segunda-feira, 29 de julho de 2013

Poesia Para o Depois, Janete Barros

 
Imagem do Google
...de preferência que seja declamada
Em alto e bom tom,com platéia e tudo.

 
Isso mesmo!
 
Quero que cause espanto e dor,
mal e bem estar, isso vai depender
da consciência de cada um que fiz,
do primogênito ao temporão
(os que não fiz foram poupados).

 
A morte é irremediável...
E depois nem as mais doces lágrimas,
nem o mais longo pranto...

 
Não ouvirei lamentos,
não verei olhos vermelhos.
...minhas mãos estarão empalmadas
(na melhor das hipóteses).
Nada mais tocarei.
Nem o mais tenro lábio...

 
Minha voz estridente
não repercutirá mais nada.
Não consolarei ninguém!

 
E assim, na lápide fria
ficará para sempre gravado
(nada é para sempre)
o dia que nasci e o dia que o mundo
acabou para mim.
Quem disse que o mundo não acaba?!

 
E depois para completar o círculo perfeito que rege o mundo,
os vermes tomarão conta de tudo,
e meu corpo servirá unicamente para
alimentá-los... quiçá alguma árvore
frutífera...
Um jambo que seja, doce e apetitoso,
já será lucro.

 
E toda a minha fertilidade fecundará
também a terra...

Por enquanto estou na idade da razão
(segundo Sartre)...
A inspiração flui
e o tempo vale uma poesia.


Por enquanto estou na idade da razão
(segundo Sartre)...
A inspiração flui
e o tempo vale uma poesia.
O mundo cabe inteiro
dentro da minha cabeça.
O sangue lateja, pulsa.
Os feromônios clamam!



domingo, 28 de julho de 2013

Crônica cantada: Salve-se Quem Puder



Salve-se Quem Puder

Dominguinhos e Fausto Nilo

A gente faz o amor
Só não desfaz o rancor
Não chore se eu disser
Você não quis quando eu quis
Agora quer ser feliz
Do jeito que o diabo quer

Eu já cansei de esperar
Olhando o tempo passar
Não quero mais sofrer
Agora já é depois
Sorrimos juntos nós dois
Podemos esquecer

Indecisão nunca mais
O tempo não satisfaz
A quem não sabe o que quer
Você foi tudo, meu Deus
Mas seu demônio sou eu

E salve-se quem puder

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Uma Janela, Um Voo Para Paris, Carmem Vieira

Espero o voo para Paris e de repente o telefone toca. É minha filha a avisar que assim que chegasse iríamos fazer uma turnê. Ela, o marido, os sogros e um amigo.
     -Mãe, aquele da foto que lhe mostrei, o viúvo da universidade. Lembra-se?
     Imensas as janelas, permitindo o olhar curioso.
Admirava-o a escrever. Sempre uma garrafa d'água, um copo. Tardes contínuas, caminho para ir e voltar da aula de inglês, da ginástica, do vôlei, esperança nutrida por anos de que aqueles olhos vissem o meu. Nada. Nunca. Mudaram-se todos. Mudamo-nos. "Essa casa é grande demais para pouca gente. Você daqui a pouco se forma, seu irmão casa,seu pai sempre na rua. Tenho que e cuidar".
     A vida continuou, a roda-viva nos fez cada vez mais distantes e na lembrança o primeiro despertar daquele menino que julgava belo e a quem todos os olhos meus convergiam.
     Tudo isso chegou-me quando vi minha filha subir ao altar com o rapaz que conhecera durante o curso no exterior e com o qual vivera dois anos para saber se ia dar certo. O primeiro impacto do experimentar para ver se dava certo deixou-me pensativa, mas lá no íntimo eu concordava. Sempre achara estranho o casar virgem; e se não desse certo na hora h? Teria que ficar, ficar para sempre até que a morte os separasse, quando a vida já os havia separado. Acredito que tenha dado certo, si. Enfim, ele pareceu-me muito carinhoso com ela. Cuidados mútuos,  um apartamento bem montado e projeto de filhos para daqui a algum tempo.
     - Nada por aqui é certo, disse-e ela.
     Mas, enfim, a França não é tão longe, e essas coisas modernas de comunicação nos deixam muito próximos. Rever a Torre Eiffel  era uma ideia que me soava agradável. Meu francês não era tão ruim. A viuvez permitia as viagens constantes. Os outros dois meninos à beira de casar. E eu só, igual as palavras de minha mãe. Só.
     Avisara-me que vinha casar no Brasil, queria que eu a visse de noiva. Não sei quando lhe disse isso, as ela dizia a todo mundo que era um sonho meu. Confirmava sem convicção, mas estava feliz por tê-la por perto algum tempo e por saber que estava bem, amando e com o bom emprego. Bem mais feliz com o bom emprego.
     Deixara o flat da praia para a lua de mel. Redecorei, deixei-o pronto como convém aos noivos; ficava alugado o tempo todo, há muito não ia lá. Era pequeno para levar as amigas e aos ficantes não convinha, precisava preservar-me um pouco.   Pelos meninos, pelos meninos apenas. Eles entusiasmavam-me parra u namoro, um flerte. A ausência do homem, do pai já fazia tempo. Não foi ruim, não foi bom. A virgindade para ele não era salvação ou problema; aceitou-e virgem, com a cabeça repleta de caraminholas. Medo de seduzí-lo e ele interpretar-me mal, e ele com medo de se fazer entender mal. Linguagens diferentes na cama, semelhantes na mesa, vida social intensa. Vida, morte. Com a morte, nem tão cedo, nem tão tarde, senti falta de nossas idas à cozinha preparar pratos para os amigos. Era o único momento em que ríamos juntos, a inventar o que faríamos e a mentir quando os anfitriões chegavam.  Inventávamos também a origem de cada um daqueles quitutes. Que ficavam gostosos, ficavam. Por que não éramos mais criativos  na nossa intimidade? Flagrei-e fazendo tal pergunta quando o velava e notei que ele era, de fato, um homem bonito, descomplicado, belo.
     Surpreendeu-me saber que o pai do meu genro era brasileiro. Adotara a França e ali se casara. "Brasil só a passeio". O sobrenome pareceu-me familiar.
     Ao recebê-lo no aeroporto, reconheci-o.Naturalmente o tempo deixara marcas e me senti vendo um espelho. Nossos cabelos brancos se revelavam. Aliás, os meus escondidos com mechas. Óculos os dois. A esposa simpática. Beijamo-nos na face. No carro ele disse-me que minha filha lembrava uma vizinha da adolescência que passava todos os dias pela calçada, de cabeça baixa, enquanto ele estudava no escritório do pai.
     - Tentei falar, mas que mocinha tímida.
     Lembrou-me dos cabelos louros voando.
     -Achava-a linda. Parece-me que se chamava Matilde.
     - Matilde não, Maisa.
     - Não, não diga. Era você?
     Rimos todos.
     - "Senhores passageiros da Air France, voo 1257, direto para Paris, embarque imediato"... 

(Em: A Rua Pela Vidraça, Ed.Caliban, 2010 - página 23)

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Poema 20, Pablo Neruda



Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escultura de Abelardo da Hora. Imagem:Regina Porto
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros, ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu a quis, e às vezes ela também me quis...
Em noites como esta eu a tive entre os meus braços.
A beijei tantas vezes debaixo o céu infinito.
Ela me quis, às vezes eu também a queria.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como na relva o orvalho.
Que importa que meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
Minha alma não se contenta com tê-la perdido.
Como para aproximá-la meu olhar a procura.
Meu coração a procura, e ela não está comigo
A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.
Nós, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a quero, é verdade, mas quanto a quis.
Minha voz procurava o vento para tocar o seu ouvido.
De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.
Já não a quero, é verdade, mas talvez a quero.
É tão curto o amor, e é tão longo o esquecimento.
Porque em noites como esta eu a tive entre os meus braços,
minha alma não se contenta com tê-la perdido.
Ainda que esta seja a última dor que ela me causa,
e estes, os últimos versos que lhe escrevo

sábado, 20 de julho de 2013

Crônica cantada: Duas Polegadas.

Outro dia ouvindo Eduardo Dusek cantar uma marchinha de carnaval, fiquei pensando que aquelas músicas  contavam a história do país. De forma irreverente os cariocas riam da sociedade da época, da moda, e da política. Cronicava-se com notas musicais e as marchinhas, lançadas pelo radio e cinema, tomavam conta do país. Eram sucesso garantido. Nos anos 50 e 60, concursos de miss eram esperados e assistidos com a mesma alegria que jogos de futebol. Ouvi recentemente uma marchinha relativa  a um ícone: Marta Rocha. Hoje muita gente não sabe quem é essa Marta que nomeia algumas ruas no Brasil.  A  baiana, completará 77 anos em setembro. A bela miss Brasil de olhos verdes, não saiu vencedora do concurso miss universo de 1954. Foi a segunda colocada, mas voltou para o Brasil ovacionada. O jornalista brasileiro João Martins da Revista O Cruzeiro, inventou (com a coninvência da miss) que ouviu um jurado americano dizer que a bela Martha Rocha tinha 2 polegadas (aprox.5 cm) a mais nos quadris. Em combinação com uns colegas publicaram a falsa informação. Era o consolo necessário para o ufanismo nacional não satisfeito.  Virou verdade e, logicamente, marchinha de carnaval gravada pela própria jovem de 21 anos.
 
Duas Polegadas
Alcyr Pires Vermelho,Pedro Caetano e Carlos Renato
Voz: Martha Rocha

Por duas polegadas a mais
Passaram a baiana pra trás
Por duas polegadas
E logo nos quadris
Tem dó, tem dó seu juiz.

Marta! Marta!
Não ligue pra isso não.
Marta! Marta!
Ninguém tem o seu violão.

Fontes: 
www.almanaquebrasileiro.com.br
Wikipedia
Youtube.com.br


quarta-feira, 17 de julho de 2013

Solidão No Fundo da Agulha, lançamento do livro.

     Fui para o lançamento, em Recife, do mais novo livro de  Ignácio de Loyola Brandão. cheguei bem mais cedo só para me dar o prazer de perambular sem ter noção alguma de onde estou dentro Shopping RioMar. Não acerto sair por onde entrei nunca  sei  se estou no L2 ou L3! Nenhum problema: se tenho pressa olho o mapa, se não tenho me deixo perambular.      Foi  o que fiz desta vez até comprar o livro ( a livraria no mapa), daí não resisti e comecei a ler. A quase biografia de Ignácio Loyola é uma obra de arte!!  Sabe aquela situação em que você ouve uma musica e diz: pôxa! eu morava na R. das Algas e quando ia, na rede esticada no terraço ninar meus filhos sempre tinha alguém ouvindo Anunciação, de Alceu Valença...?? pois bem, todo o livro é assim um pouco de fatos da vida do autor em que uma determinada música se fez muito fortemente presente a ponto de ser lembrada anos depois.  
     No teatro da Livraria Cultura, Loyola Brandão conta que alguns fatos na verdade não aconteceram, porém estão na sua memória como se verdadeiros fossem, acrescenta que isso é que tem importância. O autor cita algumas pessoas, como a mãe de D.Ruth Cardoso, Dina Sfat que conheceu quando ela ainda nem era famosa, sua infância e adolescência em Araraquara. Vários momentos de sua vida, enfim, contados de forma divertida e muitas vezes lirica. 
     Ah, disse que o livro é uma obra de arte porque além dos textos muito bons de ler, traz fotografias que se confundem ou explicam por si, o que o autor escreveu e além do mais traz um CD com todas as músicas citadas.  A belíssima  voz em todas as 11 faixas é de Rita Gullo, filha de Ignácio de Loyola Brandão.

   Recomendo a leitura de Solidão No Fundo da Agulha.
Formato: Livro com CD
Autor: Ignácio de Loyola Brandão
Colaborador: Rita Gullo
Editora: Tratore
Assunto:  Contos e Crônicas




Na dedicatória que me fez, cita o "Ulisses". Trata-se de um ex professor de matemática, que compreendeu o jovem incapaz com os números e lhe deu aprovação pra que ele pudesse viajar no dia seguinte e não matar seus sonhos. Algo em comum com Loyola? Sim, eu tenho. Jamais me dei bem em matemática.



terça-feira, 16 de julho de 2013

Literatura e cinema: tudo a ver!

Frei Caneca
Não conheço toda a obra de João Cabral de Melo Neto. Falar a verdade não conheço a de ninguém e vivo em débito com as leituras. A inflação de bons livros e autores sempre vai me deixar devendo. Uma pena!  Falo isso porque nem lí o livro O Auto do Frade ,do autor pernambucano, e já vem por aí o filme feito por Inez Cabral. 
O Auto do Frade é uma poesia que João Cabral de Melo Neto fez contando a história dos últimos momentos de Frei Caneca. O autor dizia que o país era ingrato com o religioso e político Frei Caneca. Para ele o Brasil havia esquecido a Confederação do Equador e a Revolução Pernambucana, lideradas por Frei Caneca.  De tanto reclamar e dizer à filha que se soubesse faria um filme a respeito do frade, Inez Cabral acabou por realizar o desejo do pai.


     O projeto do filme que terá distribuição gratuita recebeu aprovação da Lei  Rouanet.

Inez Cabral (imagem ao lado) conta que usará figurantes locais para as cenas de rua filmadas no Recife, que o trabalho será num formato que mistura radionovela com documentário histórico e que os atores participarão da trilha de audio. Será protagonizado por José Dumont e tem trilha sonora de Jaques Morelebaum.
 O enredo seguirá o escrito no poema O Auto do Frade, de seu pai João Cabral de Melo Neto.
Vamos aguardar.  O Frade filme promete. Meu voto de confiança para Inez Cabral.


(Fontes: Diário de Pernambuco, matéria de Felipe Torres, 16.07.13; www.passeiweb.com;Wikipedia, Livraria Cultura)


segunda-feira, 15 de julho de 2013

Segunda-feira poética: Mário Quintana

O Auto-Retrato
Imagem: desejo de criança, sem a correção de um louco


No retrato que me faço
- traço a traço -
Às vezes me pinto nuvem,
Às vezes me pinto árvore...

Às vezes me pinto coisas
De que nem há mais lembrança...
Ou coisas que não existem
Mas que um dia existirão...

E, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
Minha eterna semelhança,

No final, que restará?
Um desejo de criança...
Corrigido por um louco!

domingo, 14 de julho de 2013

A Arte Virou Bobagem - Ferreira Gullar

Entrevista concedida à jornalista Luiza Maia e originalmente publicada no Diário de Pernambuco em 10.07.2013



Qual a sua opinião sobre os protestos recentes?
Eu acho que é uma coisa muito importante, que o povo tenha finalmente despertado. Na crônica que escrevo (para o jornal Folha de S.Paulo), falava sobre o fato de ninguém protestar. Parece todo mundo indiferente à corrupção, às coisas mais absurdas. O Congresso é uma vergonha. A PEC 37 é uma coisa evidentemente feita para anular a ação do Ministério Público, porque é uma ameaça aos corruptos. E isso iria ser aprovado, porque é do interesse deles. Com esse movimento, eles recuaram.

O que o senhor achou dos pronunciamentos de Dilma Rousseff?
Um oportunismo. Primeiro, ela falou como se fizesse parte do protesto, não como se fosse um dos alvos. “Vamos fazer um plebiscito, realmente é preciso combater a corrupção”. Mas a corrupção vergonha está aí desde o mensalão e eles tomam medidas para impedir que a punição seja levada a cabo. A direção do PT chegou a mandar petistas para o movimento, para fazer de conta que eles faziam parte do protesto. É tudo uma mentirada, uma farsa, para se safar diante de um movimento do país inteiro.

Quem vai sair fortalecido desse momento político?
Certamente a oposição. As pessoas que não estão diretamente envolvidas com o governo sofrem menos, embora o movimento seja contra todos os políticos. Indistintamente, eles veem que, no Congresso, tudo é feito com o objetivo de manter o poder, que é a característica do populismo. Essa manifestação que está na rua é da classe média, não é do pobretão, do cara do subúrbio, do favelado que recebeu Bolsa Família. Quem está na rua é a classe média, que não recebeu nada e não tem educação, saúde. Ela que paga o pato porque o Lula resolveu fazer um governo para o povo ignorante que, recebendo R$ 200 por mês, vota nele de olhos fechados.

Suas críticas a Lula sempre foram mais ferrenhas do que as críticas a Dilma…
Porque ele é que é o responsável. Ela é um instrumento dele, faz o que ele manda. Agora, com as passeatas, ela se tocou para São Paulo para saber a opinião dele. Um presidente da República ir atrás do ex-presidente para saber o que vai fazer?! Não existe isso. Aí ela não sabe o que fazer e propõe um plebiscito. Aí é inconstitucional. E já voltou atrás. Evidentemente, ela tem assessores para dizer que aquilo é inviável. Mas tinha que fazer alguma coisa para dar a entender à opinião pública que não é ela o objetivo do protesto e que ela está a favor das manifestações populares. Mas como? Se eles são o governo há 10 anos? Quem é o responsável, se não eles? É Deus?

Se o senhor fosse fazer a pauta dos protestos, o que reivindicaria?
O que eles estão dizendo é exatamente isto? Educação, saúde, segurança, são as coisas fundamentais. Setores nos quais não foram feitos investimentos. É infraestrutura, estrada. O Brasil está numa posição econômica complicada porque não consegue competir com os outros países na exportação de seus produtos. Do lugar onde é produzida até chegar ao porto aonde vai, as estradas são péssimas, as condições de transporte são péssimas. Termina ficando uma coisa muito cara, que não consegue competir. Por que isso? Porque não se investiu.

Quais são os candidatos mais fortes para as próximas eleições?
Os candidatos que tem aí são o Eduardo Campos, que é um candidato importante, do Partido Socialista Brasileiro, é o Aécio (Neves), que está se pronunciando, está mais ativo atualmente, é a Marina. E levantaram o nome do Joaquim Barbosa. Se o Eduardo, o Aécio e a Marina se juntassem e fizessem do Barbosa o candidato, ganhariam a eleição, porque ele representa o oposto do que está aí. E eu acho que ele não está repelindo a ideia com muita veemência.

O senhor apoiaria?
Sim, porque tem que sair. Se os partidos perderam a importância, só uma personalidade determinada poderia abrir o caminho. É difícil, porque não há nenhum grande líder. E os partidos perderam a importância diante da população.

O que o senhor acha da expulsão de pessoas com bandeiras políticas nos protestos?
Não acho bom nem ruim. Mas eles não poderiam aceitar isso, porque o movimento não é partidário. Eles não poderiam deixar que A ou B se aproveitasse daquilo. Os partidos não fizeram nada, nem os de esquerda. Na hora em que o povo vai para a rua, eles querem aderir? Aí é oportunismo. Isso dá uma dimensão maior: “não estamos aqui em nome de partido, mas em nome do país, da nação”.

O que o senhor acha de Eduardo Campos?
Acho que poderia ser um nome. O próprio Aécio poderia ser. A Marina é inteligente e tem uma postura íntegra. Mas o que atrapalha é esse lado evangélico.

O senhor faz duras críticas à arte contemporânea. Ainda acompanha as exposições?
Não vou me tocar daqui para Paris para ver exposição. De quê? De cocô na lata? De urubu na gaiola? Pessoas nuas no MoMa? A arte virou uma bobagem. Eu não quero saber disso. Se forem casais nus em casa, não é obra de arte. Se for no museu, é. Então é o museu que transforma aquilo em obra de arte? Mas que vanguarda é essa, que precisa da instituição para ter valor? É uma decadência. Existem os caras que continuam pintando, fazendo seus trabalhos, mas esses não têm vez. O cara não vende os casais nus. Então ele fica famoso e vende o desenho que faz, que é em geral de má qualidade. O Tunga expôs uma vez uma bola gigantesca de cobre desfiado numa galeria. Aí perguntei “ele vende isso?”. “Não, ele vende isso”. E abriu a gaveta e mostrou os desenhos. A exposição dá notícia, discussão, é um artista de vanguarda, famoso. Então, se eu tiver um desenho dele, já estou contente. Duvido que alguém ache de fato que três urubus em uma gaiola são arte. Pode ter um esnobe que invente uma teoria cretina, mas ninguém acha, só se for débil mental. É uma besteira, uma bobagem.

Quais as bases dessa arte contemporânea?
Alguma razão tem. Não é um coisa gratuita. Tem a ver com essa sociedade midiática. Tem a ver com o processo de vanguarda no início do século 20, que destruiu a linguagem da arte. Tem uma série de fatores envolvidos. Mas, certamente, isso que se chama arte contemporânea não sobrevive. As bienais estão acabando. Claro, não tem mais arte. Vai expor o quê? Isso é uma crise profunda. É uma coisa grave. E isso é a expressão de uma crise.

O senhor acredita que essa arte contemporânea vai acabar?
Já está acabando. O que resta disso são os últimos vagidos de um troço que está no fim. Vai ficar a vida inteira colocando gente nua, urubu? Chega uma hora que perde a graça? Aliás, já está perdendo. A própria Bienal (de São Paulo) não tem mais aquelas obras que tinha antigamente. Uma grande parte da Bienal já tem pintura, porque é o que as pessoas fazem de interessante.

A arte contemporânea estaria se reinventando?
Eu não sei o que vai acontecer, não sou profeta. Só digo que isso não se mantém. É uma bobagem. Isso não se mantém. Os museus dão abrigo a isso porque fazem parte do mesmo esquema midiático. O diretor do MoMa não tem coragem de dizer que não vai colocar casais nus para não ser chamado de retrógrado. Então aceita qualquer coisa. Não tem coragem de dizer que é bobagem, para não ser tachado de reacionário. Duvido que o cara leve o urubu para casa como obra de arte. Nem o urinol do Duchamp o cara bota na sala.

Quem faz arte no Brasil hoje?
Siron Franco, João Câmara, do Recife, tem outros pintores no Recife, aqui no Rio, tem Ana Letícia, que continua fazendo arte. Não tem a repercussão que teria em outras circunstâncias, porque hoje a repercussão é para essas bobagens.

O senhor acompanha os jogos da Copa das Confederações? (entrevista realizada antes do encerramento do campeonato)
Acompanho, vejo com minha companheira, Cláudia, a família.

O que o senhor acha das campanhas contra a Copa do Mundo?
Uma coisa não tem nada a ver com a outra. A campanha é contra o dinheiro gasto nos estádios. Fazer um estádio de futebol gastando um R$ 1,2 bilhão (preço do Mané Garrincha, em Brasília) é um absurdo. Não há futebol profissional em Brasília. Mas a presidente da República tinha que inaugurar o estádio.

O senhor acredita que a conquista da Copa do Mundo pode ter efeito político, como em 1970, guardadas as devidas proporções?
Sempre tem, mas eu duvido que o Brasil ganhe a Copa do mundo. Mas não sou contra. A vida política de um país como Brasil, de 240 milhões de habitantes, não é assim. Isso tem uma influência momentânea, em um ponto ou outro. É muito bom que ganhe, porque tem o aspecto de conformismo, mas também de otimismo, até de lutar, acreditar no país. É bom.

Na internet, muitos reclamaram de uma virada da cobertura midiática dos protestos. O que o senhor acha disso?
Eu não vi isso. Não vi a imprensa contra a manifestação em momento algum. Quem mais critica o governo é a imprensa. E eles estão reclamando dessas coisas porque viram na imprensa. Eles vivem no Congresso, sabem o que está acontecendo lá? A imprensa teve um papel muito grande nessa rebelião, ajudou a opinião pública a saber o que estava acontecendo.

Há quem diga que esse momento é propício a uma nova ditadura. O que o senhor acha?
Não é provável que isso aconteça, mas entendo que certas pessoas temam. Não está inteiramente fora das possibilidades. Hoje, as forças armadas brasileiras não querem dar golpe. Mas uma situação como essa, que nega os partidos, que nega as instituições que estão aí poderia conduzir a uma situação dessas. Mas não vai acontecer isso. Primeiro, porque o movimento tem uma base real. De fato, a corrupção existe, ninguém está inventando coisas. As reivindicações são reais. E as próprias forças armadas não estão metidas em golpe. Têm outra cabeça. Naquela época, tinha o problema da Guerra Fria, comunismo contra capitalismo, os Estados Unidos infiltrados na América do Sul, estimulando golpes. Tinha um contexto político mundial. Não era uma coisa gratuita, que os militares resolveram dar golpe.

Naquela época, você era comunista…
O capitalismo produz riqueza que o socialismo não produz. Cuba é um desastre econômico. Socialismo tem a boa intenção de fazer sociedade justa, mas o caminho não é esse. Provou que está errado. Você não pode fazer sociedade justa sem produzir riqueza. No capitalismo, você está conversando e tem um milhão de pessoas inventado empresas. A economia é movida pelas pessoas, não por burocratas. O problema do capitalismo é a distribuição desigual, mas quem produz riqueza é o capitalismo.

E como resolver essa desigualdade?
Já avançou muito. Porque o capitalismo do século 19, quando Marx escreveu (O capital), era absurdo. O cara não tinha aposentadoria  trabalhava até morrer. Marx influenciou a mudança da relação capital e trabalho. No século 20, os trabalhadores passaram a ter direitos. Essa é a grande revolução. A intenção era boa, mas deu errado. Tem que reconhecer o que o capitalismo tem de positivo, que é a produção da riqueza, mas dividir com critério de igualdade. Não acredito em uma sociedade inteiramente justa, porque a natureza é injusta. Faz um cara competente e outro incompetente, faz um Pelé e um cara que não sabe chutar, faz um Bill Gates e um idiota, faz um cara saudável, atlético e um como o filho da minha empregada, que não fala, não anda. As pessoas são iguais segundo seus direitos, não segundo suas qualidades. O que não pode é o incompetente morrer de fome. Tem que ter uma maneira – e isso não sou quem vai resolver – de a sociedade ser menos desigual.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Livro Errante

  
Desde 2008, faço, com um grupo de amigos leitores viciados, o abandono de livro em local público. Nossa intenção é fazer o livro ser lido por mais de uma pessoa. Hoje deixei quatro exemplares na Praça Eça de Queiroz, no bairro da Torre no Recife. É uma pracinha, relativamente bem cuidada e muito frequentada. Lá vi o que não vejo há muitos anos: alguém lendo sentado num banco.

O busto de Eça de Queiroz, é uma obra de Abelardo da Hora



 Deixei um livro de Lucila Nogueira: Refletores - são belas poesias e um livro de Ricardo Ramos, um dos filhos de Graciliano Ramos: Amantes Iluminados.   Em outro banco da praça ficaram: A Universidade do Ponte de Cem Réis (acabei de esquecer o autor) e Moll Flanders, um romance inglês de Daniel Defoe.



Embalei em papel filme os quatro exemplares, deixando visível um aviso: Pode levar, o livro é seu.

 Outros livros vão ser deixados por ai.  Informo depois.  Aproveito pra fazer um convite a que deixa livro guardado por anos, sem emprestar ou doar.  Junte-se a nós: se já leu passe adiante.
 

Os Tímidos Se Anulam, Antonio Falcão.

     A bibliotecária conheceu o jornalista estrangeiro na internet. Mas só bem depois, em conta-gotas, soube que ele era aposentado e viúvo. Com indizível acanhamento, o tal também quis conhecê-la. “Sou divorciada, tenho filhos que me deram netos e me aposentarei o ano que vem para visitar o mundo, inclusive seu país”, disse a fórceps a retraída. Decorrido uns meses, os dois trocaram fotos e o viúvo, mais à vontade, revelou que publicara um romance e um livro de ensaios. As obras foram remetidas ao acervo da biblioteca onde a divorciada trabalha. E ela, sem dificuldade para ler em espanhol, devorou os livros de um fôlego e com enorme prazer.
      Mais adiante, o estrangeiro disse que escrevera alguns contos para em breve editá-los. E como exemplo enviou um deles por e-mail, pedindo que ela opinasse sobre a qualidade literária. O texto narra que um homem e uma mulher se conhecem jogando cartas e que, surrealmente insuflados por valetes, damas e reis do baralho, tornam-se amantes para viver um caso erótico – mas não pornograficamente apelativo –, desfecho que muito excitou a bibliotecária. Tanto que, vez por outra, ela a sós se imagina num carteado com o contista e na fantasia antevê que ele igualmente a queira, concluindo daí sua ardente e inadiável disposição em amá-lo.
      Visando esse intento não expresso entre eles, o escritor veio ao Brasil para ficar uma semana na cidade em que ela mora. Aqui, a bibliotecária lhe reservou hotel e se permitiu planejar o melhor aproveitamento da estada do visitante estrangeiro. Contudo, no curso dos encontros, a partir dos olhares trocados ambos se viram atraídos, mas rigorosamente nenhum tomando a iniciativa de se declarar apaixonado ou algo que o valha.
      Assim os dois ficaram até o dia em que ele partiu. No aeroporto, quando do embarque, ela enrubescida se encheu de coragem e quis saber se podia esperá-lo. A duras penas, o outro sussurrou como um alívio: “Não descarto a ideia. Mas antes quero vê-la na minha cidade. Se lhe interessa, saiba que lá você dispõe por completo de mim e da minha casa, onde quero hospedá-la para sempre.” Nisso, embaraçada com o que ouviu, a brasileira balbuciou um vago e reticente quem sabe. Ato contínuo, ao invés do beijo na boca que cada um ansiava, o solene e formal aperto de mão de despedida fez a timidez anular esse amor de terceira idade.

Antonio Falcão é autor do livro Um Sonho Em Carne e Osso, de onde este blog trouxe a  crônica sobre Heleno de Freitas, uma das mais acessadas de 2011.

 

terça-feira, 9 de julho de 2013

Identidade e Seus Movimentos, Mia Couto

 
                                                                      
Identidade
Preciso ser um outro Primeiro movimento:
para ser eu mesmo o auto-diálogo
Sou grão de rocha
sou o vento que a desgasta Segundo movimento:
e areia sustentando o heterodiálogo
o sexo das árvores
Existo, assim, onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
receando a esperança do futuro
Terceiro movimento:
No mundo que combato o diá do logos
morro
no mundo porque luto
nasço.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Mia Couto aniversaria hoje.

Mia Couto. Imagem de:Luna Markman
Tive a felicidade de conhecer Mia Couto, numa palestra na UFPE e ainda neste mês vou ler seu ultimo livro A Confissão da Leoa (Cia das letras). Sobre ele já se escreveu bastante, vim aqui apenas parabeniza-lo. Mesmo sabendo que quem deve ser parabanizado são seus leitores pela sorte de ter seus livros, deixo meu abraço ao embaixador de Moçambique.
Estou torcendo que Mia Couto venha para a Fliporto deste ano.






As primeiras luzes do dia começavam a despertar: não tardava que se pudesse circular dentro de casa sem ajuda de lamparina. Por cima do armário, o candeeiro a petróleo, o xipefo, ainda tremeluzia. De repente, Hanifa voltou a sentir a doce ilusão de ter uma lua na cozinha. Já que não lhe coubera o sol, restava-lhe um teto enluarado.(A Confissão da leoa - pagina 23)

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A Passeata do Endireita Já, José Teles


Eu fui à passeata do "Endireita Já". Quer dizer, enquanto ela ia, eu vinha. Sei que tá confuso, minha senhora. Tipo assim. O pessoal voltava de onde terminou a passeata, enquanto eu ia, no sentido contrário, à caça de um táxi ou busão. Ainda procurei abrigo na Mamede Simões, mas parte dos bares fechou e os outros ficaram entupidos de manifestantes. Parafraseando Drummond, quando nasci um anjo torto, destes que vivem na praia, levando o maior sol disse: "Vai, Zé, ser gauche na vida". Pra que os que querem um Brasil melhor não considerassem que eu, por trafegar no sentido inverso ao deles, estivesse a fim de um Brasil pior, afastei-me da turba. Arrisquei um táxi ali perto da Praça Maciel Pinheiro.


     Não tinha táxi. Talvez porque a Praça Maciel Pinheiro seja muito famosa entre o pessoal do Facebook. Clarice Lispector morou ali perto. Clarice é um dos nomes mais citados, comentados e transcritos no Facebook. Tem perdido ultimamente pra aquele deputado que meteu o pau nos gays (no sentido lato, minha senhora, lato). Mas tergiverso. Não encontrei táxi na Maciel Pinheiro e enveredei pela Imperatriz, num desses acessos de insensatez   que nos assoma vez por outra. A rua tava à luz difusa do abajur lilás. Eufemismo pra o maior breu. Fora o que vos tecla, por lá só o pessoal que não atendeu o chamado de "vem pra rua" porque já vive nela. Meu objetivo era pegar um TX na Rua da Aurora.
     Quando pus o pé na rua, ví um táxi. Um sujeito que vinha na Ponte da Boa Vista também viu e quebrou o recorde dos cem metros rasos, pra alcançar o carro antes de mim. Chegou primeiro e ainda me olhou com uma risadinha cretina. Caminhando cantando segui pela ponte de ferro, também no maior breu. Coração na mão. Se não  fui assaltado naquela noite, não vou ser mais nunca. Foi-se a ponte, soltei um suspiro, e entrei na Rua Nova, igualmente deserta. Acho que nem a  famosa emparedada tinha ficado por lá. Esta pelo menos estava iluminada. Imaginei que no final da Nova encontrasse um táxi ou ônibus. Mal encontrei gente. Arrisquei até o Pátio de São Pedro, ali nunca faltou táxi. Naquele dia faltou até bar aberto.
     Fui ficando com mais raiva do governo do que os manifestantes. Não fosse o desmantelo deles, o pessoal não teria vindo pra rua e eu não taria perambulando por elas, arriscado a perder meu recorde. O de único cidadão do Recife que nunca foi assaltado. Um feito que já merecia pelo menos uma medalha de honra ao mérito e uma reportagem naquele programa de Regina Casé, o Sou pobre, mas sou limpinho. Quando adentrei a Nossa Senhora do Carmo pensei cá comigo: agora não escapo. Lá no fim da rua um sujeito tava parado. Obviamente esperando eu me aproximar pra aumentar o percentual da violência urbana da capital. Mas não, o cara era meio alesado. Meio, não. Alesado todo. Me disse que achou um cartão e quis me dar o bicho. Era um VEM*. Agradeci o VEM. Eu preferia ir, com perdão do trocadilho, e fui. Finalmente um táxi. Só faltou um "The end" pra celebrar o final feliz. ( Jornal do Commercio 30.06.13)


O autor, por ele mesmo:
Como quase todo pernambucano, nasceu na Paraíba(Campina Grande) Começou no jornalismo, em 1980, no extinto Correio de Pernambuco, onde passou apenas três meses, vindo em seguida para o Jornal do Commércio.                                    Foi repórter esportivo até 1984. Depois de um tempo fora da grande imprensa, escrevendo no Pasquim, no jornal de humor O Papa-Figo (fundado por ele, Ral e Bione em 1984), voltou ao JC em 1987, como crítico musical, função que exerce até hoje. Em 1992, passou a escrever uma cronica semanal, na coluna Curto e Grosso, Teles também é escritor.
 
 
Livros de Jose Teles:

Siri na Lata - 30 anos de Anarquia, Folia e Negocio$ (esgotado)
Eu e Meu Ray-Ban Uma Viagem
La Vem Os Violados
Do Frevo ao Manguebeat

O autor tem  diversos livros infanto-juvenis que podem ser encontrados em livrarias ou em sebos.


* VEM - cartao de acesso ao transporte publico da regiao metropolitana do Recife.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Segunda-feira poética: Viagem, Lucila Nogueira


Imagem Wikipedia
 
Não há caminho que divida a sua origem.
Nem há parada, se a viagem é pelo sangue.
 
Essa raiz a cada gento não reprime
a chama alada em meus olhos se desdobra
 
Sempre é mais forte que horizontes um destino
Sempre selvagem a dor da vida, a dor da morte
 
Esse rochedo a cada onda não define
a espera infinda de um farol dentro da noite.
 
 
(Em: Bastidores,Ed.Bagaço 2002)