terça-feira, 23 de setembro de 2014

Primavera, Olegário Mariano

Jarra com margaridas e anémonas, Van Gogh, Paris 1887
Terra florida. Estação nova. Tanta
Vida em redor. Ser fôlha quem me dera!
Cada arbusto que vejo é uma garganta,
Um grito de entusiasmo à Primavera!

Bendito o sol que no alto céu flameja
E desce fogo pelas serranias...
O sol é um velho sátiro que beija
Sôfregamente as árvores esguias.

Anda, tonto pelo ar, espanejante,
Umenxame fntástico de abelhas
Que estonteadoramente paira diante
De corolas e pétalas vermelhas.

Vida para o trabalho! Ouve-se o côro
Dos lavradores e das raparigas...
Ondula ao sol, como um penhacho de ouro,
A cabeleira fulva as espigas.

Primavera! No teu aspecto antigo,
Alucinante e triste muitas vêzes,
Quando chegas pelo ar trazes contigo
Calma e fartura para os camponeses.

Dás arrepios fortes e desejos...
Teu nome é seiva, é fôrça, é mocidade...
A terra anda a clamar pelos teus beijos
Que são sementes de fecundidade.

(In Toda Uma Vida de Poesia, vol 1 )


(Nota: o blog manteve a grafia original de 1918 - ano da publicação do poema)