quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O Hóspede, Sérgio Porto

   
            Não sou um homem de mudanças. Mudei-me duas vezes apenas, em toda minha vida. No entanto, ou talvez por causa disso, sei bem o que significa para a felicidade de cada um a comunhão do homem com seus bens e costumes, suas manias e hábitos. Assim como uma família não é composta somente de primos e primas, tios e tias, avôs e avós, irmãos e irmãs, adidos e afins, assim também uma casa não é somente seus cômodos e dependências, seu terreno e seus jardins.

     Foi um estudante pobre, há alguns anos, que me fez sentir isso. Foi um colega pobre que morava numa pensão pensão do Catete e que um dia, num rasgo de condescendência consigo mesmo, entrou no café e - para inveja dos que tomavam a clássica média com pão e manteiga - berrou para o garçom:    

     - Chico,me traz um prato de empadas!

      Sentou-se à minha mesa e explicou que era dia  de empadas lá na sua casa do interior fluminense. Dia de festa de Nossa Senhora da Glória - esclareceu - quando a preta velha Idalina vinha para a procissão e ficava hospedada no quarto dos fundos. todos sabiam que no almoço haveria empada, porque Idalina era campeã mundial de empadas, as melhores e mais macias do universo.
     Por isso - mesmo sabendo que iria transtornar o orçamento - desprezara a média com pão e manteiga de todos os dias e de todos os estudantes pobres e pedira um prato de empadas. Pura homenagem.
     Senti que as empadas não lhe faziam bem. Não o mal que costumam causar as empadas, mas outro que uma palavra apenas explica - saudade. Ele, havia três anos, morava numa pensão do Catete, vendo a família de raro em raro, dormindo uma vez por ano em sua própria cama, por um instante deixara-se abater no seu ânimo de estudante pobre que vem diplomar-se na capital.
     Foi  depois, muito depois do convite que lhe fiz para jantar comigo, que me explicou o quanto depende a felicidade de um homem da preservação de seus costumes. Jamais entenderia aqueles que voluntariamente se afastam da sua terra e da sua gente.
     Nossa gente, nossa casa são mais do que aparentam em patrimônio e sentimentos - esclareceu. O irmão distante é mais nosso irmão e dói nais na gente; uma família é mais do que um grupo de parentes e o natural carinho que uns têm pelos outros . O gosto da comida e a conversa na mesa, a alegria comum nas grandes datas e o conforto da solidariedade nas incontornáveis tristezas.
     A felicidade - disse-me aquele rapaz que vivia numa pensão do Catete - é isto: esta toalha de sua mesa, este pão que tem sempre o mesmo gosto, o perfume do sabonete, determinado canto da casa onde, à tarde, uma brisa fresca conforta do calor, o cheiro dos lençóis, os sons costumeiros - o piano da irmã, o barulho das crianças lá fora, o bater de um velho relógio.
     - tende piedade dos que moram em pensão - disse-me então aquele rapaz que foi meu colega e cujo nome já nem me lembro. - Tende piedade deles, que deles um dia será o reino dos céus.

(A Casa Demolida,1963 - pág.37) Saiba mais sobre o autor clicando aqui