sexta-feira, 18 de abril de 2014

Uma Alma Aberta a Ser Preenchida Em Castelhano, Gabriel García Márquez

Pronunciamento feito em Cartagena das Índias, Colômbia,26 de março de 2007 Diante das Academias de Língua e dos reis de Espanha. Por ocasião da abertura do IV congresso Internacional da Língua. O autor era homenageado por seus 80 anos de idade,40 anos da publicação de Cem Anos de Solidão e 25 anos do Prêmio Nobel.        




        Uma Alma Aberta Para Ser Preenchida Em Castelhano    
     Nem no mais delirante dos meus sonhos, nos dias em que escrevia Cem Anos de Solidão, cheguei a imaginar que poderia ver uma edição de um milhão de exemplares. Pensar que um milhão de pessoas poderiam decidir ler algo  escrito na solidão  de um quarto, tendo como arsenal as vinte e oito letras do alfabeto e meus dois dedos indicadores, parecia claramente uma loucura. Hoje, as Academias da Língua fazem isso como um gesto  para um romance que passou diante dos olhos de cinquenta vezes um milhão de leitores, e para um artesão insone como eu, que não sai da sua surpresa por tudo o que aconteceu.
     Mas não se trata, nem pode se tratar, de um reconhecimento para um escritor . Esse milagre é a  demonstração irrefutável de que existe uma quantidade enorme de pessoas dispostas a ler histórias na língua castelhana, e portanto um milhão de exemplares de Cem Anos de Solidão não são um milhão de homenagens ao escritor que hoje recebe, rubro de vergonha,o primeiro livro dessa tiragem descomunal. É a demonstração de que existem milhões de leitores de textos em língua castelhana esperando por este alimento.
     Na minha rotina de escritor, nada mudou desde aquele tempo. Nunca vi nada diferente que meus dois dedos indicadores golpeando, uma por uma,  e num bom ritmo, as vinte e oito letras do alfabeto imutável que tive diante dos meus olhos durante esses setenta  e tantos anos. Hoje, chegou a vez de eu levantar a cabeça para assistir a esta homenagem, que agradeço, e não posso fazer outra coisa a não ser parar para pensar no que foi que aconteceu. O que vejo é que o leitor inexistente da minha página em branco se transformou hoje numa multidão descomunal, faminta de textos em língua castelhana.
     Os leitores de Cem Anos de Solidão formam uma comunidade, que se vivesse num mesmo pedaço de terra seria um dos vinte países mais povoados do mundo. Não se trata de uma afirmação jactanciosa. Ao contrário. Quero apenas mostrar que ali está uma quantidade de seres humanos que demonstram, com seu hábito de leitura, que têm a alma aberta para ser preenchida com mensagens em castelhano. O desafio para todos os escritores, todos os poetas, narradores e educadores de nossa língua é alimentar essa sede e multiplicar essa multidão, verdadeira razão de ser do nosso ofício e, claro, de nós mesmos.
     Aos meus trinta e oito anos, e com quatro livros publicados desde meus vinte, me sentei diante da máquina e escrevi: “muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendia havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”. Não tinha a menor ideia do significado ou da origem dessa frase , nem para onde iria me conduzir. O que hoje sei é que não deixei de escrever um único dia durante dezoito meses, até que terminei o livro.
     Pode parecer mentira, mas um dos problemas mais angustiantes era o papel para a máquina de escrever.Eu tinha o mau costume de acreditar que is erros de datilografia, de linguagem ou de gramática eram na realidade erros de criação, e cada vez que os detectava rasgava a folha e jogava no lixo, para começar de novo. Com o ritmo que tinha adquirido num ano de prática, calculei que levaria uns sei meses de manhãs diárias para terminar o livro.
     Esperanza Araiza, a inesquecível Pera, era a datilógrafa de poetas e cineastas e tinha passado a limpo grandes obras de escritores mexicanos. Entre eles A  região mais transparente, de Carlos Fuentes, e Pedro Páramo, de Juan Rulfo, além de vários  roteiros originais de dom Luis Buñuel. Quando propus a ela que passasse a limpo a versão final, o romance era um rascunho crivado de remendos, primeiro em tinta preta e depois em tinta vermelha para evitar confusões. Mas isso não era nada para uma mulher acostumada  a tudo numa jaula de leões. Anos depois, Pera me confessou  que quando levava para casa a última versão corrigida por mim, escorregou ao descer do ônibus em um aguaceiro de dilúvio e as páginas ficaram flutuando na poça na rua. Com a ajuda de outros passageiros, ela os recolheu empapados e quase ilegíveis, e secou-as em casa, folha por folha, com um ferro de passar roupa.
     Um outro livro, que poderia ser melhor, seria  contar como sobrevivemos, Mercedes e eu, com nossos dois filhos, durante aquele tempo em que não ganhei um único centavo de lugar nenhum. Nem sei como Mercedes fez, durante aqueles meses, para que não faltasse comida em casa nem um único dia. Tínhamos resistido às tentações dos empréstimos com juros até amarrarmos o coração e começarmos nossas primeiras incursões para empenhar coisas na caixa econômica.
     Depois dos alívios efêmeros com certas coisas miúdas, foi preciso apelar para as joias que Mercedes havia recebido de seus familiares ao longo dos anos. O especialista as examinou com um rigor de cirurgião, pesou e revisou com seu olho mágico os diamantes dos brincos, as esmeraldas de um colar, os rubis dos anéis, e no final devolveu tudo com um longo gesto de toureiro: “Tudo isso é vidro puro.”
     Nos momentos de dificuldades maiores, Mercedes fez suas contas astrais e disse ao nosso paciente senhorio, sem um mínimo de tremor na voz:
     - Podemos pagar tudo de uma vez dentro de seis meses.
    -Desculpe, senhora – respondeu o proprietário –mas a senhora sabe que isso será uma soma enorme?
     -Sei – disse Mercedes, impassível -, mas quando for a hora daremos um jeito em tudo. Não se preocupe.
     -A voz do bom senhor, que era um alto funcionário de Estado, e um dos homens mais elegantes e pacientes que tínhamos conhecido, tampouco tremeu ao responder:
     -Muito bem senhora. Sua palavra é suficiente. – E fez suas contas fatais: - eu a espero no dia sete de setembro.
     Finalmente, no começo de agosto de 1966, Mercedes  e eu fomos  até uma agência de correios da cidade do México para mandar para Buenos Aires  a versão terminada de Cem Anos de Solidão, um pacote com 590 laudas escritas a máquina em espaço duplo  e em papel ordinário, dirigidas a Francisco Porrúa, diretor literário da Editorial  Sudamericana.
     O funcionário do correio  pôs o pacote na balança  fez seus cálculos mentais  e disse:
     - São oitenta e dois pesos
     Mercedes contou  as notas e as moedas  soltas que tinham sobrado  em sua carteira  e enfrentou a realidade: - só temos cinquenta e três.
     Abrimos o pacote , dividimos em duas partes iguais e mandamos uma para Buenos Aires, sem nem pensar em como conseguiríamos dinheiro para mandar o resto. Só mais tarde percebemos que não tínhamos mandado a primeira parte, e sim a segunda. Mas antes que conseguíssemos o dinheiro para mandá-la, Paco Porrúa , nosso homem na Editorial Sudamericana, ansioso Para ler a primeira metade do livro, nos antecipou dinheiro para que pudéssemos mandá-la.
     Foi assim que tornamos a nascer em nossa vida de hoje.


(In  Márquez,Gabriel García, Eu Não Vim Fazer Um Discurso,Cristóban Pera Org.,2011, págs.111-115)

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terça-feira, 15 de abril de 2014

Entrevista com Eduardo Galeano

Em 1998, entrevistei a escritora Rachel de Queiroz (1910-2003) e ela me confessou sentir “antipatia mortal” por O Quinze, o clássico da literatura brasileira que publicou aos 20 anos, em 1930, e que, desde então, seria sua “obra mais importante e mais popular” (tudo quanto é enciclopédia se refere assim ao livro). O mesmo acontece com As Veias Abertas da América Latina e o escritor uruguaio Eduardo Galeano.  Publicado em 1971, quando Galeano tinha 30 anos, a obra até hoje o persegue. É sempre nomeado como “o autor de As Veias Abertas…“, o que, pelo visto, o incomoda mesmo porque tem mais de 30 livros além dele.
Imagem: Fábio Pozzebom/A.B
Na entrevista coletiva que deu na sexta-feira 11 em Brasília, onde veio para ser o escritor homenageado da 2ª Bienal do Livro e da Leitura, Galeano ouviu provavelmente a milionésima pergunta sobre Veias Abertas. “Faz 40 anos que você escreveu As Veias Abertas da América Latina. Quais são as veias abertas hoje em dia?” E ele, em um português bastante razoável: “Seria para mim impossível responder a uma pergunta assim, especialmente porque, depois de tantos anos, não me sinto tão ligado a esse livro como quando o escrevi. O tempo passou, comecei a tentar outras coisas, a me aproximar mais à realidade humana em geral e em especial à economia política porque As Veias Abertas tentou ser um livro de economia política, só que eu ainda não tinha a formação necessária. Não estou arrependido de tê-lo escrito, mas é uma etapa superada. Eu não seria capaz de ler de novo esse livro, cairia desmaiado. Para mim essa prosa de esquerda tradicional é chatíssima. O meu físico não aguentaria. Seria internado no pronto-socorro… ‘Tem alguma cama livre?’, perguntaria.” Risadas.
Aproveito e emendo: mas o que você achou de Chávez dar o livro para o Obama? Obama entenderia As Veias Abertas…? “Nem Obama nem Chávez”, responde Galeano para gargalhada geral. “Claro, porque ele entregou a Obama com a melhor intenção do mundo Chávez era um santo, cara mais bondoso que esse eu não conheci, mas deu de presente a Obama um livro em uma língua que ele não conhece. Então, foi um gesto generoso, mas um pouco cruel.”
Eu nunca tinha visto o grande escritor uruguaio de perto. É mais baixo do que imaginava, cerca de 1m70. Bastante frágil, aparenta ter mais do que seus 73 anos. Ele mesmo comenta que a maioria dos escritores é de esquerda e, como tal, chegados a uma boemia e isso não faz bem à saúde… Uma menina pergunta: “A idade não é boa para os jogadores de futebol. E para os escritores?” Galeano discorda. “Depende. Tem velhos muito mais jovens que os velhos velhíssimos e tem velhos que você acha que estão esperando a morte e surpreendentemente acabam ganhando uma partida por 8 a zero. Não depende da biologia nem do prognóstico dos profetas. Não depende de ninguém. O melhor que o futebol tem como esporte a festa que o futebol é, a festa das pernas que jogam, a festa dos olhos é a capacidade de surpresa, de assombro. Na verdade ninguém sabe o que vai acontecer. E menos ainda os especialistas. Aqueles doutores do futebol são seres temíveis, perigosíssimos para a sociedade e o mundo em geral.”
Outro jornalista espeta: “Por que a esquerda não deu certo na América Latina?” Galeano não se faz de rogado: “Algumas vezes deu certo, algumas vezes, não. A realidade é mutável, a realidade política e todas as outras por sorte. Senão seríamos estátuas, estaríamos congelados no tempo. Não é verdade que a esquerda não deu certo. Deu certo e muitas vezes foi demolida por ter dado certo, por ter tido razão, porque o que a esquerda predicou, em certo momento na América Latina, resultou ser a verdade, então foi punida. Punida pelos golpes de Estado, ditaduras militares, períodos prolongadíssimos de terror de Estado, crimes horrorosos cometidos em nome da paz social, do progresso. Da convivência democrática, imaginem! Que democracia e que convivência são essas? Tinham que perguntar: ‘do que está falando, senhor?’ As coisas são muito mais complexas do que parecem. Em alguns períodos, também, a esquerda comete erros gravíssimos e em outros, não, faz o que deve ser feito da melhor maneira, até além do que o próprio movimento de massas estava esperando. A realidade sempre tem esse poder de surpresa. Te surpreende com a resposta que dá a perguntas nunca formuladas. E que são as mais tentadoras. O grande estímulo para a vida está aí, na capacidade de adivinhar possíveis perguntas não formuladas.”
Galeano está cansado, foram muitas horas de viagem para chegar à capital federal, e quer encerrar a entrevista. Eu protesto: “Mas e Mujica? Você não vai falar de Mujica?” Ele não resiste e se senta de novo. “Estou meio cansado, estou fatigado de falar de Mujica, porque todo mundo fala dele! Até em outros planetas se fala de Mujica. Em Marte, Júpiter… É incrível a capacidade de ressonância que Mujica tem. E ele é muito meu amigo, já faz muitos anos. A única coisa que posso fazer para incorporar um grão de areia a esta praia imensa de Mujica caminhando pelo mundo seria contar uma piccola história que dá ideia da qualidade humana do personagem.”
E começou a narrar, saborosamente, como é de seu feitio:
“Faz uns quatro anos não tenho interesse em lembrar direito a data fui operado de câncer. Foi um câncer sério, agudo. Tomei uma anestesia muito forte, dessas que não desaparecem rápido. E estava sozinho na cama do hospital, esperando que passasse o efeito da anestesia. Ou seja, mais dormido do que acordado. Sem saber muito o que acontecia, onde estava, delirando. E neste período, estando sozinho em uma cama sozinho, não, acompanhado pelo câncer, mas o câncer não é um amigo confiável. Não te recomendo. Bem, estava eu ali e volta e meia delirava. Como sou muito futeboleiro, um religioso da bola, tinha delírios futebolistas que me levaram aos anos de infância, quando jogava na rua, com bolas improvisadas, feitas com trapos velhos. E em uma dessas fugas, comecei a bater bola. Como se fosse uma múmia egípcia que tinha errado de domicílio, jogando futebol contra ninguém e sem bola nenhuma, só na imaginação. Chutava a bola e ela voltava, chutava e ela voltava. Tudo debaixo do lençol. E nada, a bola continuava, como se estivesse morta de riso da minha estupidez de achar que podia com ela. ‘Não, você não pode comigo’. Numa dessas, senti um peso em cima dos meus joelhos. Aí começo a recobrar a realidade e vejo alguém que conheço, uma voz que reconheço, de um amigo. E pergunto:
O que você está fazendo aqui?
E ele:
Isso é maneira de receber um amigo?
Não importa, quero saber o que você faz aqui. Está doente também?
Que é isso, estou saudabilíssimo. O enfermo é você.
Estou sabendo. Obrigado pela notícia, mas já estou sabendo.
O doente é você, está fodido, irmão. Eu vim te visitar. Agora, não sabia que se recebia um amigo assim, chutando-o, chutando-o e chutando-o. Não é muito educado.
Continuamos nessa até que eu falei:
Olhe, chega. Sua função não é estar aqui brincando comigo. Você é o presidente da República e sua função é governar. Mujica, você é o presidente! Vai governar este país já! Estamos precisando de sua participação ativa, desinteressada, importantíssima para o nosso povo. Não perca mais tempo comigo.
Ah, bela maneira de ser amigo, hein?
Será bela ou será feia, mas é a única maneira para você. Você é o presidente! Além disso, para piorar, todo mundo gosta de você e quer que continue sendo presidente por uns 300 anos mais. Se você não gosta, foda-se.
E aí acabou.”

Na saída, consigo falar a Eduardo Galeano do enorme prazer que sinto em conhecê-lo pessoalmente e lhe conto que adoro O Livro dos Abraços. Ele olha para mim e diz: “Eu também”.


Fonte: Carta Capital on line, entrevista concedida a Cynara Menezes.


segunda-feira, 14 de abril de 2014

Segunda-feira poética: Aos Predadores da Utopia, Lau Siqueira




dentro de mim

morreram muitos tigres



os que ficaram

no entanto

são livres



Acessível  em: http://poesia-sim-poesia.blogspot.com.br/2014/03/entrevista-ao-jornalista-wagner-lima.html

quinta-feira, 10 de abril de 2014

A Cadeira 23

                           Antônio Torres,o romancista baiano, em cerimônia realizada ontem, dia 8,tomou posse  da cadeira  23, da Academia Brasileira de Letras.

Antônio Torres, escritor na FLIP, em Parati
Antônio Torres, escritor na FLIP, em Parati ( Andre Teixeira/Agência o Globo)
O escritor é o 8º  "imortal" ocupante da cadeira. A Academia Brasileira de Letras (ABL) possui 40 membros e a cadeira 23, é a que tem como patrono o cerense José de Alencar e como fundador Machado de Assis.
Aprendi hoje, que Antônio Torres é  o curador do projeto Nuvem de Livros, biblioteca online que permite acesso ilimitado a milhares de livros, audiolivros, vídeos, teleaulas e conteúdos educativos através de computadores, celulares e tablets.
Do autor:
Essa Terra, 1976


Uma dessas,é a cadeira 23 e seus imortais ocupantes, foram:

Machado de Assis (fundador) - RJ
José de Alencar( patrono) - CE
Lafayete Rodrigues Pereira - MG
Alfredo Pujol - RJ
Otávio Mangabeira - BA
Jorge Amado - BA
Zélia Gattai - SP
Luis Paulo Horta - RJ


segunda-feira, 7 de abril de 2014

Segunda-feira poética: Poema de Sete Faces


Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser 
gauche na vida.

As 
casas espiam os homens
que correm atrás de 
mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos 
desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é 
sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, 
por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma 
solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

domingo, 6 de abril de 2014

Um conto e três versões: A Moura-Torta 3


Era uma vez um rei chamado Massad, que governava um país extenso e cheio de fartura. Esse rei tinha apenas um filho, cha­mado Anuar, um príncipe virtuoso e de bom coração.
Quando Massad morreu, Anuar o suce­deu no trono, governando, desde o início, com sabedoria e justiça. E o povo, que já o estimava sinceramente, passou a amá-lo e respeitá-lo ainda mais.
Um único problema, entretanto, afligia Anuar: passado o período de um ano, que se guardava como luto pela morte do rei ante­rior, as leis do país exigiam que o novo rei se casasse tantas vezes quantas fossem ne­cessárias, até que tivesse um filho para ser o futuro soberano. Mas Anuar não gostava de nenhuma mulher, nem acreditava que pudes­se amar uma pessoa.
Os conselheiros da coroa, com medo de que Anuar perdesse o trono, começaram a procurar-lhe pretendentes entre as princesas de outros países. Viviam a enaltecer a beleza e as virtudes dessas moças, mas o rei nem sequer ouvia as descrições que eles faziam.
Anuar tinha o hábito de todos os dias pas­sear incógnito pelas terras do reino, para poder conversar com os súditos e saber quais eram suas reais necessidades. Um dia, quan­do dava um de seus passeios habituais, che­gou às margens de um rio, onde avistou, sen­tada à sombra de uma árvore frondosa, uma jovem de radiante formosura.
      Ao vê-la, o coração de Anuar começou a bater mais forte, e ele imediatamente descobriu que, pela primeira vez na vida, estava apaixonado. Tentando disfarçar a emoção, dirigiu-se à jovem e, depois de revelar sua Verdadeira identidade, pediu-a em casamen­to. O rosto da moça, que estava melancólico se abriu num sorriso. Afinal, ela tinha se sen­tado ali justamente para pensar no amor que sentia pelo rei e que julgava nunca poder ser correspondido. Assim, aceitou o pedido sem pensar duas vezes.
A futura rainha, entretanto, deveria ser apresentada à corte condignamente vestida e acompanhada por um cortejo cheio de pompa. Assim, Anuar pediu à noiva que subisse na árvore e se escondesse entre os galhos, en­quanto ele iria até a cidade para providenciar tudo. Recomendou-lhe que não falasse com ninguém nem desse sinal de vida durante sua ausência, pois tinha receio de que a roubas­sem.
A moça atendeu prontamente ao pedido e subiu na árvore para esperar o noivo. Algum tempo depois, viu se aproximar uma escrava muito feia, conhecida como a Moura Torta, que vinha buscar água para os patrões. Tinha as pernas tortas e caminhava com dificulda­de, carregando um pote de barro sobre a cabeça.
Cansada, a Moura Torta sentou-se bem no lugar onde a jovem tinha sido encontrada pelo rei, e começou a pensar na vida.
Obedecendo aos conselhos do rei, a jovem não fez nenhum ruído para que a escrava não desse pela sua presença. Entretanto, quando a Moura Torta se curvou sobre o rio para encher o pote, viu refletida nas águas tran­quilas a imagem formosa da noiva do rei. E, como não sabia que a moça estava ali, achou que aquela imagem fosse a sua própria.
— Que desaforo! — disse ela, então. — Uma moça tão linda como eu fazendo um tra­balho pesado desse jeito!
E, num acesso de raiva, jogou o pote de barro no chão, fazendo-o em mil pedaços. Depois foi-se embora.
A jovem, do alto da árvore, precisou segurar o riso para não ser descoberta.
Ao chegar em casa, a Moura Torta disse aos patrões que havia levado um tombo e que­brado o pote de barro pelo caminho. Deram--lhe então um barril de madeira, que não se quebrava tão facilmente, e a mandaram outra vez buscar água.
Mas, quando se abaixou para encher o barril, a escrava viu novamente a imagem da linda moça refletida na água. Acreditando de novo que aquela era a sua própria imagem, exclamou com raiva:
— Isso não pode ser! Uma jovem deslum­brante como eu servindo de escrava para os outros!
E, louca de ódio, jogou o barril contra as pedras, espatifando-o.
Desta vez, a noiva do rei teve mais difi­culdade em segurar o riso, e precisou colo­car um lenço junto à boca para não explodir numa gargalhada.
Mais uma vez a Moura Torta voltou para casa e mentiu aos patrões, dizendo que havia escorregado de novo e que o barril havia se espatifado no chão. Deram-lhe então um cal­deirão de ferro e a mandaram buscar água.
Dali a pouco ela chegava ao rio e se de­bruçava sobre as águas para encher o cal­deirão. Mas lá estava novamente a bela ima­gem refletida, e a escrava, sem se conter, gritou:
— Não, não e não! Decididamente sou bela demais para fazer este trabalho!
E, tomada de um acesso de fúria, come­çou a atirar o caldeirão contra as pedras que havia na margem do rio, tentando quebrá-lo. Como não conseguia, foi ficando cada vez mais irritada, aumentando sua feiúra com caretas e gestos desesperados. Até que a jo­vem, que a tudo assistia, não resistiu mais e soltou uma gostosa gargalhada.
A Moura Torta, assustada, olhou então para o alto da árvore e avistou a noiva do rei.
— Ah, então é você, sua malandra! — ela gritou. — É você quem está fazendo com que eu quebre minhas vasilhas?!
      E, para susto da moça, começou a subir na árvore. Mas, chegando ao galho onde estava sentada, não lhe fez nada. Falou de sua vida, da tristeza de ser escrava, até con­seguir conquistar-lhe a simpatia. Depois, co­meçou a afagar-lhe os cabelos, elogiando-lhe a beleza. Quando a moça estava distraída, a Moura Torta, que entendia de bruxarias, ti­rou do bolso um alfinete encantado e, sem que a jovem percebesse, espetou-lhe com força na cabeça. Imediatamente a linda noiva do rei se transformou numa pombinha, que saiu voando dali.
Horas depois o rei chegava, acompanha­do por numeroso cortejo, com soldados, cria­dos e todos os nobres da corte. Na frente, vinha uma banda de música para abrir pas­sagem. O reino estava em festa com a notí­cia de que o rei iria se casar.
Qual não foi a decepção de Anuar, po­rém, ao encontrar, em vez da belíssima jo­vem que havia escolhido para esposa, a es­crava feia e de pernas tortas a esperá-lo na copa da árvore!
       —   Mas o que aconteceu? — ele pergun­tou, surpreso.
—   Oh, Majestade! — disse a Moura Tor­ta. — Foram tantas horas de espera, debaixo de sol e de vento, que minha pele sensível não resistiu!
Anuar ficou completamente desorientado com aquilo, mas não suspeitou de nada. E, como já havia prometido casamento a moça e comunicado ao reino todo sua decisão, não podia voltar atrás. Assim, prosseguiu com a festa e casou-se com aquela mulher horro­rosa.
Um dia depois do casamento, quando o jardineiro do palácio começou a trabalhar, viu pousar numa planta uma linda pombinha, que começou a cantar:
Ó bondoso jardineiro, se não se importa, me diga como passa o rei com sua Moura Torta!E o jardineiro respondeu:
Come bem e passa bem, passa vida regalada, tão serena e sossegada, como no mundo ninguém!A pombinha, tristemente, cantou: Ai, pobres de nós, pombinhas, que só comemos pedrinhas!E depois saiu voando, desaparecendo do jardim. O jardineiro, espantado, foi corren­do comunicar ao rei o que acabava de ver e ouvir. Curioso, Anuar lhe ordenou que ten­tasse agarrar aquela ave fantástica de qual­quer forma.
No dia seguinte, à mesma hora, lá estava de novo a pombinha, pousada na mesma plan­ta, cantando:O bondoso jardineiro, se não se importa, me diga como passa o rei com sua Moura Torta!
E o jardineiro novamente respondeu:
Come bem e passa bem, passa vida regalada, tão serena e sossegada, como no mundo ninguém!E a pombinha tornou a cantar:Ai, pobres de nós, pombínhas, que só comemos pedrinhas!Mas desta vez, antes que ela se fosse, o jardineiro ofereceu-lhe um laço de barbante, dizendo:
—   Ponha o pé aqui, linda pombinha!
—   Não — ela respondeu. — Meus pés não foram feitos para laços de barbante!
E depois voou, desaparecendo ao longe.
Novamente o jardineiro correu para con­tar ao rei tudo o que havia visto e ouvido. Anuar, cada vez mais intrigado, ordenou-lhe que oferecesse à pombinha um laço de prata.
No dia seguinte, ela voltou a aparecer no jardim e, depois de fazer a pergunta de sem­pre e de receber a mesma resposta do jardineiro, este ofereceu-lhe o laço de prata. Mas a pombinha novamente recusou, dizendo que aquilo era muito pouco para ela.
No quarto dia, o rei mandou oferecer-lhe um laço de ouro, que também foi recusado. Só no quinto dia, quando lhe foi oferecido um laço magnífico, todo cravejado de pérolas e diamantes, foi que a pombinha aceitou que lhe prendessem o pé.
O jardineiro a levou então à presença de Anuar, que ficou encantado com a delicadeza da ave e ainda mais porque ela podia real­mente falar.
Prepararam-lhe então uma gaiola deslum­brante e a colocaram na sala do trono, onde todos os dias o rei passava horas e horas a admirá-la e a alisar-lhe as penas.
Um dia, quando Anuar estava mais uma vez agradando sua avezinha, começou a afa­gar-lhe delicadamente a cabeça até que, de repente, passou os dedos pelo alfinete que ali estava espetado.
— Pobrezinha! — disse ele, ao ver do que se tratava. — Quem pôde lhe fazer tamanha maldade?
E, penalizado, segurou-a com carinho, ti­rando, com muita paciência, o alfinete da delicada cabecinha. No mesmo instante, viu surgir à sua frente a linda jovem que havia encontrado às margens do rio.
A moça contou-lhe então tudo o que havia acontecido naquele dia, enquanto esperava por ele sentada nos galhos da árvore. E Anuar descobriu, horrorizado, que estava casado com uma feiticeira má e invejosa. Anulou o casamento e, em seguida, casou-se com a linda jovem.
Para a Moura Torta, reservou um casti­go impiedoso: mandou que a prendessem em um barril cheio de canivetes espetados, de fora para dentro, com as lâminas abertas. Depois, que a jogassem montanha abaixo,  para que rolasse pela ladeira. A Moura Torta já não vivia quando chegou ao pé da monta­nha.  Estava toda estraçalhada.

O rei Anuar e a esposa viveram anos e anos, sempre rodeados de felicidade.

In: Histórias da Carochinha, Ed.Ática
Acessível em: http://www.consciencia.org/a-moura-torta-contos-de-fada-infantis

Leia as versões anteriores que estão  disponíveis aqui e aqui

sábado, 5 de abril de 2014

Um conto e três versões: A Moura Torta 2

                               
Uma vez havia um pai que tinha três filhos, e, não tendo outra cousa que lhes dar, deu a cada um uma melancia, quando eles quiseram sair de casa para ganhar a sua vida. O pai lhes tinha recomendado que não abrissem as frutas senão em lugar onde houvesse água.

O mais velho dos moços, quando foi ver o que dava a sua sina, estando ainda perto de casa, não se conteve e abriu a sua melancia. Pulou de dentro uma moça muito bonita, dizendo: "Dai-me água, ou dai-me leite". O rapaz não achava nem uma coisa nem outra; a moça caiu para trás e morreu.

O irmão do meio, quando chegou a sua vez, se achando não muito longe de casa, abriu também a sua melancia, e saiu de dentro uma moça ainda mais bonita do que a outra; pediu água ou leite, e o rapaz não achando nem uma coisa nem outra, ela caiu para trás e morreu.

Quando o caçula partiu para ganhar a sua vida, foi mais esperto e só abriu a sua melancia perto de uma fonte. No abri-la pulou de dentro uma moça ainda mais bonita do que as duas primeiras, e foi dizendo: "Quero água ou leite". O moço foi à fonte, trouxe água e ela bebeu a se fartar. Mas a moça estava nua, e então o rapaz disse a ela que subisse em um pé de árvore que havia ali perto da fonte, enquanto ele ia buscar a roupa para lhe dar. A moça subiu e se escondeu nas ramagens.

Veio uma moura torta buscar água, e vendo na água o retrato de uma moça tão bonita, pensou que fosse o seu e pôs-se a dizer: "Que desaforo! Pois eu sendo uma moça tão bonita, andar carregando água…!" Atirou com o pote no chão e arrebentou-o. Chegando em casa sem água e nem pote levou um repelão muito forte, e a senhora mandou-a buscar água outra vez; mas na fonte fez o mesmo, e quebrou o outro pote. Terceira vez fez o mesmo, e a moça, não se podendo conter, deu uma gargalhada.

A moura torta, espantada, olhou para cima e disse: "Ah! É você, minha netinha!… Deixe eu lhe catar um piolho". E foi logo trepando pela árvore arriba, e foi catar a cabeça da moça. Infincou-lhe um alfinete, e a moça virou numa pombinha e avoou! A moura torta então ficou no lugar dela. O moço, quando chegou, achou aquela mudança tamanha e estranhou; mas a moura torta lhe disse: "O que quer? Foi o sol que me queimou!… Você custou tanto a vir me buscar!"

Partiram para o palácio, onde se casou. A pombinha então costumava voar por perto do palácio, e se punha no jardim a dizer: "Jardineiro, jardineiro, como vai o rei, meu senhor, com a sua moura torta?" E fugia. Até que o jardineiro contou ao rei, que, meio desconfiado, mandou armar um laço de diamante para prendê-la, mas a pombinha não caiu. Mandou armar um de ouro, e nada; um de prata, e nada; afinal, um de visgo, e ela caiu. Foram levá-la, que muito a apreciou. Passados tempos, a moura torta fingiu-se pejada e pôs matos abaixo para comer a pombinha. No dia em que deviam botá-la na panela, o rei, com pena, se pôs a catá-la, e encontrou-lhe aquele carocinho na cabecinha, e, pensando ser uma pulga, foi puxando e saiu o alfinete e pulou lá aquela moça linda como os amores. O rei conheceu a sua bela princesa. Casaram-se, e a moura torta morreu amarrada nos rabos de dois burros bravos lascada pelo meio.

In: Haurélio, Marco,História da Moura Torta,Mossoró 2007
Acessível em: http://contos-fabulas.blogspot.com.br/2011/07/moura-torta.html



sexta-feira, 4 de abril de 2014

Um conto e três versões: A Moura-Torta

Nunca havia ouvido falar desse conto, até que comecei a ler José Lins do Rego. por causa dele, pesquisei e aprendi que A Moura-Torta é um conto espanhol, com origem provável na época em que a Península Ibérica estava libertando-se da dominação árabe.  Com  o passar dos anos e mudança de lugar a conto foi adquirindo várias versões e formas narrativas.  O blog LivroErrante, traz, inicialmente, a versão  que me fez conhecer A Moura-Torta.   Segue abaixo a narrativa feita por Mãe Filipa do livro Água Mãe:

                                                                       “Foi um dia uma princesa muito bonita, que tinha os cabelos louros e os olhos azuis, tão louros os cabelos que pareciam de ouro de moeda, tão azuis os olhos como o azul do céu. Ia ela todos os dias se banhar na fonte de seu pai; Quando a menina saía de casa, os passarinhos da corte voavam atrás dela. Faziam nuvem no céu, para que o sol não doesse na sua cabeça e a princesa só pisava em flores cheirosas, só pisava em terras cobertas de rosas.
‘Lá vem a princesa minha senhora’, gritavam as moças correndo para ver, para beijar os pequenos pés da princesa  real. ‘Lá vem ela, formosa como um mimo de Deus Nosso Senhor. ’
E tudo cantava e todos ficavam contentes, vendo a filha do rei, que ia se banhar nas águas do rio. Mas havia uma mulher feia que morava na beira do rio, uma mulher muito escura, que tinha os olhos gázeos e a boca caída. Era grande, era triste, tudo o que era menino corria dela, com medo.
‘Lá vem a Moura-Torta’, gritavam, quando a mulher escura vinha lavar roupa à beira do rio. ‘ Lá vem ela’, e todos corriam com medo. A mulher feia maldizia os meninos e tinha raiva do mundo.
‘Este rio é meu’ gritava ela, ‘esta terra é minha. Quem vem lá, para bulir nas minhas coisas¿ quem vem lá, para tomar banho nas minhas águas, sujar o rio que é meu, pisar nas minhas flores¿
‘É a princesa, a filha do rei, a dona do mundo, a senhora dos campos, das terras e do mar.’
E quando a princesa passava, a Moura-Torta sorria, ia até  a beira do caminho e beijava os seus pés, e dizia:
‘Senhora minha princesa, como são lindos os vossos olhos, como são lindos os vossos cabelos, como são lindos os vossos pezinhos!’
E a princesa sorria e passava contente. As damas diziam: ‘princesa minha senhora, toma cuidado com a Moura-Torta.’ E a princesa sorria. O rio corria manso. As águas do rio eram da cor do céu, as damas cantavam para que todo o mundo soubesse que a princesa real se banhava, para que os homens cortassem caminho e se fossem para bem longe.
Aí, a princesa ouviu uma voz que era como uma música de igreja: ‘Quem é que canta assim, minha dama¿, perguntou ela.
‘Saiba vossa alteza que  á a  Moura-Torta quem está cantando.’
‘Aquela velha feia da beira da estrada¿’
‘Sim minha princesa.’
E a princesa escutava a Moura-Torta cantando.  Era uma cantiga tristonha, de coração infeliz.
‘Coitada da Moura-Torta’, dizia a princesa, ‘ela é feia demais.’
E parava para ouvir e ficava parada. Lá um dia, a princesa veio descendo para o banho. Vinha correndo pelo caminho, de tão contente. Estava tão bonita naquele dia, que, mal comparando parecia uma imagem de Nossa Senhora. Com os cabelos soltos, era mesmo bonita. O mundo cheirava, de tanta flor aberta, e quando ela foi chegando perto do rio, lá estava a Moura-Torta. A princesa parou para falar com ela.
‘Como é bonita a sua voz, minha boa velhinha. ’ E a Moura-Torta foi dizendo: ‘ tudo o que eu tenho é de vossa alteza real. Minha senhora: como são lindos os vossos cabelos!  Ah! Quem me dera eu pudesse pentear os vossos lindos cabelos, minha princesa real. ’
As damas ficaram com medo e foram dizendo: ‘Princesa, o sol queima as vossas faces e a água do rio está esquentando com o sol.’
E a Moura-Torta falava:
‘Quisera eu ser a vossa escrava, minha princesa. Quisera ser dona de tudo o que é da terra e do céu, para vos dar.’
E as damas com medo:
‘O sol queima as vossas faces, princesa, as águas do rio estão esquentando. ’
E a Moura-Torta falava: ‘Quisera pentear os vossos cabelos.’
‘São todos os seus desejos, minha velhinha¿’
‘São todos os meus desejos, minha real senhora.’
Aí, a princesa sentou-se à beira do rio  e a Moura-Torta, com um pente de ouro, começou a pentear os cabelos de ouro.
‘Os  vossos cabelos são macios como veludo e mais dourados do que uma moeda do reino.’
E alisava a sua cabeça. E a princesa sorria e as damas com medo gritando:
‘O sol está quente, minha princesa as águas do rio estão quentes. ’
E a Moura cantando e a Moura alisando. Aí, a Moura –Torta começou a passar a  mão pela cabeça real. Bem no meio da cabeça enfiou um alfinete comprido. E, de repente, viu-se a princesa virar uma rolinha e voar longe, para cima de um pé de pau que havia na ribanceira do rio. E a rolinha começou a cantar. E quando se viu foi a Moura-Torta se sumir num redemoinho de vento. As damas deram para chorar tão alto que chegou gente do palácio. A princesa tinha virado passarinho. Tinha se encantado a princesa real. O rei mandou gente correr o mundo, andar por todos os reinos da terra, para ver se aparecia um feiticeiro que tirasse aquele encanto. Não houve jeito. Só se ouvia, de manhã, na beira do rio,uma rolinha cantando uma cantiga tão triste que fazia a gente chorar. Era a princesa com o encanto da Moura-Torta. A rainha morreu de desgosto e o príncipe que era seu noivo vinha todas as manhãs, ouvir a rolinha cantando na beira do rio. E corriam os mensageiros à procura do feiticeiro para tirar o encanto da Moura-Torta. Lá um dia, numa casa de gente pobre, uns meninos brincavam no terreiro. E veio uma rolinha, tonta de sol e caiu no meio deles.
‘Ela está encadeada com a luz do sol’, dizia um.
‘Não, ninguém vai comer a bichinha’, disse uma menina loura de cabelos grandes como os da princesa.
A menina pegou a rolinha, e foi agradando a bichinha, passando-lhe a mão na cabeça. Aí sentiu o alfinete da Moura-Torta e puxou com força. E a princesa real apareceu no meio dos meninos pobres. E tudo o que era pequeno ali virou grande. A casa do pobre virou um palácio. E uma carruagem de rei, toda de ouro, com quatro cavalos brancos, parada, esperando pela princesa desencantada.
‘Rei meu senhor vos mandou chamar, minha princesa real’, disse o pajem. O príncipe vosso noivo já está na igreja à vossa espera. ’
E foi assim que acabou o encanto da Moura-Torta. “Houve festa no reino, durante dias e noites.”

In: Rego, José Lins, Água Mãe, Rio de Janeiro: Ed.José Olímpio 2012, págs. 41- 44.