quinta-feira, 5 de março de 2015

Wabi, A Página Que Estou Lendo.




Imagem: Regina Porto

É um boy que masca chiclete para elefante, a julgar pelo vigor e pela amplidão mandibular a que essa mastigação o obriga.




"Sra. Michel? , pergunta.

E põe um embrulho entre minhas mãos.

"Não há nada para assinar?", pergunto

Mas ele já desapareceu.

     É um pacote retangular embrulhado em papel kraft amarrado com barbante, do tipo desses que se usam para fechar sacos de batatas ou para arrastar no apartamento uma rolha de cortiça com a finalidade de distrair o gato e obrigá-lo ao único exercício que ele consente. Na verdade, esse embrulho com barbante me faz pensar nas embalagens de seda de Manuela, pois, embora nesse caso o papel seja mais rústico que sofisticado, há no cuidado dispensado à autenticidade do embrulho algo similar e profundamente adequado. Note-se que a elaboração dos conceitos mais nobres se faz com base no trivial mais grosseiro. O belo é a adequação é um pensamento sublime surgido das mãos de um boy ruminante. Depois que sai, fico sentada diante de minha xícara vazia de chá. sobrou um mediant, que mordisco, de gula, com os dentes da frente, como um camundongo.

    A estética, se refletirmos um pouco a sério, nada mais é que a iniciação à Via de Adequação, uma espécie de Via do Samurai aplicada à intuição das formas autênticas. Todos nós temos implantados em nós o conhecimento do adequado.É ele que, a cada instante da existência, nos permite captar sua qualidade e, nessas raras ocasiões em que tudo é harmonia, desfrutá-la com a intensidade requerida. E não falo dessa espécie de beleza que é domínio exclusivo da Arte. Os que, como eu, são inspirados pela grandeza das pequenas coisas a perseguem até no coração do não essencial, onde, revestida de trajes cotidianos, ela brota de um certo ordenamento das coisas ordinárias e da certeza de que é como deve ser, da convicção de que é bem assim.

     Solto o barbante e rasgo o papel. É um livro, uma linda edição encadernada de couro azul-marinho, com um grão grosseiro muito wabi. Em japonês, wabi significa "uma forma apagada do belo, uma qualidade de requinte mascarada de rusticidade." Não sei muito bem o que isso significa, mas a encadernação é incontestavelmente wabi.

     Ponho os óculos e decifro o título.

(Em: A elegância do Ouriço, Mariel Barbery. pags. 174,175. Ed.Cia das Letras , São Paulo 2008)