quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Tem Gringo Na Academia Brasileira

                            Só no ano passado soube que Mia Couto é sócio - correspondente da A.B.L    e por causa disso descobri que existem 20 cadeiras cujos ocupantes são estrangeiros.  
   

Vamos ver quem são os sócios correspondentes colegas de Mia Couto?


1-Didier Lamaison - França.
2-Mário Soares - Portugal
3-Antônio Valdemar
4-Antônio Braz Teixeira -Pportugal
5-Mia Couto - Moçambique
6-Arnaldo Saraiva - Portugal
7-Joaquim Veríssimo Serrão - Portugal
8-Agustin Buzarra - Romênia
9-Adriano Moreira - Portugal
10-Augfustina Bessa-Luis - Portugal



11-José Carlos Vasconcelos - Portugal
12- Fred P. Ellison - USA
13-Jean D'Omesson França
14-Daisaku Ikeda - Japão
15-Claude L. Hulet - USA
16-Leslie Bathell - Inglaterra
17-Antônio Maura - Espanha
18-Gregory Rabassa - USA
19- Alain Taurine- USA
20-Eduardo Lourenço Faria - Portugal

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Marina Rubini:Nota Mil Duas Vezes!

                                    Essa bela jovem, hoje estudante do 2º ano de medicina da UNISUL (Florianópolis-SC), tirou nota 1000, a nota máxima da redação do ENEM, e por duas vezes seguidas em 2011 e 2012.  
                                  Em rápida entrevista concedida à Revista Veja, Marina diz que erros de concordância e gramática são os mais comuns nas redações. Alerta também que os estudantes têm grande dificuldade de argumentar: "é preciso ter informação e saber contextualizá-la", explica Marina. A futura médica ainda diz que escrever bem não é um dom, mas um exercício.


ESCREVER BEM NÃO É UM DOM, MAS UM EXERCÍCIO.


                          Para auxiliar outros candidatos às universidades Marina Rubini  dá  "aulões" ao vivo, em uma plataforma onde mais de 200 estudantes já chegaram a acompanhar a jovem explicar, em vídeo, áudio, slides e chat, conceitos de produção de textos dissertativos. 






Fontes: Revista Veja Ed.2.397, de 29.10.14,pags. 46/47

sábado, 25 de outubro de 2014

Oração, Milton Nascimento e Fernando Brandt

Pai Nosso que não estás aqui
Sacrificado é o vosso povo
Humilhados e ofendidos são os nossos homens
Deserdados e famintos são os nossos filhos
Feridos e estéreis são nossos ventres
Aqui, na terra.
O pão nosso de cada dia
A alegria nossa de cada dia
O amor nosso de cada dia
O trabalho nosso de cada dia:
Venham a nós, voltem a nós
De trem, de carro ou navio.
Não nos deixei cair em lamentações
Mas livrai-nos desse vazio. 



Gravadora: Biscoito Fino
Ano: 2009

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A Festa de Ziraldo, C.D. da Andrade

Vou à festa de Ziraldo,

vou levando o Jeremias.
Ziraldo vai me mostrando
o tom de Flicts da Lua.
Jeremias, meu compadre,
meu anjo da guarda de óculos,
dá uma de milagreiro
fazendo que a supermãe
largue o súper,se tornando
mãe comum ao natural.
A festa vai esquentando
dentro e fora da piscina.
Jeremias e Ziraldo
ao soar a concertina
já se tornam jerizaldo
e Ziralmias, no caos?
Entra a Rainha, entra o Príncipe
da Grã -Britânia ou Caxias,
entra toda a macacada
com sentido na cerveja,
no hot-dog e n restante
quese pega ou se fereja,
mas Ziraldo, ziraldando,
e Jeremias, quebrando
o galho de toda gente,
me mostram que a melhor festa,
de todas a mais bacana,
inserida no contexto,
está nos livros-mandinga,
nos cartoons,bonecos, bolos
incomparáveis de um certo
mineiro de Caratinga.





quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Leio Livros (quase) Sem Pagar!!

                              Você tem algum vício?  Eu tenho. Aliás, tenho 2... livro é um deles. Uma capa bonita, uma citação, um comentário, tudo me leva a querer ler.  


                              Sabe o fumante que acende um cigarro na bituca do outro? Faço isso com livro. Nããão! Eu não queimo livro. Eu começo um imediatamente após o outro.   


                              Pensam que vivo comprando livro???  Eu não!  Quem tem grupinho de leitura de livro gasta muito pouco e lê bastante.  Até o momento li  10 livros dos quais, apenas 3 fui eu que comprei.  Nosso grupo existe há oito anos e está sempre enviando ou pedindo livros emprestados. 


Ah, fazemos sorteios mensais também.  Querem ver o que eu ganhei e  recebi hoje?


Aqui está quem me enviou: Antônio Neto, professor de Português na pequenina e bela cidade de Santa Maria de Jetibá - ES é um contista premiado. Breve trago para cá, textos desse amigo leitor.  

Junto com o livro, recebi folderes da cidade que me deu vontade de conhecer.



Recebi também um simpático cartãozinho. Não é fofo? 
                     Morram de inveja.  



Alguém já leu  O Segredo do Meu Marido, o livro que eu ganhei?



Ah, meu segundo vício é chocolate, mas esse eu vivi tentando controlar.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Poesia da África IV - Amélia Veiga.




Ilha de Mussulo - Angola


Inútil
Amélia Veiga

inútil beber o perfume
de estrelas ignoradas…
inútil encharcar os olhos
na neblina azul das madrugadas…
inútil este meu escancarar
de secretas cadeias…
inútil a comoção
que me percorre as veias…
inútil o esforço heróico
do meu ventre…
a esperança está morta
… ou doente…
pássaro, que esvoaças
num céu que o sol enfeita,
não pressentes o tiro
que te espreita?
semente, que irrompes
alucinada de calor e terra,
não pressentes a bota
que te calca e enterra?
música que te evolas
em ritmos de cor e poesia,
não presentes o trovão
que te confunde a agonia?

vida,
que brilhas nos olhos das crianças,
para que mentes,
para que enfeitas de luas e esperanças
os teus cancros de pus?
vida!
para que nos serves lama
em bandejas de luz?


Amélia Veiga.
Conheça também:



segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Melhores Capas de Revista de 2014



Categoria revista impressa:

Prêmio do Juri:
Capa de:Daniel Mangione,Pablo Miyazawa e Raphael Galassi (Editora Spring)


Prêmio Popular 
Capa de:Patricia Hargreaves,Bruna Sanches,Elias Silveira e Marcel Nadale (Editora Abril)


Categoria Revista Digital:
Capa de: Beatriz Marques,Laura Mascarenhas,Sérgio Cury,Adriana Morrone e Alexandre Fedrizzi (Editora Tês)




Noventa e Três, Mia Couto

                                          

                                               Foram entrando um por um. O velho estava na cabeceira, cabeceando. À medida que entravam alguém anunciava os nomes, descrevendo em alta voz o jeito dos vestidos. Os netos encheram a sala, os bisnetos sobraram no quintal. O avô levantava um olhar silencioso, sem luz. Sorria o tempo todo: não queria cometer indelicadeza.O avô fingia , aniversariamente. Porque em nenhum outro dia os outros dele se recordavam. Deixavam-no poeirando com os demais objetos da sala.
     Esta noite, as prendas se juntam e ele apalpa os embrulhos. O seu gesto não leva desacerto. Afinal, não há mão mais segura que a do cego. Porque o cego agarra  o que há e o resto não acontece. Lugar de quem não vê está sempre certo:  afinal, só erra quem pode escolher. O velho agradece, vidente invisual. Tudo estando longe da vista, perto do coração.
     Os convidados ficam um tempito junto dele, não sabem o que dizer, não há quase nada a dizer, o velho ouve só acima das gritarias. Depois, quem sabe olhar um cego¿ Vendo-o  assim esplendoroso, acreditam,para sossego deles, que o avô já tenha adormecido. O dia lhe sendo igual à noite, o cego bem deve dormir de ouvido.
     Mas o avô apenas se finge dormindo. Naquele enquanto, ele apenas aguarda uma fresta para poder  exercer sua mais secreta malandrice. Todos os dias escapa do lar. Quando a cidade refreia o pulso, ele sai à rua. Nunca lhe notaram essas ausências. Nem imaginam que, andando em tropeços  tão pequenos que nunca chega a cair, ele diariamente se evade para o jardim público. Vai encontrar seus dois vigentes amigos: um gato silvestre  e Ditinho,o menino da rua, desses que perderam morada. O miúdo lhe conversa e o velho lhe oferece uma nenhumita coisa que roubou de casa.Para ambos o mundo é muito grande. Cansado de puxar estória, o miúdo adormece. Amolecido o avô também se aplica no banco de jardim. Até que aparece o gato, mais meloso que remeloso. O gatito se esfrega, seu todo corpo é uma língua lambendo o velho. O bicho ronrona farfalhante. Gato que ama é sempre asmático?
     Agora, por entre os barulhos que invadiram  toda a casa , o avô sente saudade do jardim. Será que pode sair?
     - Sair?
     Os familiares se admiram, indignados. Então no preciso dia de anos¿ E aonde¿ O velho se resigna, desistido. Que ele era de manias já  sabiam. Há três anos atrás ele decidira fazer seu próprio caixão. A família se perguntava: que deu nele¿ A filha mais velha estremeceu: seria pressentimento¿ Os irmãos, contudo,riram: disparate!  O velho, no entanto, prosseguia a construção. Hoje um toque , amanhã um retoque. Esta é a morada a mais definitiva, obra para nossa eternidade, não será que vale a pena cuidar dela?  Vocês estão a vida inteira trabalhando para eerguer casa provisória; eu trabalho no definitivo.
     Por isso, os familiares não se perturbam com os desejos do velho. Em plena comemoração da sua idade ele quer ir passear-se longe e sozinho? Coisa de menino, delírio infantil. E assim deixam o velho na poltrona da cabeceira , em aparência de sono. Todos se garantem de que ele não precisa mais cuidado. Mas a ilusão de estar certo nasce de todos estarem errado no mesmo momento. Pois, o velho, de repente, proclama a súbita pergunta:
     - Me desculpem vocês todos: mas, fim ao cabo, quantos anos eu faço?
    Riram-se. O velho malandrava, devia fingir esquecimento. Uma voz se levanta, lhe anunciando a idade. O velho franze a testa desconfiado:
     - Noventa e três?
   Parecia atónito. No restante da noite, ele intervalava a cada hora com repentinos espantos. E voltava:
     Noventa e três?
    Mais tarde, já as danças se emparelhavam. O velho tropeçando entre os casai, aborda um alguém: me desculpa, meu filho, em que ano estamos?
     - Noventa e três, pai.
     Não, corrige o velho. Pergunto em que ano estamos. Mas já ninguém estava. A multidão ruidosa, acelera os festejos. Naquela alegria não cabem os avôs. As bebidas correm, as mentes se vão tornando líquidas.
Finalmente trazem o bolo de aniversário. O velho sopra em todo o lado menos no bolo. Decidem todos juntos apagar as vela, na vez do festejado. O bolo é cortado rápido , há que regressar à alegria. O velho deve estar por aí dormindo, dizem, ele descansa assim no meio de qualquer momento. Mas o avô não dorme. Está quieto sofrendo de saudade dos seus companheiros da rua,Ditinho mais o gato. Esses, sim, mereciam pensamento.Só para eles, vadios do jardim, ele se sentia avô.
E sem que ninguém se aperceba, o aniversariante escapa do aniversário. Se adentra no jardinzito  e se estende no banco, suspirando uma leve felicidade. O gato desce da paisagem e se enrosca  docemente no braço. O velho lhe tinha reservado um doce roubado à festa. Ditinho chega depois, vindo de jantar um lixo.
     Diante do banco, o miúdo espreita curioso. Nunca o velho se apresentara tão tardio. A criança se senta familiar. Coloca a mão no bolso do avô, avalia-lhe o volume da carteira  e pergunta:
     -Então, quanto temos aqui?
     O velho sorri , leva a mão ao peito e proclama:
     - Noventa e três!
     Os olhos do miúdo relampejam:
     -Tudo isso? Estás rico, vovô!
     O velho concorda acendendo um sorriso. O menino tinha o coração em trabalho de parto:
Com esse tanto dinheiro hoje vamos fartar por aí: comer, beber, gargalhotar.

     E se levanta puxando o velho por uma escura ruela. O avô ainda se lembra: a minha bengala! Mas Ditinho responde: sua bengala,a partir de hoje, sou eu. E se afastam os dois, cada vez mais longe dos ruidos da festa de aniversário. No jardim, o gato esfrega uma saudade na esquecida bengala. Depois, corre pelo beco escuro, juntando-se aos dois amigos, que, já longe,festejam o tempo, comemorando o dia em que todos os homens fazem anos.

domingo, 19 de outubro de 2014

O Debate Eleitoral, César Feitoza



Cumpade, vou lhe contar
O que ontem aconteceu
E se eu me demorar 
Não fique brabo cum eu
E que ontem cheguei mais cedo
Em casa, da minha lida
Tomei banho e disse a Cida
“bote logo meu jantar,
mande os menino durmir”
Pru mode nóis assistir
O debate eleitorá

Meu cumpade eu sei que sou
Matuto do moxotó
Fio de mané cotó
Nunca tive muito estudo
Mas, amigo, não me iludo
E votar bem é preciso
E como estava indeciso
Sentei em frente a tv
Pra num ter muito improviso
Na hora de escolher
O palco já tava armado
Pros besta eles enganá
Com cada qual pro seu lado
Segurando um pedestá
Cada um dando de garra
De uma ruma de papel
De babão tinha um tonel
Uma tuia de assessor
Meia dúzia de jagunço
Magine o tamanho do furdunço
Valei-me nosso senhor
Então o apresentador
Com voz de vento encanado
Disse: “tá iniciado.
O debate começou”.
E então pronunciou
As regras dessa contenda
Aonde cada legenda
De falar tinha sua vez
Aprumei o pince nez
E pensei: “Eu tô num drama
Pra votar nessa eleição”
Mas depois desse programa
Eu tomo minha decisão
Eram só dois candidato
Um homem e uma mulher
Sem muito querequequé
E nem pose pra retrato
Começaro logo os dois
A partir pro enfrentamento
Sobrou nome de jumento
Corrupto, falso e ladrão
Nepotista de primeira
Veiaca, quenga, rameira
Fí dua égua, infeliz
Que acabou com o país
E defecou na bandeira
Cumpade, teve uma hora
Em que eu me alegrei
Pois parou o aperrei
Dos xingamentos de outrora
E então a candidata
Tentado a reeleição
Disse então que dessa data
Em diante a união
Esforços não mediria
A trabalhar noite e dia
P´ra acabar com a corrução
Então eu fiquei perdido
Feito bala sem endereço
Cocei os ói aturdido
E quase que endoideço
Se corrução já existia
No derradeiro mandato
Por que que ela de fato
Num acabou já no começo?
Quando ela disse isso
O candidato cresceu
Lascou no pé do toitiço
Os erros que cometeu
Lhe chamou de incompetente
De ladrona e imorá
E disse “pra Presidente
Você num vai mais ganhá”.
Amigo, quando ela ouviu
Esse mói de desaforo
O sangue véi lhe subiu
Deixando vermelho o couro
Pegou ar e foi dizendo:
Sujeito cabra safado
Quem é você pra falar
Das coisa do meu partido
Caboclo desenxavido
Que tropica e num se apruma
“ta vendo aquele magote
Sentado ali do teu lado
É tudo corno e viado
E ladrão tem uma ruma.
E o debate foi seguindo
Nesse mesmo tirinete
Vez em quando um mentindo
Ou então metendo o cacete
E eu, como eleitor
Fui ficando aperriado
Como é que vou votar
Nesse comboi de safado?
Ninguém disse como ia
Acabar com a sofrência
Que nos enche da carência
Que nos mata dia a dia
Pois num é bossa famia
Que nos dá dignidade
E sim oportunidade
De plantar e de colher
De estudar pra crescer
De num viver de esmola
De ter os filhos na escola
De trabalhar pra viver
Ninguém disse como ia
Acabar com a inflação
Que diminui a fartura
Do prato do cidadão
Ninguém deu a solução
Para a seca combater
Pros meus bichin não morrer
Nas quebradas do sertão
Cumpade, como é que pode
Suceder uma coisa dessa?
Como é que em vez de promessa
De plano de melhoria
Pra acaba com a carestia
Só dizem difamação
Como é que dois cristão
Que querem ser presidente
trata os ouvido da gente
Como se fosse latrina?
E continua nossa sina
E o país não vai pra frente
Toda essa xingação
Não faz a gente escolher
Pois a gente só quer ter
Os problema resolvido
Chega desse alarido
De caô de marqueteiro
Pois o povo brasileiro
Eles não vão governar
E se a gente não acertar
Quando votar nesse pleito
Nossa terra tão amada
Será de novo roubada
Nem nosso Senhor dá jeito

sábado, 18 de outubro de 2014

Dia de Eleição, Machado de Assis




                             Quando eu cheguei à seção onde tinha de votar, achei três mesários e cinco eleitores. Os eleitores falavam do tempo. Contavam os maiores verões que temos tido; um deles opinava que o verão, em si mesmo não era mau, mas que as febres é que o tornavam detestável. A quanto não ia a amarela? Chegaram mais três eleitores, depois um, depois sete, que, pelo ar, pareciam da mesma casa. Os minutos iam com aquele vagar do costume quando a gente está com pressa. Mais três eleitores. Nove horas e meia. Os conhecidos faziam roda. Uns falavam mal dos gelados, outros tratavam do câmbio. Um velho, ainda maduro, aventou uma boceta de rapé. Foi uma alegria universal. Com que, ainda tomava rapé? No meu tempo, disse o velho sorrindo, era o melhor laço de sociabilidade; agora todos fumam, e o charuto é egoísta.
        Nove e três quartos. Trinta e cinco eleitores. Alguns almoçados. Os almoçados interpretavam o regulamento eleitoral diferentemente dos que o não eram. Daí algumas conversações particulares à meia voz, dizendo uns que a chamada devia começar às dez horas em ponto, outros que antes.
           — Meus senhores, vai começar a chamada — disse o presidente da mesa.
        Eram dez horas menos um minuto. Havia quarenta e sete eleitores. Abriram-se as urnas, que foram mostradas aos eleitores, a fim de que eles vissem que não havia nada dentro. Os cinco mesários já estavam sentados, com os livros, papéis e penas. O presidente fez esta advertência:
        — Previno aos senhores eleitores que as cédulas que contiverem nomes riscados e substituídos não serão apuradas; é disposição da lei nova.
      Quis protestar contra a lei nova. Pareceu-me (e ainda me parece) opressiva da liberdade eleitoral. Pois eu escolho um nome, para presidente da República, suponhamos; ou senador, ou deputado que seja; em caminho, ao descer do bonde, acho que o nome não é tão bom como o outro, e não posso entrar numa loja, abrir a cédula e trocar o voto? Não posso também ceder a um amigo que me diga que a nossa amizade crescerá se eu preferir o Bernardo ao Bernardino? Que é então liberdade? É o verso do poeta: “e o que escrevo uma vez nunca mais borro”? Pelo amor de Deus! Tal liberdade é puro despotismo, e o mais absurdo dos despotismos, porque faz de mim mesmo o déspota. Obriga-me a não votar, ou a votar às dez e meia em pessoa que, pouco depois das dez, já me parecia insuficiente. Não é que eu tivesse de alterar as minhas cédulas; mas defendo um princípio.
     Tinha começado a chamada e prosseguia lentamente para não dar lugar a reclamações. Nove décimos dos eleitores não respondiam por isto ou por aquilo.
           — Antônio José Pereira — chamava o mesário.
           — Está na Europa — dizia um eleitor, explicando o silêncio.
           — Pôncio Pilatos!
           — Morreu, senhor; está no Credo.
           Um eleitor, brasileiro naturalizado, francês de nascimento, disse-me ao ouvido:
          — Por que não se põe aqui a lei francesa? Na França, para cada eleição há diplomas novos com o dia da eleição marcado, de maneira que só serve para esse. Se fizéssemos isto, não chamaríamos o senhor Pereira, que desde 1889 vive em Paris, 28 bis, rua Breda, nem o procurador da Judeia, pela razão de que eles não teriam vindo tirar o diploma, oito dias antes. Compreendeis?
          — Compreendi; mas há também abstenções.
          — Não haveria abstenção de votos. Os abstencionistas não teriam diplomas.
     A chamada ia coxeando. Cada nome, como de regra, era repetido, com certo intervalo, e eu estava três quarteirões adiante. Queixei-me disto ao ex-francês, que me disse:
         — Mas, senhor, também este método de chamar pelos nomes é desusado.
         — Como é então? Chama-se pelas cores? Pelas alturas? Pelos números das casas?
      — Não, senhor; abre-se o escrutínio por certo número de horas; os eleitores vão chegando, votando e saindo.
        — Sério?
        — Sério.
         — Não creio que nos Estados Unidos da América...
      Outro eleitor, brasileiro naturalizado, norte-americano de nascimento, acudiu logo que lá era a mesma coisa.
       — A mesma coisa, senhor. Não se esqueça que o time is money é invenção nossa. Não seríamos nós que iríamos perder uma infinidade de tempo a ouvir nomes. O eleitor entra, vota, retira-se e vai comprar uma casa, ou vendê-la. Às vezes mais, vai casar-se.
        — Sem querer saber do resultado da eleição?
     — Perdão, o resultado há de ser-lhe dito em altos brados na rua, ou em grandes cartazes levados por homens pagos para isso. Já tem acontecido a um noivo estar dizendo à noiva que a ama, que a adora, e ser interrompido por um pregoeiro que anuncia a eleição do presidente da República. O noivo, que viveu dois meses em meetings, bradando contra os republicanos, se é democrata, ou contra os democratas, se é republicano, solta um hurrah cordial, e repete que a ama, que a adora...
      — Padre Diogo Antônio Feijó! — prosseguia o mesário.
     Pausa.
     — Padre Diogo Antônio Feijó!
    Pausa.
    Eu gemia em silêncio. Consultei o relógio; faltavam sete minutos para as onze, e ainda não começara o meu quarteirão. Quis espairecer, levantei-me, fui até a porta, onde achei dois eleitores, fumando e falando de moças bonitas. Conhecia-os; eram do meu quarteirão. Um era o farmacêutico Xisto, outro um jovem médico, formado há um ano, o doutor Zózimo. “Feliz idade!”, pensei comigo; as moças fazem passar o tempo; e daí talvez já tenham almoçado...
      Enfim, começou o meu quarteirão; respirei, mas respirei cedo, porque a lista era quase toda composta de abstencionistas, e os nomes dos ausentes ou mortos gastam mais tempo, pela necessidade de esperar que os donos apareçam. Outra demora: cinco eleitores fizeram a toilette das cédulas à boca da urna, quero dizer que ali mesmo é que as fecharam, passando a cola pela língua, alisando o papel com vagar, com amor, quase que por pirraça. Para quem guarda Deus as paralisias repentinas? As congestões cerebrais? As simples cólicas? Não me pareciam homens que pusessem os princípios acima de uma pontada aguda. Mas Deus é grande! Chegou a minha vez. Votei e corri a almoçar. Relevem a vulgaridade da ação. Tartufo, neste ponto, emendaria o seu próprio autor:
Ah ! Pour être électeur, je n’en suis pas moins homme [Ah! Um eleitor, mas nem por isso menos homem].”
Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro  4, de março de 1894
Imagem retirada de blog 

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Só Eu Que Não Conheço Hannah Arendt!

     Hoje a filósofa e escritora alemã Hannah Arendt faria 108 anos. Eu não conhecia, aprendi agora com o simpático doodle do Google.

     Pelo Google fiquei sabendo que o livro mais conhecido dela, A Condição Humana, trata do desenvolvimento histórico da existência humana desde a Grécia Antiga até a Europa. 




     Existe edição em português de várias outras obras da autora que não gostava de ser chamada de filósofa. Mas era.


     Depois de ver este vídeo, tenho de ler Hannah Arendt.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Malala, Nobel da Paz

                    Ontem foi anunciado o vencedor do Nobel de Literatura.  Como sempre faço, devido ao assunto publiquei no blog  e você podem ver, clicando aqui


LivroErrante, todos sabem, é blog que só fala de livro, leitura, e afins. 


Imagem: The Guardian
 Hoje, porém, vou fazer uma exceção porque a última notícia que li me deixou feliz e emocionada:   O Prêmio Nobel da Paz, foi concedido a Malala Yousafzai,jovem paquistanesa, hoje com 16 anos, que em 2012 foi baleada na cabeça e pescoço numa tentativa de assassinato pelos Talibãs.  Vive na Inglaterra, porque ainda é ameaçada de mortte pelos terroristas. Malala tem sua história conhecida no mundo inteiro.   

Imagem: The Guardian
O livro da jovem Malala devia ser leitura obrigatória principalmente para mulheres que se escravizam com futilidades e gastam seu tempo esperando e cobrando dos outros possibilidades que carregam em si mesmas. 




Veja quais foram as Mulheres do Nobel da Paz desde a sua criação em 1901:



Ano
Ganhadora
País
Causa
2011
Ellen Johnson Sirleaf
Libéria
Recompensadas por suas lutas pacíficas pela segurança das mulheres e de seus direitos de participar nos processos de paz

Leymah Gbowee
Libéria

Tawalkul
Iêmen
2004
Wangai Maathar
Quênia
Ambientalista e ativista dos direitos humanos no Quênia
2003
Shirin Ebadi
Irâ
Ativista dos direitos humanos e defensora da implantação da democracia no seu país
1997
Jody Williams
USA
Pelo seu trabalho pela proibição do uso de minas antipessoais e sua remoção
1992
Rigoberta Menchu Tum
Guatemala
Pela sua campanha pelos direitos humanos, especialmente a favor dos povos indígenas
1991
Aung San SuuKyi
Myanmar
Líder da oposição, activista dos direitos humanos
1982
Alva Reimer Myrdal
Suécia
Delegada na Assembléia Geral de Desarmamento, das Nações Unidas
1979
Madre Tereza de Calcutá
Albânia
Pela luta contra a pobreza na Índia
1976
Bete Williams e Mairead Corrigan
Reino Unido
Fundadoras do Movimento das Mulheres para a Paz na Irlanda do Norte, mais tarde chamado de Peace People (Gente de Paz)
1946
Emily Greene Balch
USA
Presidente honorária internacional da Liga Internacional de Mulheres pela Paz e Liberdade
1905
Berta Von Suttner
Austria
Escritora e presidente honorária do Gabinete Internacional Permanente para a Paz