sábado, 30 de novembro de 2013

Última Crônica-cantada de 2013




              No ultimo sábado do mês posto também a última crônica cantada do ano. Tenho uns dias fixos no blog: a segunda-feira é para poesia, a quarta para crônica, conto ou artigo e o sábado para uma música crônica. Pela dificuldade, esta é a postagem menos correta que faço. Algumas vezes coloco apenas uma música. Boa, é certo, porém que não pode ser considerada crônica.
Pois bem, como dezembro é um mês difícil para audiência em alguns tipos de blog e eu mesma vou me dar férias, encerro hoje com uma música super antiga e que é verdadeiramente uma crônica.
Negue - Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos é uma das músicas que Ignácio de Loyla Brandão usa como inspiração em " Como Foi Que O Tempo de Tania Ficou Paralizado em 1960" que está no magistral livro Solidão No fundo da Agulha, que eu já trouxe aqui no blog.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Parrrede!!, Manoel de Barros

Só recentemente conheci Manoel de Barros, mais exatamente o livro Memórias Inventadas -As Infâncias de Manoel de Barros. Me deparei com um livro sensacional: conteúdo e continente. Capa dura, ilustrações primorosas feitas por sua filha Martha Barros  e os textos muito bons. O autor tem um estilo muito original de falar de coisas cotidianas. Poético, engraçado, surpreendente.




Quando eu estudava no colégio, interno,
Eu fazia pecado solitário.
Um padre me pegou fazendo.
- Corumbá, no parrrede!
Meu castigo era ficar em pé defronte  a uma parede e
decorar 50 linhas de um livro.
O padre me deu para decorar o Sermão da Sexagésima
de Vieira.
-Decorrrar 50 linhas, o padre repetiu.
O que eu lera por antes naquele colégio eram romances
de aventura, mal traduzidos e que me davam tédio.
Ao ler e decorar 50 linhas de Sexagésima fiquei
embevecido.
E li o Sermão inteiro.
Meu Deus, agora eu precisava fazer mais pecado solitário!
E fiz de montão
- Corumbá, no parrrede!
Era a glória.
Eu a fascinado pra parede.
desta vez o padre me deu o Sermão do Mandato
Decorei e li o livro alcandorado.
Aprendi a gostar do equilíbrio sonoro das frases.
Gostar quase até do do cheiro das letras.
fiquei fraco de tanto cometer pecado solitário.
ficar no parrrede era uma glória.
Tomei um vidro de fortificante e fiquei bom.
A esse tempo também eu aprendi a escutar o silêncio
das paredes. 






Memórias Inventadas As Infâncias de Manoel de Barros
Ed.Planeta
Ano 2010
Iluminuras de Martha Barros

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Romance Perdido, Joaquim Cardozo - Segunda feira poética

Quando cheguei, quando venci por fim as incertezas do caminho,

Já a noite dormia sob as árvores do parque.
Somente na sombra o olhar de um lago frio,
Somente no musgo das pedras o contato de mãos macias,
Somente no céu a nudez das nuvens inconstantes,
Somente, Josefina


O vento gelado apagara  o teu desejo,
A noite modesta vestira teu corpo.

sábado, 23 de novembro de 2013

Vou ler por causa das ilustrações: Decameron

Há 700 anos nascia Boccaccio (Bocage, no Brasil) e  por causa da data, a Ed.Cosac Naify  lança uma edição especial de sua obra mais popular Decameron, com ótimas ilustrações do artista plástico paulista Alex Cerveny.  


Decameron é um conjunto de 100 novelas, que dá início ao realismo na literatura. Foi escrito durante 5 anos no século XIV. 
A obra se passa no período da peste negra que dizimou milhares na Europa. É um relato desse flagelo. Boccaccio fala da doença e da reação das pessoas.   Não posso falar mais a respeito sem ir ao Google porque mal comecei a leitura.  Alguém mais culto, pode contribuir?








Tenho esse livro há quase 10 anos, sem jamais ter me interessado por ele. Agora, igual criança, fui atraída pelas ilustrações e me animei. Vou ler.






Cordel do Fogo Encantado canta João Cabral de Melo Neto



O Texto recitado pelo grupo Cordel do fogo encantado, é a fala de Joaquim no poema Dos Três Mal Amados,  de João Cabral de Melo Neto.

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Elena: mexicana arransando!


Esta simpática senhora é Elena Poniatowska, mais recente vencedora do, considerado, Nobel de língua espanhola o Prêmio Miguel de Cervantes de 2013 -  

No Brasil Elena, que é franco mexicana e tem 81 anos, só tem um livro editado: A Pele do Céu. Nesse livro, Elena inspirou-se no próprio marido que é astrônomo.



O Prêmio Miguel de Cervantes, concedido anualmente desde 1976 pelo Ministério de Cultura da Espanha teve até este ano os seguintes ganhadores:


2012.
2011.
2010.
2009.
2008.
2007.
2006.
2005.
2004.
2003.
2002.
2001.
2000.
1999.
1998.
  
1997.
1996.
1995.
1994.
1993.
1992.
1991.
1990.
1989.
1988.
1987.
1986.
1985.
1984.
1983.
1982.
1981.
1980.
1979.
1979.
1978.
1977.
1976.
Jorge Guillén
   

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Porque Esta é a Paz, Marina Colasanti

     O primeiro dia.
Imagem de: myscoops.com

     Barulho festivo de repente,já sem costume. E a luz que sobra, toda, acesa.
     Os rádios ligados na notícia única.   "   o mundo inteiro... as assinaturas... sua Santidade... depois de tanto..."
     Depois de tanto, tanto sofrimento.
     Acabou
     Gente na rua, e o sorriso permitido. Mãe, podemos ir à praça? Os americanos chegaram.
     Os americanos chegaram um dia ao meu país, e a  guerra acabou.
     Os americanos saem hoje de outro país e a guerra acaba.
     E no primeiro dia, aquela sensação de estar sem roupa, de estar desprotegido na ausência do perigo.
     Queremos sair todos, ir à rua, correr pelos campos. Mas sem prédios para contê-las as ruas se perdem debaixo das ruínas, e os campos já não existem.
     Quero tocar o sino que virou canhão, abrir o portão que foi fundido, debruçar-me na sacada que a bomba esfarelou. Quero esquecer o alemão que nunca aprendi, e não saber mais, nunca mais, quem foi Lili Marlene. Preciso agora aprender a humilhar-me em inglês.
     Entro nos labirintos dos abrigos, mas amarro na porta o fio de lã com que minha mãe teceu tantas roupas para o front. Me espera adiante a pomba com cabeça de touro e raminho na boca. e eu lhe pergunto, pomba, que fizeste do teu irmão?
     O primeiro dia.
Quem tem casa, faz faxina. É preciso tirar o azul escuro que pintou os vidros, acabar com as cortinas pretas. É preciso tirar da despensa o cheiro de vazio e prepará-la para as comidas que virão. Limpa-se a madia, e a tampa fica aberta. O que é madia? É o móvel antigo onde se guarda a farinha de trigo, onde a dona da casa faz o pão.  É o altar da família.
     Varre, espana, joga água. Tocam buzinas lá fora, e gente canta. Corre menino, o mundo não tem céu. Acabaram as asas, desapareceram as hélices, as bombas não vêm mais. Pode olhar para cima.
     Olha para cima e não vejo o telhado. Olho para cima e não vejo os andares que dividiam o edifício. Olho para cima e vejo um longo túnel de paredes manchadas, de paredes rasgadas, de quadros ainda nas paredes.
     Um buraco no muro é uma marca de bala. Um buraco no chão é cratera de obus. Uma marca na carne é ferida que sangra.
     O primeiro dia.
     E depois, todos os outros.
     Os americanos chegaram. o pão dos americanos é branco como o pão de antigamente. O dinheiro dos americanos é ouro como o dinheiro de antigamente. E o pão e o ouro correm num mercado, negro como é conveniente.
     Vou à rua sem roupa e sem rua. Vou sorrindo sem os dentes, desfazendo as ataduras, escorregando no sangue. Vou no vento que apagou os incêndios, na chuva que não cegou o napalm. E vou chorando. E canto. Porque a guerra acabou.
   E esta é a paz.



segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Canção de Junto ao Berço, Mário Quintana - Segunda feira poética


Imagem do google
Não te movas, dorme, dorme
O Teu soninho tranquilo.
Não te movas (diz-lhe a Noite)
Que ainda está cantando o grilo

Abre os teus olhinhos de ouro
(O Dia lhe diz baixinho).
É tempo de levantares
Que já canta o passarinho...

Sozinho, que pode um grilo
Quando já tudo é revoada?
E o Dia rouba o menino

No manto da madrugada.

sábado, 16 de novembro de 2013

Flagrantes da Fliporto 2013

Valter Hugo Mãe, escritor angolano que  domina a arte de escrever agradar e se vender, gosto dele.
Grupo Literatrupe, mistura música, teatro e literatura. Antecedeu a apresentação de Pilar Del Rio.

Exibição de alguns minutos do filme José e Pilar - o filme foi exibido na íntegra dois dias seguidos: uma vez com e outra sem legenda.

Criança em um dos muitos espaços infantis da Fliporto

Mais espaço para crianças.


As crianças tiveram árvores de livros, almofadas, futons, tapetes, contadores de histórias, arte educadores e muitos livros.


Meu segundo dia na Fliporto

                                   
Só agora, conto o que vi e mais gostei na Fliporto. Os organizadores deram muita importância ao público infantil e isso ne agradou. Mais de uma árvore ao redor do lago, serviu para pendurar livros, colocar cadeirinhas, um contador de histórias, almofadas e climatizadores. Em todas as árvores havia muitas crianças ou famílias.  Sesi, Focca, Banco Itau, Colégio Lubienska e mais de uma livraria dedicaram-se à formação de novos leitores.

 
Hoje aprendi sobre José Lins do Rego o que nenhum professor me ensinou. Zé Lins, liberto do Regionalismo era totalmente desconhecido. Vou ler o autor novamente, agora com outros olhos. José Lins só tem outra face completamente fora da temática do norddeste porque nao deu ouvidos a Manuel Bandeira, que o aconselhava a manter-se  na´palha da cana.
 
Laurentino Gomes arrasou. Penso que quem não gosta de história, hoje mudou de opinião.  Ele falou também da necessidade dos historiadores escreverem de forma simples. Como de resto, quem escreve para os jovens e quer ser lido tem de ser simples, claro, didático. Disse Laurentino.
 
Finalizei minha noite da tenda Literária ouvindo dois recitais: um de música flamenca, que não me agradou. Meu cérebro ainda não está adaptado àquele jeito de cantar tão árabe e em seguida vi a Rita Gullo que cantou Vinícius de Moraes.
Ah, me estatelei no chão também e, creiam, os gentis jovens recepcionistas não moveram um dedo pra ajudar. 
 
Terminei a noite acompanhando a Seresta de Olinda, um evento fora da Fliporto. Formidável.
Mais de 1 da manhã , morro de sono zzzzzzzzz

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Fliporto:Meu primeiro dia

                   
Estou numa pousadinha super simpática e bem próxima à Praça do Carmo, onde acontece a Fliporto. Fizemos reserva, eu e minha irmã, desde junho. No mês seguinte, eu soube, já não tinha mais vaga. Tem um grupo de conhecidas que veio de outros estados que estão perto e do outro lado da praça. Passei por dentro da Feira de Livros e quem vejo passeando pelo corredor principal?  Valter hugo Mãe, o fofo e talentoso escritor angolano de quem gosto pra caramba. Arrisquei e ele calmo e gentilíssimo, se deixou fotografar. Encontrei com as amigas da outra pousada  quando estava retirando os ingressos para ver Pilar Del Rio, que foi antecedida por Literatrupe, conforme anunciai aqui ontem.  Foi um encontro feliz com a Ju, gravidinha e a Rosa de Goiânia, com seu sorriso aumentativo e cabelos diminutivos.  A Helena, de Niterói, que eu não sabia que vinha, eu vi quando já estava tudo escuro e ela ficou comigo até quase o final.  

Literatrupe é um grupo de atores e músicos que com uma miscelânea de textos de poetas pernambucanos, um bom violino e dois pandeiros  fez uma performance muito inteligente.  Foram enormemente  prejudicados pelo som. Os microfones não funcionavam bem, falhavam, até.  Superaram-se pelo talento.  

A segunda parte foi feita por Hugo Mãe que juntamente com uma escritora brasileira, que infelizmente esqueci o nome trouxe a biografia de José Saramago, logo depois entra a atração principal: Pilar Del Rio. Ela ela e o apresentador falam sobre o escritor, apenas lendo trechos dele mesmo. Foi Saramago falando de si usando a voz da Pilar.  
Aqui, novamente a organização prejudicou o expectador: os fones para tradução simultânea não funcionavam, o microfone de Pilar estava muito ruim...
Agora vou dormir, estou cansada.  Volto amanhã.