segunda-feira, 3 de março de 2014

Memórias de Um Carnaval, Sérgio Porto

   
 Por que não escreves uma história sobre o carnaval?
     Olham , até que não é má ideia! Claro que tomarei cuidado, nada de usar a palavra "fulgor", ou combinar o adjetivo"estonteante"  com o substantivo "alegria". É da máxima importância não dizer que "esta vida é um carnaval".
     Assim, evitando o lugar-comum, o assunto já me parece mais digno de ser abordado.
     Todos nós temos um carnaval para recordar e todas as revistas têm uma enquete para fazer: Qual o seu carnaval inesquecível?
     Ora, direis, ides falar na alegria que adivinháveis  do vosso leito de enfermo. Ides contar a ideia que tínheis de um carnaval imaginado através do relato de adultos. Isso é muito manjado. Quando a revista vem com a pergunta, o perguntado já tem a resposta pronta:
     - O meu carnaval inesquecível eu não vivi, mas adivinhei-o, impossibilitado de brincar.
     Calma! O cronista pede calma e pede também ao respeitável público que não se anteceda à sua crônica, caso contrário não poderá trabalhar.
     Já disse, linhas atrás - e não custa nada repetir -, que farei o possível para evitar o lugar-comum , quer nas expressões como no relato. Tomarei cuidado com o emprego das palavras, já que falar em carnavais que não vi é muito fácil porque no tempo em que os adultos eram outros, eu não me preocupava em ser alegre - a alegria vinha naturalmente. Quanto a passar o carnaval doente e de cama, isso - graças a Deus - nunca me aconteceu.
     Mas antes que eu me esqueça e tenha que recomeçar tudo outra vez, passemos ao meu carnaval inesquecível.
***
     Foi simplesinho até. Quem tivera a lembrança de organizar o bloco de sujos não sei. Provavelmente o Miloca, que ainda hoje seria um dos grandes foliões desta terra, se uma pneumonia dupla, às vésperaas do advento da penicilina, não tivesse levado para outros carnavais.
     Pois o Miloca, quando eu cheguei na esquina em que nos reuníamos todas as tardes, tentava convencer a turma de organizar a coisa. Minto! quem a teve foi o "Filé de Trilho", graças à sua ideia fixa: o dinheiro.
    Estava ele na esquina a enumerar as vantagens de um bloco de sujos, insistindo muito num ponto, qual fosse o de passar um pratinho, que esse tipo de cordão dá direito a passar um pratinho. O "Filé de Trilho", até o dia em que se casou com uma moça não de todo bela, porém irresistivelmente rica, nunca pensou em outra coisa a não ser em tomar o dinheiro dos outros. Fosse no bilhar ou no pôquer, na conversa ou no bloco de sujos.
     Tomadas todas as providências, saímos por aí. Eu tinha a meu cargo a batida de bumbo. Dentro de um terno velho, desprezado pela elegância paterna, com o paletó vestido pelo avesso, as calças enormes e uma gravata borboleta minúscula, colaborava com um toque chapliniano para o sucesso do cordão.
     O itinerário, para que a coisa rendesse  mais (ideia de Filé) seria percorrido pelas casas dos parentes de cada um de nós. Já tínhamos feito bem uns trinta mil réis, quando, a uma esquina justamente quando nos dirigíamos par a vila onde morava minha tia, surgiu em sentido contrário outro bloco, inegavelmente melhor que o nosso,  já que nele a graça feminina colaborava.
     Miloca, nosso porta-estandarte,quis confraternizar com a mais engraçadinha das moças adversárias, no que foi incompreendido, a julgar pelo pontapé que lhe deram no lugar onde se dá pontapé.
     O pau comeu durante uns quinze minutos, pelo menos. Cada um soltando o braço como podia. Felizmente para contrabalançar as calças que me tolhiam os movimentos, estava eu de bumbo, instrumento que, além de me servir como escudo, ainda me ajudava no ataque.  Dei o máximo de bumbadas que me foi possível e mais daria se, auxiliados pelos circunstantes, alguns guardas não interviessem de forma conciliadora.
     Voltei para casa com os restos do que foi meu primeiro e último bumbo, comprado por uma bagatela na loja do turco Mansur.
     Sofri os castigos de praxe e, muitos dias depois, a batalha campal ainda era comentada na esquina com exuberância de detalhes. Mesmo Miloca, de natural tão pacato, mentiu a valer, contando-me como quebrara o porta-estandarte na cabeça de um inimigo. E eu ouvia tudo interessado, sem perceber que aquele foi o melhor carnaval de minha vida.
     Rei Momo que desculpe este seu indisciplinado súdito.

(Em: A Casa Demolida -Ed. do autor 1963
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