sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Adeus, Mr. Chips

Despertadas pelo calor do fogo e pelo suave aroma do chá, vieram-lhe milhares de recordações emaranhadas dos velhos tempos. Primavera de 1896. Tinha Chips quarenta e oito anos, uma idade em que uma permanência de hábitos começa a se fazer predizível. Acabava de ser nomeado diretor do internato; com isso e com as aulas de clássicos ele tinha arranjado na vida um lugarzinho confortável e movimentado. Durante as férias de verão, subiu Chips ao Lake District com Rowden, um colega seu; caminharam e escalaram montanhas, uma semana inteira, até que Rowden teve de partir subitamente por causa de assuntos de família. Chips ficou sozinho em Wasdale Head, onde se hospedou em pequena granja. Um dia,  escalando o Great Gable, deu com uma rapariga que acenava excitadamente do alto dum recife de aspecto perigoso. Julgando-a em dificuldades, Chips precipitou-se na direção dela, mas ao fazer isso, escorregou e deslocou o tornozelo. Acontecia que a moça não se achava absolutamente em apuros, mas estava apenas a fazer sinais para uma amiga lé em baixo na encosta da montanha. Tratava-se duma alpinista experimentada, muito melhor que Chips, que já era bastante bom. Foi assim que ele se viu em posição de socorrido em vez de na de socorredor, e para nenhum desses dois papéis tinha Chips muito gosto.  Porque, como ele próprio dizia sempre,  não fazia caso das mulheres, nunca se sentia bem ou à vontade na companhia delas. E aquela criatura monstruosa a respeito de quem se começava a falar - a Mulher Nova do fim do século - enchia-o de horror. Era ele uma pessoa tranqüila  e convencional e o mundo, olhando do seu refúgio de Brookfield, parecia-lhe cheio de inovações intragáveis. Havia um sujeito chamado Bernard Shaw que tinha as opiniões mais estranhas e censuráveis; havia também um tal Ibsen, com suas peças perturbadoras; e ainda aquela mania  doida pela bicicleta que se estava apoderando tanto dos homens como das mulheres. Chips não concordava com todas essas novidades e liberdades modernas. Tinha a vaga noção, talvez jamais formulada, de que as mulheres deviam ser frágeis, tímidas e delicadas e que os homens deviam tratá-las com um cavalheirismo polido mas um pouco distante. Não esperava, portanto,  encontrar uma mulher no Great Gable; mas como se lhe  tivesse deparado uma que lhe pareceu necessitar de apoio masculino, o mais horrível ainda  foi que os papéis se invertessem  e viesse ela a socorrê-lo. Porque isso foi o que a moça fez. Ela e a amiga. Chips mal podia caminhar e difícil tarefa foi fazê-lo descer a íngreme trilha que levava a Wasdale. 
     Chamava-se Katherine Bridges; com os seus  25 anos, bem podia ser filha de Chips. Tinha olhos azuis e fulgurantes, faces pintalgadas de sardas e cabelos lisos cor de palha. Achava-se também hospedada  na granja, gozando férias em companhia da amiga. Como se considerasse responsável pelo acidente de Chips, costumava montar na sua bicicleta e, perlongando  a margem do lago, ir até a casa onde aquele tranquilo senhor de ar sério se encontrava em repouso. Foram estas as suas primeiras impressões dele. E Chips, porque a visse andar de bicicleta a visitar sozinha e sem medo um homem na sala duma casa-de-campo, ficou a fazer reflexões sobre os rumos que o mundo ia tomar. A luxação de Chips pô-lo à mercê da rapariga.  E em breve ele havia de ter a revelação do quanto podia precisar daquela mercê.  Miss Bridges era uma governanta em disponibilidade e senhora de pequenas economias; lia e admirava Ibsen; acreditava em que as mulheres deviam ser admitidas nas Universidades; achava mesmo que deviam ter o direito de voto.  Em política, era radical com inclinações pelas doutrinas de homens como Bernard Shaw e William Morris.  Durante aquelas tardes de verão em Wasdale Head, ela expôs livremente à Chips todas as suas ideias e opiniões. E ele, que não era palrador, a princípio achou que não valia a pena contradizê-la. A amiga de Kathrine Bridges foi embora, mas ela ficou.  Que é que a gente pode fazer com uma criatura assim? - pensou Chips. Apoiado em bastões, costumava sair a manquejar pela estrada de pedra junto da parede e era agradável ficar sentado ali, com o rosto voltado para a luz do sol e para a majestade pardo-esverdeada do Gable, a escutar a charla duma - certo, Chips tinha de reconhecer, duma linda moça.
     Nunca encontrara ninguém como ela. Sempre achava que o tipo moderno, aquela história de " mulher nova", havia de causar-lhe repulsa. E lá estava Miss Bridges a fazer que ele ficasse positivamente ansioso por avistar  a sua bicicleta baixa a correr pela estrada que beirava o lago. Ela por sua vez não conhecia ninguém como ele. Achara sempre que esses senhores de meia-idade, que lêem o Times e não aprovam as coisas modernas, são terríveis maçadores; no entanto lá estava Chips, a atrair-lhe a atenção e o interesse mais do que muitos moços da idade dela. Miss Bridges gostava de Mr. Chipping, inicialmente porque ele era tão difícil de se conquistar, porque tinha maneiras tranqüilas e delicadas, porque suas opiniões datavam daquela incribilíssima época da casa dos setenta e dos oitenta no século passado e mesmo de antes, mas opiniões, entretanto, que por tudo isso mesmo eram absolutamente honestas; e porque - porque seus olhos eram castanhos e ele ficava encantador quando sorria.
     - Está claro que eu vou te tratar por Chips também - declarou ela que era esse o seu apelido na escola.
     Dentro de uma semana estavam perdidamente enamorados um do outro; antes de Chips poder caminhar sem a ajuda de bengalas, eles se consideravam noivos. Casaram-se em Londres uma semana antes do princípio do trimestre de outono.

(Cap. IV, Adeus Mr. Chips, James Hilton. Ed Record 1962 - )

Mantida a grafia original