segunda-feira, 29 de junho de 2015

Segunda-feira poética: Marina Colasanti

Atrás do Tronco


Toda vez que o nome do meu pai
ou a expressão "meu pai"
vem combinada com a palavra "guerra"
uma alta palmeira cresce em mim
e atrás do tronco há um homem escondido.
Um homem escondido que pode ser um morto
ou pode ser um assassino
um homem tão oculto quanto oculto
é o seu destino.
É o inimigo
ali posto pela voz do meu pai
quando lhe perguntei
se havia matado muitos nas tantas guerras
de que se orgulhava.
Na guerra 
disse ele
é impossível saber
se o inimigo escondido atrás de um tronco
aquele em que atiramos em defesa
e que não mais se vê
está vivo
está morto
está ferido
ou sequer estava
atrás do tronco.

Gargantas Abertas, Marina Colasanti. Rio de Janeiro:  Rocco,1998