terça-feira, 30 de setembro de 2014

A Secretária, Rubem Braga

                           
               Procuro um documento de que  preciso com urgência.  Não o encontro, mas me demoro a decifrar minha própria letra, nas notas de umcaderno esquecido que os misteriosos movimentos na papelada pelas minha gavetas fizeram vir à tona.
     Isso é que dá encanto ao costume de gente ter tudo desarrumado. Tenho uma secretária que é um gênio nesse sentido. Perdeu, outro dia, cinquenta páginas de uma tradução.
     Tem um extraordinário senso divinatório, que a leva a mergulhar no fundo do baú do quarto da empregada os papéis mais urgentes; rasga apenas o que é estritamente necessário guardar mas conserva com rigoroso carinho o recibo da segunda prestação  de um aparelho de rádio,que comprei em São Paulo em 1941. Isso me formece algumas emoções líricas inesperadas: quem não se comove de repente quando está procurando um aviso de banco e encontra uma conta de hotel de teresina de quatro anos atrás, com todos os vales das despesas extrordinárias, inclusive uma garrafa de água mineral? Caio em um estado de pureza e humildade; tomar água mineral em Teresina, numa saleta de hotel, quatro anos atrás...
     Não importa que ela faça sumir, por exemplo, minha carteira de identidade. Afinal estou cansado de ssber que sou eu mesmo; não me venham lembrar essa coisa, que me entristece e desanima. Prefiro lembrar esse telefone de Buenos Aires que anotei, com letra nervosa em um pedaço de maço de cigarros, ou guardar com a maior criatividade esse bilhete que diz: "Estive aqui e não te encontrei. Passo amanhã. S. Quem é esse "S" ou essa "S" e por que , e onde e quando  procurou minha humilde pessoa? Que sei?  Era, afinal, uma criatura humana, alguém que me procurava. Lamento que não estivesse em casa. Espero que eu tenha tratado bem a "S.", que "S." tenha encontrado em mim um apoio e não uma decepção - e que ao sair de minha casa ou de meu quarto do hotel tenha murmurado consigo mesmo - "o Rubem é um bom sujeito".
     Há papéis de visão amarga, que eu deveria ter rasgado dez anos atrás; mas a mão caprichosa de minha jovem secretária, que o preservou carinhosamente, não será a própria mão da consciência   a me apontar esse remorso velho, a me dizer que devo lembrar o quanto posso ser inconsciente e egoísta? Seria melhor tlvez esquecer isso; e tento me defender diante desse papel velho que me acusa do fundo do passado.  Não, eu não fui mau; andava tonto; e pelo menos era sincero.
     Mas para que diabo tomei tantas notas sobre produção de manganês - e por que não mandei jamais essa carta afeuosa, tão cheia de histórias e tão longa a um amigo distante?
     Meus arquivos, na sua desordem, não revelam apenas a imaginação desordenada e o capricho estranho da minha secretária. Revelam a desarrumação mais profunda, que não pe de meus papéis, é de minha vida.
     Sim, estou cheio de pecados; e quando algum dia for chamado a um tribunal, humano ou celeste, para me julgar, talvea a única prova a meu favor  que encontre à mão seja essa pequena nota com um PG a lápis e uma assinatura ilegível que atesta que - se respondi com frieza a muita bondade e paguei com ingratidão ou esquecimento algum bem que me fizeram - pelo menos, Senhor, pelo menos é certo  que saldei corretamente a nota da lavagem de um terno de brim à lavanderia Ideal de Juiz de Fora, em 1936... 
E esta certeza humilde me dá um certo consolo.


Em: O Homem Rouco (1949)   

domingo, 28 de setembro de 2014

Mais Vendidos da Semana. Último domingo de setembro

                               Alguns livros passam até mais de um ano, no topo da lista dos mais vendidos e a maioria deles pode  ficar entre nas cinco primeiros colocações por várias semanas seguidas. Assim, com frequência, a diferença de uma semana para outra é muito pequena ou não há.   Ví, então, que é melhor publicar a lista  apenas uma vez por mês.  

Mais Vendidos da Última Semana de Setembro - FICÇÃO:



1 ) Se Eu Ficar - Gayle Form.












2) A Culpa é das Estrelas, John Green










3) Eternidade Por Um Fio, Ken Follet










4) Cinquenta Tons de Cinza, E.L James











5) A Guerra dos Tronos,George R.R. Martin










6) Cinquenta Tons de Liberdade, E.L.James
7) Cinquenta Tons Mais Escuros, E.L.James
8) A Dança dos Dragões, George R.R.Martin
9) O Festim dos Corvos, George R.R.Martin
10) A Tormenta das Espadas, George R.R. Martin

Mais vendidos da Última Semana de Setembro - NÃO FICÇÃO:
1)Getúlio 1945-1954, Lira Neto

2) Mentes Consumistas, Ana Beatriz Barbosa Silva
3) Guga, Um Brasileiro, Gustavo Kuerten
4) O Livro da Psicologia, Nigel Benson
5)Sonho Grande, Cristiane Correa
6)1889, Laurentino Gomes
7) O Diário de Anne Frank, Anne Frank
8) Aparecida, Rodrigo Alvarez
10) O Livro dos Negócios, Vários Autore



quarta-feira, 24 de setembro de 2014

História bonita: colou grau aos 97 anos.








Dona Chames Rolim sempre quis estudar direito, mas o marido ciumento não permitia. 
Viúva, a filha de libaneses entrou para a sonhada Faculdade de Direito de Ipatinga (Fadipa) em Minas Gerais. 

Formou-se aos 97 anos e diz que quer ser útil a quem procurá-la. 
Quer compartilhar conhecimento.

Perguntada se idade é impecilho, ela responde em francês: "Paresse" (preguiça). 
Acrescenta que sempre é possível aprender mesmo que seja a conviver melhor com as pessoas.

Veja o vídeo disponibilizado na internet deste exemplo de vitalidade e determinação.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Primavera, Olegário Mariano

Jarra com margaridas e anémonas, Van Gogh, Paris 1887
Terra florida. Estação nova. Tanta
Vida em redor. Ser fôlha quem me dera!
Cada arbusto que vejo é uma garganta,
Um grito de entusiasmo à Primavera!

Bendito o sol que no alto céu flameja
E desce fogo pelas serranias...
O sol é um velho sátiro que beija
Sôfregamente as árvores esguias.

Anda, tonto pelo ar, espanejante,
Umenxame fntástico de abelhas
Que estonteadoramente paira diante
De corolas e pétalas vermelhas.

Vida para o trabalho! Ouve-se o côro
Dos lavradores e das raparigas...
Ondula ao sol, como um penhacho de ouro,
A cabeleira fulva as espigas.

Primavera! No teu aspecto antigo,
Alucinante e triste muitas vêzes,
Quando chegas pelo ar trazes contigo
Calma e fartura para os camponeses.

Dás arrepios fortes e desejos...
Teu nome é seiva, é fôrça, é mocidade...
A terra anda a clamar pelos teus beijos
Que são sementes de fecundidade.

(In Toda Uma Vida de Poesia, vol 1 )


(Nota: o blog manteve a grafia original de 1918 - ano da publicação do poema)

domingo, 21 de setembro de 2014

Qual a Melhor Capa de Revista de 2014?

                                     Como sempre a contence a ANER, Associação Nacional de Ediktores de Revista está escolhendo a melhir capa do ano. Neste edição 19 capas estão concorrendo. São 16 de revista impressa e 3 de revista digital. 
                                    A votação está encerrada e o resultado vai ser vivulgado amanhã, mas você pode ver as concorrentes impressas aqui e as digitais aqui.




Minhas escolhidas são: Menu (Revista digital)
                                  Mundo Estranho
         

sábado, 20 de setembro de 2014

A Morte e o Lenhador, cordel

A MORTE E O LENHADOR
Marcos Mairton

 (adaptado da fábula de La Fontaine)


Foi o francês La Fontaine
Quem, certa vez, me contou
A história de um homem
Que pela morte chamou,
Mas depois se arrependeu,
Quando ela apareceu
E perto dele chegou.
Era um velho lenhador
Que andava muito cansado
Do fardo que, até então,
Ele havia carregado.
Um fardo que parecia
Sempre e sempre, a cada dia,
Mais incômodo e pesado.
Estava velho e doente,
Sentia o corpo doído.
Maltratado pelo tempo,
Seu semblante era sofrido.
Seguia, assim, seu caminho,
Atormentado e sozinho,
Sempre sujo e mal vestido.

Certa vez, ao fim do dia,
Quando ia pela estrada,
Para a choupana que então
Lhe servia de morada,
Foi obrigado a parar
Um pouco pra descansar
Da extensa caminhada.
Trazia um feixe de lenha
Que foi buscar na floresta.
Largou a lenha no chão,
Passou a mão pela testa,
Maldizendo-se da sorte,
Pensou: – É melhor a morte,
Que uma vida que não presta.
– Não consigo carregar
Essa lenha tão pesada.
Já não tenho mais saúde,
Meu ganho não dá pra nada,
Perseguido por credores,
Meu corpo cheio de dores,
Ai que vida desgraçada!
– Ó, Morte, onde é que andas,
Que não ouve o meu lamento?
Que não vem pra me tirar
Desse brejo lamacento?
Dona Morte, eu te rogo,
Venha acabar, venha logo,
Com meu grande sofrimento!
Aí, ela apareceu,
Com sua foice na mão.
Aproximou-se do velho
E disse logo: – Pois não.
Estavas a me chamar?
Em que posso te ajudar,
Querido filho de Adão?
O velho sentiu um frio
Lhe correr pelo espinhaço,
Quando a voz rouca da morte
Ecoou naquele espaço.
E pensou, na mesma hora:
“O que é que eu faço agora?
E agora o que é que eu faço?”
Então disse: – Essa honra,
Não acredito que eu tenha,
Que atendendo meu chamado
A senhora aqui me venha.
Mas, se posso pedir tanto,
Me ajude, por enquanto,
A carregar essa lenha!
A morte saiu dali
Um tanto desapontada,
E o velho foi embora
Cantarolando na estrada,
Porque, “mesmo padecendo,
Melhor é seguir vivendo
Que morrer sem sofrer nada”.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

A Droga Aniversariante: O Avesso dos Coroas, O Contrário dos Caretas.

                   Jovem, festejadíssimo ainda hoje, A Droga da Obediência completou 30 anos de sua primeira edição no mês de agosto.

 


Lançado em 1984 o livro traz uma história ambientada num colégio . Um grupo de colegas que vão se reunindo e acabam por se denominarem Os Karas, enfrentam uma trama internacional liderada pelo sinistro Dr. QI que pretende testar uma droga de submissão e obediência em adolescentes de colégios de São Paulo. A Droga da Obediência  seria, segundo o autor, um livro único. No entando o sucesso da aventura foi tamanho, ele recebeu tantas correspondências pedindo por outras aventuras e foi tão perguntado e recebeu tantas sugestões dos jovens leitores que aceitou o desafio e escreveu mais  4 livros.  Os Karas, Miguel,Crânio, Chumbinho e  Magri ficaram definitivamente na vida de crianças e jovens. O grupo de amigos foi, por certo, quem incentivou muita gente a ler.  Pedro Bandeira, através d'Os Karas  descobriu como chegar ao ponto de interesse de leitura dos jovens.  



Encontrei, por acaso, um velho exemplar   do livro A Droga da Obediência, numa estante no meu local de trabalho. Curiosa, li em 2 intervalos de almoço. Achei interessantíssimo. Não conhecia Pedro Bandeira  e também nunca mais li nada do autor. Minha filha leu todos, escreveu e recebeu resposta do hoje maior vendedor de literatura adolescente do Brasil.



Ao lado a capa da última edição do aniversariante A Droga da Obediência.



domingo, 14 de setembro de 2014

Mais Vendidos da Semana – Setembro 2014. 2

FICÇÃO

  1-Se Eu Ficar , Gayle Forman

     
   2-      A Culpa é das Estrelas, John Green









  







   3-      Quem é Você, Alasca, John Green
















   4-    4   A Seleção, Kiera Cass

















   5-      O Pequeno Príncipe, A.S.Exupéry


















NÃO FICÇÃO



                                            1-  Getúlio 1945-1954,Lira Neto










-









                                   2-  O Diário de Anne Frank,Anne Frank













                                                                     
                                               3-Sonho Grande,Cristiane Correa
-









                    4- Mentes Consumistas, Ana Beatriz Barbosa Silva











                 5-      O Livro da Psicologia, Nigel Benson

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Era Assim Séculos Atrás!



                               
                  Toda língua modifica-se ao longo do tempo. Houve época em que uma palavra começava com duas consoantes,  almoço já teve acento, hoje nem sempre teve h, pai terminava com "e".   A forma de escrever do século XIV ficou incompreensível pra nós. Para que você tenha uma ideia,trago um poema escrito  nos anos 1400.  





Cantiga de Amor do Rei de Leão e Castela Afonso X

Ben ssabia eu, mha senhor
Que, poys m'eu de vos partisse,
que nunc' aveeria sabor
De ren, poys vos eu non visse,
Porque vos ssode a melhor
Dona de que nunca oysse
                            [homem falar
Ca o vosso boo ssemelhar
                             [sey que par
Nunca lh'ome pod'achar
E poys que Deus assy quis
Que eu ss~~o tam alongado
Que vos, muy bem ssede ffis
Que nunca eu ssen cuydado
Em viverey,ca ia Paris
D'amor non foy tam coytado
                            [nem tristam
Nunca sopfrero tal affam
                            [ne [non] am
Quantos som nem seeram.
Que ffarey eu, poys que
                           [non vir
O muy bom parecer vosso?
Ca o mal que vos fey ferir
Aquel'e meu e non vosso
E por ende per rem partir
De vos muyt'amor non posso
Nem farey
Ante bem sey ca noirerey
Se non ey
Vos; que sempre y amey


Sugestão do blog:


Museu da Língua Portuguesa
Praça da Luz, Centro - São Paulo
Telefone: 11 3322 0080

Imperdível.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Segunda-feira poética: Mia Couto

Poema da despedida


Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
 os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
 nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo