quarta-feira, 29 de abril de 2015

Quarta-feira é dia de conto: Penélope - Dalton Trevisan





Naquela rua mora um casal de velhos. A mulher espera o marido na varanda, tricoteia em sua cadeira de balanço. Quando ele chega ao portão, ela está de pé, agulhas cruzadas na cestinha. Ele atravessa o pequeno jardim e, no limiar da porta, beija-a de olho fechado.

Sempre juntos, a lidar no quintal, ele entre as couves, ela no canteiro de malvas. Pela janela da cozinha, os vizinhos podem ver que o marido enxuga a louça. No sábado, saem a passeio, ela, gorda, de olhos azuis e ele, magro, de preto. No verão, a mulher usa um vestido branco, fora de moda; ele ainda de preto. Mistério a sua vida; sabe-se vagamente, anos atrás, um desastre, os filhos mortos. Desertando casa, túmulo, bicho, os velhos mudam-se para Curitiba.


Só os dois, sem cachorro, gato, passarinhos. Por vezes, na ausência do marido, ela traz um osso ao cão vagabundo que cheira o portão. Engorda uma galinha, logo se enternece, incapaz de mata-la. O homem desmancha o galinheiro e, no lugar, ergue-se caco feroz. Arranca a única roseira no canto do jardim. Nem a uma rosa concede o seu resto de amor.

Além do sábado, não saem de casa, o velho fumando cachimbo, a velha trançando agulhas. Até o dia em que, abrindo a porta, de volta do passeio, acham a seus pés uma carta. Ninguém lhes escreve, parente ou amigo no mundo. O envelope azul, sem endereço. A mulher propõe queimá-lo, já sofridos demais. Pessoa alguma lhes pode fazer mal, ele responde.

Não queima a carta, esquecida na mesa. Sentam-se sob o abajur da sala, ela com o tricô, ele com o jornal. A dona baixa a cabeça, morde uma agulha, com a outra conta os pontos e, olhar perdido, reconta a linha. O homem, jornal dobrado no joelho, lê duas vezes cada frase. O cachimbo apaga, não o acende, ouvindo o seco bater das agulhas. Abre enfim a carta. Duas palavras, em letra recortada de jornal. Nada mais, data ou assinatura.   Estende o papel à mulher que, depois de ler, olha-o. Ela se põe de pé, a carta na ponta dos dedos.

— Que vai fazer?

— Queimar.

Não, ele acode.  Enfia o bilhete no envelope, guarda no bolso. Ergue a toalhinha caída no chão e prossegue a leitura do jornal.

A dona recolhe a cestinha, o fio e as agulhas.

—   Não ligue, minha velha. Uma carta jogada em todas as portas.

O canto das sereias chega ao coração dos velhos? Esquece o papel no bolso, outra semana passa. No sábado, antes de abrir a porta, sabe da carta à espera. A mulher pisa-a, fingindo que não vê. Ele a apanha e mete no bolso.

Ombros curvados, contando a mesma linha, ela pergunta:

— Não vai ler?

Por cima do jornal admira a cabeça querida, sem cabelo branco, os olhos que, apesar dos anos, azuis como no primeiro dia.

— Já sei o que diz.

— Por que não queima?


É um jogo, e exibe a carta: nenhum endereço. Abre-a, duas palavras recortadas. Sopra o envelope, sacode-o sobre o tapete, mais nada. Coleciona-a com a outra e, ao dobrar o jornal, a amiga desmancha um ponto errado na toalhinha.

Acorda no meio da noite, salta da cama, vai olhar à janela. Afasta a cortina, ali na sombra um vulto de homem. Mão crispada, até o outro ir-se embora.

Sábado seguinte, durante o passeio, lhe ocorre: só ele recebe a carta?  Pode ser engano, não tem direção. Ao menos citasse nome, data, um lugar. Range a porta, lá está: azul. No bolso com as outras, abre o jornal. Voltando as folhas, surpreende o rosto debruçado sobre as agulhas. Toalhinha difícil, trabalhada havia meses. Recorda a legenda de Penélope, que desfaz a noite, à luz do archote, as linhas acabadas no dia e assim ganha tempo de seus pretendentes. Cala-se no meio da história: ao marido ausente enganou Penélope? Para quem trançava a mortalha? Continuou a lida nas agulhas após o regresso de Ulisses?

No banheiro fecha a porta, rompe o envelope. Duas palavras... Imagina um plano? Guarda a carta e dentro dela um fio de cabelo. Pendura o paletó no cabide, o papel visível no bolso. A mulher deixa na soleira a garrafa de leite, ele vai-se deitar. Pela manhã examina o envelope: parece intacto, no mesmo lugar. Esquadrinha-o em busca do cabelo branco — não achou.

Desde a rua vigia os passos da mulher dentro de casa. Ela vai encontra-lo no portão — no olho o reflexo da gravata do outro. Ah, erguer-lhe o cabelo da nuca, se não tem sinais de dente... Na ausência dela, abre o guarda-roupa enterra a cabeça nos vestidos. Atrás da cortina espiona os tipos que cruzam a calçada. Conhece o leiteiro e o padeiro, moços, de sorrisos falsos.

Reconstitui os gestos da amiga: pós nos móveis, a terra nos vasos de violetas úmida ou seca... Pela toalhinha marca o tempo. Sabe quantas linhas a mulher tricoteia e quando, errando o ponto, deve desmanchá-lo, antes mesmo de contar na ponta da agulha.

Sem prova contra ela, nunca revelou o fim de Penélope. Enquanto lê, observa o rosto na sombra do abajur. Ao ouvir passos, esgueirando-se na ponta dos pés, espreita à janela: a cortina machucada pela mão raivosa.

Afinal compra um revólver.

— Oh, meu Deus... Para quê? — espanta-se a companheira.

Ele refere o número de ladrões na cidade. Exige conta de antigos presentes. Não fará toalhinhas para o amante vender? No serão, o jornal aberto no joelho, vigia a mulher — o rosto, o vestido — atrás da marca do outro: ela erra o ponto, tem de desmanchar a linha.

Aguarda-o na varanda. Se não a conhecesse, ele passa diante da casa. Na volta, sente os cheiros no ar, corre o dedo sobre os móveis, apalpa a terra das violetas — sabe onde está a mulher.

De madrugada acorda, o travesseiro ainda quente da outra cabeça. Sob a porta, uma luz na sala. Faz o seu tricô, sempre a toalhinha. É Penélope a desfazer na noite o trabalho de mais um dia?

Erguendo os olhos, a mulher dá com o revólver. Batem as agulhas, sem fio. Jamais soube por que a poupou. Assim que se deitam, ele cai em sono profundo.

Havia um primo no passado... Jura em vão, a amiga: o primo aos onze anos morto de tifo. No serão ele retira as cartas do bolso — são muitas, uma de cada sábado — e lê, entre dentes, uma por uma.

Por que não em casa no sábado, atrás da cortina, dar de cara com o maldito? Não, sente falta do bilhete. A correspondência entre o primo e ele, o corno manso; um jogo, onde no fim o vencedor. Um dia tudo o outro revelará, forçoso não interrompê-la.

No portão dá o braço à companheira, não se falam durante o passeio, sem parar diante das vitrinas. De regresso, apanha o envelope e, antes de abri-lo, anda com ele pela casa. Em seguida esconde um cabelo na dobra, deixa-o na mesa.

Acha sempre o cabelo, nunca mais a mulher decifrou as duas palavras. Ou — ele se pergunta, com nova ruga na testa — descobriu a arte de ler sem desmanchar a teia?

Uma tarde abre a porta e aspira o ar. Desliza o dedo sobre os móveis: pó. Tateia a terra dos vasos: seca.

Direto ao quarto de janelas fechadas e acende a luz. A velha ali na cama, revólver na mão, vestido brando ensangüentado. Deixa-a de olho aberto.

Piedade não sente, foi justo. A polícia o manda em paz, longe de casa à hora do suicídio. Quando sai o enterro, comentam os vizinhos a sua dor profunda, não chora. Segurando a alça do caixão, ajuda a baixá-lo na sepultura; antes de o coveiro acabar de cobri-lo, vai-se embora.

Entra na sala, vê a toalhinha na mesa — a toalhinha de tricô. Penélope havia concluído a obra, era a própria mortalha que tecia — o marido em casa.

Acende o abajur de franja verde. Sobre a poltrona, as agulhas cruzadas na cestinha. É sábado, sim. Pessoa alguma lhe pode fazer mal. A mulher pagou pelo crime. Ou — de repente o alarido no peito — acaso inocente? A carta jogada sob outras portas... Por engano na sua.

Um meio de saber, envelhecerá tranqüilo. A ele destinadas, não virão, com a mulher morta, nunca mais. Aquela foi a última — o outro havia tremido ao encontrar porta e janela abertas. Teria visto o carro funerário no portão.   Acompanhado, ninguém sabe, o enterro. Um dos que o acotovelaram ao ser descido o caixão — uma pocinha d’água no fundo da cova.

Sai de casa, como todo sábado. O braço dobrado, hábito de dá-lo à amiga em tantos anos.  Diante da vitrina com vestidos, alguns brancos, o peso da mão dela. Sorri desdenhoso da sua vaidade, ainda morta...

Os dois degraus da varanda — “Fui justo”, repete, “fui justo” —, com mão firme gira a chave.  Abre a porta, pisa na carta e, sentando-se na poltrona, lê o jornal em voz alta para não ouvir os gritos do silêncio.



Em Vozes do Retrato, Editora Agir, São Paulo, 1998,    pág. 52.







segunda-feira, 27 de abril de 2015

Segunda-feira poética: Rimas de Luar




Pela noite calma
anda um misticismo

que é de lua cheia.

Tua imagem calma,

nesse misticismo

lívida vagueia...



Tão alva e magrinha,

és um crisântemo

que se despetala;

frágil almazinha

que é de crisântemo

que o Luar embala!



Vens sorrindo, leve,

num sorrir divino

que é fascinação.

Vens sorrindo, leve

vens cantando o hino

da minha ilusão.



Passas... És saudade!

Lembras a distância

que entre nós está.

Páras. E a Saudade

mais aumenta a ânsia

que arde aqui e lá.



Abro-te minh’alma.

Entras,e, em lirismo,

teu sorriso Salma*...

Luz a Lua-Cheia...

E. num misticismo,

pela noite calma,

tua imagem calma

dentro de minh’alma,

toda luar passeia...

Austro Costa
Mulheres e Rosas 2ª edição revista. Ed. Cepe 2012

nota: o blog manteve a grafia original
*Salma: o poeta criou um neologismo com o substantivo salmo.

sábado, 25 de abril de 2015

Nana Pauvolih - a rainha da Amazon Brasil, Suzana Valença



O sobrenome dela é P-a-u-v-o-l-i-h. Mas, entre os fãs, ela é conhecida só como Nana mesmo. Se você ainda não ouviu falar nela, não tem problema. Nana Pauvolih é, provavelmente, a escritora bem sucedida mais desconhecida do Brasil. Ela não está em nenhum das listas de livros mais vendidos publicadas nas revistas semanais. Mas não se engane, o território dela é outro. Nana domina as vendas de ebooks no Brasil. Na Amazon nacional ela está no topo do ranking de best-sellers e sua média de avaliação “varia” entre 5 e 5 estrelas. No universo online, Nana Pauvolih é unanimidade. Mas porque Nana Pauvolih é tão conhecida apenas no mundo literário digital? É que ela escreve livros eróticos.

Quem tem vergonha de comprar livros eróticos?


“Livros online são mais baratos, práticos, não ocupam espaço. E para quem quer ler um erótico sem mostrar à família, também fica mais fácil. São grandes as vantagens”, conta a autora. Como muitos leitores têm vergonha de comprar o livro físico (“isso está mudando”, garante Nana), ela constrói seu sucesso com ebooks. Não é de hoje que os leitores consomem as obras de Nana encobertos pela discrição da internet. As histórias sensuais de Nana, seus (muitos!) fãs e o digital têm uma relação antiga que ajudou a cimentar o caminho da escritora para se tornar rainha da Amazon Brasil em vendas de ebooks.

Antes de começar a vender os livros online, Nana publicava suas histórias (de graça mesmo) em seu blog e em plataformas especializadas como Wattpad  e WidBook. A autora conta que trabalhou bastante na divulgação de suas produções em sites de leitura. Aos poucos, o público foi descobrindo a escritora e rolou química. “Contei com a divulgação dos leitores. Na rede, se um gostar, indica para outro, faz postagem, se torna um fator multiplicador”. Chegar à Amazon foi o caminho natural, “eu percebi que podia ser profissional quando comecei a vender bem. Era um sonho se tornando realidade”. Hoje, a autora tem 12 obras à venda pela loja online e todos contam com muitas resenhas positivas dos leitores. No mundo dos livros físicos, Nana tem contrato com a Editora Rocco, que está colocando no mercado a Série Redenção, uma trilogia que já havia sido publicada online no ano passado. Ela ainda tem no currículo outra série, chamada Segredos, e outro livro, A Coleira, publicada pela editora Multifoco.

Nana Maravilhosa!


Dê uma olhada nas resenhas de leitores de Nana na Amazon e procure uma opinião negativa. Se achar, me avise. Ou jogue na Mega Sena. Na maioria das vezes, os comentários do público (mulheres, quase sempre) são elogiosos, calorosos, fanáticos. Ela é tratada por “maravilhosa”, as leitoras capricham nas exclamações (maravilhosa!!!!) e as avaliações nunca são menores do que quatro estrelas. Nana Pauvalih não divide opiniões.
Para ela, tanta empolgação das fãs é resultado da honestidade que ela emprega em sua escrita. “Eles gostam do meu trabalho. Apesar das pessoas acharem que escrevo apenas erotismo, não é isso. Eu escrevo sempre uma história diferente da outra, com enredo, com romance, com tudo que um leitor gosta, principalmente o público feminino. Não tenho “papas na língua”, ou melhor, vergonha nas pontas dos dedos. Escrevo tudo em detalhes, seja um reencontro entre pai e filho, com todas as emoções possíveis, até uma cena de sexo de várias páginas. Amo detalhes. Amo intensidade. E talvez seja isso que os leitores que avaliam amem também”.

Nana Pauvolih
“Não tenho papas na língua”. Foto: Rafaela da Gama / Editora Rocco

Comprar ou ler de graça? Os dois!


Mesmo com o sucesso de vendas, a autora continuou disponibilizando histórias gratuitas. Ela conta que mudou um pouco a estratégia de divulgação apenas no final do ano passado. “Coloquei [os livros] direto na Amazon e deixei nas outras plataformas apenas capítulos de degustação. Meus livros custam R$7,99 e R$9,99, bem acessível, para que as pessoas possam comprar”.
Este mês, a Amazon disponibilizou o conto O Senhor da Ilha. A história podia ser lida há um ano, de graça, no site da autora. Mesmo assim, a obra chegou ao primeiro lugar entre os mais vendidos da loja online. Isto quer dizer que as leitoras pagam pelas histórias de Nana, mesmo podendo as ler grátis em outra plataforma. Nem a própria Nana consegue explicar tanto sucesso. “Acho que as pessoas eu gostam do meu trabalho queiram ter o livro para ler quantas vezes quiser”.

Facebook para conversar com o público (discretamente)


A escritora conta que gosta muito de interagir com as leitoras. E mais uma vez a discrição que só a vida online permite ajuda bastante. Ela mantem um grupo secreto no Facebook com cerca de 5 mil mulheres como sua principal ferramenta online este diálogo. Nana leva em consideração a opinião das fãs (“só as dadas com respeito”), mas não deixa que terceiros pilotem suas histórias. “[Sigo] sempre minha intuição e minha imaginação. Eu me envolvo muito com as histórias e personagens. Já aconteceu de programar para escrever uma história e acabar adiando, pois outra veio tão forte que foi quase uma necessidade escrevê-la. Quase não. Totalmente. Eu simplesmente me deixo levar por elas”.

Não gostou? Vá ler outra coisa!


E as histórias de Nana são bem isso mesmo. Jogadas, simples, sinceras, sem muito apego a um estilo, uma estrutura ou a uma verossimilhança. A autora não parece ligar nem um pouquinho. Em O Senhor da Ilha, a personagem principal fica presa como escrava (sexual, claro) do protagonista. Ela não acha que essa trama pode ser considerada machista? “Poder pode, mas não me preocupo com isso. Cada um tem sua opinião. Quem não gosta, deve ler outro tipo de literatura. Há quem goste. Se eu fosse me prender ao que pensam, não escreveria nada”.
Nana é sincera em escrever o que ela quer. Ela pode até não estar sendo resenhada nas páginas de cultura da Veja, mas faz um trabalho extremamente honesto que conquistou muitas fãs fieis internet afora. “As leitoras conhecem minha trajetória, minha dedicação, meu respeito pelos leitores, fazem questão de comprar”, diz.  “Assim, escrevo por que amo, o que me dá vontade, com todo meu empenho”.

Esta matéria foi originalmente publicada e pode ser lida no Digaí.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Dragão, Livro e Rosas.

                     Aprendi com minha irmã que aprendeu na aula de espanhol  e trago para cá, dizendo que gostaria de conhecer a Catalunha nessa época do ano.  
                   
                
Era uma vez um dragão que aterrorizava a todos numa aldeia da Espanha há muitos e muitos anos passados. Para acalmar a fúria do animal, a ele era oferecida uma donzela por dia.
                Num determinado momento já não havia mais nenhuma donzela a não ser a filha do rei. E ela foi oferecida ao dragão (ooooohhh). Acontece que um jovem cavaleiro era apaixonado por ela e resolveu lutar contra o dragão e ganhou a luta.  
               Era inverno e toda a neve do local da luta ficou tingido com o vermelho do sangue do dragão.  Mas quando a filha do rei - que como tem de ser em toda lenda, devia ser linda - olhou para ao redor, onde antes havia sangue, cresceram rosas e mais rosas.                
                Este dia, 23 de abril passou a ser o dia das rosas.  Muitos anos depois à festa das rosas foi acrescentado o livro. Nas comemorações, então, as mulheres oferecem livros e os homens oferecem rosas. 
              
  E por que? Ora, porque é a data da morte de Miguel de Cervantes, Shakespeare e de Inca Garcilaso de La Vega que era um escritor peruano. Acabei de aprender.



quarta-feira, 22 de abril de 2015

Provo, Sinto Em Silêncio, Joaquim Cardozo

Provo, sinto em silêncio

O gosto de tua presença,
O gosto da presença feliz o teu corpo inocente e querido.
Vejo que as ruas mãos formosas e mansas
Movem-se para mim num desejo incerto de carícia,
num gesto vago e litúrgico,
E ouço a tua voz chegando como uma reza,
Imersa em sombra, envolta em fumo, fragrante e leve.
Mulher! em meio deste perfume,
Incenso que vem de ti e das flores que trazes no seio,
Mudo como um Deus quero ser adorado.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Papagaio Congelado, Ricardo Azevedo

Um dia, um sujeito ganhou de presente um papagaio.
O bicho era uma praga. Não demorou muito, logo se espalhou pela casa.

Atendia telefone.

Gritava e falava sozinho nas horas mais inesperadas.

Dava palpite nas conversas dos outros.

Discutia futebol.

Fumava charuto.

Pedia café, tomava, cuspia, arregalava os olhos, esparramava semente de girassol e cocô por todo lado, gargalhava e ainda gritava para o dono de casa: "Ô seu doutor, vê se não torra faz favor!"

Uma noite, a família recebeu uma visita para jantar.

O papagaio não gostou da cara do visitante e berrou: "Vai embora, ratazana!" e começou a falar cada palavrão cabeludo que dava medo.

Depois que a visita foi embora, o dono da casa foi até o poleiro. Estava furioso:

— Seu mal-educado, sem-vergonha de uma figa! Estou cheio! Agora você vai ver o que é bom pra tosse.

Agarrou o papagaio pelo cangote e atirou dentro da geladeira:

— Vai passar a noite aí de castigo!

Depois, fechou a porta e foi dormir.

No dia seguinte, saiu atrasado para o trabalho e esqueceu o coitado preso dentro da geladeira.

Só foi lembrar do bicho à noite, quando voltou para casa.

Foi correndo abrir a geladeira.

O papagaio saiu trêmulo e cabisbaixo, com cara arrependida, cheio de pó gelado na cabeça.

Ficou de joelhos.

Botou as duas asas na cabeça.

Rezou.

Disse pelo amor de Deus.

Reconheceu que estava errado.

Pediu perdão.

Disse que nunca mais ia fazer aquilo.

Jurou que nunca mais ia fazer coisa errada, que nunca mais ia atender telefone e interromper conversa, nem xingar nenhuma visita.

Jurou que nunca mais ia dizer palavrão nem "vai embora, ratazana".

Depois, examinando o homem com os olhos arregalados, espiou dentro da geladeira e perguntou:

— Queria saber só uma coisa: o que é que aquele franguinho pelado, deitado ali no prato, fez?

sábado, 18 de abril de 2015

Os Romanos, Rubem Braga

Foi no Leblon, no domingo de sol, e não era escola de samba e nem rancho direito, era apenas uma tentativa de rancho, sem mulheres, sem música própria. Eram quase todos muito fortes e vestidos da maneira mais imaginosa, com saiotes e escudos e capacetes com muitos dourados e prateados, e de espada na mão. Cantavam o samba estranho Maior é Deus no céu e no estandarte estava escrito assim: Henredo o Império Romano."
     Todos achamos graça nesse H que dava ao enredo, que afinal não era enredo nenhum, uma súbita solenidade, sugerindo graves palavras históricas e heróicas, hostes de hunos, hierofantes, hieróglifos e hierarquias. E era muito guerreira a marcação da bateria - e Júlio César, com seu capacete de papel prateado de dois palmos de altura acima do pixaim, e brandindo com o enorme braço negro uma espada de ouro, nunca esteve tão soberba na sua glória.
     Não, não morreu o Império Romano, embora Mussolini fizesse questão de suicidá-lo pela segunda vez. Ele rebenta soberano do fundo dos carnavais e tu, Marco Antônio, continuas a suspirar pela serpente do velho Nilo. E tu, Cleópatra, continuas a dizer ao homem que envias para vigiar o teu amado: "Se o achares triste, dize que eu estou dançando: se o achares alegre dize que adoeci de súbito..."
     E esses pretos e mulatos que hoje dominam o mundo com suas espadas de bobagem, e se fazem Neros e Brutos e Calígulas, são os mesmo que de súbito se precipitam esfarrapados no sujo mais feroz -pois quando são imperadores preferem ser miseráveis terríveis e não pobres contribuintes da taxa sindical do ano inteiro.
     A secreta gravidade  e a espantosa riqueza do carnaval chocam-se com essa arrumação extraordinariamente pífia que os decoradores da Prefeitura fizeram na Avenida, em um requinte de mau gosto que tenta ser popular e sendo apenas ruim - e com a indigência mental desses  carros alegóricos subvencionados, sem espírito, nem beleza, nem nada.
     Pelo gosto da Prefeitura acabaríamos na infinita palermice de um carnaval de Buenos Aires, com aqueles funcionários municipais fazendo préstitos e a multidão aborrecida e enorme.
   Mas no seio de povo rebentam as imaginações como flores de loucura, esses sambas chorando, esses batuques heróicos, essa invenção incessante onde se despeja toda a fantasia, toda a tristeza, toda a opressão dos homens.
     Bem-aventurados os que fazem o carnaval, os que não fogem nem se recolhem, mas enfrentam as noites bárbaras e acesas, bem aventurados os gladiadores e Césares e chiquitas e baianas, e que a vida depois lhes seja leve na volt do sonho em que se esbaldam!

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Livros no varal - o que o grupo vai ler.

 Contos do Nascer da Terra, Mia Couto
De Regina
Vai para:Amanda (PB) Malu (RJ)
 A Abadia de Northanger, Jane Austen
De: Tânia 
Vai para:










A Mulheres do Meu Pai, José Eduardo Agualusa
De: Regina
Vai para: Amanda (PB), Malu (RJ)




 A Cidade do Sol, Khaled Hosseini
De:Aline
Vai para:


Passaporte Para a China, Lygia Fagundes Telles
De: Tânia
Vai para: Regina
O Segredo do Meu Marido, Liane Moriarty
De: Regina
Está com: Tânia
Vai para:
 O Silêncio das Montanhas, Khaled Hosseini
De: Aline
Vai para:
Sal, Letícia Wierzchowski
De: Cris
Vai para:Regina









 Umbilina e Sua Grande Rival, Cícero Belmar
De: Regina
Vai para:Malu (RJ)
Hanna e Suas Filhas, Marianne Fredricksson
De: Janete
Está com: Cris
Vai para:







 Inferno, Dan Brown
De: Cris
Vai para:

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Tarde de Domingo, Ana Paula Corradini



  
   Seis pratos sobre a pia. Cinco vazios, um ainda com lasanha à bolonhesa.
Um filho que não gosta de lasanha à bolonhesa. Zero filhos para tirar o resto da mesa. Uma mãe de mãos ásperas, um pai de dedos ágeis. Um controle remoto. Zero sobremesas. Quatro reclamações. Um filho que não gosta de sobremesa. Dez dedos indicadores, um controle remoto. Cinquenta programas simultâneos na TV a cabo. Cinco opiniões, dois safanões, um grito vindo da cozinha. Quatro silêncios e uma bateção de porta. Um filme, quatro sorrisos. Um choro abafado no banheiro. Uma palavra doce de mãe. Seis pratos lavados, doze talheres guardados, uma caçarola areada. Duas mãos em repouso. Cinco lugares ocupados. Uma poltrona vaga. Uma birrinha no canto da sala. Um colo. Duas lágrimas já enxutas. Um ressonar, dois ressonares, três... Cinco roncos. Dois olhos bem abertos. Um bico desse tamanho.