quarta-feira, 6 de maio de 2015

Morreste-me, José Luis Peixoto


Acabei de ler Morreste-me de José Luís Peixoto.  Pela capa do exemplar fico sabendo que foi o livro que revelou o autor em 2000. Estou, portanto, atrasada em 15 anos.  O livro trata  luto do autor ao mesmo tempo em que homenageia seu pai. Me chamou a atenção a forma concisa e poética de José  Luís Peixoto.  Recomendo a leitura.






"Pai. A tarde dissolve-se sobre a terra, sobre a nossa casa. O céu desfia um sopro quieto nos rostos. Acende-se a lua. Translúcida, adormece um sono cálido nos olhares. Anoitece devagar. Dizia nunca esquecerei, e lembro-me. Anoitecia devagar e, a esta hora, nesta altura do ano, desenrolavas a mangueira com todos os preceitos e, seguindo  regras certas, regavas as árvores e as flores do quintal; e tudo isso me ensinavas, tudo isso me explicavas. Anda cá ver, rapaz. E mostravas-me. Pai. Deixaste-te ficar em tudo. Sobrepostos na mágoa indiferente  deste mundo que finge continuar, os teus movimentos, o eclipse dos teus gestos. E tudo isto é agora para te conter. Agora, és o rio, e a tarde  dentro do dia, e o sol dentro da tarde; és o mundo todo por seres a tua pele. Pai. Nunca envelheceste, e eu queria  verte velho, velhinho aqui no nosso quintal, a regar  as árvores , a regar as flores. Sinto tanta falta de tuas palavras. Orienta-te rapaz. Sim. Eu oriento-me, pai. E fico. Estou. O entardecer, em vagas de luz, espraia-se  na terra que te acolheu e conserva. Chora chove brilho alvura sobre mim. E oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais poderei ouvir. A tua voz calada para sempre. E, como se adormecesses, vejo-te fechar as pálpebra sobre os olhos que nunca mais abrirás. Os teus olhos fechados para sempre. E, de uma vez, deixas de respirar. Para sempre. parra nunca mais. Pai. Tudo o que te sobreviveu me agride, Pai.  Nunca esquecerei." (Morreste-me Págs. 18 e 19).
 
Obras de José Luís Peixoto:
 
Morreste-me (Prosa, 2000)
Nenhum Olhar (Romance, 2000) 
A Criança em Ruínas (Poesia, 2001)
Uma Casa na Escuridão (Romance, 2002) 
A Casa, a Escuridão (Poesia, 2002)
Antídoto (Prosa, 2003) 
Cemitério de Pianos (Romance, 2006)
Cal (Prosa e Teatro, 2007)
Gaveta de Papéis (Poesia, 2008)
Livro (Romance, 2010)
Abraço (Prosa, 2011)
A Mãe que Chovia (Infantil, 2012)
Dentro do Segredo (Viagens, 2012) 
Galveias (Romance, 2014)


Imagens e bibliografia do site do autor.