quarta-feira, 24 de julho de 2013

Uma Janela, Um Voo Para Paris, Carmem Vieira

Espero o voo para Paris e de repente o telefone toca. É minha filha a avisar que assim que chegasse iríamos fazer uma turnê. Ela, o marido, os sogros e um amigo.
     -Mãe, aquele da foto que lhe mostrei, o viúvo da universidade. Lembra-se?
     Imensas as janelas, permitindo o olhar curioso.
Admirava-o a escrever. Sempre uma garrafa d'água, um copo. Tardes contínuas, caminho para ir e voltar da aula de inglês, da ginástica, do vôlei, esperança nutrida por anos de que aqueles olhos vissem o meu. Nada. Nunca. Mudaram-se todos. Mudamo-nos. "Essa casa é grande demais para pouca gente. Você daqui a pouco se forma, seu irmão casa,seu pai sempre na rua. Tenho que e cuidar".
     A vida continuou, a roda-viva nos fez cada vez mais distantes e na lembrança o primeiro despertar daquele menino que julgava belo e a quem todos os olhos meus convergiam.
     Tudo isso chegou-me quando vi minha filha subir ao altar com o rapaz que conhecera durante o curso no exterior e com o qual vivera dois anos para saber se ia dar certo. O primeiro impacto do experimentar para ver se dava certo deixou-me pensativa, mas lá no íntimo eu concordava. Sempre achara estranho o casar virgem; e se não desse certo na hora h? Teria que ficar, ficar para sempre até que a morte os separasse, quando a vida já os havia separado. Acredito que tenha dado certo, si. Enfim, ele pareceu-me muito carinhoso com ela. Cuidados mútuos,  um apartamento bem montado e projeto de filhos para daqui a algum tempo.
     - Nada por aqui é certo, disse-e ela.
     Mas, enfim, a França não é tão longe, e essas coisas modernas de comunicação nos deixam muito próximos. Rever a Torre Eiffel  era uma ideia que me soava agradável. Meu francês não era tão ruim. A viuvez permitia as viagens constantes. Os outros dois meninos à beira de casar. E eu só, igual as palavras de minha mãe. Só.
     Avisara-me que vinha casar no Brasil, queria que eu a visse de noiva. Não sei quando lhe disse isso, as ela dizia a todo mundo que era um sonho meu. Confirmava sem convicção, mas estava feliz por tê-la por perto algum tempo e por saber que estava bem, amando e com o bom emprego. Bem mais feliz com o bom emprego.
     Deixara o flat da praia para a lua de mel. Redecorei, deixei-o pronto como convém aos noivos; ficava alugado o tempo todo, há muito não ia lá. Era pequeno para levar as amigas e aos ficantes não convinha, precisava preservar-me um pouco.   Pelos meninos, pelos meninos apenas. Eles entusiasmavam-me parra u namoro, um flerte. A ausência do homem, do pai já fazia tempo. Não foi ruim, não foi bom. A virgindade para ele não era salvação ou problema; aceitou-e virgem, com a cabeça repleta de caraminholas. Medo de seduzí-lo e ele interpretar-me mal, e ele com medo de se fazer entender mal. Linguagens diferentes na cama, semelhantes na mesa, vida social intensa. Vida, morte. Com a morte, nem tão cedo, nem tão tarde, senti falta de nossas idas à cozinha preparar pratos para os amigos. Era o único momento em que ríamos juntos, a inventar o que faríamos e a mentir quando os anfitriões chegavam.  Inventávamos também a origem de cada um daqueles quitutes. Que ficavam gostosos, ficavam. Por que não éramos mais criativos  na nossa intimidade? Flagrei-e fazendo tal pergunta quando o velava e notei que ele era, de fato, um homem bonito, descomplicado, belo.
     Surpreendeu-me saber que o pai do meu genro era brasileiro. Adotara a França e ali se casara. "Brasil só a passeio". O sobrenome pareceu-me familiar.
     Ao recebê-lo no aeroporto, reconheci-o.Naturalmente o tempo deixara marcas e me senti vendo um espelho. Nossos cabelos brancos se revelavam. Aliás, os meus escondidos com mechas. Óculos os dois. A esposa simpática. Beijamo-nos na face. No carro ele disse-me que minha filha lembrava uma vizinha da adolescência que passava todos os dias pela calçada, de cabeça baixa, enquanto ele estudava no escritório do pai.
     - Tentei falar, mas que mocinha tímida.
     Lembrou-me dos cabelos louros voando.
     -Achava-a linda. Parece-me que se chamava Matilde.
     - Matilde não, Maisa.
     - Não, não diga. Era você?
     Rimos todos.
     - "Senhores passageiros da Air France, voo 1257, direto para Paris, embarque imediato"... 

(Em: A Rua Pela Vidraça, Ed.Caliban, 2010 - página 23)