sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Orgulho de Estar Na Rabeira, ou pernambucanidade inútil. Regina Porto


     
Pernambucanidade, orgulho de ser nordestino, Eu Amo Recife: todas são bem sucedidas campanhas  publicitárias com o objetivo de vender algum produto ou ideia. As três campanhas têm em comum o ufanismo e   nossa conhecida  mania de grandeza. Não vou me ater às questões de Marketing. Não é meu objetivo. Penso é no ufanismo: sempre utilizado, incentivado, quando há uma necessidade.   
     Vejo na imprensa local  uma preocupação enorme em destacar Pernambuco e não  considero isso incorreto.  Às vezes é engraçado  ler, por exemplo: ” Pernambucano  faz a travessia do canal da mancha  em 10 minutos”, aí vou ler a notícia completa e descubro que, nessa ocasião,  100 pessoas  fizeram o mesmo percurso em 9 minutos.  Para continuar a rir, procuro e não encontro a notícia nos jornais de maior porte . Quando muito, encontro, sem destaque algum,   que esse brasileiro (sim, pernambucano é brasileiro) foi o pior nadador e a competição não tem qualquer relevância no cenário mundial. Mas, no Recife esse pernambucano (sim, Pernambuco é o mundo) arrasou!  Mania de grandeza?  Sim.  Virou piada? Sim. Virou e não critico.  Ufanismo? Sim. Também não critico.  Só que ultimamente venho achando esse comportamento mais preocupante que criticável.   
      Orgulho  não é ruim, claro, mas a gente precisa usar com  moderação. Da forma como está,  embotando o senso crítico não leva a lugar algum. Ou melhor, leva para trás. Se não, vamos ver o que li recentemente nos três principais jornais do estado:  UFPE, fica entre as melhores universidades do país.   Sim, é um fato.  A divulgação do ranking das universidades brasileiras foi feita pelo MEC.   Essa notícia, aliás,  manchete, foi replicada pelas redes sociais e abriu sorrisos felizes.   Li a notícia completa no Estadão (SP) e lá verifiquei que a UFPE está em 43º lugar entre as 50 universidades, ou  seja, está na ponta final.  Li mais: na avaliação anterior a UFPE estava em 39º lugar, tendo, portando, caído 4 colocações.   Também caíram  a UNIFESP (2 colocações); PUC RS (1 colocação); UFF (2 colocações); UFSC (1 colocação).     
     Se a gente olha apenas parte do fato e comemora como se fosse a glória celestial,  age mais como um  conformado.   Sou aluna da UFPE  e diariamente vejo sua decadência.  Se lá está a ponta final  da decadência do ensino nacional, da falta de uma administração para a excelência, da acomodação cultural do servidor público, como poderá a universidade  estar entre as melhores do pais?  A resposta, qualquer um sabe e está contida no que os jornais informaram: entre as melhores porém na rabeira e com a maior queda entre as que caíram.  
     Seria o caso, então, de exalando pernambucanidade por todos os poros, bater  no peito e diante de um gaúcho, por exemplo, exaltar  a palavra MAIOR, da realista “maior” queda  entre as  que mais caíram?    Ninguém faria isso, claro. Exagerei, para insistir que nós de Pernambuco para o bem do próprio estado e, nesse caso, para o bem da UFPE devemos nos preocupar. Afinal nos CAIMOS no ranking.  No Centro de Ciências Sociais Aplicadas da UFPE,  estão reunidos  8 cursos de graduação.        Apenas um deles, Administração,  divulga seu resultado do ENADE.   Os demais (alguns ainda não participam) omitem os resultados como se o fato de deixar os alunos desinformados mudasse o mau desempenho.  Por parte dos alunos, também não há interesse.  Qual a razão de preocupar-se com nota 2 (de 0 a 5), se a UFPE está entre as 50 melhores?  Na próxima avaliação a universidade poderá (esforça-se até)  deixar o  G50,  e aí?   que faremos com nossa pernambucanidade?
Nota: a USP, que lidera o ranking nacional, não consta entre as 50 melhores do mundo.


Veja a matéria:
As melhores universidades do país 

 

sábado, 24 de agosto de 2013

Aniversariante em 10 poemas: Paulo Leninski

     Adoro conhecer escritor novo. E como tem gente boa por ai, gente! nunca vou dar conta de tanto livro e autor! Sempre vou me deparar com alguém de quem só conhecia um texto ou de quem nunca tinha ouvido falar. Paulo Leminski estava no primeiro grupo até ir, em eu janeiro, pra casa de meu filho e ler um livro dele. Uaaaaaaaaaauu!


Imagem de: Igor westphalen
     Hoje, quando completaria 69 anos,  trago 15 poemas de Paulo Leminski, duvido que você não goste.


Bem no fundo

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

Dor elegante

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante
Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha
Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra

Invernáculo

Esta língua não é minha,
qualquer um percebe.
Quem sabe maldigo mentiras,
vai ver que só minto verdades.
Assim me falo, eu, mínima,
quem sabe, eu sinto, mal sabe.
Esta não é minha língua.
A língua que eu falo trava
uma canção longínqua,
a voz, além, nem palavra.
O dialeto que se usa
à margem esquerda da frase,
eis a fala que me lusa,
eu, meio, eu dentro, eu, quase.

O que quer dizer

O que quer dizer diz.
Não fica fazendo
o que, um dia, eu sempre fiz.
Não fica só querendo, querendo,
coisa que eu nunca quis.
O que quer dizer, diz.
Só se dizendo num outro
o que, um dia, se disse,
um dia, vai ser feliz.

M. de memória

Os livros sabem de cor
milhares de poemas.
Que memória!
Lembrar, assim, vale a pena.
Vale a pena o desperdício,
Ulisses voltou de Tróia,
assim como Dante disse,
o céu não vale uma história.
um dia, o diabo veio
seduzir um doutor Fausto.
Byron era verdadeiro.
Fernando, pessoa, era falso.
Mallarmé era tão pálido,
mais parecia uma página.
Rimbaud se mandou pra África,
Hemingway de miragens.
Os livros sabem de tudo.
Já sabem deste dilema.
Só não sabem que, no fundo,
ler não passa de uma lenda.

Parada cardíaca

Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.
Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.

Razão de ser

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

Aviso aos náufragos

Esta página, por exemplo,
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.
Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.
Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta pagina, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não e assim que é a vida?

Amar você é
coisa de minutos…

Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui

Poesia:

“words set to music” (Dante
via Pound), “uma viagem ao
desconhecido” (Maiakóvski), “cernes
e medulas” (Ezra Pound), “a fala do
infalável” (Goethe), “linguagem
voltada para a sua própria
materialidade” (Jakobson),
“permanente hesitação entre som e
sentido” (Paul Valery), “fundação do
ser mediante a palavra” (Heidegger),
“a religião original da humanidade”
(Novalis), “as melhores palavras na
melhor ordem” (Coleridge), “emoção
relembrada na tranquilidade”
(Wordsworth), “ciência e paixão”
(Alfred de Vigny), “se faz com
palavras, não com ideias” (Mallarmé),
“música que se faz com ideias”
(Ricardo Reis/Fernando Pessoa), “um
fingimento deveras” (Fernando
Pessoa), “criticismo of life” (Mathew
Arnold), “palavra-coisa” (Sartre),
“linguagem em estado de pureza
selvagem” (Octavio Paz), “poetry is to
inspire” (Bob Dylan), “design de
linguagem” (Décio Pignatari), “lo
impossible hecho possible” (Garcia
Lorca), “aquilo que se perde na
tradução (Robert Frost), “a liberdade
da minha linguagem” (Paulo Leminski)…

Adminimistério

Quando o mistério chegar,
já vai me encontrar dormindo,
metade dando pro sábado,
outra metade, domingo.
Não haja som nem silêncio,
quando o mistério aumentar.
Silêncio é coisa sem senso,
não cesso de observar.
Mistério, algo que, penso,
mais tempo, menos lugar.
Quando o mistério voltar,
meu sono esteja tão solto,
nem haja susto no mundo
que possa me sustentar.
Meia-noite, livro aberto.
Mariposas e mosquitos
pousam no texto incerto.
Seria o branco da folha,
luz que parece objeto?
Quem sabe o cheiro do preto,
que cai ali como um resto?
Ou seria que os insetos
descobriram parentesco
com as letras do alfabeto?

Sintonia para pressa e presságio

Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Soo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.
Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.

Não discuto

não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino

A lua no cinema

A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.
Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!
Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.
A lua ficou tão triste
com aquela história de amor
que até hoje a lua insiste:
— Amanheça, por favor!

Sem título

Eu tão isósceles
Você ângulo
Hipóteses
Sobre o meu tesão
Teses sínteses
Antíteses
Vê bem onde pises
Pode ser meu coração

 Estes poemas  fazem parte do livro “Melhores Poemas de Paulo Leminski”, organizado por Fred Góes, editora Global.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Me meti na torcida adversária


           
Fui ao Recife Antigo, belo bairro da cidade, onde, na Torre Malakoff, estive no lançamento do livro de  Samarone Lima e  Inácio França. Pois é, pessoal: dei vez a futebol e me passei pra ir ver Raça Negra, primeiro livro da Trilogia das Cores que traz crônicas dos dois jornalistas torcedores de time adversário.





   Imagens do Lançamento do Livro Raça Negra 


Torcedores entoam: tri tri tricoloooor!!!

Pelas pessoas da fila dá pra notar que a alternativa incorreta era eu.

Samarone Lima, um dos autores, autografando meu exemplar.

"Para Regina Porto, rubro negra de carteirinha e amante do Santinha".
Notas da blogueira: 
Santinha: forma carinhosa usada para o Santa Cruz F.C, o time tricolor (vermelho, preto e branco) adversário do Sport Recife, meu time, que é rubro negro.
Os próximos livros da Trilogia das Cores: vão ser lançados em dezembro 2013 e em fevereiro 2014.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O Hóspede, Sérgio Porto

   
            Não sou um homem de mudanças. Mudei-me duas vezes apenas, em toda minha vida. No entanto, ou talvez por causa disso, sei bem o que significa para a felicidade de cada um a comunhão do homem com seus bens e costumes, suas manias e hábitos. Assim como uma família não é composta somente de primos e primas, tios e tias, avôs e avós, irmãos e irmãs, adidos e afins, assim também uma casa não é somente seus cômodos e dependências, seu terreno e seus jardins.

     Foi um estudante pobre, há alguns anos, que me fez sentir isso. Foi um colega pobre que morava numa pensão pensão do Catete e que um dia, num rasgo de condescendência consigo mesmo, entrou no café e - para inveja dos que tomavam a clássica média com pão e manteiga - berrou para o garçom:

     
- Chico,me traz um prato de empadas!

      Sentou-se à minha mesa e explicou que era dia  de empadas lá na sua casa do interior fluminense. Dia de festa de Nossa Senhora da Glória - esclareceu - quando a preta velha Idalina vinha para a procissão e ficava hospedada no quarto dos fundos. todos sabiam que no almoço haveria empada, porque Idalina era campeã mundial de empadas, as melhores e mais macias do universo.
     Por isso - mesmo sabendo que iria transtornar o orçamento - desprezara a média com pão e manteiga de todos os dias e de todos os estudantes pobres e pedira um prato de empadas. Pura homenagem.
     Senti que as empadas não lhe faziam bem. Não o mal que costumam causar as empadas, mas outro que uma palavra apenas explica - saudade. Ele, havia três anos, morava numa pensão do Catete, vendo a família de raro em raro, dormindo uma vez por ano em sua própria cama, por um instante deixara-se abater no seu ânimo de estudante pobre que vem diplomar-se na capital.
     Foi  depois, muito depois do convite que lhe fiz para jantar comigo, que me explicou o quanto depende a felicidade de um homem da preservação de seus costumes. Jamais entenderia aqueles que voluntariamente se afastam da sua terra e da sua gente.
     Nossa gente, nossa casa são mais do que aparentam em patrimônio e sentimentos - esclareceu. O irmão distante é mais nosso irmão e dói nais na gente; uma família é mais do que um grupo de parentes e o natural carinho que uns têm pelos outros . O gosto da comida e a conversa na mesa, a alegria comum nas grandes datas e o conforto da solidariedade nas incontornáveis tristezas.
     A felicidade - disse-me aquele rapaz que vivia numa pensão do Catete - é isto: esta toalha de sua mesa, este pão que tem sempre o mesmo gosto, o perfume do sabonete, determinado canto da casa onde, à tarde, uma brisa fresca conforta do calor, o cheiro dos lençóis, os sons costumeiros - o piano da irmã, o barulho das crianças lá fora, o bater de um velho relógio.
     - tende piedade dos que moram em pensão - disse-me então aquele rapaz que foi meu colega e cujo nome já nem me lembro. - Tende piedade deles, que deles um dia será o reino dos céus.

(A Casa Demolida,1963 - pág.37) Saiba mais sobre o autor clicando aqui

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Poesia da África III

Nossa irmã lua

Noémia de Souza

Uma irmãzinha meiga que nos cubra
a todos com a quentura terna e gostosa
do seu carinho...
que entorne toda a sua claridade
sobre as nossas tristes cabeças vergadas
e, como um feitiço forte e misterioso,
nos afugente as raivas fundas e dolorosas
de revoltados,
com a sua morna carícia de veludo...
sua enorme mão,
luminosamente branca, consegue-nos tudo.
E sob o seu feitiço potente, serenamos.
E pouco a pouco, momento a momento,
Sossegando vamos...
Fechando nossos olhos pacientes de esperar,
Já podemos vogar no mar
Parado dos nossos sonhos cansados...
E até podemos cantar!
Até podemos cantar o nosso lamento...
De olhos para dentro, para dentro de nós,
Sentimo-nos novamente humanos,
Somos nós novamente,
E não brutos e cegos animais aguilhoados...
Sim. Nós cantamos amorosamente
A lua amiga que é nossa irmã.
– Embora nos repitam que não,
nós o sentimos fundo no coração...
(que bem vemos
que no seu largo rosto de leite há sorrisos brandos de doçura
para nós, seus irmãos...)
só não compreendemos
como é que, sendo tão branca a nossa irmã,
nos possa ser tão completamente crista,
se nós somos tão negros, tão negros,
como a noite mais solitária e mais desoladamente escura...
Se me quiseres conhecer
Se me quiseres conhecer,
Estuda com olhos de bem ver
Esse pedaço de pau preto
Que um desconhecido irmão maconde
De mãos inspiradas
Talhou e trabalhou em terras distantes lá do norte.
Ah! Essa sou eu:
órbitas vazias no desespero de possuir a vida
boca rasgada em ferida de angustia,
mãos enorme, espalmadas,
erguendo-se em jeito de quem implora e ameaça,
corpo tatuado feridas visíveis e invisíveis
pelos duros chicotes da escravatura...
torturada e magnífica
altiva e mística,
africa da cabeça aos pés,
– Ah, essa sou eu!
Se quiseres compreender-me
Vem debruçar-te sobre a minha alma de africa,
Nos gemidos dos negros no cais
Nos batuques frenéticos do muchopes
Na rebeldia dos machanganas
Na estranha melodia se evolando
Duma canção nativa noite dentro
E nada mais me perguntes,
Se é que me queres conhecer...
Que não sou mais que um búzio de carne
Onde a revolta de africa congelou

Seu grito inchado de esperança.

  
Nasceu em Catembe, Moçambique, em 1926 e faleceu em Cascais, Portugal, em 2002. Poeta, jornalista de agências de notícias internacionais viajou por toda a África durante as lutas pela independência de vários países. Só publicou tardiamente seu livro de poesias Sangue Negro, em 2001.
Não existe edição brasileira do livro  Sangue Negro

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Com preguiça o jeito é divagar.

     Logo mais terei aula de Comportamento Organizacional. Deveria, portanto, estar redigindo resumo da aula anterior. Nada difícil. Entendi perfeitamente a razão da formação de grupos nos ambientes de trabalho e fora deles, suas vantagens e desvantagens, o coletivismo e individualismo em alguns países. A aula do prof.Elias está completinha na minha cabeça. Resumir formalmente é que é o problema, tudo porque fui guardar livro na estante...  É o jeito divagar!
   
 Quem tem mania (vício? doença?) de ler parece adquirir uns hábitos estranhos. Estive olhando os livros de sebo que possuo. Uns são novos. Bem perto de minha mão esquerda tem um Moacyr Scliar que comprei por  menos que a metade do preço e me chegou, vindo do RJ e, conforme informado, em excelente estado de conservação. 
     - Será que o dono não gostou? - Como não gostou se eu adorei esse livro? - Te aquieta, Regina! Vai ver que o dono precisou de espaço na estante. - É, pode ser. - Ou talvez seja um desapegado fã do autor que pôs à venda  o livro depois de tê-lo emprestado a vários amigos como você mesma faz.  - É mesmo.
     Ainda à minha esquerda e na letra M, achei Contos Reunidos. Ah! esse livro é um tesouro: foi comprado porque eu queria  encontrar um conto citado por um colunista da Revista Veja e que até aquela data não existia no Google. Passou a existir com a minha postagem e eu fiquei me achando, claro. Disse que o livro é um tesouro porque veio carregadinho de história. 
   
 É uma edição de 1977, veio com ligeiro amarelado do tempo, anotações e destaques. Já imagino que a dona,  sim, presumi que era uma mulher, foi estudante dedicada. Em alguns títulos fez indicação do livro onde estava contido o conto. Sublinhou: "... na simplicidade da escrita, como ideal da arte literária..." e  mais adiante: "... da arte como a contemplação superior da vida..." e mais vários trechos da apresentação de Josué Montello para o livro de Marques Rebelo.
     Essa moça, estudante de Letras conforme determinei divagando, não só deliciou-se com os formidáveis textos do autor como aprendeu um bocado. Fez anotações como quem sabe e como quem quer saber, o que é melhor.
    Vejo que anotou: "Etager", que eu suponho ser  um móvel  como um do quarto de minha avó, mas é melhor procurar no dicionário. Aposto que a estudante sabe.
   
 Ah! livros de sebo são formidáveis!  Tenho 3 Olegário Mariano.  Um deles, o segundo da obra completa, veio literalmente caindo aos pedaços. Imagino um senhor bonito e tímido que empresta o livro ao primo e este, intentando parecer romântico, presenteia a namorada com o livro alheio. Enganou a mocinha e desfalcou a biblioteca do primo.  O tempo e o muito ler das poesias, danificaram o exemplar até que décadas depois o livro chega às minhas mãos sem a capa da frente e a segunda capa completamente solta e sem um pedaço. O outro volume da obra está mais bem conservado e tem uma dedicatória: Do papai para o Spineli".  Será que os netos desse Spineli gostam de poesia? Será que conhecem Olegário Mariano?
     Por que não olhar também para os carimbos, manchas de mofo, datas, furos de traça que os livros de sebo trazem?  São pequenas histórias independentes acrescentadas ao  texto do autor. Numa página amarela, vejo pelo carimbo que esse exemplar foi vendido por uma livraria que ficava no número 6 da Rua do Plano Inclinado, em Salvador. Conheci o transporte no final dos anos 70. Por causa do carimbo...ah! corrijo: por curiosidade acabei descobrindo que o Plano Inclinado da bela cidade foi construído no século XIX. Uau!
   
 Quem editou o exemplar do livro de poesias que tenho e traz a dedicatória ao Spinelli, foi  a Ed. Guanabara. Ficava, segundo vejo na página mofada, na Rua dos Ourives que há muitos anos passou a chamar-se R.Miguel Couto e fica próxima à Igreja da Candelária que eu conheci um ano antes de entrar no curso de Biologia. No segundo período desse curso, estudei osteologia num livro da mesma editora, já com o nome de Guanabara Koogan.
     Quase ia esquecendo de dois achados em um excelente Pepetela que também comprei recentemente em sebo. Entre as páginas 74 e 75 do livro O Cão E Os Caluandas veio um comprovante de depósito bancário. Há 13 anos S.R.P  transferiu R$417,00 
para M.J.A.C. Pagou CPMF por isso. E no final do livro onde o sebista anotou que eu mudei de endereço, veio uma oração a Santo Expedito. 

O que eu tenho a ver com depósito do passado e santinhos? Nada, mas que esses dois papeis são pedaços de histórias são. Não digo que livros de sebo são formidáveis?
     Preguiça de fazer resumo dá nisso!!  
     - Vá estudar Regina. Não conte com a sorte. 

Regina Porto. Recife. 13.08.13

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Arquitetura e Kafka, tudo a ver?

     O que Danti Alighieri, Tolkien, Wilhelm Hauff, Luis Cernuda,Orhan Pamuk, Ítalo Calvino e Kafka têm em comum?  Você me responde: livros! Sim, eram escritores.   Não é só isso!!     Na Nova Zelândia,Argentina, Turquia,Espanha,Alemanha 7 fãs dos autores, construiram algum edifício com inspiração na obra dos autores.  Na Nova Zelândia, por exemplo, tem um motel temático dos Hobbits.  
Boa ideia?  Eu também adorei. 

Dentre as 7 construções literárias a minha preferida é o Hotel Tressants, Ilha de Menorca na Espanha. Qual a sua? o que você achou mais interessante?

E se eu fosse arquiteta, quem me inspiraria?  Vou pensar. Vamos?



segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Poesia da África II -

ROÇA
Manuela Margarido


A noite sangra
no mato,
ferida por uma aguda lança
de cólera.
A madrugada sangra
de outro modo:
é o sino da alvorada
que desperta o terreiro.
E o feito que começa
a destinar as tarefas
para mais um dia de trabalho.

A manhã sangra ainda:
salsas a bananeira
com um machim de prata;

capinas o mato
com um machim de raiva;
abres o coco
com um machim de esperança;
cortas o cacho de andim
corn um machim de certeza.

E à tarde regressas
a senzala;
a noite esculpe
os seus lábios frios
na tua pele
E sonhas na distância
uma vida mais livre,
que o teu gesto
há-de realizar.


 
Maria Manuela Conceição Carvalho Margarido (roça Olímpia, Ilha do Príncipe, 1925 –Lisboa,Março de 2007) foi uma poetisa de São Tomé

 Foi combatente do autoritarismo e desumanidade que a partir da década de 1950 foi imposto à  África, e lutou pela independência do arquipélago. Em 1953, levanta a voz contra o massacre de Batepá, perpetrado pela repressão colonial portuguesa.Denunciou com a sua poesia a repressão colonialista e a miséria em que viviam os trabalhadores do café e do cacau em São Tomé. Estudou ciências religiosas, sociologia, etnologia e cinema na Sorbone de Paris, onde esteve exilada. Foi embaixadora do seu país em Bruxelas e junto de várias organizações internacionais. Em Lisboa, onde viveu, Manuela Margarido  divulgou,juntamente com Alda Espírito Santo, Caetano da Costa Alegre e Francisco José Tenreiro, a poesia de São Tomé e Príncipe. 

Notas da blogueira:
Machim: espécie de faca comprida e larga usada em trabalho agrícola na África e norte do Brasil.
Batepá- massacre de:  em fev. de 1953 o governador da colônia Carlos Gorgulho, alegando conspiração comunista que faria os nativos revoltarem-se para derrubar seu governo e tomarem seu lugar, impôs uma ação de grande violência contra os colonizados que de tão sangrenta ficou conhecida como Massacre de  Batepá.  Anos mais tarde a PIDE, polícia politica de Portugal, negou a existência da revolta nativa alegada pelo governador.

sábado, 10 de agosto de 2013

No cinema:A menina Que Roubava Livros

     Lembram daquela menina que junto com o irmão foi mandada pela mão para uma cidadezinha alemã para s  para uma família, que era paga pra criá-los?  No trajeto o garoto morre e quem faz o enterro  deixa cair na neve um livro que a irmã apanha e leva consigo mesmo não sabendo ler.  Lembram que a menina chama-se Liesel e que o autor da história faz com que seu pai adotivo a alfabetize  e ele passa a ter uma ligação forte e personalíssima com os livros e nunca se separou daquele primeiro livro que apanhou da neve e que passou a ser seu único vínculo com a família etc e tal?  Ok, vai lembrar que estou falando de A Menina Que Roubava Livros. Pois bem  a gente sabe que esse livro de Markus Susak, está com mais de 2 milhões de exemplares vendidos no Brasil e é sucesso também nos USA. Na lista dos mais vendidos do New York Times, consta como primeiro há 280 semanas.  
Isso é pouco?  Então, para quem, como eu, gostou do livro aviso: em janeiro de 2014 estreia nos Estados Unidos o filme A Menina Que Roubava Livros.  No elenco:
Emily Watson, Sophie Nelisse e  Geoffrey Rush


 
O filme foi ambientado em Berlim, Alemanha 



Vamos aguardar torcendo para que seja tão bom quanto o livro.

Crônica cantada: Um Ontem Que Não Existe Mais, Paulinho Moska





Você não me quer
Só porque eu não sou comum
Só porque eu não sou banal
Você não me quer
Só porque eu não sou qualquer um
Não tenho desejo algum de parecer normal
E pela cidade o que mais se diz
É que minha tristeza te deixa feliz
Mas tudo que você deseja eu já fui
E agora sua alma sozinha possui
Um ontem que não existe mais
Um ontem que não existe mais
Um ontem…
Como ajudar
Alguém que não pede socorro?
... Alguém que não consegue chorar?
Continuar,
Se já chegamos no alto do morro
Não encontramos vales nem rios para atravessar
Quem sabe um dia eu possa chegar
Novamente no porto onde você está
À espera do velho navio que não percebeu
Que acabou de afundar?(num)
Um ontem que não existe mais
Um ontem que não existe mais
Um ontem…