quinta-feira, 29 de maio de 2014

Poema Inaugural, Maya Angelou


A Rocha, o Rio, a Árvore,
Maya Angelou - 
Anfitriões de espécies há muito extintas,
Marcaram o mastodonte.

O dinossauro, que deixou provas secas
De sua estada aqui,
No chão de nosso planeta.
Qualquer alarme claro de sua condenação apressada
Está perdido nas trevas da poeira e das eras.

Mas hoje, a Rocha clama a nós, com clareza e vigor
-Venham, coloquem-se sobre
Minhas costas e contemplem seu distante destino
E não procurem abrigo em minha sombra.
Não lhes darei mais esconderijo aqui
Vocês, criados um pouco abaixo
Dos anjos, arrastaram-se longo tempo
Na escuridão sombria,
Permaneceram por longo tempo
Com a face na ignorância

Suas bocas derramaram palavras
Feitas para o massacre

A Rocha clama hoje, - podem colocar-se em mim,
Mas não escondam o rosto

Através da muralha do mundo,
o Rio entoa uma bela canção,
-Venham descansar à minha margem.

Cada pessoa é um país com fronteiras,
Delicado e orgulhoso,
Ainda assim, perpetuamente sitiado.

Suas batalhas armadas pelo lucro
Deixaram uma faixa de dejetos em
Minha margem, correntes de entulho em meu seio.

Ainda assim, os chamo à minha orla,
Se não estudarem mais guerras. Venham,

Vistam-se de paz e entoarei as canções
Que o Criador me ensinou quando eu
E a Árvore e a Rocha éramos um só

Antes de ser o cinismo uma queimadura
De sangue em sua fronte e quando vocês sabiam
Que nada sabiam.

O Rio canta e canta ainda.
Há um real anseio a responder
Ao Rio cantor e à sábia Rocha.

Então digam ao asiático, ao hispânico, ao judeu,
Ao africano e ao indígena, ao Sioux,
Ao católico, ao muçulmano, ao francês, ao grego,
Ao irlandês, ao rabino, ao padre, ao sheik,
Ao gay, ao hétero, ao pregador
Ao privilegiado, ao sem-teto, ao professor.
Eles escutarão. Todos ouvirão
A mensagem da Árvore.

Hoje, a primeira e a última das Árvores
Fala à humanidade: Venha a mim, na margem do Rio
Plante-se ao meu lado, aqui na margem do Rio
Cada um de vocês, descendente de algum
Caminhante, foi resgatado

Você, que me batizou, você
Pawnee, Apache e Sêneca, você
Nação Cherokee, que descansou comigo, e
Forçados sobre pés ensanguentados, me deixaram
Aos cuidados de outros exploradores,
Desesperados por ganhos,
Famintos por ouro.

Você, o turco, o sueco, o alemão, o escocês...
Você, o ashanti, o yorubá, o kru compraram

Venderam, roubaram, chegaram no pesadelo,
Orando por um sonho
Aqui, criem raízes ao meu lado.
Sou a Árvore, plantada ao lado do Rio,
Que não se moverá.

Eu, a Rocha; eu, o Rio; eu, a Árvore
Sou seu – as Passagens estão pagas

Levantem o rosto, vocês têm a urgente necessidade
Desta manhã radiante, alvorecendo por você

A história, apesar da dor intensa,
Não pode ser apagada, e se encarada
Com coragem, não precisa ser revivida.

Levante os olhos
Ao dia raiando por você

Dê à luz de novo
O sonho

Mulheres, crianças, homens,
Tomem-no nas palmas das mãos

Moldem-no na forma de sua mais
Particular necessidade. Esculpam-no
À imagem de seu ser mais público.
Levantem os corações,
Cada hora nova carrega novas chances
De novos começos.

Não permaneça casado
Para sempre com o medo, sob o jugo
Eterno da brutalidade.

O horizonte se inclina para frente,
Oferece espaço a novos passos de mudança.

Aqui, no pulsar deste belo dia
Você pode ter a coragem
De olhar para cima e para mim, a
Rocha, o Rio, a Árvore, seu país

Tanto a Midas, quanto ao mendigo.

Tanto a você agora, quanto ao mastodonte outrora.

Aqui, no pulsar deste novo dia
Você pode desfrutar a graça de olhar para cima
E nos olhos de sua irmã,
No rosto de seu irmão, seu país
E dizer simplesmente
Tão simplesmente
Com esperança
Bom-dia

Tradução  de: Rira Cammarota
www.tina-esquadros.blogspot.com

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Tem Livro Bonito na Sua Estante?

Fui ali dar uma ordem na minha estante para ver o que tenho nas  fila de espera, devolução e doação.  

A de espera, como sempre, cresce mais veloz que minha leitura.   


 Notei que os livros de Sabino e Valter Hugo Mãe têm capas padronizadas. 

DETESTO CAPAS PADRONIZADAS.

Não sei porque as editoras fazem isso, com certeza tem a ver com Marketing.

 Pra mim não são atraentes.

 Bem, mas por causa dessa antipatia à padronização
 prestei atenção às outras capas, 
a maioria sem graça. Infelizmente. 

Mas três delas considerei bonitas.  


                                                                       São as belas da minha estante e estão na fila de espera:



A Fábrica de Papel - Marie Arana, que eu ganhei pra conhecer 
a autora. Quem me recomendou tem bom gosto.

Pinto Velho do Monteiro, o maior repentista do século - Ivo Mascena. Esse livro é de minha irmã e não sei
onde ela comprou  

Histórias e Conversas de Mulher - Mary Del Priore. 
Comprei esse livro há quase um ano, mas
não tive tempo de ler ainda. 


E na sua estante, tem algum livro de capa bonita?  Qual? Diz pra gente, vai! 
Vou esperar.





segunda-feira, 26 de maio de 2014

Os 20 Livros Mais Esquecidos Em Hotéis

Por que alguém deixaria livro em hotel?   
Minha resposta seria: puro esquecimento ou de propósito pra outra pessoa ler. Eu mesma só deixaria livro em hotel por essas razões. Sou  craque nas duas opções.

Além de esquecimento e a vontade de doar o livro, também o desinteresse levou hóspedes da  rede de hotéis Travelodge  a deixar  exemplares em seus quartos. 


Segundo pesquisa do jornal inglês The Guardian,  esquecimento, doação e desinteresse levaram os hóspedes de uma das maiores redes de hotéis do mundo a esquecerem livros.   

E.L. James é campeã. 
Cinquenta Tons de Liberdade, Cinquenta Tons de Cinza e Cinquenta Tons Mais Escuros, foram os mais esquecidos, somando 1209 exemplares.




Além da trilogia acima, que no Brasil vendeu como água principalmente para mulheres, mais uma autora com temática feminina, ficou entre os 17 livros esquecidos.  

Toda Sua - Sylvia Day
Para Sempre Sua - Sylvia Day
Profundamente Sua - Sylvia Day
Garota Exemplar - Gillian Flynn 
Morte Súbita - J.K. Rowling
O Grande Gatsby - F.Scott Fitzgerald 
Antes de Dormir - S.J Watson 
The Rocketeer - John Grisham
The Carrier - Sophie Hannah
Oh Dear Silvia - Dawn French
My Time - Bradley Wiggins
The Marriage Bargain - Jennifer Probst
The Marriage Mistake - Jeniffer Probst]
The Marriage Trap - Jennifer Probst
My Story - Chery Cole
Camp David - David Willians
Call The Midwife - Jennifer Worth

  
Sylvia Day e E.L James e Jeniffer Probst não agradaram ou agradaram tanto, que foram compartilhadas?  Comecei a ler um da trilogia cinza e larguei antes da metade. Eu esqueceria o exemplar por desinteresse mesmo.  Em qualquer lugar, aliás.


domingo, 25 de maio de 2014

Aniversariantes de maio (5) Lima Barreto

Queixa de defunto

     Antônio da Conceição, natural desta cidade, residente que foi em vida, a Boca do Mato, no Méier, onde acaba de morrer, por meios que não posso tornar público, mandou-me a carta abaixo que é endereçada ao prefeito. Ei-la:

   


 Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Doutor Prefeito do Distrito Federal. Sou um pobre homem que em vida nunca deu trabalho às autoridades públicas nem a elas fez reclamação alguma. Nunca exerci ou pretendi exercer isso que se chama os direitos sagrados de cidadão. Nasci, vivi e morri modestamente, julgando sempre que o meu único dever era ser lustrador de móveis e admitir que os outros os tivessem para eu lustrar e eu não.

     Não fui republicano, não fui florianista, não fui custodista, não fui hermista, não me meti em greves, nem em cousa alguma de reivindicações e revoltas; mas morri na santa paz do Senhor quase sem pecados e sem agonia.

     Toda a minha vida de privações e necessidades era guiada pela esperança de gozar depois de minha morte um sossego, uma calma de vida que não sou capaz de descrever, mas que pressenti pelo pensamento, graças à doutrinação das seções católicas dos jornais.

     Nunca fui ao espiritismo, nunca fui aos “bíblias”, nem a feiticeiros, e apesar de ter tido um filho que penou dez anos nas mãos dos médicos, nunca procurei macumbeiros nem médiuns.

     Vivi uma vida santa e obedecendo às prédicas do Padre André do Santuário do Sagrado Coração de Maria, em Todos os Santos, conquanto as não entendesse bem por serem pronunciadas com toda eloquência em galego ou vasconço.

     Segui-as, porém, com todo o rigor e humildade, e esperava gozar da mais dúlcida paz depois de minha morte. Morri afinal um dia destes. Não descrevo as cerimônias porque são muito conhecidas e os meus parentes e amigos deixaram-me sinceramente porque eu não deixava dinheiro algum. É bom, meu caro Senhor Doutor Prefeito, viver na pobreza, mas muito melhor é morrer nela. Não se levam para a cova maldições dos parentes e amigos deserdados; só carregamos lamentações e bênçãos daqueles a quem não pagamos mais a casa.

     Foi o que aconteceu comigo e estava certo de ir direitinho para o Céu, quando, por culpa do Senhor e da Repartição que o Senhor dirige, tive que ir para o inferno penar alguns anos ainda.

     Embora a pena seja leve, eu me amolei, por não ter contribuído para ela de forma alguma. A culpa é da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro que não cumpre os seus deveres, calçando convenientemente as ruas. Vamos ver por quê. Tendo sido enterrado no cemitério de Inhaúma e vindo o meu enterro do Méier, o coche e o acompanhamento tiveram que atravessar em toda a extensão a Rua José Bonifácio, em Todos os Santos.

     Esta rua foi calçada há perto de cinqüenta anos a macadame e nunca mais foi o seu calçamento substituído. Há caldeirões de todas as profundidades e larguras, por ela afora. Dessa forma, um pobre defunto que vai dentro do caixão em cima de um coche que por ela rola sofre o diabo. De uma feita um até, após um trambolhão do carro mortuário, saltou do esquife, vivinho da silva, tendo ressuscitado com o susto.

     Comigo não aconteceu isso, mas o balanço violento do coche machucou-me muito e cheguei diante de São Pedro cheio de arranhaduras pelo corpo. O bom do velho santo interpelou-me logo:

     — Que diabo é isto? Você está todo machucado! Tinham-me dito que você era bem-comportado — como é então que você arranjou isso? Brigou depois de morto?

     Expliquei-lhe, mas não me quis atender e mandou que me fosse purificar um pouco no inferno.

     Está aí como, meu caro Senhor Doutor Prefeito, ainda estou penando por sua culpa, embora tenha tido vida a mais santa possível. Sou, etc., etc. Posso garantir a fidelidade da cópia a aguardar com paciência as providências da municipalidade.


 
In:As cem melhores crônicas brasileiras, Orgaanização. e Introdução de Joaquim F. dos Santos, Ed. Objetiva – Rio de Janeiro (RJ), págs.

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Galego e Vasconço: essas línguas existem onde? Sim, existem na Espanha, veja a seguir:

Galego, é a língua (reconhecida pela UE e UNESCO) falada na Galiza. (Espanha)
Vasconço é o mesmo que basco. O Basco é falado na região do mesmo nome, na Espanha.

sábado, 24 de maio de 2014

Circuito da Poesia, Recife

            No último final de semana, dei início a uma passeada pelo Circuito da Poesia  com a postagem Eu e os Poetas do Recife.  Abracei o primeiro autor do circuito: Antônio Maria e coloquei um texto dele.  Vou repetir o trabalho trazendo um a um todos os artistas homenageados.  Mas, antes vamos saber sobe  projeto Circuito da Poesia:


O que é?


     Projeto da prefeitura,que colocou estátuas de poetas pernambucanos em diversos pontos no centro da cidade. O projeto que traz expoentes da cultura do estado ficou pronto em 2007. Dá pra fazer todo o percurso a pé.

Todos os poetas são do Recife?

     Não, mas todos moraram aqui e em algum momento e de alguma forma  dedicaram seu amor à cidade.

Quem são eles?
 Antônio Maria Joaquim Cardozo, Capiba,Carlos Pena Filho, João Cabral de Melo Neto,  Manoel Bandeira,  Clarice Lispector,  Mauro Mota,  Chico Science,  Solano Trindade, Ascenso Ferreira, e Luiz Gonzaga, O projeto foi iniciado em 2005 e concluído em 2007 



Quem fez as esculturas  e por que elas estão nesses locais?  Demétrio Albuquerque é o responsável pelas esculturas que são em tamanho natural e  estão situados em locais que fizeram parte do cotidiano do artista ou em espaços que foram abordados na obra do poeta.



O mapa mostra onde está cada homenageado 


1 - João Cabral de Melo Neto
2 - Manuel Bandeira
3 - Capiba
4 - Mauro Mota
5 - Carlos Pena Filho
6 - Antônio Maria
7 - Chico Science 
8 - Ascenso Ferreira
9 - Joaquim Cardozo
10 - Solano Trindade
11 - Luis Gonzaga
12 - Clarice Lispector.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Eu e os poetas do Recife - Antonio Maria

Amanhecer em Copacabana
Amanhece, em Copacabana, e estamos todos cansados. Todos, no mesmo banco de praia. Todos , que somos eu, meus olhos, meus braços e minhas pernas, meu pensamento e minha vontade. O coração, se não está vazio, sobra lugar que não acaba mais. Ah, que coisa insuportável, a lucidez das pessoas fatigadas! Mil vezes a obscuridade dos que amam, dos que cegam de ciúmes, dos que sentem falta e saudade. Nós somos um imenso vácuo, que o pensamento ocupa friamente. E, isso, no amanhecer de Copacabana.
As pessoas e as coisas começaram a movimentar-se. A moça feia, com o seu caniche de olhos ternos. O homem de roupão, que desce à praia e faz ginástica sueca. O bêbado, que vem caminhando com um esparadrapo na boca e a lapela suja de sangue. Automóveis, com oficiais do Exército Nacional, a caminho da batalha. Ônibus colegiais e, lá dentro, os nossos filhos, com cara de sono. O banhista gordo, de pernas brancas, vai ao mar cedinho, porque as pessoas da manhã são poucas e enfrentam, sem receios, o seu aspecto. Um automóvel deixou uma mulher à porta do prédio de apartamentos — pelo estado em que se encontra a maquillage, andou fazendo o que não devia. Os ruídos crescem e se misturam. Bondes, lotações, lambretas e, do mar, que se vinha escutando algum rumor, não se tem o que ouvir.
Enerva-me o tom de ironia que não consigo evitar nestas anotações. Em vezes outras, quando aqui estive, no lugar destas censuras, achei sempre que tudo estava lindo e não descobri os receios do homem gordo, que vem à praia de manhã cedinho. E Copacabana é a mesma. Nós é que estamos burríssimos aqui, neste banco de praia. Nós é que estamos velhíssimos, à beira-mar. Nós é que estamos sem ressonância para a beleza e perdemos o poder de descobrir o lado interessante de cada banalidade. Um homem assim não tem direito ao amanhecer de sua cidade. Deve levantar-se do banco de praia e ir-se embora, para não entediar os outros, com a descabida má-vontade dos seus ares.

Antonio Maria é o primeiro da série: Eu e os poetas do Recife em que trago semanalmente texto dos que fazem o Circuito da Poesia.  

sábado, 17 de maio de 2014

Aniversariantes de maio (4) Carlos Pena Filho


Nunca Fui Amado
Autor: Gildo Branco
Voz: Célio Roberto 
Carlos Pena
tinha razão
quando escreveu
este refrão:
"são trinta copos de chope
são trinta homens sentados
trezentos desejos presos
trinta mil sonhos frustrados"
eu sou
um daqueles trinta
foste meu sonho
não realizado
era meu desejo
ter o seu beijo
mas amei e nunca fui amado.

O poeta recifense Carlos Pena Filho, faria hoje 85 anos. O poema citado nesse frevo canção de 1963 pode ser encontrado aqui. LivroErrante trouxe outros dois belos poemas do autor:Para Fazer Um Soneto  e A Solidão e sua Porta

quinta-feira, 15 de maio de 2014

A Megera Domada em cordel.

Meus amigos, agora
Eu devo me despedir
Graças à sua atenção,
Em frente posso seguir,
Riscando do meu caderno
A palavra desistir

Desanimar é bobagem,
O Petrúquio é uma prova
Mesmo quando a circunstância
A sua ideia reprova,
Desistindo não se chega
A uma consciência nova

                 
 Shakespeare, o autor mais adaptado no mundo, jamais imaginou que seu Petrucchio estivesse num cordel, nem que viesse a falar português numa novela da Globo.  Boa parte de quem viu Du Moscovis em O Cravo e a Rosa, por sua vez, não sabe que assistiu a uma adaptação de uma história escrita há 400 anos!! Muitos jovens não leram os créditos depois de assistirem ao filme Dez Coisas que Odeio em Você. Teriam visto, se lessem, que tratava-se de uma adaptação teen de A Megera Domada de Shakespeare. O que mudaria para os teens e para os espectadores da Globo  se soubessem a autoria da história original?  Procurariam mais do autor, provavelmente. Mas, será que buscariam o original ou as formas mais simples de fácil entendimento, com linguagem atualizada?  Acredito, quase tenho certeza, de que buscariam  linguagens e formatos mais atualizados, de fácil compreensão.  Estou falando  de A Megera Domada, adaptação para o cordel, feita por Marco Haurélio. Lí e recomendo.   Este livro vai ser enviado para João Neto em Fortaleza, vamos ver o que ele diz a respeito.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Aniversariantes de maio (3) Ascenso Ferreira




              Trem de Alagoas
      O sino bate,
      o condutor apita o apito,
      solta o trem de ferro um grito,
      põe-se logo a caminhar...

      — Vou danado pra Catende,
      vou danado pra Catende,
      vou danado pra Catende
      com vontade de chegar...

      Mergulham mocambos
      nos mangues molhados ,
      moleques mulatos,
      vem vê-lo passar.

      — Adeus!
      — Adeus!

      Mangueiras, coqueiros,
      cajueiros em flor,
      cajueiros com frutos
      já bons de chupar...

      — Adeus, morena do cabelo cacheado!
      — Vou danado pra Catende,
      vou danado pra Catende,
      vou danado pra Catende
      com vontade de chegar...

      Na boca da mata
      há furnas incríveis
      que em coisas terríveis
      nos fazem pensar:

      — Ali mora o Pai-da-Mata!
      — Ali é a casa das caiporas!

      — Vou danado pra Catende,
      vou danado pra Catende,
      vou danado pra Catende
      com vontade de chegar...

      Meu Deus! Já deixamos
      a praia tão longe...
      No entanto avistamos
      bem perto outro mar...

      Danou-se! Se move,
      parece uma onda...
      Que nada! É um partido
      já bom de cortar...

      — Vou danado pra Catende,
      vou danado pra Catende,
      vou danado pra Catende
      com vontade de chegar...

      Cana-caiana
      cana-roxa
      cana-fita
      cada qual a mais bonita,
      todas boas de chupar...

      — Adeus, morena do cabelo cacheado!
      — Ali dorme o Pai-da-Mata!
      — Ali é a casa das caiporas!

      — Vou danado pra Catende,
      vou danado pra Catende,
      vou danado pra Catende
      com vontade de chegar...



      In:Poemas de Ascenço Ferreira, Nordestal Editora, 1995, PE 

      Nessa postagem : Vou Danado Pra Catende, com Alceu Valença e Zé Ramalho. Música inspirada no poema de Ascenço Ferreira
      Este poema foi musicado por Inezita Barroso e pode ser pode ser visto em Cantiga Teatral 

      quinta-feira, 8 de maio de 2014

      Arrasando na terceira idade: Livraria Saraiva 100 anos

      ·        

                
      De um pequeno comércio de livros usados, do imigrante português Joaquim Inácio da Fonseca Saraiva, nasceu o que conhecemos hoje nas principais cidades do país. Uma cadeia de 98 livrarias. A Livraria Saraiva, que começou como Livraria Acadêmica e tinha acervo apenas de livros jurídicos, hoje possui 98 lojas.  Antes iniciada no largo do ouvidor próxima da mais importante faculdade de direito da USP, no Largo de São Francisco,  cresceu  e diversificou mix de produtos de acordo com a demanda. 

      À época da loja pioneira, Livraria Acadêmica, o Sr. Joaquim, recebeu dos estudantes e professores  apelido de Conselheiro Saraiva, pela orientações que deste recebiam. O conselheiro era homem de visão e inaugurou a fase editorial da livraria, com o livro O Casamento Civil, de Aniceto Corrêa. Pouco depois e ainda nos anos 30 passou a editar livros didáticos, literatura, ciências, mas manteve prioridade à área jurídica. Tornou-se a mais importante editora de livros de Direito.  Na década seguinte, o conselheiro e seus três filhos, transformam a livraria numa sociedade anônima, denominada Saraiva AS – Livreiros e Editores.
           Somente na década de 70 inaugura-se a segunda Livraria Saraiva, na Praça da Sé (SP)
          Na década seguinte a empresa viabiliza serviço próprio de distribuição. Já nos anos 90, reafirma-se pioneira na área de edições jurídicas com o lançamento  da LIS. A Legislação Informatizada Saraiva.  O equivalente a 40 volumes impressos da legislação federal, em formato CD-ROM. Edita também, livros paradidáticos de matérias componentes do ensino fundamental e médio.  1996 foi novo marco para a Saraiva com a inauguração das primeiras  megalivraria totalmente informatizadas: as mega stores Shopping Eldorado e Shopping Ibirapuera. Dentre as novidades estão as, hoje cotidianas, Saraiva Music Hall e Coffee & book.  Na área editorial a Saraiva entra no segmento de Administração,Economia e Marketing e adquire o controle da Editra Azul.
          Ainda nessa década tornou-se possível comprar produtos Saraiva pela internet. A editora foi uma das pioneiras no e commerce no Brasil.
           Nos anos 2000, a Ed.Saraiva adquiriu o catálogo didático e paradidático da Ed.Renascer.  E facilitou o atendimento à área jurídica , universitária e o atendimento a professores do ensino fundamental e médio todos com site próprios.  Adquiriu também a Editora Formato, Pigmento Editorial (Ético Sistema de Ensino), associou-se à Houghton Mifflin Harcourt International Publishers, uma das empresas líderes mundiais na área de softwares educacionais.  A empresa ainda lançou o selo Saraiva Educação Multimídia e editorial e livreiro com a aquisição de 100%do controle acionário do Grupo Siciliano e  incorporou o catálogo da editora os selos Arx e Caramelo. A Saraiva também é pioneira no serviço de aluguel  e compra de filmes digitais pela internet. Entra no ar em junho o SaraivaConteúdo, site que tem como proposta apresentar conteúdo exclusivo sobre música, literatura, poesia, cinema e o melhor da produção artística contemporânea.
      Na dácada atual, em 2010, surge o Saraiva Digital Reader, uma plataforma que permite a venda de Livros Digitais (e-books).


          Hoje a Saraiva possui lojas em diversos shopping centers  nas principais cidades do Brasil. incluindo 5 lojas iTown, presentes em 15 estados brasileiros. Possui também  o Viagens Saraiva, operação que oferece pacotes turísticos, hotéis e passagens aéreas, a preços competitivos, para os mais visitados destinos do Brasil e do exterior através da internet, o Cursos Saraiva, um serviço que foi desenvolvido para quem deseja ampliar seus conhecimentos com flexibilidade, tecnologia e qualidade, o Assinaturas Saraiva, um novo portal de assinaturas de revistas online de atualidades, cultura, entretenimento, negócios, saúde, beleza, lazer e muito mais. Tem parceria  a Giuliana Flores, um canal de venda de flores e presentes:Flores Saraiva. A  Óculosshop, o canal de venda de óculos:Óculos Saraiva.

           Como se vê, o Sr. Joaquim, ou o conselheiro Joaquim plantou uma semente sólida que seus descendentes administram com competência,tal que em outubro do ano passado a nossa conhecida Saraiva recebeu o “Prêmio Época ReclameAqui - As Melhores Empresas para o Consumidor de 2013” na categoria Comércio Eletrônico e foi destaque como Companhia Supercampeã de votação no ranking geral, que considera as melhores empresas em 62 categorias.

      (Fonte: site da Livraria Saraiva - editado pela blogueira)


      segunda-feira, 5 de maio de 2014

      Aniversariantes de maio (2) Nélida Pinõn

      Nélida Piñon.Aniversário:3 de maio
      Colheita 

      Nélida Piñon 

            Um rosto proibido desde que crescera. Dominava as paisagens no modo ativo de agrupar frutos e os comia nas sendas minúsculas das montanhas, e ainda pela alegria com que distribuía sementes. A cada terra a sua verdade de semente, ele se dizia sorrindo. Quando se fez homem encontrou a mulher, ela sorriu, era altiva como ele, embora seu silêncio fosse de ouro, olhava-o mais do que explicava a história do universo. Esta reserva mineral o encantava e por ela unicamente passou a dividir o mundo entre amor e seus objetos. Um amor que se fazia profundo a ponto de se dedicarem a escavações, refazerem cidades submersas em lava.

           A aldeia rejeitava o proceder de quem habita terras raras. Pareciam os dois soldados de uma fronteira estrangeira, para se transitar por eles, além do cheiro da carne amorosa, exigiam eles passaporte, depoimentos ideológicos. Eles se preocupavam apenas com o fundo da terra, que é o nosso interior, ela também completou seu pensamento. Inspirava-lhes o sentimento a conspiração das raízes que a própria árvore, atraída pelo sol e exposta à terra, não podia alcançar, embora se soubesse nelas.
           Até que ele decidiu partir. Competiam-lhe andanças, traçar as linhas finais de um mapa cuja composição havia se iniciado e ele sabia hesitante. Explicou à mulher que para a amar melhor não dispensava o mundo, a transgressão das leis, os distúrbios dos pássaros migratórios. Ao contrário, as criaturas lhe pareciam em suas peregrinações simples peças aladas cercando alturas raras.
           Ela reagiu, confiava no choro. Apesar do rosto exibir naqueles dias uma beleza esplêndida a ponto de ele pensar estando o amor com ela por que buscá-lo em terras onde dificilmente o encontrarei, insistia na independência. Sempre os de sua raça adotaram comportamento de potro. Ainda que ele em especial dependesse dela para reparar certas omissões fatais.
           Viveram juntos todas as horas disponíveis até a separação. Sua última frase foi simples: com você conheci o paraíso. A delicadeza comoveu a mulher, embora os diálogos do homem a inquietassem. A partir desta data trancou-se dentro de casa. Como os caramujos que se ressentem com o excesso da claridade. Compreendendo que talvez devesse preservar a vida de modo mais intenso, para quando ele voltasse. Em nenhum momento deixava de alimentar a fé, fornecer porções diárias de carpas oriundas de águas orientais ao seu amor exagerado.
           Em toda a aldeia a atitude do homem representou uma rebelião a se temer. Seu nome procuravam banir de qualquer conversa. Esforçavam-se em demolir o rosto livre e sempre que passavam pela casa da mulher faziam de conta que jamais ela pertencera a ele. Enviavam-lhe presentes, pedaços de toicinho, cestas de pera, e poesias esparsas. Para que ela interpretasse através daqueles recursos o quanto a consideravam disponível, sem marca de boi e as iniciais do homem em sua pele.
           A mulher raramente admitia uma presença em sua casa. Os presentes entravam pela janela da frente, sempre aberta para que o sol testemunhasse a sua própria vida, mas abandonavam a casa pela porta dos fundos, todos aparentemente intocáveis. A aldeia ia lá para inspecionar os objetos que de algum modo a presenciaram e eles não, pois dificilmente aceitavam a rigidez dos costumes. Às vezes ela se socorria de um parente, para as compras indispensáveis. Deixavam eles então os pedidos aos seus pés, e na rápida passagem pelo interior da casa procuravam a tudo investigar. De certo modo ela consentia para que vissem o homem ainda imperar nas coisas sagradas daquela casa.
           Jamais faltou uma flor diariamente renovada próxima ao retrato do homem. Seu semblante de águia. Mas, com o tempo, além de mudar a cor do vestido, antes triste agora sempre vermelho, e alterar o penteado, pois decidira manter os cabelos curtos, aparados rentes à cabeça — decidiu por eliminar o retrato. Não foi fácil a decisão. Durante dias rondava o retrato, sondou os olhos obscuros do homem, ora o condenava, ora o absolvia: porque você precisou da sua rebeldia, eu vivo só, não sei se a guerra tragou você, não sei sequer se devo comemorar sua morte com o sacrifício da minha vida.
           Durante a noite, confiando nas sombras, retirou o retrato e o jogou rudemente sobre o armário. Pôde descansar após a atitude assumida. Acreditou deste modo poder provar aos inimigos que ele habitava seu corpo independente da homenagem. Talvez tivesse murmurado a algum dos parentes, entre descuidada e oprimida, que o destino da mulher era olhar o mundo e sonhar com o rei da terra.
           Recordava a fala do homem em seus momentos de tensão. Seu rosto então igualava-se à pedra, vigoroso, uma saliência em que se inscreveria uma sentença, para permanecer. Não sabia quem entre os dois era mais sensível à violência. Ele que se havia ido, ela que tivera que ficar. Só com os anos foi compreendendo que se ele ainda vivia tardava a regressar. Mas, se morrera, ela dependia de algum sinal para providenciar seu fim. E repetia temerosa e exaltada: algum sinal para providenciar meu fim. A morte era uma vertente exagerada, pensou ela olhando o pálido brilho das unhas, as cortinas limpas, e começou a sentir que unicamente conservando a vida homenagearia aquele amor mais pungente que búfalo, carne final da sua espécie, embora tivesse conhecido a coroa quando das planícies.
           Quando já se tornava penoso em excesso conservar-se dentro dos limites da casa, pois começara a agitar nela uma determinação de amar apenas as coisas venerandas, fossem pó, aranha, tapete rasgado, panela sem cabo, como que adivinhando ele chegou. A aldeia viu o modo de ele bater na porta com a certeza de se avizinhar ao paraíso. Bateu três vezes, ela não respondeu. Mais três e ela, como que tangida à reclusão, não admitia estranhos. Ele ainda herói bateu algumas vezes mais, até que gritou seu nome, sou eu, então não vê, então não sente, ou já não vive mais, serei eu logo o único a cumprir a promessa?
           Ela sabia agora que era ele. Não consultou o coração para agitar-se, melhor viver a sua paixão. Abriu a porta e fez da madeira seu escudo. Ele imaginou que escarneciam da sua volta, não restava alegria em quem o recebia. Ainda apurou a verdade: se não for você, nem preciso entrar. Talvez tivesse esquecido que ele mesmo manifestara um dia que seu regresso jamais seria comemorado, odiaria o povo abundante na rua vendo o silêncio dos dois após tanto castigo.
           Ela assinalou na madeira a sua resposta. E ele achou que devia surpreendê-la segundo o seu gosto. Fingia a mulher não perceber seu ingresso casa adentro, mais velho sim, a poeira colorindo original as suas vestes. Olharam-se como se ausculta a intrepidez do cristal, seus veios limpos, a calma de perder-se na transparência. Agarrou a mão da mulher, assegurava-se de que seus olhos, apesar do pecado das modificações, ainda o enxergavam com o antigo amor, agora mais provado.
           Disse-lhe: voltei. Também poderia ter dito: já não te quero mais. Confiava na mulher; ela saberia organizar as palavras expressas com descuido. Nem a verdade, ou sua imagem contrária, denunciaria seu hino interior. Deveria ser como se ambos conduzindo o amor jamais o tivessem interrompido.
           Ela o beijou também com cuidado. Não procurou sua boca e ele se deixou comovido. Quis somente sua testa, alisou-lhe os cabelos. Fez-lhe ver o seu sofrimento, fora tão difícil que nem seu retrato pôde suportar. Onde estive então nesta casa, perguntou ele, procure e em achando haveremos de conversar. O homem se sentiu atingido por tais palavras. Mas as peregrinações lhe haviam ensinado que mesmo para dentro de casa se trazem os desafios.
           Debaixo do sofá, da mesa, sobre a cama, entre os lençóis, mesmo no galinheiro, ele procurou, sempre prosseguindo, quase lhe perguntava: estou quente ou frio. A mulher não seguia suas buscas, agasalhada em um longo casaco de lã, agora descascava batatas imitando as mulheres que encontram alegria neste engenho. Esta disposição da mulher como que o confortava. Em vez de conversarem, quando tinham tanto a se dizer, sem querer eles haviam começado a brigar. E procurando ele pensava onde teria estado quando ali não estava, ao menos visivelmente pela casa.
           Quase desistindo encontrou o retrato sobre o armário, o vidro da moldura todo quebrado. Ela tivera o cuidado de esconder seu rosto entre cacos de vidro, quem sabe tormentas e outras feridas mais. Ela o trouxe pela mão até a cozinha. Ele não se queria deixar ir. Então, o que queres fazer aqui? Ele respondeu: quero a mulher. Ela consentiu. Depois porém ela falou: agora me siga até a cozinha.
           — O que há na cozinha?
           Deixou-o sentado na cadeira. Fez a comida, se alimentaram em silêncio. Depois limpou o chão, lavou os pratos, fez a cama recém-desarrumada, tirou o pó da casa, abriu todas as janelas quase sempre fechadas naqueles anos de sua ausência. Procedia como se ele ainda não tivesse chegado, ou como se jamais houvesse abandonado a casa, mas se faziam preparativos sim de festa. Vamos nos falar ao menos agora que eu preciso?, ele disse.
           — Tenho tanto a lhe contar. Percorri o mundo, a terra, sabe, e além do mais...
           Eu sei, ela foi dizendo depressa, não consentindo que ele dissertasse sobre a variedade da fauna, ou assegurasse a ela que os rincões distantes ainda que apresentem certas particularidades de algum modo são próximos a nossa terra, de onde você nunca se afastou porque você jamais pretendeu a liberdade como eu. Não deixando que lhe contasse, sim que as mulheres, embora louras, pálidas, morenas e de pele de trigo, não ostentavam seu cheiro, a ela, ele a identificaria mesmo de olhos fechados. Não deixando que ela soubesse das suas campanhas: andou a cavalo, trem, veleiro, mesmo helicóptero, a terra era menor do que supunha, visitara a prisão, razão de ter assimilado uma rara concentração de vida que em nenhuma parte senão ali jamais encontrou, pois todos os que ali estavam não tinham outro modo de ser senão atingindo diariamente a expiação.
           E ela, não deixando ele contar o que fora o registro da sua vida, ia substituindo com palavras dela então o que ela havia sim vivido. E de tal modo falava como se ela é que houvesse abandonado a aldeia, feito campanhas abolicionistas, inaugurado pontes, vencido domínios marítimos, conhecido mulheres e homens, e entre eles se perdendo pois quem sabe não seria de sua vocação reconhecer pelo amor as criaturas. Só que ela falando dispensava semelhantes assuntos, sua riqueza era enumerar com volúpia os afazeres diários a que estivera confinada desde a sua partida, como limpava a casa, ou inventara um prato talvez de origem dinamarquesa, e o cobriu de verdura, diante dele fingia-se coelho, logo assumindo o estado que lhe trazia graça, alimentava-se com a mão e sentia-se mulher; como também simulava escrever cartas jamais enviadas pois ignorava onde encontrá-lo; o quanto fora penoso decidir-se sobre o destino a dar a seu retrato, pois, ainda que praticasse a violência contra ele, não podia esquecer que o homem sempre estaria presente; seu modo de descascar frutas, tecendo delicadas combinações de desenho sobre a casca, ora pondo em relevo um trecho maior da polpa, ora deixando o fruto revestido apenas de rápidos fiapos de pele; e ainda a solução encontrada para se alimentar sem deixar a fazenda em que sua casa se convertera, cuidara então em admitir unicamente os de seu sangue sob condição da rápida permanência, o tempo suficiente para que eles vissem que apesar da distância do homem ela tudo fazia para homenageá-lo, alguns da aldeia porém, que ele soubesse agora, teimaram em lhe fazer regalos, que, se antes a irritavam, terminaram por agradá-la.
           — De outro modo, como vingar-me deles?
           Recolhia os donativos, mesmo os poemas, e deixava as coisas permanecerem sobre a mesa por breves instantes, como se assim se comunicasse com a vida. Mas, logo que todas as reservas do mundo que ela pensava existirem nos objetos se esgotavam, ela os atirava à porta dos fundos. Confiava que eles próprios recolhessem o material para não deteriorar em sua porta.
           E tanto ela ia relatando os longos anos de sua espera, um cotidiano que em sua boca alcançava vigor, que temia ele interromper um só momento o que ela projetava dentro da casa como se cuspisse pérolas, cachorros miniaturas, e uma grama viçosa, mesmo a pretexto de viver junto com ela as coisas que ele havia vivido sozinho. Pois quanto mais ela adensava a narrativa, mais ele sentia que além de a ter ferido com o seu profundo conhecimento da terra, o seu profundo conhecimento da terra afinal não significava nada. Ela era mais capaz do que ele de atingir a intensidade, e muito mais sensível porque viveu entre grades, mais voluntariosa por ter resistido com bravura os galanteios. A fé que ele com neutralidade dispensara ao mundo a ponto de ser incapaz de recolher de volta para seu corpo o que deixara tombar indolente, ela soubera fazer crescer, e concentrara no domínio da sua vida as suas razões mais intensas.
           À medida que as virtudes da mulher o sufocavam, as suas vitórias e experiências iam-se transformando em uma massa confusa, desorientada, já não sabendo ele o que fazer dela. Duvidava mesmo se havia partido, se não teria ficado todos estes anos a apenas alguns quilômetros dali, em degredo como ela, mas sem igual poder narrativo.
           Seguramente ele não lhe apresentava a mesma dignidade, sequer soubera conquistar seu quinhão na terra. Nada fizera senão andar e pensar que aprendeu verdades diante das quais a mulher haveria de capitular. No entanto, ela confessando a jornada dos legumes, a confecção misteriosa de uma sopa, selava sobre ele um penoso silêncio. A vergonha de ter composto uma falsa história o abatia. Sem dúvida estivera ali com a mulher todo o tempo, jamais abandonara a casa, a aldeia, o torpor a que o destinaram desde o nascimento, e cujos limites ele altivo pensou ter rompido.
           Ela não cessava de se apoderar das palavras, pela primeira vez em tanto tempo explicava sua vida, tinha prazer de recolher no ventre, como um tumor que coça as paredes íntimas, o som da sua voz. E, enquanto ouvia a mulher, devagar ele foi rasgando o seu retrato, sem ela o impedir, implorasse não, esta é a minha mais fecunda lembrança. Comprazia-se com a nova paixão, o mundo antes obscurecido que ela descobriu ao retorno do homem.
           Ele jogou o retrato picado no lixo e seu gesto não sofreu ainda desta vez advertência. Os atos favoreciam a claridade e, para não esgotar as tarefas a que pretendia dedicar-se, ele foi arrumando a casa, passou pano molhado nos armários, fingindo ouvi-Ia ia esquecendo a terra no arrebato da limpeza. E, quando a cozinha se apresentou imaculada, ele recomeçou tudo de novo, então descascando frutas para a compota enquanto ela lhe fornecia histórias indispensáveis ao mundo que precisaria apreender uma vez que a ele pretendia dedicar-se para sempre. Mas de tal modo agora arrebatava-se que parecia distraído, como pudesse dispensar as palavras encantadas da mulher para adotar afinal o seu universo.


      Fontes: www.nelidapinon.com.br
      Imagem:  Pedro Zanin.

      Veja também: aniversariantes de maio(1) José de Alencar.