terça-feira, 4 de março de 2014

Sonho de Uma Terça-Feira Gorda, Manuel Bandeira

Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros, e negras
                                                           [eram as nossas máscaras.

Íamos, por entre a turba, com solenidade,
Bem conscientes do nosso ar lúgubre
tão contrastado pelo sentimento de felicidade
Que nos penetrava... Que nos penetrava como uma espada
                                                           [ de fogo...
Como a espada de fogo que apunhalava as santas extáticas.

E a impressão em meu sonho era que se estávamos
Assim de negro, assim por fora inteiramente de negro,
- Dentro de nós, ao contrário, era tudo claro e luminoso.

Era terça-feira gorda. A multidão inumerável
Burburinhava. Entre clangores de fanfarra
Passavam préstitos apoteóticos.
Eram alegorias ingênuas, ao gosto popular, em cores cruas.
Iam em  cima, empoleiradas, mulheres de má vida,
De peitos enormes - Vênus para caixeiros.
Figuravam deusas - deusa disto, deusa daquilo, já tontas
                                                           [ e seminuas

A turba, ávida de promiscuidade,
Acotovelava-se com algazarra,
Aclamava-as com alarido
E, aqui e ali, virgens atiravam-lhes flores.

Nós caminhávamos de mãos dadas, com solenidade,
O ar lúgubre, negros, negros...
Mas dentro em nós era tudo claro e luminoso.
Nem a alegria estava ali, fora de nós.
A alegria estava em nós.
Era dentro de nós que estava a alegria,
- A profunda, a silenciosa alegria..

(Em: Estrela da Vida Inteira).