segunda-feira, 30 de março de 2015

As Três Pipas do Vovô, Aline Dexheimer



- Amanhã é dia de que? – Meus filhos perguntam, os três ao mesmo tempo.
- Amanhã é dia de vovô e vovó – Eu respondo.
Eles saem saltitantes pela casa brincando e gritando.
-EBA! Amanhã é dia de vovô.
Como é bom "ser" criança e esperar pela visita dos avós no "mingo" (Domingo, dia dos avós). Uma semana eles vêm, outra nós vamos.
Neste dia, o vovô veio cheio de papéis, cola e tesoura. É dia de vovô e também de churrasco. OBA!
A surpresa do dia. O Vovô faria pipas para as crianças. Depois do churrasco, o vovô sentou, rodeado de seus trinetos para confeccionar as pipas. Sentados lá na garagem, ficaram a tarde toda fazendo uma pipa, enquanto ele resgatava gostosas memórias de sua própria infância. Uma tarde não seria suficiente para as três pipas. Mas a diversão já estava preparada. Só faltava o vento!
Cadê o vento?
Naquela tarde muito quente de verão não tinha vento, mas não impediu que a turma se divertisse da mesma forma. Foi preciso mais um domingo para o término das pipas. E o tão esperado dia de vento apareceu, afinal. Munido das três pipas, dos trinetos e eu, com a câmera a tira colo, vovô partiu para o que seria a nossa aventura dominical. Chegamos de mansinho naquela praça no final da tarde. Havia crianças brincando de bola, casais tomando chimarrão, crianças no balanço, outros exercitando-se. Talvez, chovesse. Talvez ventasse. Estava estranho. A principio, nenhum vento, para a tristeza das crianças. O vovô meio desapontado olhava para as nuvens. De repente, uma brisa o animou. Ele disse:
- Olha o vento! – Correu para o carro e buscou as três pipas.
Elas teimaram um pouco, mas subiram. Aos poucos as crianças pegaram o jeito. Corriam pela grande praça, enquanto as pipas voavam chamando atenção do restante das pessoas. Aos poucos outras crianças foram surgindo e querendo experimentar, crianças, talvez, sem um avô maravilhoso como este que confeccionava pipas.
De longe, sentada no banco eu registrava os momentos com todas as fotos que podia. Meu pai ao lado dos netos e rodeado de crianças de todas as cores. Agradeci pelo momento tão maravilhoso desfrutado ao lado de meu pai e meus filhos trigêmeos.
Uma brincadeira quase tão rara nas nossas praças de cidades grandes com pais e avôs ocupados. Uma brincadeira gostosa num lindo final de tarde de verão coroada pelos raios de um por de sol igualmente raro.
Como é bom "ter" crianças e viver toda esta alegria.
Por isso, não me canso de agradecer:
-Obrigada.Viva o Vovô com suas três pipas!


sábado, 28 de março de 2015

Roxo, Érika Valença


Ela era vestida de poesia
abotoava os versos
ajustava as rimas e tudo combinava.
Maquiava seu rosto
com pinceladas de metáfora cor-de-rosa
e lábios com antíteses carmim. 
Não tinha rima nem ouro
e calçava-se com delicadas menotímeas.

Vivia entre cores, texturas e sensações
Passeava pelos seus desejos ricos de imaginação
e compadecia nos vícios de linguagem.
Era cega e apenas enxergava pelo amor.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Bilhete A Um Candidato, Rubem Braga

                             " Olhe aqui, Rubem. Para ser eleito vereador, eu preciso de 3 mil votos. Só lá no jóquei, entre tratadores, jóqueis, empregados e sócios eu tenho, no mínimo mas no mínimo mesmo, 300 votos certos; vamos botar mais 100 na Hípica . Bem, 400. Pessoal de meu clube. o Botafogo, calculando com o máximo pessimismo, 600. Aí já vão mil.
   Entre colegas de turma e de repartição contei, seguros 200; vamos dizer 100. Naquela fábrica da gávea, você sabe, eu estou com tudo na mão, porque tenho apoio por baixo e por cima, inclusive dos comunas; pelo menos 800 votos certos,mas vamos dizer 400. Já são 1.500.
     "Em Vila Isabel minha sogra é uma potência, porque essas coisas de igreja e caridade tudo lá é com ela. Quer saber de uma coisa? Só na Vila eu já tenho a eleição garantida, mas vamos botar: 500. Aí já estão, contando miseravelmente, mas mi-se-ra-vel-men-te, dois mil. Agora você calcule: Tuzinho no Méier, sabe que é médico dos pobres, é um sujeito que se quisesse entrar na política acabava senador só com voto da zona norte; e é todo meu, batata, cem por cento, vai me dar pelo menos 1.000 votos. Você veja, poxa, que eu estou eleito sem contar mais nada, sem falar no pessoal do Cais do Porto, nem postalistas, nem professoras primárias, que só ai, só de professoras, vai ser um xuá, você sabe que minha mãe e minha tia são diretoras de Grupo. Agora bote choferes, garçons, a turma de clube de xadrez e a colônia pernambucana, sabe que meu velho é pernambucano, e sabe pernambucano como é que é!
     "E o Centro de Filatelistas? Sabe quantos filatelistas tem só no Rio de Janeiro? Mais de 4 mil! E nesse setor nem tem graça, o papai aqui está sozinho! É como diz o Gonçalves: sou o candidato do olho-de-boi!
     "E fora disso, quanta coisa! Diretor de centro espírita, tenho dois. E o eleitorado independente? E não falei no meu bairro, poxa, não falei de Copacabana, você precisa ver como é lá em casa, o telefone não pára de tocar, todo mundo pedindo cédula, cédula, até sujeitos que eu não vejo há mais de dez anos. E a turma do Equitativa? O Fernandão garante que só lá tenho pelo menos 300 votos. E o Reseguro, e o reduto de Goulart em Maria da Graça, o pessoal do Fórum... Olhe, meu filho, estou convencido de que fiz uma grande besteira: eu devia ter saído para deputado!"
     Passei uma semana sem ver o meu amigo candidato; no dia 30 de setembro, três dias antes das eleições, esbarrei com ele na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, todo vibrante, cercado de amigos; deu-me um abraço formidável e me apresentou o pessoal: este aqui é meu, de cabresto!"
     Atulhou-me de cédulas.
     Meu caro candidato:
      Você deve ter notado que na 122ª Seção da Quinta zona, onde votei, você não teve nenhum voto. Palavra de honra que eu ia votar em você; levei sua cédula no bolso. Mas você estava tão garantido que preferi ajudar  outro amigo com meu votinho. Foi o diabo. Tenho a impressão de que os outros eleitores pensaram a mesma coisa, e nessa marcha da apuração, se você chegar a 300 votos ainda pode se consolar, que muitos outros terão muito menos que isso. Aliás, quem estava lá e votou logo depois de mim foi o Gonçalves dos selos.
     Sabe uma coisa? Acho que esse negócio de voto secreto no fundo é uma indecência, só serve pra ensinar a eleitor a mentir: a eleição é uma grande farsa, pois se o cidadão não pode assumir a responsabilidade de seu próprio voto, de sua opinião pessoal, que porcaria de República é esta?
     Vou lhe dizer uma coisa com toda franqueza: foi melhor assim. Melhor para você~e. Essa nossa Câmara Municipal  não era mesmo lugar para um sujeito decente como você. é superdesmoralizada. Pense um pouco e me dará razão. Seu, de cabresto, o
                                                                                                      







Nota(1) esta crônica foi escrita em 1958, o blog manteve a ortografia. 
Nota(2) na época referida pelo autor as cédulas eleitorais (que existiram até  a chegada das urnas eletrônicas) eram distribuídas previamente pelos comitês dos partidos e os eleitores já iam pra as seções eleitorais com as cédulas. 



quarta-feira, 25 de março de 2015

Dona Alegria



Dona Alegria pediu-me uns versos.
Oh, certamente que eu lh'os faria ...
     Que versos lindos, suaves e tersos
      não merecera Dona Alegria!

Dona Alegria dos grandes olhos,
grandes e belos, da cor do Céu...
Que tem catleias florindo, aos molhos,
à nívea copa de seu chapéu...

Dona Alegria perdeu a luva.
Nem sabe como! Foi outro dia:
tomando um bonde, fugindo à chuva...
Contudo, riu-se Dona Alegria.

Dona Alegria na rua Nova,
Vai ao cinema? Vai com a mamã.
     Dona Alegria dá-me uma trova!
     Não tenho um verso para amanhã.

Dona Alegria cheia de graça,
de quem sou poeta e de quem  sou servo,
passa sorrindo com a mamã... Passa...
E eu lembro uns versos de Amado Nervo.


Dona Alegria mando-lhe agora
as rimas pobres desta poesia.
Perdoe-me , e ainda pela demora...
Mas... vão com a luva, Dona Alegria

                Austro Costa (1899-1953)


In Mulheres e rosas;Vida e sonho; De monóculo/Austro Costa - 2.ed. revista - Recife: Cepe, 2012



Do mesmo autor:
A Morte do Cisne - postada em: 22.3.15
Capibaribe, Meu Rio - postada em:20.3.15

segunda-feira, 23 de março de 2015

Episódio de hoje:Tudo Por Um Cotonete, Ariane Bomgosto

   
Toda vez que mamãe vai tomar banho e me esquece aqui fora, fico deitado bem juntinho à porta, esperando ela acabar. Fecho os olhos mas não durmo, só finjo. Assim, quando minha irmã passa, ela não esfrega a minha cabeça nem aperta as minhas bochechas, e olha que nem as tenho. Pra falar a verdade, nunca vi um cãozinho ter bochechas, mas a doida da minha irmã sempre diz que tenho, e que nada é melhor do que apertá-las. Isso tudo me confunde um pouco, mas tudo bem. Enquanto fico quietinho aqui, posso ouvir o barulhinho da água do chuveiro, de que eu tanto gosto. Isso não quer dizer que eu goste de tomar banho. Aquele tanque e a água gelada em nada me atraem. Mas confesso, tenho vontade de experimentar um banho quentinho, de chuveiro.

      Papai chegou, já ouvi o barulho que o carro dele faz quando entra na garagem. Mas vou continuar aqui, não saio daqui por nada, afinal, mamãe é mamãe. É ela quem cuida de mim. Me leva na rua todos os dias à tarde, põe a minha comida no pratinho onde colou uma foto minha, me leva pra cortar todos estes pêlos que me enchem de calor. Tenho que confessar uma coisa daquele lugar. Eles cortam os pêlos, dão banho, cortam as unhas e ainda me enchem de talco. Sempre antes que mamãe chegue para me buscar, botam uma gravatinha escrita “Binho”. Aquilo é um tormento. Sem falar nos outros cachorros e gatos que ficam lá junto comigo. Outro dia apareceu uma mulher com uma tartaruga. Queria que dessem banho e passassem perfume na coitada. Eita gente doida. Quem entende os humanos?
     
Não disse que era o carro do papai? A chave já está rodando na porta da cozinha. Ai meu Deus! Tenho que ir “fazer festa” pra ele. Mas vou abandonar meu posto. E se mamãe sair do banho? Vou rapidinho. Vou num pé e volto no outro. Vai dar tempo. Faço uma recepção mais rápida hoje. É isso. Vou lá. Confessarei outra coisa – hoje estou propício às confissões -, mas que isso não saia daqui, em hipótese alguma. Todos nós, cachorrinhos de todos os tipos e tamanhos, mas principalmente os chamados “de estimação”, introduzimos em nossas leis – um dia falo melhor sobre o livro das leis da gente – o mandamento “fazer festa para o dono”. O que eu quero dizer é que este costume não é tanto pelo apreço que temos por eles. Resolvemos padronizar este “ritual” há muito tempo porque queríamos ser vistos como um amigo fiel. Conseguimos. Mas, mesmo assim, continuamos fazendo. Isso agrada aos humanos, não custa massagear um pouquinho o ego deles. Deixemos assim mesmo.
      Nossa! Fui rapidinho mesmo. Apesar do corredor enorme, está tudo certo. Mamãe só desligou o chuveiro agora e eu já estou aqui. “Abre mamãe, abre!”. Oba. Abriu. Nada melhor do que essa hora. Estou tão feliz. Já sei o que vai acontecer. Mamãe vai sair do banheiro, vai até o outro, que fica no quarto dela – ela sempre toma banho no banheiro das minhas irmãs – e pegará um daqueles. Hummm! Que delícia! Minha boca está salivando. Pronto. Ela saiu, pendurou a toalha, disse “Vem Tico” – este é um dos meus apelidos, tenho mais 37 pelo que contei até agora, mas disso falo depois. Já abriu a caixinha. Pegou dois. Estou ansioso. Colocou no ouvido, lá dentro. De novo. Passou mais vez. Pegou o outro e limpou bem o ouvido cheio de cera. “Não mamãe, não jogue aí”. Que droga! Jogou na lixeira em que eu nunca consigo pegar.        

    
Mas vou esperar ela sair e tentar assim mesmo, afinal, nada melhor que ele, o cotonete. Adoro. Como tudinho, até ficar só o cabo. Meus pais não entendem. Acho que acham nojento. Eu também nunca vi outro cãozinho comendo cotonete com tamanha satisfação. Mas pra mim não tem nada mais gostoso. Faço de tudo por um. Sujo de cera então, que delícia. Eu sei que ninguém gosta. Que bom! Sobra mais.

 
*Ariane Bomgosto é editora da Revista América e jornalista.
 

domingo, 22 de março de 2015

A Morte do Cisne, Austro Costa




Mil amores cantei. Fáceis amores...
Vagas quimeras... leves utopias...
Vãos devaneios de que enchi meus dias
Nos vinte anos azuis dos sonhadores...

Mil amores cantei... mas, entre flores,
Beijos, risos, promessas, fantasias,
Vi-os bater as asas fugidias...
Não me deixaram lágrimas, nem dores.

Este, porém, que se aprimora em pranto
E renúncia em minh'alma - estranho e santo
Amor, a que não trazes teu socorro

Este, sim! vale o canto que te ofereço.
Ouve-o, e guarda-o! Ele é teu. Será, decerto,
O meu canto de Cisne. Canto-o e morro.

Descobrindo Austro Costa

                             Há algum tempo este blog dedicou-se a publicar Olegário Mariano, poeta pernambucano esquecido na próprio estado.  Antes de ontem, um internauta me cobrou material de Austro Costa. Foi quando descobri que dele só conhecia um poema que é praticamente o único (pouco) divulgado. Perplexa com mais esse esquecimento, me comprometi em publicar o autor. 


Capibaribe, Meu Rio - Austro Costa 


Capibaribe, meu rio,
 espelho do meu sonhar
quero fazer-te o elogio,
mas penso: Se te elogio,
é a mim que estou a elogiar...

Capibaribe, meu rio,
espelho do meu sonhar...

Meu velho Capibaribe
meu irmão de sonho e amor...
..............................................

Capibaribe, meu rio,
Que vida levamos nós!
tu corres: eu rodopio...
E há quarenta anos a fio:
sempre juntos - e tão sós!

Capibaribe, meu rio,
que vida levamos nós!
Mas sabe Deus a constância
com que sofreste e eu sofri,
para, vencida a distância,
vermos quão cega foi a ânsia

com que sofreste e eu sofri...

Capibaribe, meu rio,
vinhas de longe a correr.
- Aonde vais, poeta vadio?
E ouvindo o meu desafio,
paraste para me ver...

Capibaribe, meu rio,
vinhas de longe a correr...

Paraste... e, logo, nascia
em mim a doida ambição
de seguir-te... Até que um dia,
fiz a enorme tropelia
de abandonar meu rincão!

Paraste... e, logo, nascia
em mim a doida ambição...


Capibaribe, meu rio,
tal chegaras, tal cheguei...
Mercê do Fado sombrio,
tudo sofri, mas com brio:
sem dizer “Aqui-del-Rei!...”

Capibaribe, meu rio,
tal chegara, tal cheguei!

Por te ouvir, que triste engano,
Capibaribe!... Que horror!
Que destino inglório e insano!

Tu corrias para o Oceano,
eu corria para o Amor...

Por te ouvir, que triste engano!
Triste, mas encantador...


A partir de 23 de março o blog vai trazer outros poemas e divulgar Austro Costa

Imagens: Regina Porto - se copiar, queira dar o devido crédito. 
 

sexta-feira, 20 de março de 2015

João que amava Teresa que amava...


Quadrilha
Carlos Drummond de Andrade

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.


Quadrilha
Zack Magiezi

João que amava Teresa que curtia as fotos de Raimundo
que seguia todos os posts da Maria 
que adorava conversar no Whatsapp com Joaquim 
que acha perfeita a vida fotográfica de Lili, 
que na verdade era uma solitária. 
João foi para os Estados Unidos, Teresa deletou sua conta, 
Raimundo criou um perfil fake para continuar seguidor,
Maria foi bloqueada, Joaquim sentiu-se invisível
e Lili cansou de falsificar felicidade que às vezes está  no simples encontro real.

quinta-feira, 19 de março de 2015

São José, rogai por nós. Cícero Belmar.



Por ser 19 de março, tenho a sensação de que é um dia diferente. Posso refazer a frase? Tenho certeza de que é um dia especial por ser dedicado a São José, padroeiro de Bodocó, minha cidade. Melhor dizendo, padroeiro dos sertões.

Quando eu era criança acreditava piamente, assim como todo povo do Sertão, que o marceneiro esposo da Virgem Maria eram quem derramava as bênçãos divinas em forma de chuva naquele chão semiárido.

Seguíamos em procissão. Contritos, sob o sol. Mandacarus de braços erguidos. Nós, diante do Divino, olhos para o chão. Quem éramos?

Muitos anos passaram e eu deixei de pensar como criança. Mudei, desacreditei naquela crendice ingênua. Estudei, aprendi algumas coisas. Li a filosofia, a psicanálise, a teologia. Fui existencialista. Neguei o que aprendi no passado.


Mas o tempo não para, disse Cazuza. Não para mesmo. Descobri que li erradamente muitos livros. De filosofia, de psicanálise, de teologia. Tive a graça e o tempo de reaprender o que desaprendi.
Olhos para minhas mãos. Não havia verdade maior do que aquela, da minha infância. A verdade será sempre uma metáfora da vida. Instaurei a minha realidade, com todos os aprendizados e influências. Descubro que tenho uma essência única e genuína como sertanejo.

São José realiza, sim, a façanha de fazer chover. Acreditar é respeitar, é aceitar. É um engajamento e eu sou de assumir compromissos. É como sertanejo que eu me presentifico na história da humanidade.

Viva São José. Sou mais feliz acreditando na poesia. Nas poesias. Esta é uma. Não há nada mais transgressor do que a poesia. Deixar emergir a liberdade de espírito e se permitir acreditar nas coisas simples e puras. Sou sertanejo. É ele quem faz chover no coração. Do Brasil.

(Imagens do Google)


quarta-feira, 18 de março de 2015

Meus Dois Amores...


                 Anunciado para amanhã o lançamento de Meus Dois Amores, filme de Luiz Henrique Dias baseado  num conto de Guimarães Rosa.

A história é ambientada em Minas Gerais e fala do fanfarrão Manoel que vivia de dois amores:  Das Dô e a mula Beija Fulô.  O filme é uma adaptação do conto Corpo Fechado. 


Quem estiver em  Recife, Rio de Janeiro,São Paulo, Belo Horizonte e Brasília já pode ir aos cinemas amanhã.  Meus Dois Amores:  o conto que nomeou o filme pode ser lido em Sagarana.

Rua Do Olhar, Carlos Drummond de Andrade

Rua do Olhar

Entre tantas ruas
Que passam no mundo

A Rua do Olhar,

Em Paris, me toca.


Imagino um olho

Calmo, solitário,

A fitar os homens que voltam cansados.


Olhar de perdão

Para os desvarios,

De lento conselho

E cumplicidade.



Rua do Olhar:

As casas não contam,

Nem contam as pedras,

Inertes no chão.


Só conta esse olho

Triste, na tarde, percorrendo o corpo,

Devassando a roupa...

segunda-feira, 16 de março de 2015

Fim e começo

Acabei de ler Hanna e Suas Filhas e vou começar As Mulheres do Meu Pai.

              O  livro me prendeu logo nas primeiras páginas. Contada com franqueza, e lirismo a saga de três gerações que viveu no século XIX na Noruega e Suécia deixa o leitor encantado. As protagonistas, pela ordem cronológica Hanna (avó) Johana (a mãe) e Anna (filha) veem, participam e acompanham as mudanças de suas vidas e do mundo com as mudanças de estação, a guerra de Hittler, a chegada do automóvel na zona rural etc.
A força feminina é quem sustenta a história num livro que não é feminista. Qualquer um de nós, pode identificar-se com qualquer personagem ou situação independente de gênero ou idade mesmo estando num país e época tão diferentes como no Brasil de agora.  Recomendo a leitura.


 Hanna e Suas Filhas
Marianne Fredriksson

Últimos parágrafos:
"-Tenho  uma chave extra para o estojo. Portanto, agora vou dar uma chave para cada uma de minhas filhas. 
  Elas aceitaram a chave, completamente incapazes de agradecer.
- Acho que vocês perderam a voz - disse Anna, ainda rindo. 
Finalmente Rikard disse que não estava surpreso. Sempre soubera que havia entrado para uma família cheia de segredos.

     Ao amanhecer do dia seguinte, eles tomaram o carro e foram embora da casa. Ingeborg disse que sempre seriam bem-vindos para visitá-los, e Anna agradeceu. No entanto pensou, exatamente como Hanna no passado ao deixar a casa do moinho: 'Nunca mais voltarei a este lugar'."


 As Mulheres do Meu Pai

José Eduardo Agualusa

 Primeiro parágrafo:

     Acordei suspenso numa luz oblíqua. Sonhava com Laurentina. Ela conversava com o pai, o qual, vá-se lá saber porquê , tinha a cara de Nelson Mandela. Era o Nelson Mandela, e era o pai dela, e no meu sonho tudo isso parecia absolutamente natural. Estavam sentados  ao redor  duma mesa de madeira escura, numa cozinha idêntica em tudo à do meu apartamento na Lapa, em Lisboa. Sonhei  também com uma frase. Acontece-me frequentemente. Eis a frase:  - De quantas verdades se faz uma mentira?



domingo, 8 de março de 2015

Aviso Da Lua Que Menstrua, Elisa Lucinda

Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia.
Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita..
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
é que tô falando na "vera"
conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos..
Às vezes pela ponte de um beijo
já se alcança a "cidade secreta"
a Atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente
Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
É da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofando
cozinhando, costurando e você chega com a mão no bolso
julgando a arte do almoço: Eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
então esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
VACA é sua mãe. De leite.
Vaca e galinha...
ora, não ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!


A rosa é dedicada às mulheres que, como Maria Emília, minha mãe, têm ideias próprias e por isso são à frente de seu tempo e geração. Pela ordem cronológica: Lêda Valença( irmã), Suzana Valença (filha) e Amanda Gaspar (nora).

quinta-feira, 5 de março de 2015

Wabi, A Página Que Estou Lendo.




Imagem: Regina Porto

É um boy que masca chiclete para elefante, a julgar pelo vigor e pela amplidão mandibular a que essa mastigação o obriga.




"Sra. Michel? , pergunta.

E põe um embrulho entre minhas mãos.

"Não há nada para assinar?", pergunto

Mas ele já desapareceu.

     É um pacote retangular embrulhado em papel kraft amarrado com barbante, do tipo desses que se usam para fechar sacos de batatas ou para arrastar no apartamento uma rolha de cortiça com a finalidade de distrair o gato e obrigá-lo ao único exercício que ele consente. Na verdade, esse embrulho com barbante me faz pensar nas embalagens de seda de Manuela, pois, embora nesse caso o papel seja mais rústico que sofisticado, há no cuidado dispensado à autenticidade do embrulho algo similar e profundamente adequado. Note-se que a elaboração dos conceitos mais nobres se faz com base no trivial mais grosseiro. O belo é a adequação é um pensamento sublime surgido das mãos de um boy ruminante. Depois que sai, fico sentada diante de minha xícara vazia de chá. sobrou um mediant, que mordisco, de gula, com os dentes da frente, como um camundongo.

    A estética, se refletirmos um pouco a sério, nada mais é que a iniciação à Via de Adequação, uma espécie de Via do Samurai aplicada à intuição das formas autênticas. Todos nós temos implantados em nós o conhecimento do adequado.É ele que, a cada instante da existência, nos permite captar sua qualidade e, nessas raras ocasiões em que tudo é harmonia, desfrutá-la com a intensidade requerida. E não falo dessa espécie de beleza que é domínio exclusivo da Arte. Os que, como eu, são inspirados pela grandeza das pequenas coisas a perseguem até no coração do não essencial, onde, revestida de trajes cotidianos, ela brota de um certo ordenamento das coisas ordinárias e da certeza de que é como deve ser, da convicção de que é bem assim.

     Solto o barbante e rasgo o papel. É um livro, uma linda edição encadernada de couro azul-marinho, com um grão grosseiro muito wabi. Em japonês, wabi significa "uma forma apagada do belo, uma qualidade de requinte mascarada de rusticidade." Não sei muito bem o que isso significa, mas a encadernação é incontestavelmente wabi.

     Ponho os óculos e decifro o título.

(Em: A elegância do Ouriço, Mariel Barbery. pags. 174,175. Ed.Cia das Letras , São Paulo 2008)