quinta-feira, 24 de outubro de 2013

As Flores do Ruanda, Adelson Correia da Costa

As Flores do Ruanda


Estou lendo e gostando desse livro.  O autor disponibilizou os primeiros capítulos e eu trouxe para que o internauta fique curioso.

Capítulo I

2004 — O Ruanda lembra os seus mortos

No dia 6 de abril de 2004, eu estava novamente no Ruanda, uma pequena república soberana da África Central que faz fronteira ao norte com Uganda, sul com Burundi, oeste com o Congo (antigo Zaire) e leste com a Tanzânia. Era a segunda vez que visitava o país e, desta feita, com o objetivo de superar alguns traumas decorrentes da minha primeira estada dez anos antes. Aquela seria uma experiência redentora e confesso que precisei de muita coragem para voltar, pois iria reviver uma época no meu passado repleta de memórias desagradáveis que me marcaram profundamente.
Quando saí do país africano pela primeira vez, em 1994, meu pai, um senador americano, colocou-me para fazer análise com um terapeuta behaviorista amigo havia muito tempo da nossa família e conhecido em todos os Estados Unidos da América. Foi este profissional quem me aconselhou a realizar uma segunda visita a Kigali, a capital ruandesa. Eu não me considerava uma mulher tão problemática a ponto de condicionar minha preciosa felicidade aos conselhos que ouvia deitada sobre um divã de um psicanalista amalucado. Por outro lado, como o meu pai quis tanto que eu seguisse aquela terapêutica, não me opus ao seu desejo, pois, na condição de boa filha, amava-o e gostava quando expressava acordo com algo que eu fazia.
O governo do Presidente Paul Kagame fez uma programação de7 a 13 de abril de 2004 para relembrar os dez anos do terrível genocídio ruandês ocorrido de 6 de abril a 10 de julho de 1994. O genocídio foi uma catástrofe decorrente do massacre, corpo a corpo, de indivíduos da etnia tutsi perpetrado pelos da etnia hutu com os quais convive no país. Aproximadamente oitocentas mil pessoas foram trucidadas em um período de cem dias, quantidade parelha à mortandade nos cerca de 4 anos da Guerra Civil Americana, que com seu poderio bélico dizimou algo em torno de 3% da população dos EUA. Segundo o meu analista, aquela era a oportunidade certa para eu ajustar, de uma vez por todas, as pendências com o meu pretérito. A princípio, resisti e não quis tal retorno de jeito algum. Ele me convenceu com o argumento de que muitos dias haviam transcorrido desde o episódio e que nós trabalhávamos o meu lado emocional havia bastante tempo. Acreditava que eu estaria pronta para o reencontro. Eu não queria tornar àquele lugar. Para que reviver o passado se acreditava que havia superado as más lembranças? Será que elas incomodavam o meu presente de forma tão pungente como acreditava o meu psicólogo? Eu pensava que não.
— Isabelle, se você comparecer ao evento em Kigali e retornar bem, eu falo para seu pai que você não mais precisa de mim e podemos pôr um termo nas nossas seções de análise.
— Sério? Jura? Quem me dera!
Poder me livrar do meu incômodo amigo apresentou-se como um presente de grande valor. Assim, coloquei nos dois pratos da balança, de um lado o ruim e do outro a lacuna do bom, e escolhi a opção de retorno à África Central.

No Ruanda, vivem basicamente três grupos étnicos: os hutus (rutus), que formam a maioria com cerca de oitenta e cinco por cento da população; os twas (tuás) com menos de um por cento e os tutsis (tútsis) com mais ou menos quatorze por cento. Os twas foram os primeiros habitantes a chegarem à região montanhosa do atual Ruanda, por volta do século VI a.C. Em sequência, chegaram em meados do século VI d.C. os hutus e, aproximadamente, cem anos depois, os primeiros tutsis. Os twas se comunicam entre si em rukiga, sua linguagem original, todavia se utilizam do kinyarwanda (kinyaruandês, ruandês), inglês e francês presentes no país.
No idioma rukiga, a flexão de número, singular ou plural, é feita pelos prefixos MA e BA, respectivamente. A palavra batwa (twas) é plural de matwa, assim como bahutu de mahutu e batutsi de matutsi respectivamente. Os termos twas (plural dado por tutsis, hutus e por nós mesmos) e batwa (plural no rukiga) são a mesma coisa, pois se referem a mais de um indivíduo, da mesma maneira como matwa e twa a apenas um.
Os twas são um povo pigmeu indígena de altura e peso médios de um metro e meio e quarenta e cinco quilogramas que habitam a África Central e parte da Ásia. Existem relatos da sua presença na região desde os tempos dos egípcios.
No início da formação histórica do país, os três grupos étnicos, os hutus agricultores, os tutsis pastores e os twas caçadores e extratores dos recursos das selvas coexistiram em harmonia até que a região foi colonizada pelos europeus. O Ruanda, na conferência de Bruxelas, em 1890, foi dado à Alemanha. Os alemães controlaram a região até a derrota na Primeira Guerra Mundial, quando o protetorado do Ruanda foi entregue à Bélgica.
Os belgas identificaram os indivíduos por meio de cartões raciais e dividiram formalmente a população por grupos étnicos. A ação de marcar com cédulas de identidade os grupos é tida como instigadora da cisão étnica. Eles se acercaram da minoria tutsi para governar o país e discriminaram os hutus, o que acelerou a exacerbação do ódio racial.
Os hutus, entre os anos de 50 e 60 do século passado, tomaram o poder, expulsaram os belgas e massacraram os tutsis, que, aos milhares, fugiram para o exílio em países vizinhos, onde fundaram um movimento de resistência armada. Em face da morte de quase um milhão de tutsis, há um paralelo entre o genocídio ruandês e o holocausto judeu impetrado pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial.

Ao chegar a Kigali, no caminho do aeroporto kanombe ao Hotel Mil Colinas, eu não vi sequer um rosto familiar. A maioria das pessoas que conheci em 1994 fora morta ou expulsa do país. Inicialmente, eu pretendia participar de toda a semana de eventos; contudo, assim que cheguei, resolvi mudar. Impetrei ao gerente do hotel que tentasse conseguir uma passagem para o dia 7 de abril, de modo que eu deixasse o país imediatamente logo na primeira jornada do evento. Não vi sentido em subsistir no lugar, pois, ao pôr novamente o pé por lá, percebi que o caso estava superado e nada mais tinha a ver comigo. Achei por bem decidir que já cumpriria o trato com o meu analista, ao ficar somente dois dias. Eu não estava esperançosa de conseguir um voo, visto que a cidade estava prenhe de pessoas de outras nacionalidades, que igualmente iriam partir por via aérea. Naquela ocasião, andando pelas ruas da cidade, percebia que muita gente se sentia assim:

Como uma garota arrependida que atira sua boneca na fogueira e nada pode fazer enquanto as chamas a consumem. Na manhã seguinte, ao remover as cinzas, constata que mais nada há do seu brinquedo predileto a não ser a lembrança. Assume um sentimento de culpa que carrega no peito a partir de então, por ter queimado uma boneca de maneira tão estúpida.

Enquanto andava, via muita gente nas ruas caminhando em direção ao estádio local de futebol onde aconteceria a principal solenidade do evento. No país, quem sobreviveu ao ano de 1994 carrega a morte como fardo na memória ou a vida como dádiva por ter escapado das garras do genocídio ruandês. Muitos creditavam à sorte suas existências em curso. Imaginavam que nasceram de novo no fatídico ano relembrado e estavam, no momento, após uma década, brindando ao batismo de uma nova oportunidade ou lamentando o aniversário de alguma história triste. Eles se olhavam e não sabiam se sorriam por suas trajetórias continuadas ou se choravam por seus mortos retornados.
Eu, autodiegética, me chamo Isabelle. Sou uma médica americana nascida em Nova Iorque. Tenho ascendência francesa. Meus avós migraram da França para os Estados Unidos da América e tiveram o meu pai, atualmente um político americano nacionalista, que tem apreço à nação francesa, em respeito à origem dos seus genitores. Por atuar em favor da agenda franco-americana, sempre teve prestígio perante o governo francês.
Eu estava, em 2004, arruando à solta por Kigali, feliz por não ser reconhecida pelas pessoas que passavam por mim. Encontrei poucas delas com as quais convivera em 1994. Em meio à multidão, comecei a temer não estar preparada para a triste recorrência do pretérito. Ao caminhar, amaldiçoava o meu psicólogo por ter me mandado de volta àquele lugar, chantageando-me com a possibilidade de término das suas chatas seções de análise. Eu me perguntava por que não guardava a história ruim comigo, partia para os EUA e dizia para o meu amigo em Nova Iorque:

Cara, eu sou maluca, contudo gosto de mim desse jeito. Não preciso dos seus serviços, tampouco da sua terapia. Deixe-me em paz com minha maluquice!

Considero-me uma boa pessoa, amigável, companheira e sensível. A minha mãe dizia que sou valente, que tenho gênio forte e pavio curto. Não sou de deixar para depois o que posso resolver agora. Sou do tipo: ou gosta de mim ou me odeia. Desde menina, sempre fui uma garota hiperativa, com uma energia acima da média. Por conseguinte, praticava quase todo tipo de esporte para o qual fosse convidada; porém em dois, em particular, me destaquei: nas lutas de competição e no tiro esportivo na modalidade fossa olímpica. Aprendi a atirar muitíssimo bem por influência do senador que considerava a caça seu passatempo predileto. Quando me conscientizei de que era uma covardia atirar nos pobres patos em migração pelos banhados do Estado do Missouri, entrei para uma escola de tiro ao alvo e comecei a competir contra outros seres humanos. Em vez de abater aves inocentes, passei a quebrar, à bala, pratos ou discos de onze centímetros de diâmetro feitos de betume e calcário arremessados ao ar por incansáveis máquinas. As geringonças lançavam 75 alvos em série de 25 e, por conta disto, eram a razão de meus tormentos. Elas sempre me venciam no final, a despeito de eu quebrar um monte de pratos. Meu treinador costumava me dizer:

Caramba! Erre alguns pratos, Isabelle, senão perderei o meu emprego, por não ter mais nada que lhe ensinar. Ah! Ah! Ah! Ah!

Meu pai possuía amigos nas Forças Armadas e no poder executivo americano, entre os quais, profissionais de segurança e franco-atiradores, que executavam tiros de precisão em alvos a longas distâncias. Percebendo minha habilidade, apresentou-me àquelas pessoas com as quais pratiquei por um bom tempo. Achava legal acertar um objeto a um quilômetro e meio. Consideraram-me entre os melhores e cogitaram inclusive me levar para os Fuzileiros Navais, no entanto, ele foi radicalmente contra.

Alto lá! Minha filhinha é doce e meiga e não foi criada para atirar em seres humanos em qualquer porcaria de guerra de vocês! Ela atira por medalhas!

Não participei, por longo tempo, de equipes americanas de tiro de competição porquanto outra obrigação tomou conta de quase todo o meu tempo de juventude: o curso de medicina. Chegou um momento em minha vida no qual tive de fazer uma escolha difícil: ou continuava competindo ou me tornava uma boa médica. Discuti a questão com os meus familiares e eles foram acordes que eu priorizasse os estudos da medicina, pois o esporte é algo efêmero e duraria somente o tempo em que persistisse minha juventude e vitalidade. Hoje sou uma boa médica. Por outro lado, se alguém estiver encaixado na mira de uma arma em minha mão, está enrascado, se me fez algum mal relevante que me faça premer o gatilho a qualquer ponto de distância que eu esteja. O judô, associado ao meu temperamento impulsivo, fizeram-me uma brigona quando menina. Meu pai adquiriu o hábito de me tirar de encrencas nas escolas por onde eu passava. Sempre brigava com os meninos da minha idade. As meninas morriam de medo de mim. Nunca fui uma garota má, porém vivia metida em confusão. Eu era uma adversária dura nas brigas e era convidada a comparecer às salas das diretoras das instituições de ensino nas quais eu era tolerada por ser filha de um político influente ou por sempre tirar boas notas nas provas que fazia, mesmo quando estudava pouco.
Ao caminhar pela cidade, imaginava que poderia ou deveria estar participando de uma linda manhã no Central Parque de Nova Iorque. Todavia, estava no Ruanda outra vez após tanto tempo. Eu passei pelo Centro Hospitalar de Kigali, o CHK, onde trabalhei em 1994. Lá estava, à sua frente, o majestoso podocarpo, um tipo de árvore que me traz muitas lembranças. Por toda a cidade, havia eventos interessantes, tais como: espetáculos de músicas, tertúlias de poesias, peças de teatros, exibições de filmes e exposições de arte a rememorarem o horror, mas também a celebrar a vitória da vida sobre a morte. O amor e a esperança de um futuro de paz e prosperidade eram a mensagem transparente em Kigali em 2004, além do apelo por justiça contra os perpetradores da carnificina.
Na ocasião, haveria um evento no Amahoro National Stadium. Peguei um táxi à porta do hotel, pela manhã, e comecei o meu trajeto para o local da cerimônia em memória ao decênio do genocídio ruandês. Saímos do hotel e passamos defronte ao Union Trade Center, dobramos à direita e pegamos uma longa estrada sem cruzamentos nem congestionamentos de trânsito. O veículo desenvolvia sua velocidade tranquilamente, o que fez o percurso tornar-se prazeroso. Eu fiz questão de sair cedo, justamente para não perder tempo no caminho até o Amahoro Stadium. Passamos pelo parlamento ruandês e seguimos viagem até chegarmos ao famoso restaurante kigalense Chez Lando, que me trouxe boas recordações. Dobramos à esquerda e nos avizinhamos do nosso local de destino. No trajeto, li a programação do evento e resolvi que sairia do Amahoro, após o pronunciamento do Presidente da República do Ruanda, Paul Kagame. Segundo o folheto em minhas mãos, dado pelo pessoal do Hotel Mil Colinas, ocorreria às doze horas e quinze minutos. Inicialmente, teríamos discursos de autoridades convidadas e depoimentos de vítimas sobreviventes. Antes da fala do presidente, aconteceria um ato de 10 minutos de silêncio em recordação dos mortos e, após, seríamos contemplados com apresentações de música e poesia e outros relatos de vítimas. Esta seria a ocasião em que eu sairia do estádio, conforme minha intenção, confirmada por mim mesma introspectivamente durante o trajeto de táxi. Em outras localidades do país, ocorriam cerimônias semelhantes com a mesma finalidade.
À porta do estádio, segui as pessoas que iam em direção às arquibancadas. Entrei e encontrei uma acomodação entre as 65 mil pessoas que estavam no local. Uma banda se apresentou para a plateia e, depois, no horário programado, o Presidente Kagame discursou emocionadamente. Em suas palavras, culpava a França, apontando os franceses como contribuintes decisivos para a ocorrência da matança e, inclusive, como circunstantes dos combates.

Eles, de caso pensado, treinaram e armaram os soldados do governo e as milícias que estavam se encaminhando para cometer o genocídio e eles sabiam o que os hutus iriam fazer.

O duro libelo sem meias-palavras foi suficiente para que o Ministro de Relações Exteriores do governo francês do Presidente François Miterrand, Renaud Muselier, abreviasse sua curta visita ao país.  O Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan, conclamou-nos a fazer um minuto de silêncio, ao meio-dia local, para marcar o dia internacional de reflexão sobre o genocídio ruandês. Solicitou que as nações do mundo inteiro adotassem medidas preventivas e efetivas para que um genocídio não voltasse a ocorrer. Houve críticas pela não participação de algumas grandes nações nos eventos patrocinados pela autoridade ruandesa. Outras, como a Bélgica e os Estados Unidos, rogaram escusas pela sua passividade diante dos fatos ocorridos em 1994.
Quando eu estava sentada em meio ao povo, julgando saborear um confortável e desejado anonimato, um soldado que mantinha a segurança das arquibancadas do Amahoro esgueirou-me um olhar cuidoso, de modo intrigante. Pus meus óculos escuros e, camuflada em indiferença, esperei que parasse de me observar. Cri ser inoportuna tal sondagem, pois a ocasião lutuosa não era propícia a galanteios. Logo após, veio para junto de mim. Preparei-me para, educadamente, despedi-lo, caso viesse me inquirir com uma corte inadequada. Simplesmente me perguntou:
— A senhora é a Dra. Isabelle, não é?
— Sim.
Eu lhe respondi afirmativamente, pois imaginei que poderia ser portador de alguma informação do Hotel Mil Colinas. O gerente, que ficara de confirmar minha partida de avião à tarde, dissera-me que, se conseguisse uma desistência, mandaria alguém me procurar no estádio.
— Eu a conheço do ano de 1994, senhora! Arrependi-me de ter lhe confirmado o meu nome.
— Você deve estar enganado. Talvez esteja me confundindo com outra Isabelle!
— Acredito que não, senhora. Se não bastasse a semelhança, como poderia haver outra Isabelle no Ruanda, branca e médica? Eu servi na inteligência da Frente Patriótica Ruandesa em 1994, quando ainda adolescente!
— Nós nunca nos vimos antes, meu rapaz, porque esta é a primeira vez que ponho os pés neste país! Por favor, dê-me licença, tenho de ir. Adeus!