguia desajoelhar-se. A rótula dela estava  colada no chão, ela não podia se levantar. E me pedia socorro de força e carrego. Logo a mim que sofro dos ossos, reumasmático. Um papelito de menos de 25 linhas para mim já é um peso tonelável. Que fazer? Me sentei ao lado da velha, hesitando em como lhe pegar.
   - Vá me ajude, me empurre deste chão. Depresse-se, moço, que já estou ficando pedra.
   Voltei a ajeitar as mãos no corpo dela. Era um peso sem vida, com mais gravidade que um planeta.
   - Não rodilhe meu vestidinho. Isso veio das calamidades, fui dada esta roupita com os padres.
   Esforcei outras tentativas: a velha não descolava.
Nem um milimetrinho. Estranhei. Estaria ela a fazer-me pouco? Um corpinho, magrito como assim, exibir tanta tonelagem? Pensei em chamar por ajuda. Mas ninguém mais não havia.
   -Espere, vou chamar mais alguém.
   - Não me deixe sozinha, meu filho. Não me deixe por favor.
   Me levantei para espreitar: a igrejinha estava vazia. Dei uma volta, fui à sacristia. Ninguém. Me juntei à velha e lhe disse que ia chamar alguém lá fora, à rua. A senhora me segurou as mãos, com febril fervor:
   - Lá fora não. Não vá lá fora. Tente mais uma vez, só mais uma vez.
   Ainda me apliquei em novas forças, dobrei os intentos. Nem um deslizar da velha. De repente, eclatou o som iremediável de uma porta. Apurei os olhos na penumbra. tinham fechado pesadas portas da igreja. Acorri, demasiado tarde. Chamei, gritei, bati, pés e mãos. Em vão. Tentava arrombar a porta, a velha me dissuadiu. Era pecado mais que mortal machucar a casa de Deus.
    - Mas é para sairmos, não podemos ficar aqui presos.
   Contudo, a porta era à prova de forças. A verdade era que eu e beata estávamos prisioneiros daquele escuro. Acendo todas as velas que encontrei e me sentei junto da velha. Escutei suas falagens: sabe, meu filho, sabe o que estive a pedir a Deus? Estive a pedir que me levasse, minha palhota lá em cima já está pronta. E eu aqui já me custo tanto! Problema é eu já não tenho corpo para ir sozinha para o céu. Estou tão velha, tão cansadíssima que não aguento subir todos esses caminhos até lá, nos aléns. Pedi sabe o quê? Pedi que me vertesse em pássaro, desses capazes de compridas voações, desses que viajam até passar os infinitos. É verdade, filho. Esta tarde pedi a Deus que me vertesse em pássaro. E me desse asas só para me levar deste mundo.
   Adormeci nessa lenga-lengação dela. Fiquei em total cancelamento: na ausência de ruído, dos queixumes e rebuliços das cidade. Acordei no dia seguinte, sacudido pelo padre: o que eu fazia ali, dormindo como um larápio, um pilha-patos? Expliquei o motivo da velha.
   Qual velha?, perguntou o sacerdote.
Olhei. Da velha nem o sopro. Não estava aqui senhora com os joelhos amarrados no chão? O padre, de impaciente paciência, me pediu que saísse. E que não voltasse a usar indevidament4e o sagrado daquele  lugar. Saí, cabistonto. Para além da porta, o mundo era de admirar, coisa de curar antigas melancolias. A luz da manhã me estrelinhou as vistas. Nada cega mais que o sol.
   Naquela estonteação me chegou a repentina visão de uma ave, enormíssima em branquejos. Ali mesmo, à minha gente, o pássaro desarpoava, esvoando entre chão e folhagens. Acenei, sem jeito, barafundido. Ela sorriu-me: que fazes, me despedes? Não, eu não vou a nenhum lado. Foi mentira esse pedido que eu fiz a Deus. Aldrabei-Lhe bem. Eu não quero subir para lá, para as eternidades. Eu quero ser pássaro é para voar a vida. Eu quero viajar é neste mundo. E este mundo, meu filho, é coisa para não se deixar por nada desse mundo.
   E levantou voo em fantásticas alegrias. 

(Estórias Abensonhadas, Mia Couto. Cia das letras, 2012, págs.121 a 124)
(Imagem do site: www.designfera.com.br)

 

terça-feira, 26 de maio de 2015

História Bonita (12): Catador Sebastião Cria e Mantém Escola Em Olinda - PE


Escola criada por catador dá oportunidade a crianças carentes de Olinda
Na unidade de ensino, além da sala de aula, há uma sala de judô, uma de capoeira, biblioteca, parque e um espaço para cozinha


As paredes coloridas da Escola Nova Esperança numa rua sem calçamento do bairro de Rio Doce, em Olinda, chamam a atenção. Na fachada, uma imagem grafitada por moradores da comunidade registra o carinho do fundador da unidade de ensino, o catador de recicláveis Sebastião Pereira Duque, 59 anos, com as crianças que ali estudam. A escola, que existe desde 1984, atende a filhos de desempregados, catadores e pessoas de baixa renda da 2ª Etapa de Rio Doce. Não é uma escola da rede pública de ensino, mas também não funciona como uma instituição particular. Para fazer a matrícula, basta que os pais paguem R$ 20 por mês, para custos de manutenção, ou façam doações de materiais recicláveis.

Das 80 crianças com idades entre 2 e 6 anos que estudam na Nova Esperança, 70 pagam a mensalidade simbólica. As famílias das outras 10 entregam papelão, plástico, alumínio ou metal a Sebastião. “Esse valor é dividido entre as duas professoras da escola, que são praticamente voluntárias. Quando os pais não pagam, elas ficam sem receber e, depois, eu tiro do valor da venda do material que eles doaram para elas”, conta. É do bolso de Sebastião, diretor voluntário da escola, que sai o dinheiro para pagar os materiais escolares e as contas do imóvel.

Apesar de alfabetizado, Sebastião nunca frequentou uma escola regular. “Sei ler e escrever o básico e, por isso, quis dar aos meninos da comunidade um futuro que eu mesmo não pude ter”, revela o catador natural da cidade de Água Branca, Sertão da Paraíba. Pai de sete filhos, com oito netos e três bisnetos, Sebastião “adotou” ainda as crianças de Rio Doce fundando a escola. “Cresci sem pai e sem mãe. Quero ser para essas crianças o pai que não tive. O carinho delas é o melhor pagamento”, afirma.


 (Brenda Alcântara/Esp.DP/D.A.Press)

Na escola, além da sala de aula compartilhada entre as professoras Jacqueline Cavalcanti e Thamires Santos, há ainda uma sala de judô, uma de capoeira, biblioteca, parque e um espaço para cozinha. Por falta de equipamentos, a biblioteca e a cozinha não estão funcionando. “Recebo doações de todas as partes do estado e elas são muito bem-vindas. Espero colocar a biblioteca para funcionar em breve, mas dependo da chegada de livros voltados para crianças da educação infantil, além de prateleiras, mesas e outros equipamentos”, pontua. As doações podem ser feitas na escola, na Rua 5, 2ª Etapa de Rio Doce.

A escola é a única opção de muitos pais da comunidade para poderem trabalhar. “A ação que começou aqui é fundamental. Se não tivesse essa escola, meu filho não estaria estudando, já que as creches do bairro não têm vagas suficientes. Ele pode não ser um professor, mas é o grande mestre, um educador para todos”, diz a dona de casa Patrícia Santos, 26, mãe de Renato, 3.


(Matéria de: Anamaria Nascimento - Jornal: Diário de Pernambuco - 24.05.2015)

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Segunda-feira poética: Walt Whitman


Folhas de Relva


Arranquem os trincos das portas!
Arranquem as próprias portas dos batentes!

Nada de pegar coisas de segunda ou de terceira mão... nem de ver através dos olhos dos mortos... nem se alimentar dos espectros nos livros

Vadio uma jornada perpétua

Tudo segue e segue sem parar... nada se colapsa,
E morrer é diferente do que se imagina, bem mais afortunado.

Se ninguém mais no mundo está ciente, fico contente,
E se cada um e todos estão cientes, fico contente.

Me entrego à terra pra crescer da relva que amo,
Se me quiser de novo me procure sob a sola de suas botas.

Vai ser difícil você saber quem sou ou o que estou querendo dizer,
Mas mesmo assim vou dar saúde,
Vou filtrar e dar fibra a seu sangue.

Não me cruzando na primeira não desista,
Não me vendo num lugar, procure em outro,
Em algum lugar eu paro e espero você.

 

Trecho de “Canção de Mim Mesmo
Ed.Martim Claret – escrito em 1855

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Fim e Começo

Terminei e recomendo A Noite Escura E Mais Eu.       Estou lendo Sal.    Os dois livros estão circulando entre os leitores do grupo Livro Errante.

                        


         Os homens estão parados na entrada do caramanchão e combinam um jogo para mais tarde, o mais velho parece satisfeito, o trabalho está praticamente terminado. O escorpião já fugiu com seu dardo  aceso, as pinças altas no alerta, escondeu-se. A tática. Um ser odiado odiado odiado e que resiste porque os deuses o inscreveram no Zodíaco, lá está o Signo de Escorpião e se Deus me der essa mínima forma eu aceito, quero a ilusão da esperança, quero a ilusão do sonho em qualquer tempo e espaço e o demolidor jovem  está aqui junto de mim. Pai nosso que estais nos céu com a constelação de Escorpião brilhando gloriosa brilhando com todas as suas estrelas e o braço do homem se levanta e fecho os olhos Seja feita a Vossa vontade e agora a  picareta e então aceito também ser a estrela menor de grande cauda levantada mo infinito deste céu de outubro.
(A noite escura e mais eu, Lygia Fagundes Telles, Ed.Rocco 1998, págs.157 e 158)


O farol andava louco desde que Ivan morrera. Outrora emitia a sua luz  Cada dois segundos, essa era a sua identidade. Um lampeja certeiro e brevíssimo a cada dois segundos e então os marinheiros sabiam exatamente em que ponto da costa se encontravam, os barcos manobravam para longe das traiçoeiras rochas do litoral próximo a Oedivetnom e seguiam viagem até o seu destino final.
     Mas isso fora antes. Cecília achava que o farol sentia falta de Ivan; sentia-o  como uma pessoa , sentia-o com a mesma agudeza que ela quando a noite caía e vagava pela casa, trilhando os velhos e amplos cômodos vazios, sem que nem mesmo um único eco do passado pudesse vencer a barreira do tempo, atravessando o espaço para lhe fazer alguma companhia.
(Sal - Letícia wierzchowski.Ed Intrínseca 2013, pág 11)  

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Quarta-feira é dia de: Clarice Lispector

Uma Galinha
 
                 
 Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã.


Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.

 
 

               Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto vôo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou — o tempo da cozinheira dar um grito — e em breve estava no terraço do vizinho, de onde, em outro vôo desajeitado, alcançou um telhado. Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de uma chaminé.


            
O dono da casa, lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de almoçar, vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da galinha: em pulos cautelosos alcançou o telhado onde esta, hesitante e trêmula, escolhia com urgência outro rumo.
           A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça. O rapaz, porém, era um caçador adormecido. E por mais ínfima que fosse a presa o grito de conquista havia soado.

          Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre.

          Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se pode­ria contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma.
 

         Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a. Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos. Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, pare­cia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou, respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração, tão pequeno num prato, solevava e abaixava as penas, enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desvencilhar-se do acontecimento, despregou-se do chão e saiu aos gritos:

       — Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! ela quer o nosso bem!
 

       Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente.
       Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre, nem triste, não era nada, era uma galinha. O que não sugeria nenhum sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão:

      — Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida!

      — Eu também! jurou a menina com ardor. A mãe, cansada, deu de ombros.

      Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: "E dizer que a obriguei a correr naquele estado!" A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a do sobressalto.

     Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem, resquícios da grande fuga — e circulava pelo ladrilho, o corpo avançando atrás da cabeça, pausado como num campo, embora a pequena cabeça a traísse: mexendo-se rápida e vibrátil, com o velho susto de sua espécie já mecanizado.


    Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara contra o ar à beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos enchia os pulmões com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado às fêmeas cantar, ela não cantaria mas ficaria muito mais contente. Embora nem nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando milho — era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada no começo dos séculos.

    Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos
.

Texto extraído do livro “
Laços de Família”, Editora Rocco




segunda-feira, 18 de maio de 2015

Segunda-feira poética: Lêdo Ivo

 
 

 
A Recompensa

Eis a dádiva da noite:
fenda, cova, gruta, porta
casto pássaro sem canto
cisterna oculta no bosque
concha perdida na praia
viva natureza-morta.
Um corredor de coral
matriz e canal de mangue
trilha, sebe, valva, furna
voluta cheia de adornos
desfiladeiro da tarde
tumba de sol e corola
sereno da madrugada.
Manga madura da infância
que cai num chão de mentira
sol de lábios e camélias
esconderijo dos sonhos
caminho do descaminho
brancura negra da carne
pousada em seu próprio ninho
abertura pura e escura
entre-fechado botão
ou entreaberta rosa
na noite misteriosa.



Imagem:Flor nacional de Belize, a Masdevallia rolfeana (nome dado em homenagem a Robert Allen Rolfe, taxonomista do Royal Botanic Gardens de Kew nos anos 80) é uma espécie de orquídeas epífita nativa da Costa Rica.

sábado, 16 de maio de 2015

Charge para B.B.King

Considero a charge, cartoom, quadrinhos etc uma forma de literatura.  Por essa razão vou trazer uma charge a cada semana. A melhor que eu encontrar.
 
 
 
Para iniciar: Jarbas, do Jornal do Commércio do Recife - Brilhante alusão a B.B.King, recentemente falecido.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Mundo, Eduardo Galeano


 
 
Um homem da aldeia de Negua, no litoral da Colombia, conseguiu subir aos ceus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.
O mundo é isso — revelou —. Um montao de gente, um mar de fogueirinhas.
Cada pessoa brilha com luz propria entre todas as outras. Nao existem duas fogueiras iguais
Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, nao alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que e impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.

( O Livro dos Abraços)
 

 

terça-feira, 12 de maio de 2015

Uma sugestão.

               Estive pensando em como me sentiria se eu fosse professora de português e frequentasse o Facebook.
        A rede social é uma festa: tem intelectuais, os que apenas olham e nunca postam nada, os moderados e xiitas, torcedores de todos os times, os belos, os que se julgam belos e por isso são mesmo, os que levantam bandeiras revolucionárias desde que não precisem mudar nenhum de seus hábitos, os religiosos verdadeiros e os que pregam mas não fazem o que ordenam aos demais, os inseguros e perdidos de si que são contra de manhã e a favor à tarde, tem aqueles que estão sempre reclamando de um preconceito de que se supõem vítimas e os que realmente são.
       Ah, tem quem arrase postando selfie  em espelho ou com  texto sem pé nem cabeça.    
       Tem quem faça discurso contra um livro que nunca leu e, esse é ótimo, o que posta linda e comovente poesia de  Cecília Meireles que a poeta jamais escreveu...
       Bem,  tem muita coisa no Facebook. Mas o que me impressiona mesmo é a quantidade de erros de português. 
      Tem uns que são tão frequentes que os professores de cursinho poderiam levar para seus aulões de fim de ano em período pré vestibular.  Imagino os estudantes recebendo o roteiro:

Dia  1:  Mas e Mais
Dia  3: A ver e Haver
Dia  5: Mau e Mal   etc etc

        Como não sou professora de nada e também cometo meus erros, compartilho com vocês um site muito bom que traz os 80 erros mais frequentes. Vale muito rever estudando.
       Nossa língua mãe agradece:

    Os 80 erros gramaticais que ninguém deveria cometer.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Os Poemas, Mário Quintana - Segunda -feira poética

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…
 
 
(Ilustração: Cado)

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Joquinha e a Coruja Felizberta

 



No jardim da casa do menino Joquinha viviam borboletas,passarinhos,grilos,formigas, todos muito felizes! Ah!! E também, a coruja Felizberta!! Estava muito velhinha e já não brincava, mas nunca deixou de cantar. Ela morava na linda macieira do jardim.
Que sorte ele tinha por viver rodeado de alegrias.


Da janela do seu quarto avistou um chapéu azul com grandes abas a voar, e pensou:
“A Gegoca deve estar a brincar e o vento levou-lhe o chapéu! Deve andar a procura dele. Ela não tirava aquele chapéu por nada. Era enorme para a cabeça dela, tinha grandes abas e flores coloridas pintadas. O menino achava um horror!! A Gegoca era sua melhor amiga e conheciam-se desde de pequenos.
Passado uns minutos, o menino escuta na sua janela alguém a bater. E avista uns olhos castanhos lindos, enormes e a chamarem por ele:
– Joquinhaaaaaaa, abre a janela! Perdi meu chapéu, o vento levou-o, preciso que ajudes-me a encontrá-lo!
O menino começou a dar gargalhadas deliciosas e disse:
– Que grande favor o vento fez-te! Vi mesmo agora ele a voar!
Quando olhou para a coruja, riu mais ainda:
Gegoca olha para a coruja! – disse ele.
Ela riu também!
-Parece que já encontramos! Comentou.


Com o entusiasmo o menino foi a correr para brincar, mas esqueceu-se que ainda estava com o pijama verde claro com bolinhas brancas que adorava. Mas Gegoca repara em tudo, e comentou:
– És mesmo preguiçoso..
Um baloiço na linda árvore ajudava nas brincadeiras. Eles abanavam-se de vez a vez.
Tinha um vizinho novo, era um garoto bem magrinho e de pele escura. E Gegoca, por seu turno, era bem gordinha e loirinha. Usava sempre tranças. Uma de cada lado.
Os dois observavam o rapazito sempre a brincar sozinho. Devia morar naquele lugar há pouco tempo e ainda não devia ter amigos.
Felizberta estava um charme com o chapéu da Gegoca. Estava velha e cansada, mas sempre feliz e cantarolava músicas muito desafinadas… Ai de quem duvidasse!
Sou feliz
Gosto de cantar, embora digam
Que só sei desafinar
Mas dou alegria a todos
Que queiram escutar
Depois de concluir sua canção, a coruja, que é muito sabia disse aos meninos:
— Já podem tirar as mãos dos ouvidos… estou velha, mas ainda não estou cega. Convidem o menino novo para brincar com vocês. Ninguém gosta de sentir-se sozinho.
Joquinha disse à amiga:
— Ele esta a olhar para nós. Vamos lá Gegoca.
O menino puxou-a pelo braço e foram a correr até a cerca… e de repente “Catabumba”! Joquinha tropeçou e espatifou-se no chão. Gegoca troçou do amigo:
– Sou eu a gordinha e tu que esparramas-te pelo chão! Vou ajudar-te, espera aí!
Gegoca achou lindo o menino. Tinha cabelos aos caracóis!
Apresentou-se logo:
— Olá menino! Sou a Gegoca e esse é o Joquinha. Ele mora aqui e venho cá muitas vezes brincar e estudar com ele. Joquinha continuou..
— Como te chamas?
— Pedro…
—- Porque mudaste para aqui? — interrogou a menina. Que curiosa!
__ Porque onde eu morava ninguém brincava comigo, falou com ar triste.
__Então, Fizeste tu muito bem!
Também tenho colegas que me põem alcunhas por ser gordinha, e simplesmente não dou importância..
Joquinha ficou muito amargurado por saber que existia pessoas assim. Escutou tudo e disse ao Pedro:
— Nós não somos assim. Somos piores!
Pedro ficou tão assustado que quase fez xixi nas calças..
__Estou a brincar Pedro. Claro que és muito, mas muito bem vindo.
Pula a cerca e vem brincar connosco!
— Urraaa! Exclamou Pedro. Vou só avisar a minha mãe.
A senhora autorizou e lá foi ele muito alegre brincar com os novos amigos. Apenas tinha uma pequena preocupação…
— A cerca ainda é alta, posso cair e aleijar-me.
Gegoca sugeriu que ele fosse tocar a campainha. Assim fez. A mãe do menino Joquinha ainda não o conhecia e exclamou:
— Que menino tão lindo! O que desejas?
Joquinha ouviu a campainha, saiu do jardim, aproximou-se da mãe e explicou:
—Mãe, é o Pedro, nosso novo vizinho. Eu e a Gegoca falamos com ele no jardim e convidamo-lo para vir brincar. Não te preocupes, ele já avisou a mãe dele.
— Que lindinho!! Exclamou a mãe!
Joquinha morreu de vergonha, que mania algumas mães têm de falar assim..
Os dois encaminharam-se para o jardim, onde estava a Gejoca muito feliz com suas tranças no ar a baloiçar. E a coruja Felizberta logo cantou:
Que lindo menino
Que agora é nosso vizinho
E vai ser mais um que enquanto baloiçar
Minhas músicas vai escutar
Está é a Felizberta! Apresentou-a ao menino. Pedro elogiou-lhe o chapéu!
-Podes devolver-me o meu chapéu sra Coruja? Perguntou irritada a menina.
-Claro , fica muito melhor em ti!
Uma maça caiu da árvore e rolou até aos pés do Pedro. Como estava feliz a macieira! Estava a dar-lhe as boas vindas.
__Gegoca deixa o Pedro baloiçar um pouco?
__Claro que sim! Anda Pedro, que vou descansar na relva com o Joca.
Pedro queria conhecer melhor seus novos amigos e perguntou a menina linda de tranças:
__Já pensaste o que vais ser quando cresceres?
— Sim, vou ser uma Fada!
A coruja Felizberta estava atenta e logo fez uma canção,
Uma simpática fada vai ser
E muitas magias vais fazer
A menina adorou a canção e perguntou a Felizberta:
— Também vais um dia ser cantora?
— Eu já sou! Respondeu feliz a Felizberta.
Gegoca aproveitou que estavam a falar de profissões e perguntou ao Pedro qual a profissão que ele seria.
— Vou ser palhaço! E por todas as pessoas a rir!
Pedro saltou do baloiço e deu a vez ao amigo, que estava sentado ao lado da Gegoca a comer uma das maçãs da árvore. Como ela comia!
Felizberta, fez a canção para o menino Pedro:
Um engraçado palhaço vais ser
Muitos aplausos vais ter
E foi Felizberta que perguntou ao menino Joquinha, o que ele iria ser.
O menino Joquinha respondeu que ainda não sabia. Mas Felizberta conhecia-o desde criança e sabia que ele era muito preguiçoso. Por isso, a canção para o menino Joquinha foi assim:
Um lindo preguiçoso vais ser
Precisas de umas boas palmadas
Que o façam crescer
Gegoca e Pedro riram muito!!!
As gargalhadas ouviram-se da cozinha! A mãe do Joquinha ao ouvir, lembrou-se de chamá-los para lanchar. Em cima da mesa estava uma deliciosa tarte de maçãs decorada com corações.
A menina achava a mãe do amigo, um pouco esquisita, usava um vestido preto longo e tinha os cabelos cor de cenoura. Parecia uma bruxa..Apanharam um pedaço de tarte e assustados foram a correr para o jardim.
Pedro abraçou Gegoca, estava com medo. Ela seria uma bruxa?
– Se for, é das boas. Nenhuma bruxa má, colocaria corações na tarte, seu tolo!
-Deixa para lá, ela é muito simpática, sendo ou não bruxa.
No jardim, já estava o menino Joquinha a baloiçar…De repente ouve-se um barulho.
-Trackkkkkkk!!
Caiu ele e a Felizberta, que estava no mesmo galho. Os amigos foram rapidamente socorre-los.
Pedro ajudou-o amigo e a Coruja. Foi só um susto para o Joquinha, mas a sua amiga Felizberta estava com muitas dores.
— O que fazemos? -perguntou o Pedro.
—Temos que levá-la ao médico, disse Gegoca a mexer nas tranças.
— Como chama o médico que cuida dos animais? Foi o Joquinha que perguntou..
Pedro e Gegoca falaram juntos:
— Veterinário.
Vamos rápido… Com muito cuidado colocaram-na no cesto das maçãs que ficava debaixo da macieira.
Foram a caminhar bem depressa, mas Joquinha era quem carregava o cesto. Estavam muito preocupados. Ao chegarem encontraram uma secretária que usava uns óculos maiores do que o rosto. Não deve ver nada bem…pensou Pedro.
O médico era negro como o Pedro e muito sorridente. Felizberta tinha partido uma das asinhas. Enrolou uma ligadura a volta da asa e recomendou:
– Ela precisa de muito descanso.
De repente, a coruja diz:
— Doutor, vou retribuir-lhe com uma canção!
Os meninos preveniram o doutor:
__Ponha as mãos nos ouvidos !
Obrigado por me curar
Receba essa canção como
Forma de pagar
__Que exagero! Exclamou o médico. Adorei a canção.
Acho que o médico precisa de ir ao médico….”pensou o Joquinha”.(por aspas nos pensamentos)
Com muito cuidado Felizberta foi levada no cesto, de volta para a macieira. Teve de mudar de galho… e ficaram sem o baloiço. Arrumaram-no debaixo da árvore.
A ligadura incomodava imenso a sua amiga.
__Vamos fazer uma casinha para a nossa Felizberta, o que acham?
_Excelente ideia Gegoca!
Pedro tinha ainda em casa uns pedaços de papelão que sobraram da mudança, e foi buscá-los. Gegoca tinha em casa muitas tintas. .Joquinha foi buscar a tesoura para cortar.
A construção começou! Pedro desenhou a casinha, Joquinha recortou e Gegoca pintou-a de amarelo. Ficou linda! Felizberta, mesmo com a asinha partida, continuava muito feliz. Tinha grandes amigos!
A borboleta Aurora passeava sempre no jardim. Parava sempre para dar uma palavrinha com a coruja. Reparou que tinha uma casinha linda.
— Olá Felizberta! Que linda casinha!
— Olá Aurora! Foram os meninos que a fizeram! A borboleta reparou na asa partida da coruja e perguntou:
— O que aconteceu à tua asa, Berta? — (A borboleta às vezes a chamava assim).
— O galho da macieira partiu e caí. Mas ficarei logo boa, é só repousar.
— Então descansa e se precisares de algo, diz.
Joquinha e Gegoca avistaram a borboleta Aurora, e foram cumprimentá-la. Ela era preta com bolinhas azuis… muito linda!!
— Olá Aurora! — Falaram juntos e apresentaram o Pedro. A borboleta cumprimentou-o.
— Somos parecidos, só te faltam as bolinhas azuis para parecermos gémeos!
— É verdade Aurora! Vou pedir à Gegoca para me pintar umas bolinhas! — disse ele na brincadeira.
Todos riram muito!! Felizberta já nem lembrava das dores. É tão bom ter amigos!, pensou ela.
Aurora conhecia a coruja desde que nasceu. Tinha-lhe um grande respeito. E queria vê-la logo saudável. Para a animar, começou a fazer piruetas no ar. Pedro, Gegoca e Joquinha brincavam ao apanha.
Mas a borboleta era muito ágil e por mais que tentassem, não conseguiam.
Felizberta vendo a amiga tão feliz a voar, inspirou-se e cantou:
Aurora veio animar
E conosco vai
Para sempre ficar
— Claro que vou sempre cá estar, Felizberta! — exclamou a borboleta.
Já se fazia tarde… Pedro e Gegoca tinham de se ir embora. Os pais já deviam estar preocupados e tinham os trabalhos de casa para fazer. Despediram-se do Joquinha, da Felizberta e da Aurora. Estavam muito felizes. Pedro ainda antes de ir embora, virou-se para os amigos e disse:
— Obrigado!
Joquinha perguntou:
— Porque estás a agradecer?
— Pelo facto de serem meus amigos.
— Ahh… Mas Pedro, a amizade não se agradece, conquista-se. E tu conquistaste-nos! Aurora pós-se a dançar por cima deles demonstrando sua alegria. E para terminar aquela tarde repleta de acontecimentos, Felizberta cantou:
Está na hora de descansar
Vamos todos dormir e sonhar
Para amanhã ir para a escola estudar!
Joquinha e Gegoca aproximaram-se dele e deram todos um fraterno abraço.


 

(Em: www.historiasinfantis.com)

 

 
 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Morreste-me, José Luis Peixoto


Acabei de ler Morreste-me de José Luís Peixoto.  Pela capa do exemplar fico sabendo que foi o livro que revelou o autor em 2000. Estou, portanto, atrasada em 15 anos.  O livro trata  luto do autor ao mesmo tempo em que homenageia seu pai. Me chamou a atenção a forma concisa e poética de José  Luís Peixoto.  Recomendo a leitura.






"Pai. A tarde dissolve-se sobre a terra, sobre a nossa casa. O céu desfia um sopro quieto nos rostos. Acende-se a lua. Translúcida, adormece um sono cálido nos olhares. Anoitece devagar. Dizia nunca esquecerei, e lembro-me. Anoitecia devagar e, a esta hora, nesta altura do ano, desenrolavas a mangueira com todos os preceitos e, seguindo  regras certas, regavas as árvores e as flores do quintal; e tudo isso me ensinavas, tudo isso me explicavas. Anda cá ver, rapaz. E mostravas-me. Pai. Deixaste-te ficar em tudo. Sobrepostos na mágoa indiferente  deste mundo que finge continuar, os teus movimentos, o eclipse dos teus gestos. E tudo isto é agora para te conter. Agora, és o rio, e a tarde  dentro do dia, e o sol dentro da tarde; és o mundo todo por seres a tua pele. Pai. Nunca envelheceste, e eu queria  verte velho, velhinho aqui no nosso quintal, a regar  as árvores , a regar as flores. Sinto tanta falta de tuas palavras. Orienta-te rapaz. Sim. Eu oriento-me, pai. E fico. Estou. O entardecer, em vagas de luz, espraia-se  na terra que te acolheu e conserva. Chora chove brilho alvura sobre mim. E oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais poderei ouvir. A tua voz calada para sempre. E, como se adormecesses, vejo-te fechar as pálpebra sobre os olhos que nunca mais abrirás. Os teus olhos fechados para sempre. E, de uma vez, deixas de respirar. Para sempre. parra nunca mais. Pai. Tudo o que te sobreviveu me agride, Pai.  Nunca esquecerei." (Morreste-me Págs. 18 e 19).
 
Obras de José Luís Peixoto:
 
Morreste-me (Prosa, 2000)
Nenhum Olhar (Romance, 2000) 
A Criança em Ruínas (Poesia, 2001)
Uma Casa na Escuridão (Romance, 2002) 
A Casa, a Escuridão (Poesia, 2002)
Antídoto (Prosa, 2003) 
Cemitério de Pianos (Romance, 2006)
Cal (Prosa e Teatro, 2007)
Gaveta de Papéis (Poesia, 2008)
Livro (Romance, 2010)
Abraço (Prosa, 2011)
A Mãe que Chovia (Infantil, 2012)
Dentro do Segredo (Viagens, 2012) 
Galveias (Romance, 2014)


Imagens e bibliografia do site do autor.
 

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Agualusa no cinema.

Lembram desse livro? 

 Foi com ele que comecei a conhecer os escritores africanos de língua portuguesa.

Todos os colegas de meu grupo de leitura já leram O Vendedor de Passados do angolano José Eduardo Agualusa.


Em 2013  Lula Buarque de Holanda fez uma adaptação livre  e trouxe a obra para o cinema.








Pois bem, agora você pode assistir ao filme.
 

O vendedor de passados do cinema é Lázaro Ramos. É ele, na pele de Vicente, que cria documentos, fotos e indícios para reescrever a história de quem quiser ou precisar.



 
Hoje( 4 de maio) no Cine PE 2015 no Cinema São Luiz, Recife e dia 21 de maio tem estreia nacional
 
 
 
 

 

Segunda - feira poética: Cora Coralina

A Procura

Andei pelo caminhos da Vida,
Casa de Cora Coralina - Imagem do google

Caminhei pelos ruas do Destino -
Procurando meu signo.
Bati na porta da Fortuna,
mandou dizer que não estava.
Bati na porta da Fama,
falou que não podia atender.
Procurei a casa da Felicidade,
a vizinha da frente me informou
que ela tinha se mudado
sem deixar novo endereço.
Procurei  a morada da Fortaleza.
ela me fez entrar: deu-me veste nova,
perfumou-me os cabelos,
fez-me beber de seu vinho.
Acertei o meu caminho.

(Em: Meu Cordel)