quarta-feira, 11 de junho de 2014

No Tempo da Balas Futebol, Roberto Pompeu de Toledo


                          Pode haver futebol sem as Balas Futebol? Dada a gravidade da questão, vai-se repetir a pergunta: "Pode haver futebol sem as Balas Futebol?". A resposta, por mais frustrante, é que sim, pode. Com mágoa e tristeza, reconheça-se que pode. O mundo é cruel o suficiente para permitir que o futebol prossiga sua carreira vitoriosa, mesmo sem as Balas Futebol.                           
             Mas algo se perdeu no meio do caminho. Algo do encanto se quebrou.
Esclareça-se ao leitor desavisado o que eram as Balas Futebol. Eram balas que traziam, junto, figurinhas com as estampas dos craques dos diferentes times. Adquiria-se um álbum e ia-se colando nele as figurinhas. 
            Talvez as gloriosas Balas Futebol não tenham sido as únicas do gênero. Álbuns com o mesmo espírito, de iniciativa de outros valentes empreendedores, terão existido. Importante a ressaltar é o papel que, tanto no futebol como na vida em geral, desempenhavam tais álbuns. Eles faziam parte da educação sentimental dos meninos.
                           O futebol de hoje, sob o puro aspecto quantitativo, deixa o de ontem longe. É acompanhado por multidões incalculáveis. Tem a televisão a seu serviço, essa máquina de criar fenômenos avassaladores. Movimenta interesses e quantias estratosféricas. Até no Japão e na Coréia – quem imaginaria? – é popular. 
                           Uma Copa do Mundo, nos dias que correm, é evento planetário como nenhum outro. Já sob o ponto de vista da qualidade da relação com o torcedor, o futebol atual perde. Havia um vínculo afetivo entre o craque e o clube, o craque e o torcedor e o torcedor e o clube, que foi comprometido. Atentemos, para ter idéia precisa do que se está tentando dizer, em duas diferenças fundamentais entre o futebol de ontem e o de hoje.
                           A primeira diz respeito ao uniforme. Antes, os times apresentavam-se sempre com o mesmo. Vá lá: não era sempre, era quase sempre. Havia ocasiões – uma em cada dez, não mais que isso – em que era preciso trocar de uniforme, pois o do adversário era parecido. Trocava-se então pelo uniforme reserva, que por sua vez era sempre o mesmo, o único e mesmo uniforme reserva. 
                         Hoje, o que acontece? O mesmo time pode aparecer com a camisa branca num jogo, listrada no seguinte, cinza no terceiro jogo e com bolinhas e rendas no quarto, isso quando o time alvinegro não se traveste de vermelho, o rubro-negro de verde e o tricolor de um único e inteiriço amarelo. Vale tudo, em favor do contraste que a televisão julgar mais conveniente para a transmissão.
                  A segunda diferença é que os times, antes, permaneciam com as mesmas escalações por anos a fio. Podia haver uma modificação pontual aqui e ali, mas no geral, na base, no núcleo duro, a escalação permanecia a mesma. Pode o jovem leitor imaginar uma coisa dessas? Era um tempo de estabilidade e permanência. Os craques ficavam longamente, muitas vezes a vida inteira, nos mesmos clubes. 
Em conseqüência, acabavam se identificando com eles. Não se precisa ir muito longe: isso acontecia ainda nos anos 80. Zico era do Flamengo. 
Zico era o Flamengo. 
Roberto Dinamite era do Vasco. 
Um pouco mais para trás, Ademir da Guia, chamado o Divino, a quem João Cabral de Melo Neto dedicou um poema que lhe descrevia o estilo melhor do que qualquer comentarista esportivo ("Ademir impõe com seu jogo / o ritmo de chumbo (e o peso) / da lesma, da câmara lenta, / do homem dentro do pesadelo"), era do Palmeiras. Era o Palmeiras. 
       E Pelé naturalmente era do Santos, assim como Garrincha era do Botafogo, apesar das peregrinações por outros clubes impostas pelas humilhações de fim de carreira.
                      Hoje, o que se vê? Tomem-se os craques da seleção, os Edilsons e Luizões da vida. Em que time jogam? Mais adequado seria perguntar: em que time estão jogando neste momento, 3 da tarde? E em qual estarão às 4? Se há tanta inconstância, não há como firmar vínculo com os clubes. Portanto, não há como firmar vínculo com o torcedor. Como resultado, eis-nos introduzidos a um futebol sem heróis. Ademir da Guia tem uma estátua na sede do Palmeiras. Já Romário, quem o homenageará? Nestes últimos anos, ele jogou no Vasco e em seu contrário, o Flamengo. Tanto para os torcedores de um clube como do outro, ele é em parte herói e em parte traidor.

                    Neste ponto nos reencontramos com as Balas Futebol. Se ainda pode haver futebol – e como pode –, o fato é que não pode haver mais Balas Futebol. O álbum de figurinhas depende de um mínimo de estabilidade nas escalações. Ajuda-os, igualmente, a estabilidade dos uniformes. Para fazer um deles, hoje em dia, só recorrendo a um sistema em que as figurinhas trariam apenas a cara dos jogadores, e os álbuns viriam com cartelas de uniformes para recortar. Às caras seriam juntados os diferentes uniformes, conforme os jogadores fossem mudando de time, e conforme o mesmo time fosse mudando de uniforme. Seria um jogo parecido com aquele em que as bonecas vêm com diferentes roupinhas para recortar e vestir nelas. Ficaria mais para brincadeira de menina que de menino, mas que outro jeito? 

(Publicado originalmente na Revista Veja em Abril de 2002, antes, portanto da reforma ortográfica)