sábado, 28 de junho de 2014

Copa do Mundo do blog



                                 Por falta de tempo, optei por fazer uma copa do mundo com os livros que passaram por minhas mão nos últimos seis meses. Por sorteio atribui um título a cada país ( não houve, portanto, preocupação de escolher um livro de autor do pais que está jogando)  e esses livros jogarão e terão o placar igual ao do jogo real. Copa do mundo de brincadeira já começa nas oitavas de final e hoje jogaram:


 Avódezanove, Ondjaki 3 x 2 A Confissão da Leoa, Mia Couto








Em Alguma Parte Alguma, Ferreira Gullar 2 x 0 A Máquina de Fazer Espanhóis, Valter Hugo Mãe



Avódezanove x Em Alguma Parte Alguma  
Jogam no dia 4 de julho às 17h
na Arena Castelão - Fortaleza




Próximos jogos das oitavas de final:





Nosso Reino, VHM 2 x 1 A Sul, O Sombreiro, Pepetela
dia 29 de junho - 13h
Arena Castelão
Nosso Reino joga com O Conto da Ilha Desconhecida
no dia 5  de julho






O Conto da Ilha Desconhecida,Saramago 5 x 3 Inferno,Dan Brown
dia  29 de junho arena Pernambuco 17h










Estórias Abensonhadas, Mia Couto 2 x 0 O Filho de Mil Homens,VHM
dia 30 de junho estádio Mané Garrincha -13h
Estórias Abensonhadas joga com 








Hanna e Suas Filhas,Mariane Fredriksson 2 x 1 Jaime Bunda, Pepetela
             dia 30 de junho estádio Beira Rio 17h 



                                          


Peixe na Água, Vargas Llosa x Zelota, Reza Aslan
dia 1 de julho, Itaquerão 13h 


A Menina Sem Palavra x O Cão e os Caluandas, Pepetela dia 1 de julho Fonte Nova






terça-feira, 24 de junho de 2014

Véspera de São João no Recife, Rubem Braga


                                                           
                               O que é da terra, é da terra, e fala da terra, João, eu falarei da terra.
                                 Ora João, tu tinhas um vestido de peles de camelo, e uma cinta de couro em volta dos teus rins; e a tua comida era gafanhotos e mel silvestre. E a filha de Herodias bailou, e era linda. E quando disse o que  queria neste mundo o rei entristeceu. Eras a voz que clama do deserto, e clamavas na cadeia. E tua cabeça veio num prato para as mãos da bailarina.

                                 João, esta geração de homens continua a mesma da qual disse o senhor: “São semelhantes aos meninos que estão assentados no terreiro, e que falam uns para os outros e dizem: nós  temos cantado ao som da gaita, para vos divertir, e vós  não bailastes; temos cantado em ar de lamentação, e vós não chorastes.”
                                         João, ontem foi a noite de véspera de   teu dia. O povo bailava ao som das gaitas. Não bailei nem chorei. Estive  em Boa Vista, Afogados,Areias, Tigipió, na estrada de Jaboatão. E estive em Campo Grande e Beberibe. E estive,por que não dizer¿ na zona noturna da ilha do Recife. E tem em toda a parte o povo que te festejava.
                                    Às vezes chovia furiosamente, às vezes a lua brilhava. E às vezes o céu ficava parado e fechado, sem luz e sem chuva. Mas na terra humilde  a noite era a mesma. As casinhas, à margem das ruas esburacadas, estavam alumiadas por lanternas. É um efeito triste, colorido, de uma lu pobre. Nas janelas e nas portas  se penduravam as estrelas. Estrelas gordas de papel de cor, com uma luz fraca por dentro. Esses balões estrelados, cativos da parede, forneciam imagens nas ruas  tão escuras. As estrelas do céu, por exemplo, haviam descido para a terra, para perto da lama, para as casinhas baixas. E teu retrato, segurando o menino Jesus, estava colado nelas. 
                                Pelos quintais enlameados, as fogueiras ardiam. Firmadas por quatro estacas, com folhas de cana, bananeiras-meninas enterradas em volta, as fogueiras enfeitadas de espaço a espaço ensanguentavam a noite preta. Elas haviam brotado nos oitões, nos mangues, nos pomares, junto das pontes, ao longo das ruas, pelos fundos dos matos, como flores de fogo na noite preta.
E os fogos pipocavam. O Recife, João, todos já sabem que é um prato raso. A água é quase irmã da terra, beijando a flor das ruas, e as pontes quase se apoiam na massa líquida, e, pra ver a cidade, é preciso andar toda a cidade...
                                   
Os fogos pipocavam noite adentro. Uns tinham estalos secos intermitentes, esparsos; outros rebentavam roucos; outros chiavam; outros crepitavam; outros eram urros de pólvora. Eu não estava no meio da noite, eu estava no centro de muitas noites. E muitas noites antigas avançavam, negras sobre mim, e eu as reconhecia, pensamente. Estava deitado na trincheira, fazia três abaixo de zero. Os fuzis inimigos amorosamente derrubavam folhas sobre mim, as balas passavam com uns silvos finos e iam morrer no fundo do mato. Eu bebera cachaça, estava deitado na terra fria da trincheira e, pelas montanhas enormes, pelos buracos dos vales fundos, as metralhadoras crepitavam, crepitavam.
                              João,eu as conhecia pelo sotaque; eram todas estrangeiras. Aquela do oeste era Hotchkiss pesada, a que estava embaixo era Colt, uma cacarejando em nossa frente era Zebê, e centenas de máquinas cuspiam fogo. Agora, sobre o meu crânio, assobiavam apenas fuzis Mauser dos caadores de trincheiras, e longe, do outro lado da linha, do outro lado da noite, roncou um Schneider. Nas primeiras noites, João, eu não podia dormir, e as granadas, quando rebentavam a cinquenta metros, rebentavam dentro do meu peito. Agora eu desistira de ter qualquer medo, e o metralhar imenso me dava sono. Eu apenas temia morrer não tendo nome nenhum de mulher para dizer as palavras do fim. Eu voava nos caminhões de munição, acossados pela metralha nas estradas, sobre o abismo, nas curvas onde as balas furavam as carrocerias, a toda a velocidade, de faróis apagados na noite escura, sacolejando e roncando terrivelmente. Mas para mim não era  mais uma noite perigosa: era apenas uma grande noite triste. Eu não queria matar ninguém, não me importava se alguém me matasse, e dois sargentos me olhavam com ódio, murmurando que eu era um espião.Eu era um espião, João, João: eu era um espião da vida, no meio da morte. 
                                 Eu ainda não tinha vinte anos, não tinha mais nenhum deus para me entender depois da morte, não tomava banho há um mês, estava sujo e magro, meu lápis de repórter quebrou a ponta. Havia nesse mesmo crepitar de fogos pela vasta noite, e, junto dos acantonamentos, as fogueiras se acendiam para os soldados gelados. Meu papel de repórter estava sujo da terra das trincheiras, eu já não escrevia nada. A guerra era demasiado estúpida para não me fazer sorrir, eu não reconhecia aliados nem inimigos; apenas via homens pobres se matando para bem dos homens ricos; apenas via o Brasil se matando com armas estrangeiras. No fim, João, eu berrei contra os comerciantes da paz que haviam sido comerciantes da guerra, e , entretanto, eu não conhecia o mecanismo das carnificinas; e me chamaram cínico, quando somei os contos de réis que custava a morte de um soldado e disse que tal morte era muitas vezes mais cara que um naufrágio de primeira classe  no Principessa Mafalda, só contando munição gasta.  
                               Eu não era cínico, João, eu, pelo menos, jamais fui cínico do cinismo dos cães de luxo; eu sempre  tive o direito de ter cinismo puro dos vira-latas, sem casa nem dono.
                              João, eu não tenho mais dezenove anos, estou na rua e não na trincheira, mas esses estampidos na noite transformam a noite. João, alguém canta, moças cantam nos bailes dos palanques, entre canjiquinhas, milho verde, folhas, flores, fogueiras,abraços, olhares, amores, e outras noites me cercam. Eu tinha treze anos e naquela noite ela subitamente me amou. Me amou talvez um minuto, sentiu uma ternura e me deu aquele lenço de seus cabelos. Era um lenço grande, de flores encarnadas e azuis, e aquela chita estava sempre em volta de sua garganta ou amarrada em seus cabelos. Eu dormi na praia e o lenço tinha um cheiro terno e quente de cabelos castanhos, e aquele cheiro me entontecia e nunca em noite nenhuma amei nem amarei mais amada com amor assim. João, naquela noite também havia cantos, e o vento do sudoeste no ar escuro tinha o mesmo cheiro.
                                 
                           João, são muitas noites antigas que me prendem no meio desta noite. Pobres s noites sob lâmpadas da redação, mesquinhas as noites de trabalho insincero, tristes noites sem ternura noturna.
                          João, o povo, na noite imensa, festeja a ti. Há fogueiras e amores e bebedeiras, mas eu não irei a festa nenhuma. Amanhã, João, esse povo continuará na vida. Por que o distrais assim com teus fogos, João? Amanhã, os pobres estarão mais pobres e os ricos  os esmagarão, e muitos homens iro clamar nas cadeias, como tu clamavas. João, amanhã outra vez a miséria dos donos da vida continuará deturpando a beleza da vida; as moças suburbana irão perder a beleza no trabalho escravo. As crianças continuarão a crescer, magras e ignorantes; o suor dos homens será explorado. João, João, inútil João; o povo está gemendo, as metralhadoras  viram para os peitos populares. Ninguém dividiu as túnicas, nem pães, como tu mandaste, João, inútil João.



Notas da blogueira:

Rubem Braga foi correspondente de guerra junto à  FEB na Itália, daí a mistura (brilhante) que o autor faz da festa junina e a trincheira de guerra.

Principessa Mafalda -Transatlântico italiano que naufragou em 25.10.1927


sábado, 21 de junho de 2014

Quarto de Moça, Rubem Braga

                       
          Alguém me fala do apartamento em que você morou em Paris, em uma pequena praça cheia de árvores; outra pessoa esteve em sua casa de Nápoles; eu me calo. Mas, eu conheci seu quarto de solteira. Era pequeno, gracioso e azul; ou é a distância que o azula na minha lembrança? 

           Junto à janela havia uma grande amendoeira antiga; às vezes o vento levava pra dentro uma grande folha cor de cobre - gentileza da amendoeira. Que tinha outras: pássaros, quase sempre pardais, às vezes um tico-tico, ou uma rolinha, ou um casal de sanhaços azulados. 
           E no verão, como as cigarras ziniam! Lembro o armário escuro e simples onde cabiam seus vestidos de solteira, que não eram muitos; e lembro alguns deles, um roxinho singelo, um estampado alegre, de flores, um outro de linho grosso, cor de areia. Havia uma pequena estante; e, entre os livros, o meu primeiro livro, com uma dedicatória tímida. Na parede, uma fotografia, uma imagem de santa, e uma reprodução de Piero della Francesca, não era?

                 Era simples, seu quarto de menina e de moça; mas tinha uma graça leve e singela, e você o amava. Dali partiu para tantas outras casas e hotéis em outras cidades do mundo, e um dia soube que haviam derrubado sua casa. Contaram-me, achando graça, você chorou quando teve a notícia, chorou como se tivesse perdido pai ou mãe , alguém muito querido. Contaram-me achando graça - e eu não disse nada, mas me comovi. 

                Nossa amizade se perdeu no acaso das viagens; outros homens sabem muito mais sobre você, viveram sua alegria e seu sofrimento; de mim você terá apenas uma lembrança distante e, espero, boa. Mas se um dia você se sentisse vazia e sem apoio, e achasse as coisas tão sem sentido, eu imagino que você gostaria que eu  reconstruísse no ar ,como um presente, para proteger e embalar você, o seu pequeno quarto azul que não existe mais. 
                 Conheci seu quarto de solteira; lembro a cama, o armário, a estante, a cômoda, a mesinha, o abajur e o grande espelho. O grande espelho onde às vezes, ainda mocinha, vinha do banho, você se olhava demoradamente - pensativamente - nua.


Imagem: Saint Jerome- Piero della Francesca


sexta-feira, 20 de junho de 2014

Na Área, Armando Nogueira



Clarice Lispector: Há uma semana, não encontro no Rio uma pessoa amiga que não me pergunte: “Então, quando é que você vai aceitar o desafio da Clarice Lispector”?
(Permita, leitor, explicar que eu tinha pedido, daqui, uma crônica de Clarice Lispector sobre futebol. Ela escreveu, escreveu uma crônica admirável; mas, num impulso de terna vingança, Clarice me multou: desafiou-me a perder o pudor e escrever sobre a vida).

Agora, os cobradores de Clarice estão à minha porta, carinhosamente, exigindo a resposta, mas com uma impaciência que me angustia como a véspera de um grande jogo.
Que dizer de um jogo que ainda não terminou?

E mesmo quando termine, Clarice, o match de minha vida não justificará sequer resenha: é match-treino, sem placar, sem juiz, nem multidão. Por tudo! Que está bom assim, embora melhor se fosse uma pelada – mil meninos jogando a minha vida, alheios ao vento que às vezes persegue tanto o time da gente.

Jamais seria um bom depoimento de minha própria vida: jogo muito mal, sofro a imprecisão de meus chutes. Tenho medo e respeito muito o julgamento da plateia. Embora também já tenha tido vergonha da multidão. Eu te conto, Clarice: era um jogo de grande importância, no Maracanã. O ídolo errou o primeiro passe, errou o segundo, o terceiro. Deram-lhe uma vaia. O ídolo lutava, dignamente, mas seu esforço era vão, a bola de ferro não lhe saía dos pés. A multidão já passava da reprovação ao deboche; e o ídolo, ali, firme, correndo entre dois abismos – humilhação e fadiga. Chamaram-no de venal; ele chorou em campo.

Depois do jogo, a um canto do vestiário, ele me confessava, ainda em lágrimas:
- Armando, eu sei que joguei muito mal. Mas eu não tinha cabeça para pensar. Essa gente não sabe, mas eu vim jogar, deixando minha filha, de cinco anos em casa, com minha mulher doente e uma irmã de minha mulher, louca, trancada no quarto. Mas, louca de hospício. Louca de passar o dia jurando que ainda vai estrangular a minha filha. E eu no campo, só pensava nisso: meu Deus, será que ela não está estrangulando a minha filha?

Nesse dia, eu descobri que nem sempre a voz do povo é a voz de Deus e que às vezes a multidão é capaz até de torcer pelo estrangulamento de uma criança.

match de minha vida, querida Clarice, tem sido um sofrido aprendizado de todos os sentimentos que murcham e florescem num jogo de futebol: o amor, o medo, o ódio, a inveja, a coragem ali estão, revestindo ou informando cada gesto da bola, cuja meta é sempre o coração – para viver uma grande alegria ou para morrer de infarto.

Infelizmente, jamais conquistei um lugar de jogador nesse misterioso torneio que acompanho, há quarenta anos, como simples espectador. Tentei ser goleiro. Queria sentir o único pedaço de campo em que a grama verde não vinga jamais. Cheguei a mentir, enfiando joelheiras, um boné na cabeça e dizendo aos outros meninos que era o Batatais. Deve ter me ficado da experiência uma visão pessimista do campo. Mas, pelo menos duas lições aprendi com dois goleiros: com Evutchenko, “que a vida não é só atacar, é também vigiar os menores movimentos do adversário e conhecer suas artimanhas”; e com Albert Camus que o futebol ensina tudo sobre a moral dos homens.

Por fim, Clarice, o match de minha vida não registra um instante sequer de plena felicidade, embora alguns espectadores o vejam como um alegre amistoso de portões abertos. Marca-me, cerrado, um sentimento de culpa, a dividir comigo as bolas de sabão de cada gol perdido.

Se não deploro, também não tenho o que festejar no match da minha vida: o grito que glorifica o goleador é o mesmo que mortifica o goleiro.
Por isso, não vejo na vitória mais verdade que na derrota.

match de minha vida, Clarice, está por ai, rolando numa bola que já não é de meia, nem de gude: bola de tantos sonhos perdidos pela linha de fundo – círculo, inspiração do sol, forma perfeita, esfera de fogo queimando, às vezes, a grama dos meus campos.

Que o match da minha vida possa ao menos terminar em paz – empate.


(Jornal do Brasil, 8.4.1968)
O blog manteve a grafia original

Leia também o texto de Clarice Lispector ao qual Armando Nogueira se refere.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Armando Nogueira,O Futebol E Eu,Coitada. Clarice Lispetor



E o título sairia muito maior, só que não caberia numa única linha. Não leio todos os dias Armando Nogueira – embora todos os dias dê pelo menos uma espiada rápida – porque “meu futebol” não dá pra entender tudo. Se bem que Armando escreve tão bonito (não digo apenas “bem”), que às vezes, atrapalhada com a parte técnica de sua crônica, leio só pelo bonito. E deve ser numa das crônicas que me escaparam que saiu uma frase citada pelo Correio da Manhã, entre frases de Robert Kennedy, Fernandel, Arthur Schlesinger, Geraldine Chaplin, Tristão de Athayde e vários outros, e que me leram, por telefone. Armando dizia: “De bom grado eu trocaria a vitória de meu time num grande jogo por uma crônica…” e aí vem o surpreendente: continua dizendo que trocaria tudo isso por uma crônica minha sobre futebol.

                            Meu primeiro impulso foi o de uma vingança carinhosa: dizer aqui que trocaria muita coisa que me vale muito por uma crônica de Armando Nogueira sobre digamos a vida. Aliás, meu primeiro impulso, já sem vingança, continua: desafio você, Armando Nogueira, a perder o pudor e escrever sobre a vida e você mesmo, não posso perdoar que você trocasse, o que significaria a mesma coisa.

Mas, se seu time é Botafogo, não posso perdoar que você trocasse, mesmo por brincadeira, uma vitória dele nem por um meu romance inteiro sobre futebol.

                       Deixe eu lhe contar minhas relações com futebol, que justificam o coitada do título. Sou Botafogo, o que já começa por ser um pequeno drama que não torno maior porque sempre procuro reter, como as rédeas de um cavalo, minha tendência ao excessivo. É o seguinte: não me é fácil tomar partido em futebol – mas como poderia eu me isentar a tal ponto da vida do Brasil? – porque tenho um filho Botafogo e outro Flamengo. E sinto que estou traindo o filho Flamengo. Embora a culpa não seja toda minha, e aí vem uma queixa contra meu filho: ele também era Botafogo, e sem mais nem menos, talvez só para agradar o pai, resolveu um dia passar para o Flamengo. Já então era tarde demais para eu resolver, mesmo com esforço, não ser de nenhum partido: eu tinha me dado toda ao Botafogo, inclusive dado a ele minha ignorância apaixonada por futebol. Digo “ignorância apaixonada” porque sinto que eu poderia vir um dia apaixonadamente a entender de futebol.
E agora vou contar o pior: fora as vezes que vi por televisão, só assisti a um jogo de futebol na vida, quero dizer, de corpo presente. Sinto que isso é tão errado como se eu fosse uma brasileira errada.

                  O jogo qual era? Sei que era Botafogo, mas não me lembro contra quem. Quem estava comigo não despregava os olhos do campo, como eu, mas entendia tudo. E eu de vez em quando, mesmo sentindo que estava incomodando, não me continha e fazia perguntas. As quais eram respondidas com a maior pressa e resumo para eu não continuar a interromper.

                    Não, não imagine que vou dizer que futebol é um verdadeiro balé. Lembrou-me foi uma luta entre vida e morte, como de gladiadores. E eu – provavelmente coitada de novo – tinha a impressão de que a luta só não saía das regras do jogo e se tornava sangrenta porque um juiz vigiava, não deixava, e mandaria para fora de campo quem como eu faria, se jogasse (!). Bem, por mais amor que eu tivesse por futebol, jamais me ocorreria jogar… Ia preferir balé mesmo. Mas futebol parecer-se com balé? O futebol tem uma beleza própria de movimentos que não precisa de comparações.

                Quanto a assistir por televisão, meu filho botafoguense assiste comigo. E quando faço perguntas, provavelmente bem tolas como leiga que sou, ele responde com uma mistura de impaciência piedosa que se transforma depois em paciência quase mal controlada, e alguma ternura pela mãe que, se sabe outras coisas, é obrigada a valer-se do filho para essas lições. Também ele responde bem rápido, para não perder os lances do jogo. E se continuo de vez em quando a perguntar, termina dizendo embora sem cólera: ah, mamãe, você não entende mesmo disso, não adianta.

                 O que me humilha. Então, na minha avidez por participar de tudo, logo de futebol que é Brasil, eu não vou entender jamais? E quando penso em tudo no que não participo, Brasil ou não, fico desanimada com minha pequenez. Sou muito ambiciosa e voraz para admitir com tranquilidade uma não participação do que representa vida. Mas sinto que não desisti. Quanto a futebol, um dia entenderei mais. Nem que seja, se eu viver até lá, quando eu for velhinha e já andando devagar. Ou você acha que não vale a pena ser uma velhinha dessas modernas que tantas vezes, por puro preconceito imperdoável nosso, chega à beira do ridículo por se interessar pelo que já devia ser um passado? É que, e não só em futebol, porém em muitas coisas mais, eu não queria só ter um passado: queria sempre estar tendo um presente, e alguma partezinha de futuro.

                  E agora repito meu desafio amigável: escreva sobre a vida, o que significaria você na vida. (Se não fosse cronista de futebol, você de qualquer modo seria escritor). Não importa que, nessa coluna que peço, você inicie pela porta do futebol: facilitaria você quebrar o pudor de falar diretamente. E mais, para facilitar: deixo você escrever uma crônica inteira sobre o que futebol significa para você, pessoalmente, e não só como esporte, o que terminaria revelando o que você sente em relação à vida. O tema é geral demais, para quem está habituado a uma especialização? Mas é que me parece que você não conhece suas próprias possibilidades: seu modo de escrever me garante que você poderia escrever sobre inúmeras coisas. Avise-me quando você resolver responder a meu desafio, pois, como lhe disse, não é todos os dias que leio você, apesar de ter um verdadeiro gosto em ser sua colega no mesmo jornal. Estou esperando.



(Jornal do Brasil, 30.3.1968)

Armando Nogueira, respondeu a Clarice Lispector: Na Área, é o titulo da crônica

segunda-feira, 16 de junho de 2014

10 melhores Livros Infantis de 2014

                   A Revista Crescer, como faz anualmente,  divulgou a lista dos melhores livros infantis de 2014.  Vamos ver o que ela sugere que eu compre para o Theo



                                                                               
Eloísa e os Bichos -Texto: Jairo Biutrago
Ilustração: Rafael Yockteng -Ed.Pau no Gato - R$27,50
Com o pai, Eloísa se muda para uma nova cidade. Enquanto ele procura emprego, ela vai para a escola, onde se sente um bicho estranho. Conforme ela descreve seus incômodos, as ilustrações mostram Eloísa cercada por bichos gigantes. Entre os colegas, por exemplo, havia gafanhoto, lesma, borboleta... Fazendo uso de imagens fantásticas, o livro revela sentimentos recorrentes em situações de mudança. Lançado na Colômbia em 2009, o livro está na lista White Raven da Biblioteca de Munique e entre os melhores do banco de livros da Venezuela. O texto é do colombiano Jairo Buitrago e as imagens de Rafael Yockteng. A partir de 6 anos.


Cantiga
Texto e ilustração: Blexbolex - Ed. Cosac Naify - R$39,90

Como se dá a volta de uma criança para casa depois da escola? Em uma espécie de narrativa cumulativa, Cantiga revela ao leitor várias aventuras vividas – e imaginadas – por uma criança no seu retorno da escola. A maioria das folhas traz imagens de página inteira acompanhadas de palavras isoladas – a partir disso, o leitor constrói sua própria percepção da narrativa. Na primeira volta para casa, “a escola, o caminho, a casa”. Na segunda, “a escola, o caminho, a floresta, a casa”. À medida que os dias passam, esse retorno vai se tornando mais e mais emocionante, recheado por aventuras, personagens e contratempos. A delicada letra cursiva utilizada no texto complementa com maestria as imagens que encantam o leitor. Obra de estreia no Brasil do renomado ilustrador e quadrinista francês Blexbolex, Cantiga entrou na lista do jornal The New York Times como um dos dez mais belos livros de 2013. A partir de 5 anos.



Bichos do Lixo
Texto e ilustrações: Ferreira Gullar
Ed. Casa da Palavra R$ 49,00
 Bichos do Lixo é um livro singular. Isso porque nasceu de seu amor não só pelas palavras, mas pelas imagens. O processo de confecção já dá pistas da obra: com restos de envelopes, convites, revistas, catálogos e outros impressos, ele fez recortes e colagens. Da mistura de cores e formas, nasceram as imagens desse livro, cada qual remetendo a um animal real ou fictício. E, para cada um, o poeta criou um ou mais versos. É um convite e tanto para a criatividade. Considerado um dos nomes mais importantes da poesia brasileira, A partir de 3 anos.




Ralf e Demi Uma Historia de Duas Metades
Texto: Felipe Scuery
Ilustrações: Clara Gavilan Ed.4 cantos R$32 
Existem mesmo almas gêmeas? E, quando elas se encontram, ficam realmente completas? Esse é o mote do livro que mostra a história de Ralf, um menino que só consegue fazer metade das coisas, e Demi, uma garota que faz a metade oposta. Mesmo tão diferentes, vão conseguir formar uma coisa só? A ideia do músico e escritor Felipe Schuery, que cresceu em Cabo Frio (RJ) e fez sua estreia na literatura infantil com este livro, conquistou os leitores da CRESCER, que o escolheram em votação aberta no nosso site. As belas aquarelas são de Clara Gavilan, especialista em ilustração infantil pelo Eina, Centro Universitário de Projeto e Arte de Barcelona, na Espanha. A partir de 3 anos.



A Parte Que Falta
Texto d ilustrações: Shel Silverstein
Ed.Cosac Naify R$43
O protagonista desse livro é um ser que parece uma circunferência, mas com uma parte faltando. Por isso, não se sentia feliz. Partiu, então, em busca desse triângulo que o completaria. A procura mesclava momentos difíceis e deliciosos, que incluíam torrar ao sol, refrescar-se com a chuva e conhecer várias criaturas pelo mundo. Certo dia, ele encontra a tal parte. Mas e aí? Será que assim alcançaria a felicidade plena? Escrito com breves sentenças e ilustrado com traços pretos simples, o livro é de autoria do renomado autor norte-americano Shel Silverstein (1930-1999), que teve três obras entre os Melhores da CRESCER: A Árvore Generosa, Quem Quer Este Rinoceronte e Fuja do Garabuja. A partir de 3 anos.





Antologia Ilustrada da Poesia Brasileira Para Criança de Qualquer Idade
Texto: diversos autores
Ilustrações: Adriana Calcanhoto Ed.Casa da Palavra R$48,90

Nessa obra, a cantora e compositora gaúcha Adriana Calcanhotto reuniu poemas de mais de 40 brasileiros de diferentes tempos e estilos. Seguindo uma ordem cronológica, a antologia tem versos de Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Machado de Assis, Olavo Bilac, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Erico Veríssimo, Mário Quintana, Vinicius de Moraes e vários outros poetas de peso. São quase 50 textos para mergulhar em uma viagem pelas palavras, pelos ritmos e pela grandiosidade da poesia brasileira. As ilustrações são da própria Adriana. A partir de 4 anos.



Abra Este Pequeno Livro
Texto: Jesse Klausmeier
Ilustrações: Suzy Lee Ed.Cosac Naify R$49,00
O título convida: abra este pequeno livro. Mas ele não é pequeno, tem 21 cm por 28 cm... E é aí que está a surpresa: logo na primeira página, o leitor encontra a capa de um livro menor, e quando o abre, acha outro ainda menor... Depois de Abra Este Pequeno Livro, há o Pequeno Livro Vermelho, o Pequeno Livro Verde... Parece confuso? Na verdade, é sensacional! Só lendo para entender a delícia dessa obra da norte-americana Jesse Klausmeier, que estreia na literatura infantil. As ilustrações são da premiada sul-coreana Suzy Lee, que já esteve entre os Melhores da CRESCER com Onda e Sombra. A partir de 5 anos




Se Você Quiser Ver Uma Baleia
Texto: Julie Fogliano
Ilustrações:Erin E. Stead Ed. Pequeno Zahar R$39,00
Como sugere o título, um narrador orienta o leitor, desde a primeira página, sobre a maneira como deve se comportar para ver uma baleia. Com imagens belíssimas – e tão poéticas quanto o texto –, a obra chama a atenção da criança para a natureza, para o espaço e para o tempo da vida. É o segundo livro da norte-americana Julie Fogliano, que estreou com And Then It’s Spring. Ainda não lançado no Brasil, seu primeiro livro tornou-se best-seller segundo o jornal The New York Times e ganhou o prêmio Livro de Honra do Boston Globe-Horn Book. As ilustrações são de Erin E. Stead, que ilustrou o outro livro de Julie. A partir de 4 anos.



Caras Animalescas
Texto: Ilan Brenman e Renato Moriconi
Ilustrações: Renato Moriconi Ed.Cia das Letrinhas R$ 37,50

“Vocês já repararam que existem pessoas que se parecem com alguns animais?” Após o convite feito na primeira página do livro, os autores apresentam vários personagens que se parecem com bichos. É o caso, por exemplo, da sra. Maricota, que tem cara de gaivota, o sr. Sodré, que tem cara de jacaré e a sra. Deodata, que tem cara de gata. Diversão garantida, Caras Animalescas marca o final da chamada Trilogia do Retrato, feita a quatro mãos pelo escritor Ilan Brenman e pelo artista plástico Renato Moriconi. Os outros títulos da trilogia – Telefone Sem Fio e Bocejo – também marcaram presença nas listas dos Melhores da CRESCER. A partir de 2 anos

 Os pássaros
Texto: Germano Zullo e Albertine
Ilustrações; Albertine Ed. Cia das Letrinhas R$ 37,50

Feita só com imagens, a narrativa revela o avançar de um caminhão por uma estrada, até chegar a um precipício. Lá, o motorista abre o baú de carga e liberta dezenas de aves coloridas. Mas, espera! Um pássaro parece não saber como sair. Será que o motorista conseguirá ajudá-lo? Com ilustrações em cores vibrantes, o casal de autores revela uma singela relação entre o homem e a ave. Lançada em 2010 na Suíça, a obra conquistou no ano seguinte o Prix Sorcières, na França, e, em 2012, o prêmio de melhor livro infantil ilustrado do The New York Times. A partir de 1 ano.




Veja aqui a lista completa com 30 livros.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

No Tempo da Balas Futebol, Roberto Pompeu de Toledo


                          Pode haver futebol sem as Balas Futebol? Dada a gravidade da questão, vai-se repetir a pergunta: "Pode haver futebol sem as Balas Futebol?". A resposta, por mais frustrante, é que sim, pode. Com mágoa e tristeza, reconheça-se que pode. O mundo é cruel o suficiente para permitir que o futebol prossiga sua carreira vitoriosa, mesmo sem as Balas Futebol.                           
             Mas algo se perdeu no meio do caminho. Algo do encanto se quebrou.
Esclareça-se ao leitor desavisado o que eram as Balas Futebol. Eram balas que traziam, junto, figurinhas com as estampas dos craques dos diferentes times. Adquiria-se um álbum e ia-se colando nele as figurinhas. 
            Talvez as gloriosas Balas Futebol não tenham sido as únicas do gênero. Álbuns com o mesmo espírito, de iniciativa de outros valentes empreendedores, terão existido. Importante a ressaltar é o papel que, tanto no futebol como na vida em geral, desempenhavam tais álbuns. Eles faziam parte da educação sentimental dos meninos.
                           O futebol de hoje, sob o puro aspecto quantitativo, deixa o de ontem longe. É acompanhado por multidões incalculáveis. Tem a televisão a seu serviço, essa máquina de criar fenômenos avassaladores. Movimenta interesses e quantias estratosféricas. Até no Japão e na Coréia – quem imaginaria? – é popular. 
                           Uma Copa do Mundo, nos dias que correm, é evento planetário como nenhum outro. Já sob o ponto de vista da qualidade da relação com o torcedor, o futebol atual perde. Havia um vínculo afetivo entre o craque e o clube, o craque e o torcedor e o torcedor e o clube, que foi comprometido. Atentemos, para ter idéia precisa do que se está tentando dizer, em duas diferenças fundamentais entre o futebol de ontem e o de hoje.
                           A primeira diz respeito ao uniforme. Antes, os times apresentavam-se sempre com o mesmo. Vá lá: não era sempre, era quase sempre. Havia ocasiões – uma em cada dez, não mais que isso – em que era preciso trocar de uniforme, pois o do adversário era parecido. Trocava-se então pelo uniforme reserva, que por sua vez era sempre o mesmo, o único e mesmo uniforme reserva. 
                         Hoje, o que acontece? O mesmo time pode aparecer com a camisa branca num jogo, listrada no seguinte, cinza no terceiro jogo e com bolinhas e rendas no quarto, isso quando o time alvinegro não se traveste de vermelho, o rubro-negro de verde e o tricolor de um único e inteiriço amarelo. Vale tudo, em favor do contraste que a televisão julgar mais conveniente para a transmissão.
                  A segunda diferença é que os times, antes, permaneciam com as mesmas escalações por anos a fio. Podia haver uma modificação pontual aqui e ali, mas no geral, na base, no núcleo duro, a escalação permanecia a mesma. Pode o jovem leitor imaginar uma coisa dessas? Era um tempo de estabilidade e permanência. Os craques ficavam longamente, muitas vezes a vida inteira, nos mesmos clubes. 
Em conseqüência, acabavam se identificando com eles. Não se precisa ir muito longe: isso acontecia ainda nos anos 80. Zico era do Flamengo. 
Zico era o Flamengo. 
Roberto Dinamite era do Vasco. 
Um pouco mais para trás, Ademir da Guia, chamado o Divino, a quem João Cabral de Melo Neto dedicou um poema que lhe descrevia o estilo melhor do que qualquer comentarista esportivo ("Ademir impõe com seu jogo / o ritmo de chumbo (e o peso) / da lesma, da câmara lenta, / do homem dentro do pesadelo"), era do Palmeiras. Era o Palmeiras. 
       E Pelé naturalmente era do Santos, assim como Garrincha era do Botafogo, apesar das peregrinações por outros clubes impostas pelas humilhações de fim de carreira.
                      Hoje, o que se vê? Tomem-se os craques da seleção, os Edilsons e Luizões da vida. Em que time jogam? Mais adequado seria perguntar: em que time estão jogando neste momento, 3 da tarde? E em qual estarão às 4? Se há tanta inconstância, não há como firmar vínculo com os clubes. Portanto, não há como firmar vínculo com o torcedor. Como resultado, eis-nos introduzidos a um futebol sem heróis. Ademir da Guia tem uma estátua na sede do Palmeiras. Já Romário, quem o homenageará? Nestes últimos anos, ele jogou no Vasco e em seu contrário, o Flamengo. Tanto para os torcedores de um clube como do outro, ele é em parte herói e em parte traidor.

                    Neste ponto nos reencontramos com as Balas Futebol. Se ainda pode haver futebol – e como pode –, o fato é que não pode haver mais Balas Futebol. O álbum de figurinhas depende de um mínimo de estabilidade nas escalações. Ajuda-os, igualmente, a estabilidade dos uniformes. Para fazer um deles, hoje em dia, só recorrendo a um sistema em que as figurinhas trariam apenas a cara dos jogadores, e os álbuns viriam com cartelas de uniformes para recortar. Às caras seriam juntados os diferentes uniformes, conforme os jogadores fossem mudando de time, e conforme o mesmo time fosse mudando de uniforme. Seria um jogo parecido com aquele em que as bonecas vêm com diferentes roupinhas para recortar e vestir nelas. Ficaria mais para brincadeira de menina que de menino, mas que outro jeito? 

(Publicado originalmente na Revista Veja em Abril de 2002, antes, portanto da reforma ortográfica)