quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Quarta-feira é dia de Varlam Shalámov



                          O jantar terminou. Gliébov lambeu a tigela demoradamente; juntou com cuidado as migalhas de pão da mesa na palma da mão esquerda, ergueu a mão até a boca e lambeu-a com zelo. Sem engolir, sentiu na boca como a saliva densa e ávida envolvia a bolinha de migalhas de pão. Gliébov não poderia dizer se isso era saboroso. Sabor era outra coisa, pobre demais em comparação com aquela sensação apaixonada e desprendida dada pela comida. Gliébov não tinha pressa de engolir: o próprio pão derretia na boca, e derretia rapidamente.
Os olhos brilhantes e encovados de Bagrietsov olhavam fixamente para dentro da boca de Gliébov; não havia em ninguém força de vontade poderosa o bastante para fazer desviar os olhos da comida que desaparecia na boca de outro ser humano. Gliébov engoliu a saliva, e, no mesmo instante, Bagrietsov voltou os olhos para o horizonte, para a lua grande e alaranjada, deslizando no céu.





– Está na hora –disse Bagrietsov.
Calados, seguiram a trilha do penhasco e subiram até uma pequena reentrância, ao redor da "sopka"¹; o sol desaparecera havia pouco, mas as pedras, que durante o dia queimavam as solas através das galochas de borracha calçadas nos pés nus, já estavam frias. Gliébov abotoou a "telogreika"². A marcha não o aquecia.
– Longe, ainda? –perguntou num murmúrio.
– Sim –respondeu Bagrietsov baixinho.
Sentaram-se para descansar. Não havia o que dizer, não havia o que pensar, tudo era claro e simples. No patamar, no final da reentrância, montes de pedras entulhadas, cobertas de musgo arrancado e ressequido.
– Eu podia fazer isso sozinho –sorriu Bagrietsov,– só que em dupla é mais animado. E, além disso, um velho amigo...
Tinham sido trazidos no mesmo vapor, um ano antes.
Bagrietsov parou.
– Temos que deitar, senão vão ver.
Deitaram e começaram a jogar as pedras para o lado. Não havia ali pedras tão grandes que os dois juntos não conseguissem erguer ou deslocar, pois aqueles que as tinham jogado pela manhã não eram mais fortes do que Gliébov.
Bagrietsov praguejou baixinho. Arranhara o dedo, pingava sangue. Polvilhou a ferida com areia, rasgou uma nesga de algodão da "telogreika" e amarrou ali; o sangue não estancava.
– Baixa coagulação –disse Gliébov, indiferente.
– Você é médico, por acaso? –perguntou Bagrietsov, chupando o sangue.
Gliébov ficou calado. O tempo em que fora médico parecia muito distante. Aquele tempo existira realmente? Com frequência, o mundo além das montanhas, além dos mares, parecia-lhe uma espécie de sonho, de invenção. Real era o minuto, a hora, o dia, desde a alvorada até o toque de recolher; além desse ponto ele não planejava e não encontrava forças dentro de si para planejar. Assim como todos.
Ele não conhecia o passado das pessoas que o cercavam, não se interessava por isso. Aliás, se amanhã Bagrietsov anunciasse ser doutor em filosofia ou marechal da aviação, Gliébov acreditaria nele sem pensar. E ele, será que fora médico algum dia? Havia perdido não apenas o automatismo da reflexão, mas também o automatismo da observação. Gliébov viu que Bagrietsov chupava o sangue do dedo sujo, mas não disse nada. Isso apenas roçou sua consciência, mas ele não conseguiu encontrar, e nem buscou, força de vontade para responder. A consciência que ainda lhe restava, e que talvez já não fosse humana, tinha limites estreitos demais e agora estava orientada para uma única coisa: tirar as pedras o mais rápido possível.
– Fundo, será? –perguntou Gliébov, quando deitaram para descansar.
– Como é que pode ser fundo? –perguntou Bagrietsov.
E Gliébov percebeu que tinha falado besteira, o buraco realmente não podia ser fundo.
– Aqui –disse Bagrietsov.
Ele atingira um dedo humano. O dedão do pé espiava por entre as pedras, bem visível à luz da lua. Não se parecia com os dedos de Gliébov ou de Bagrietsov, mas não porque estava sem vida e congelado, nisso havia pouca diferença. A unha do dedão morto estava cortada, o dedo era mais grosso e mais macio do que o de Gliébov. Afastaram às pressas as pedras com as quais o corpo fora coberto.
– Bem jovem –disse Bagrietsóv.
Juntos, puxaram o cadáver pelas pernas com dificuldade.
– E forte –disse Gliébov, suspirando.
– Se não fosse tão forte –disse Bagrietsov–, teria sido enterrado como enterram todos nós, e não precisaríamos vir aqui hoje.
Endireitaram os braços do morto e puxaram a sua camiseta.
– Ceroulas bem novas –disse Bagrietsov, satisfeito.
Arrancaram também as ceroulas. Gliébov escondeu o bolo de roupa sob a "telogreika".
– É melhor vestir –disse Bagrietsov.
– Não, não quero –murmurou Gliébov.
Ajeitaram o morto de novo no túmulo e jogaram pedras em cima.
A luz azul da lua nascente deitava-se sobre as pedras, sobre o minguado bosque de taiga, mostrando cada reentrância, cada árvore numa forma particular, não diurna. Tudo parecia verdadeiro à sua maneira, mas não como durante o dia. Parecia outra imagem do mundo, noturna.
A roupa de baixo do morto aqueceu-se no peito de Gliébov e já não parecia alheia.
– Fumar seria bom... –disse Gliébov, sonhador.
– Amanhã você fuma.
Bagrietsov sorriu. Amanhã venderiam a roupa de baixo, trocariam por pão e, quem sabe, talvez até conseguissem um pouco de tabaco... 


 Varlam Shalámov (1907-1982) escritor russo. Passou 22 anos em um gulag. Desta experiência pavorosa surgiram os Contos de Kolimá, publicados inicialmente como samizdat na Europa ocidental. Morreu cego e surdo, num hospital psiquiátrico, onde foi internado contra a sua vontade.

Tradutoras:
Denise Sales é professora de língua e literatura russas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Elena Vasilevich, russa radicada no Brasil, é doutoranda em literatura na USP.



The Guardian fala sobre Varlan Shalamov