segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Dos Grilhões do Orgulho Me Soltei, César Feitoza

Dos grilhões do orgulho me soltei
E refiz meu amor na humildade

O amor, muitas vezes, inocente
Perambula e margeia em vis veredas
Suas cabaças de mel ficam azedas
E azedam o coração da gente
O orgulho nos torna indiferente
Arrogância nos toma e vira lei
Contra a espada da empáfia então lutei
Pra tornar meu viver felicidade
Dos grilhões do orgulho me soltei
E refiz meu amor na humildade

O orgulho destrói e desagrega
Apodrece o melhor dos sentimentos
E nos faz esquecer os bons momentos
Envenena e a, si mesmo, ele renega
Pelo mar do rancor ele navega
Nesse mar de engano eu naveguei
E enganado pensava que era rei
Mas fui bobo da corte na verdade
Dos grilhões do orgulho me soltei
E refiz meu amor na humildade

Ser humilde não é ser alienado,
Baixar sempre a cabeça pro que vem
É pensar muito, muito mais além
Ter a serenidade do seu lado
Ser humilde é sentir-se magoado
E não guardar pra si como guardei
Arriscar um amor como arrisquei
Por tolice é uma inutilidade
Dos grilhões do orgulho me soltei
E refiz meu amor na humildade

A arrogância tem troco, tem seu preço
Como a lei da ação e reação
Angustia e aprisiona o coração
Revira a nossa vida pelo avesso
Hoje em dia a humildade é o que ofereço
Antes mágoa, rancor e vaidade
Em minha vida faltou sinceridade
Para não sofrer mais então mudei
Dos grilhões do orgulho me soltei
E refiz meu amor na humildade


Não se paga uma ofensa com outra ofensa
Nem se fere por se sentir ferido
Não se diz “eu te amo” ao pé do ouvido
E se grita “eu te odeio” numa sentença
Quem, como eu, não pensou e agora pensa?
Como é curta essa vida! Então irei
Ser feliz sendo humilde. E tentarei
Cultivar mais amor, serenidade
Dos grilhões do orgulho me soltei
E refiz meu amor na humildade


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Melhor capa de revista de 2013

Escolhida em eleição anual realizada pela ANER -Associação Nacional de Editores de Revista - a  melhor capa do ano de 2013  é a da Revista Mundo Estranho, da Editora Abril. Vejam abaixo:

A capa da revista premiada refere-se à matéria: A Disney Que NinguémVê e a equipe responsável é formada por: Bárbara Brasileiro, Elias Silveiro,Patrícia Hargreaves e Marcel Nadale. As demais concorrentes também fizeram ótimas capas.


Este blog também trouxe as melhores capas de 2012 e 2011

Fábula Eleitoral Para Crianças, Paulo Mendes Campos

Gavião de penacho - Spizaltus ornatus
     Um dia, meninos, as coisas da natureza quiseram eleger o rei ou a rainha do universo. Os três reinos entraram logo a confabular. Animais, vegetais e minerais começaram a viver uma vida agitada de surtos eloquentes, manobras, recados furtivos, mensagens cifradas, promessas mirabolantes, ardis, intrigas, palpites, conversinhas ao pé do ouvido. Iam eleger o rei dos três reinos.
     Entre os bichos, era um tumulto formidável. Bandos de periquitos saíam em caravana eleitoral, matilhas de cães discursavam dentro da noite, cáfilas de camelos percorriam os desertos, formigas realizavam comícios fantásticos, a rainha das abelhas zumbia com o seu séquito, sem falar no baile  dos peixes, nos lobos em festival  pelo monte, na barafunda  de búfalos pela savana, na revoada instantânea dos pombos-correios.
       Todas as qualidades eram postas à prova: a astúcia da raposa, a agilidade dos felinos, o engenho dos cupins, o siso da coruja, o poder de intriga das serpentes, a picardia do zorro, a doçura da pomba, a teimosia do burro, o cosmopolitismo dos ratos.
      O leão, o tigre, a pantera, estavam prontos  a derramar sangue.Os pássaros coloridos faziam frente única para indicar um pássaro colorido; já os pássaros que cantam, decidiram apontar como candidato de boa garganta, como o rouxinol, a cotovia, a patativa.As cegonhas irresolutas passavam as tardes pensando, pensando. Os patos selvagens abriam cartazes no céu. As tímidas andorinhas buscavam refúgio na igreja. E a águia, fascista de nascença, pretendia organizar lá no alto uma conferência de que só participassem as aves de rapina como o falcão, o condor e o gavião-de-penacho. 
     Os papagaios viviam a arengar bobagens pelos galhos. A raposa corria as várzeas articulando uma candidatura, ninguém sabia qual. O macaco era vaiado quando alegava semelhança com o homem. O cavalo se meteu a candidato, dando a sua condição de antigo senador do império romano.
     O pavão, escondendo os pés, exibia a cauda. No brejo os sapos repetiam slogans monótonos . Jacarés e tartarugas  ressonavam na beira  beira dos rios, que passavam levando sussurros  quase imperceptíveis, a conversar as pedras e as ervas das margens.  O rato do campo ia de vez em quando se aconselhar com o rato da cidade , mas não seguia seus conselhos. Os gansos citavam velhos costumes clássicos. Certos bichos, como o boi e a íbis, invocavam  direitos divinos, que não eram mais levados a sério. As hienas e os chacais opinavam por um conselho de notáveis, a ser instituído pelos animais ferozes que lhes deixavam os restos. Até a boba da ameba, coitada, queria ser candidata, dizendo-se a origem da vida.
     A mosca azul voava e revoava por todos os cantos. Quem será o rei do universo? De dia,as borboletas andavam como doidas pelo campo; à noite, os vaga-lumes acendiam lanternas.
     Nas profundezas do chão, o carbono fazia estranhas combinações com o hidrogênio. O diamante e o ouro brilhavam de esperança. As estrelas pretendiam uma coalizão de todo o espaço constelado em torno de Vênus, causando ciúmes à Lua.
     As flores distribuíam perfumes à vontade. Árvores agitadas recebiam recados que o vento trazia de longe. A floresta pensava eleger não um rei, mas um colegiado de carvalhos experientes. E por toda a flora era um germinar, um brotar, um verdejar, um florescer sem conta.Os monocotiledôneos discordavam dos dicotiledôneos; os fanerógamos acusavam de hipocrisia os criptógamos. Era a plena campanha eleitoral com todos os incidentes. só os cipestres continuavam fechados em indiferença, apolíticos que são.
      A despeito dos imensos interesses em choque, de tantas contradições, é preciso dizer, a bem da verdade, que o pleito transcorreu com limpa lisura.
      Ao fim de tudo, a escolha não podia ter sido mais feliz, pois os três reinos unidos elegeram a rosa Rainha suprema do Universo.
     Sim, a rosa, a rosa na sua simplicidade tocada de imenso esplendor, erguida na haste entre o céu e a terra, eterna e efêmera, a roa, carne, espírito e pó.
     E para entronizar a rainha o dia acendeu a luz mais clara, os pássaros cantaram com inspiração, as árvores se puseram mais verdes e mais altas, as flores vestiram roupagens de gala, os seixos rolaram infantilmente nas praias, as nuvens se desfraldaram como cortinas de gaze sobre o azul e o verde, No fundo do mar era uma alegria solene, como um Te-Deum, os polvos gesticulando em câmera lenta, os peixes e as medusas passando sem barulho.
       Entre os serres humanos, só as crianças sabiam que era o dia da entronização da rosa, e nada contaram a ninguém. Nem o poeta se lembrava de que a rosa era a rainha, a rosa que se achava expectante no seu recato soberano, quando passou pelo jardim um homem feio e preocupado. Era um candidato a qualquer coisa, a vereador, a deputado, a prefeito, a presidente, não se sabe ao certo. Distraído nas suas ambições, o homem colheu a rainha do universo, que entrou logo a fenecer entre dedos úmidos. Depois, ele olhou e viu que se tratava de uma rosa, uma rosa a morrer. Mal me quer, bem me quer...
       O homem começou a desfolhar  a rosa só para saber se dessa vez seria eleito. E a rosa morreu.
      Foi por isso que o dia   se fechou de repente, os animais uivaram no bosque, as aves sumiram,o vento se desatou sobre o mar enraivecido, o raio e o trovão, tomaram conta da noite sem estrelas. Entre os humanos, só as crianças na hora do jantar perderam a fome. Estava morta a rainha do universo.
     Mas nas trevas, insistente, nasceu de novo a rosa e iluminou o paraíso perdido.

Imagem: Aves de Rapina do Brasil

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Poesia da África - V

Onde Está a Poesia 

Vasco Cabral

A poesia está nas asas da aurora
quando o sol desperta.
A poesia está na flor
quando a pétala se abre
às lágrimas do orvalho.
A poesia está no mar
quando a onda avança
e branda e suavemente
beija a areia da praia.
A poesia está no rosto da mãe
quando na dor do parto
a criança nasce.
A poesia está nos teus lábios
quando confiante
Sorris à vida.
A poesia está na prisão
quando o condenado à morte
dá uma vida à liberdade.
A poesia está na vitória
quando a luta avança e triunfa
e chega a Primavera.
A poesia está no meu povo
quando transforma o sangue derramado
em balas e flores
em balas para o inimigo
e em flores para as crianças.
A poesia está na vida
porque a vida é luta!


Vasco Cabral - Nasceu em Farim em 1926 e morreu em Bissau aos 79 anos. Foi importante economista e importante ativista pela causa da independência de Guiné Bissau e Cabo Verde. O poema acima está em Antologia Poética de Guiné Bissau - 1990
Obra: A Luta é a Minha Primavera - 1981



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domingo, 22 de setembro de 2013

Quem dá e volta a tomar...., Regina Porto

     Vira as costas para o mar.   
     Além de perder a bela visão, não sei qual o castigo que pode sofrer alguém que, por ventura, dê as costas para o mar.  Minha mãe, de quem ouvi o provérbio português, também não sabia... 
    Bem, morando em cidade litorânea tenho mais chances de estar de frente, como agora que tenho a Oceano Atlântico numa visão de 180°, mas ocasionalmente vou ficar de costas, mesmo que não tivesse pedido de volta algo que dei há 37 anos.   
     Regina, que coisa feia!! Deu e  tomou? Sim, dei um livro lá longe em anos passados e pedi de volta. Não queria sabê-lo abandonado sem leitura transformado em pó pelas traças. 
     Com o exemplar nas mãos, me vi muito muito jovem, estudante na Unicap.  Lembro muito bem: professora Irandé, cobrava lição, explicava gramática a partir daquelas crônicas. Era exigente, mas amável e usava uns colares de contas grandes e coloridas. Um dia contou que teve sua casa  assaltada e um colega mais gaiato, perguntou se os ladrões tinham deixado os colares.  Professor Leonildo: brincalhão, jovem, permanentemente encantado por todas as mulheres. Ambos, com a mesma didática, usavam o livro Elenco de Cronistas Modernos.  
     Apesar do mau estado de conservação, o reencontro  com o exemplar me deu alegria. Revi boas crônicas e dei de cara comigo mesma estudante de vinte e poucos anos. Achei engraçado descobrir que eu desconhecia o significado de dezoito  palavras de um só texto.       
     Eu não sabia o que era eloqüente! Sim, naquela época  com o charmoso trema.           Como eu era ignorante!  Paulo Mendes Campos me apresentou a muitas palavras novas, dentre elas, barafunda e lisura.



Ahhhhhhh, mas também fiquei orgulhosíssima de saber que minhas conhecidas monocotiledôneas, dicotiledôneas e fanerógamos estavam lá em Fábula Eleitoral Para Crianças, que este blog vai trazer quarta-feira dia 25.  Eu era estudante de biologia, essas palavras tinham belos sons. Botânica!!! 




  "... De olhos  muito menos redondos, mais secretos, mais aos risos e na cara prognata e..."  É assim que Clarice Lispector se refere a Lisette, uma macaquinha... do livro A Legião Estrangeira. E eu sabia o que era prognata?   Nessa crônica que li na juventude vi apenas a história de 2 macacos, sendo que a Lisette foi comprada na rua.  Ontem, quando reli, tive um olhar bem diferente e voltado para a autora. Notei bom humor e ternura em Clarice. 





Gostei de ver tudo o que aprendi com Elenco de Cronistas Modernos. No livro estão também minha dedicatória, com uma letra que há muito já não tenho; a letra da música: Sonho Impossível, que eu não sei porque está na última folha, escrita a lápis. Diversas anotações sobre quais os textos para quais provas e a marca da assinatura do primeiro dono. Eu comprei num sebo que naquele ano se instalou no andar térreo do Bloco A da Unicap. 





Dei o livro a uma sobrinha tão logo terminei os dois períodos escolares em que precisei dele. Esperava que em algum momento ela lesse e gostasse de algum autor ou texto. 
Nunca leu. Não lembrava que muito de mim estivesse com ele, mas imaginando que devido ao abandono se ela ainda possuísse o livro, este  poderia estar alimentando traças, não temi virar as costas para o mar. Pedi de volta. Fiz bem. Ah, neste momento continuo com o mar à minha frente.




Monocotiledônea - angiosperma que tem um só cotilédone. Ex. cana de açúcar,milho

Dicotiledônea- angiospermas que tem dois cotilédones. Ex. feijão, amendoim.

Fanerógama- um dos dois grupos nos quais Lineu dividiu o reino vegetal, constituído pelas angiospermas e gimnospermas [Como grupo sistemático, é ultrapassado; no entanto, permanece o uso do termo para designar qualquer vegetal que se reproduz através de sementes, em vez de esporos ou gametas.]
Prognata- o que tem o queixo projetado pra frente.

sábado, 21 de setembro de 2013

Crônica cantada: O Casamento do Moacir, Adoniran Barbosa



A turma da favela convidaram-nos
Para irmos assistir
O casamento da Gabriela com o Macir
Arranjemos uma beca preta
E um sapato branco bem apertado no pé
E se apreparemos para ir
Na catedral lá da vila ré

Quando os noivos estava no artar
O padre começou a perguntar
Umas coisas assim em latim:
Qualquer um de vodis aqui presenti
Tem alguma coisa de falar contra esses bodis?

Seu padre, apara o casamento!
O noivo é casado, pai de sete rebento
Fora o que está pra vir
O pai é esse aí - o Moacir!

Que vexame!
A noiva começou a soluçar
Porque o noivo não passou no exame nupiciar
Já acabou-se a festa
Porque nóis descobriu
O Moacir era casado
Cinco vez, lá no estado do rio

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A Carteira, Machado de Assis


..De repente, Honório olhou para o chão e viu uma carteira. Abaixar-se, apanhá-la e guardá-la foi obra de alguns instantes. Ninguém o viu, salvo um homem que estava à porta
de uma loja, e que, sem o conhecer, lhe disse rindo:
-- Olhe, se não dá por ela; perdia-a de uma vez.
-- É verdade, concordou Honório envergonhado.
Para avaliar a oportunidade desta carteira, é preciso saber que Honório tem de pagar amanhã uma dívida, quatrocentos e tantos mil-réis, e a carteira trazia o bojo recheado. A dívida não parece grande para um homem da posição de Honório, que advoga; mas todas as quantias são grandes ou pequenas, segundo as circunstâncias, e as dele não podiam ser piores. Gastos de família excessivos, a princípio por servir a parentes, e depois por agradar à mulher, que vivia aborrecida da solidão; baile daqui, jantar dali, chapéus, leques, tanta cousa mais, que não havia remédio senão ir descontando o futuro. Endividou-se. Começou pelas contas de lojas e armazéns; passou aos empréstimos, duzentos a um, trezentos a outro, quinhentos a outro, e tudo a crescer, e os bailes a darem-se, e os jantares a comerem-se, um turbilhão perpétuo, uma voragem.
-- Tu agora vais bem, não? dizia-lhe ultimamente o Gustavo C..., advogado e familiar da
casa.
-- Agora vou, mentiu o Honório.
A verdade é que ia mal. Poucas causas, de pequena monta, e constituintes remissos; por
desgraça perdera ultimamente um processo, com que fundara grandes esperanças. Não só
recebeu pouco, mas até parece que ele lhe tirou alguma cousa à reputação jurídica; em todo caso, andavam mofinas nos jornais.
D. Amélia não sabia nada; ele não contava nada à mulher, bons ou maus negócios. Não contava nada a ninguém. Fingia-se tão alegre como se nadasse em um mar de prosperidades. Quando o Gustavo, que ia todas as noites à casa dele, dizia uma ou duas pilhérias, ele respondia com três e quatro; e depois ia ouvir os trechos de música alemã, que D. Amélia tocava muito bem ao piano, e que o Gustavo escutava com indizível prazer, ou jogavam cartas, ou simplesmente falavam de política. Um dia, a mulher foi achá-lo dando muitos beijos à filha, criança de quatro anos, e viu-lhe os olhos molhados; ficou espantada, e perguntou-lhe o que era.
-- Nada, nada.
Compreende-se que era o medo do futuro e o horror da miséria. Mas as esperanças voltavam com facilidade. A idéia de que os dias melhores tinham de vir dava-lhe conforto para a luta. Estava com, trinta e quatro anos; era o princípio da carreira: todos os princípios são difíceis. E toca a trabalhar, a esperar, a gastar, pedir fiado ou: emprestado, para pagar mal, e a más horas.
A dívida urgente de hoje são uns malditos quatrocentos e tantos mil-réis de carros. Nunca
demorou tanto a conta, nem ela cresceu tanto, como agora; e, a rigor, o credor não lhe punha a faca aos peitos; mas disse-lhe hoje uma palavra azeda, com um gesto mau, e
Honório quer pagar-lhe hoje mesmo. Eram cinco horas da tarde. Tinha-se lembrado de ir a
um agiota, mas voltou sem ousar pedir nada. Ao enfiar pela Rua da Assembléia é que viu a carteira no chão, apanhou-a, meteu no bolso, e foi andando.
Durante os primeiros minutos, Honório não pensou nada; foi andando, andando, andando,até o Largo da Carioca. No Largo parou alguns instantes, -- enfiou depois pela Rua da Carioca, mas voltou logo, e entrou na Rua Uruguaiana. Sem saber como, achou-se daí a pouco no Largo de S. Francisco de Paula; e ainda, sem saber como, entrou em um Café.
Pediu alguma cousa e encostou-se à parede, olhando para fora. Tinha medo de abrir a carteira; podia não achar nada, apenas papéis e sem valor para ele. Ao mesmo tempo, e esta era a causa principal das reflexões, a consciência perguntava-lhe se podia utilizar-se do dinheiro que achasse. Não lhe perguntava com o ar de quem não sabe, mas antes com uma expressão irônica e de censura. Podia lançar mão do dinheiro, e ir pagar com ele a dívida?
Eis o ponto. A consciência acabou por lhe dizer que não podia, que devia levar a carteira à polícia, ou anunciá-la; mas tão depressa acabava de lhe dizer isto, vinham os apuros da ocasião, e puxavam por ele, e convidavam-no a ir pagar a cocheira. Chegavam mesmo a dizer-lhe que, se fosse ele que a tivesse perdido, ninguém iria entregar-lha; insinuação que lhe deu ânimo.
Tudo isso antes de abrir a carteira. Tirou-a do bolso, finalmente, mas com medo, quase às
escondidas; abriu-a, e ficou trêmulo. Tinha dinheiro, muito dinheiro; não contou, mas viu duas notas de duzentos mil-réis, algumas de cinqüenta e vinte; calculou uns setecentos mil réis ou mais; quando menos, seiscentos. Era a dívida paga; eram menos algumas despesas urgentes. Honório teve tentações de fechar os olhos, correr à cocheira, pagar, e, depois de paga a dívida, adeus; reconciliar-se-ia consigo. Fechou a carteira, e com medo de a perder, tornou a guardá-la.
Mas daí a pouco tirou-a outra vez, e abriu-a, com vontade de contar o dinheiro. Contar para quê? era dele? Afinal venceu-se e contou: eram setecentos e trinta mil-réis. Honório teve um calafrio. Ninguém viu, ninguém soube; podia ser um lance da fortuna, a sua boa sorte, um anjo... Honório teve pena de não crer nos anjos... Mas por que não havia de crer neles?
E voltava ao dinheiro, olhava, passava-o pelas mãos; depois, resolvia o contrário, não usar
do acha- do, restituí-lo. Restituí-lo a quem? Tratou de ver se havia na carteira algum sinal.
"Se houver um nome, uma indicação qualquer, não posso utilizar- me do dinheiro," pensou
ele. Esquadrinhou os bolsos da carteira. Achou cartas, que não abriu, bilhetinhos dobrados, que não leu, e por fim um cartão de visita; leu o nome; era do Gustavo. Mas então, a carteira?...
Examinou-a por fora, e pareceu-lhe efetivamente do amigo. Voltou ao interior; achou mais dous cartões, mais três, mais cinco. Não havia duvidar; era dele.
A descoberta entristeceu-o. Não podia ficar com o dinheiro, sem praticar um ato ilícito, e,naquele caso, doloroso ao seu coração porque era em dano de um amigo. Todo o castelo
levantado esboroou-se como se fosse de cartas. Bebeu a última gota de café, sem reparar que estava frio. Saiu, e só então reparou que era quase noite. Caminhou para casa. Parece que a necessidade ainda lhe deu uns dous empurrões, mas ele resistiu.
"Paciência, disse ele consigo; verei amanhã o que posso fazer."Chegando a casa, já ali achou o Gustavo, um pouco preocupado e a própria D. Amélia o parecia também. Entrou rindo, e perguntou ao amigo se lhe faltava alguma cousa.
-- Nada.
-- Nada?
-- Por quê?
-- Mete a mão no bolso; não te falta nada?
-- Falta-me a carteira, disse o Gustavo sem meter a mão no bolso. Sabes se alguém a
achou? -- Achei-a eu, disse Honório entregando-lha.
Gustavo pegou dela precipitadamente, e olhou desconfiado para o amigo. Esse olhar foi
para Honório como um golpe de estilete; depois de tanta luta com a necessidade, era um
triste prêmio. Sorriu amargamente; e, como o outro lhe perguntasse onde a achara, deu-lhe as explicações precisas.
-- Mas conheceste-a?
-- Não; achei os teus bilhetes de visita.
Honório deu duas voltas, e foi mudar de toilette para o jantar. Então Gustavo sacou novamente a carteira, abriu-a, foi a um dos bolsos, tirou um dos bilhetinhos, que o outro não quis abrir nem ler, e estendeu-o a D. Amélia, que, ansiosa e trêmula, rasgou-o em trinta mil pedaços: era um bilhetinho de amor.


Algumas obras do escritor Machado de Assis, também podem ser encontradas no estilo HQ.  Abaixo, a primeira página do conto A Carteira, desenhado pelo quadrinhista Spacca.
  

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Shakespeare em quadrinhos

Para jovens que não se interessariam por Shakespeare, talvez até nem saibam de quem se trata, mas que gostam de História em Quadrinhos a Editora Nemo tem uma coleção bastante interessante.  Os melhores artistas dos quadrinhos do Brasil, desenharam as mais famosas peças do poeta e dramaturgo inglês.   Aos professores que acham a linguagem tradicional do Rei Lear, por exemplo, pouco atrativa pra seus alunos  adolescentes... sugiro conhecer a Coleção Shakespeare.  Aposto que vão gostar.

 Ilustrador: Rafael Vasconcelos
O trágico amor de Otelo e Desdêmona, envolvido pelas intrigas do traiçoeiro Iago, surge com toda força nesta HQ intensa e dramática. Uma história que irá te envolver da primeira à última página!

Roteiro: Jozz
Ilustrador: Akira Sanoki

A história do amor imortal de Romeu e Julieta ganha nova vida nas páginas desta adaptação em estilo mangá.Uma HQ com todo romantismo e emoção da maior história de amor de todos os tempos.

Roteiro: Marcela Godoy
Ilustradora: Roberta Pares

 Um dos maiores clássicos de William Shakespeare ganha versão em quadrinhos com tradução e roteirização de Wellington Srbek, desenhos e cores de Alex Shibao. O rei da Dinamarca morre em circunstâncias misteriosas e seu fantasma retorna para exigir que o filho vingue sua morte. Em meio a intrigas palacianas, traições e assassinatos, o angustiado príncipe Hamlet irá desafiar os limites da razão numa busca obstinada por verdade e justiça. Uma adaptação para os quadrinhos que parte do texto original para expor a dimensão moderna e sempre atual desta grande obra sobre o sentido de ser humano.
Roteiro:Wellington Srbek
Ilustrador: Alex Shibao






Amores não correspondidos, transformações mágicas, personagens engraçadas, fadas e duendes povoam as páginas desta aventura encantada. Uma HQ perfeita para quem gosta de ótimas histórias!

Roteiro: Lillo Parra
Ilustrador: Wanderson de Souza









A história do Rei Lear, que dividiu seu reino e enlouqueceu ao ver a ganância de suas herdeiras, é traduzida para os quadrinhos num álbum que preserva toda a dramaticidade da peça de William Shakespeare. Pintada em arte digital, a história ganha vida de quadro a quadro, envolvendo os leitores nas intrigas, dramas e paixões desta grande obra shakespeariana.

Roteiro: Jozz
Ilustrador: Octávio Carielo

sábado, 14 de setembro de 2013

Crônica cantada: O Neguinho e a Senhorita.



Composição: Noel Rosa de Oliveira e Abelardo da Silva
Voz: Noite Ilustrada

O Neguinho gostou da filha da Madame
Que nós tratamos de sinhá
Senhorita também gostou do Neguinho
Mas o Neguinho não tem dinheiro pra  gastar 
A Madame tem preconceito de cor
Não pôde evitar esse amor
Senhorita foi morar lá na colina
Com o Neguinho que é compositor
Senhorita foi morar lá na colina
Com o Neguinho que é compositor

Senhorita ficou com nome na história
E agora é a rainha da escola
Gostou do samba e hoje vive muito bem
Ela devia nascer pobre também
Gostou do samba e hoje vive muito
Bem
Ela devia nascer pobre também

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Menino de Cidade, Paulo Mendes Campos

     

     Papai, você deixa eu ter um cabrito no meu sitio?
     Deixo.
     E porquinho-da-índia? E ariranha? E macaco? E quatro cachorros? E duzentas pombas? E um boi? Um rinoceronte?
     Rinoceronte não pode.
     Tá bem, mas cavalo pode, não pode?
     O sítio é apenas um terreno do Estado do Rio, sem maiores perspectivas imediatas. Mas o garoto precisa acreditar no sítio como outras pessoas precisam acreditar no céu. O céu dele é exatamente o da festa folclórica, a bicharada toda, e ele, que nasceu no Rio e, de má vontade, vive nesta cidade sem animais.
     Aliás, ele mesmo desmente que o Rio seja uma cidade sem bicho, possuindo o dom de descobri-los nos lugares mais inesperados. Se entra na casa de alguém, desaparece ao transpor a porta, para voltar depois de três segundos com um gato ou cachorro na mão. A gente vai andando por uma rua de Copacabana, ele some e ressurge com um pinto em flor.  É chegar na Barra da Tijuca, e daí e cinco minutos, já apanhou um siri vivo.
     Localiza eletronicamente todos os animais de redondeza, anda pela rua em disparada, cumprimentando aqui um papagaio, ali um ganso, mais adiante um gato, incansável e frustrado.
     Não distingue marcas de automóvel, em futebol não vai além de Garrincha e Nilton Santos, mas sabe perfeitamente o que é um mastiff, um boxer, um doberman. Dá informações sobre as pessoas de acordo  com os bichos que possuam: aquele é o dono do Malhado, aquela é a dona do Lord... Ao telefone, pergunta por patos, gatos, e outros cachorros, centenas, milhares de cachorros, cachorros que prefere aos companheiros,cachorros que o absorvem na rua, na escola, na hora das refeições, cachorros que costumam latir e pular em seus sonhos, cachorros mil.
     Sua literatura é rigorosamente especializada: livros coloridos sobre bichos. Engatinha mal e mal na leitura mas fala com uma proficiência um pouco alarmante a respeito de répteis, batráquios etc. Filho de mão inglesa, confunde fork com knife, mas sabe o que é seal e walrus. Se pede um pedaço de papel é para desenhar a zebra ou a baleia.
     É claro que sua frustração causa pena. Por isso mesmo, há algum tempo ganhou como consolo um canarinho-da-terra. Um dia, como dissessem que iam dar o passarinho, caso continuasse a comportar-se mal, correu para a área e abriu a porta da gaiola.
     Deram-lhe um bicudo, mas o bicudo morreu de tanto alpiste. Ganhou mais tarde uma tartaruga, pequenina e estúpida, que recebeu na pia do banheiro o nome de Henriqueta.  Nunca qualquer outro quelônio deu tanto serviço. Foi ao dentista da cidade, e , ao voltar,disse ao pai pela primeira vez uma palavra horrível: estou desesperado.  Tinha perdido a tartaruguinha no lotação.
     Ficou o vazio em sua vida. O alívio era ligar o telefone iterurbano para avó e indagar pelos patos que "possuía" em outra cidade. Ou fazer uma visita à futura mãe de Poppy, este um poodle que deverá nascer daqui a meio ano, prometido de pedra e cal para ele.
     Outro expediente: caçar borboletas, mariposas, grilos, alojar carinhosamente os insetos nas gaiolas vazias, chamar-lhes pelos nomes dos antigos bichos mortos ou desaparecidos.
     Um tio deu-lhe outra vez um canário, o carinho foi demais, o passarinho morreu. Não há nada a fazer, por enquanto, e ele dedicou-se à arte de desenhar bichos. De vez em quando ainda se anima e entra em casa afogueado, mostrando alguma coisa quase invisível nas mãos: "Olha que estouro de grilo!"
     Mas os grilos e as borboletas legais morrem ou saem tranqüilamente das gaiolas, e ei-lo novamente de mãos e alma vazias.
     Deu  um jeito: arranjou pires sem uso e plantou sementes de feijão. O banheiro está cheio de brotos verdes, tímidos. E ele já sabe que possui uma fazenda.
(Em Homenzinho na Ventania - Ed. do Autor  1962)
Nota: esta crônica foi escrita antes da reforma ortográfica. O blog manteve a grafia original.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A Um Diamante Bruto, César Feitoza




Como decifrar-te? Diz! Como decifrar-te?
És como a esfinge ou mesmo como a arte
De Leonardo e sua Monalisa
E és também como uma torrente
De chuva fria ou de vento quente
Que me atordoa e me faz demente
E que me encharca e faz ranger meus dentes
Que pra chegar, aviso não precisa.
Como escalar-te? Diz! Como escalar-te?
Como tocar teu cume invisível?
Como transpor teu muro intransponível?
Que cresce tanto mais agente escala
Tantos pudores que me tiram a fala
E me pergunto se não és de Marte.
Como cavalgar-te? Diz! Como cavalgar-te?
Como domar um coração ferido?
O que fazer pra novamente dar-te
A esperança que havias perdido?
Como lapidar-te? Diz! Como lapidar-te?
E um diamante bruto transformar
E enxergar desejo em teu olhar
Sem que tu penses que isso é pecado
E não se importes se o alguém ao lado
Censurará o fato de amar-te
Como tocar-te? Diz! Como tocar-te?
E despertar a fúria do vulcão
Que na tu´alma jaz adormecido
Como arrancar de ti os teus gemidos?
Como descongelar teu coração?
Como prender-te? Diz! Como prender-te?
Na teia que eu, paciente, teço.
E que desfaço. Meio, fim, começo
E tu escapas mesmo não querendo
E sigo eu então no meu tecendo
Na esperança de um dia ter-te.