quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Porque Esta é a Paz, Marina Colasanti

     O primeiro dia.
Imagem de: myscoops.com

     Barulho festivo de repente,já sem costume. E a luz que sobra, toda, acesa.
     Os rádios ligados na notícia única.   "   o mundo inteiro... as assinaturas... sua Santidade... depois de tanto..."
     Depois de tanto, tanto sofrimento.
     Acabou
     Gente na rua, e o sorriso permitido. Mãe, podemos ir à praça? Os americanos chegaram.
     Os americanos chegaram um dia ao meu país, e a  guerra acabou.
     Os americanos saem hoje de outro país e a guerra acaba.
     E no primeiro dia, aquela sensação de estar sem roupa, de estar desprotegido na ausência do perigo.
     Queremos sair todos, ir à rua, correr pelos campos. Mas sem prédios para contê-las as ruas se perdem debaixo das ruínas, e os campos já não existem.
     Quero tocar o sino que virou canhão, abrir o portão que foi fundido, debruçar-me na sacada que a bomba esfarelou. Quero esquecer o alemão que nunca aprendi, e não saber mais, nunca mais, quem foi Lili Marlene. Preciso agora aprender a humilhar-me em inglês.
     Entro nos labirintos dos abrigos, mas amarro na porta o fio de lã com que minha mãe teceu tantas roupas para o front. Me espera adiante a pomba com cabeça de touro e raminho na boca. e eu lhe pergunto, pomba, que fizeste do teu irmão?
     O primeiro dia.
Quem tem casa, faz faxina. É preciso tirar o azul escuro que pintou os vidros, acabar com as cortinas pretas. É preciso tirar da despensa o cheiro de vazio e prepará-la para as comidas que virão. Limpa-se a madia, e a tampa fica aberta. O que é madia? É o móvel antigo onde se guarda a farinha de trigo, onde a dona da casa faz o pão.  É o altar da família.
     Varre, espana, joga água. Tocam buzinas lá fora, e gente canta. Corre menino, o mundo não tem céu. Acabaram as asas, desapareceram as hélices, as bombas não vêm mais. Pode olhar para cima.
     Olha para cima e não vejo o telhado. Olho para cima e não vejo os andares que dividiam o edifício. Olho para cima e vejo um longo túnel de paredes manchadas, de paredes rasgadas, de quadros ainda nas paredes.
     Um buraco no muro é uma marca de bala. Um buraco no chão é cratera de obus. Uma marca na carne é ferida que sangra.
     O primeiro dia.
     E depois, todos os outros.
     Os americanos chegaram. o pão dos americanos é branco como o pão de antigamente. O dinheiro dos americanos é ouro como o dinheiro de antigamente. E o pão e o ouro correm num mercado, negro como é conveniente.
     Vou à rua sem roupa e sem rua. Vou sorrindo sem os dentes, desfazendo as ataduras, escorregando no sangue. Vou no vento que apagou os incêndios, na chuva que não cegou o napalm. E vou chorando. E canto. Porque a guerra acabou.
   E esta é a paz.