terça-feira, 18 de junho de 2013

Caro jovem manifestante

Manifestação SEM vandalismo e SEM desacato?  TEM MEU APOIO.
Polícia SEM agressão? TEM MEU APOIO.
Governador QUE DESAUTORIZA, cassetete, bomba de gás e arma? TEM MEU APOIO.

                             
 
Caro manifestante: exponha sua revolta, mostre à imprensa que você chegou no limite, tá de saco cheio de bandalheira, dessa copa que mina os cofres públicos, tá puto da vida com aquele partido que você aplaudiu, mas que hoje engana a todos e ri de você. 
     Grite a plenos pulmões que  na sua faculdade tem um bando de analfabetos entre os aprovados no Enem e entre os professores também. Vá lá, amigo!
Pinte sua cara, ponha máscara do que você quiser, leva a namorada, seu cachorrinho e demais amigos. Fale, escreva, grite  que nesse momento e lugar você está perdidinho querendo ver um caminho. Faça isso sim!  Compareça às prévias e, mais importante, compareça no dia 20 de junho.  Vá lá dizer o que precisa, mas não esqueça jamais de ser original. Proteste como nunca foi feito antes.  Faça-se ouvir vestindo branco na alma.         
     Qualquer que seja a roupa ou máscara que use, não esqueça:  vista branco. Caro jovem, exibindo a face da paz, você vai ser querido por todos e por todos apoiado. Dispense a pedrada nos ônibus: o motorista e passageiros são tão vítimas quanto você. Dentro dele tem trabalhadores e estudantes, gente como seus pais e irmãos.  Não quebre vidraça, não deboche nem ridicularize o policial. Ele, se duvidar, nem pode estudar como você e, acredite, também é um trabalhador.  Reitero, caro manifestante, vá desabafar porque é  urgente e necessário, mas vá na paz.  De minha parte, um abraço de esperança.

                                  Caro policial,  diante de seus olhos passam jovens revoltados. Com o que?  Com tudo o que lhe revolta também: transporte ineficiente, cidades bagunçadas, escolas ruins, por exemplo. Esses rapazes e moças são arrogantes e atrevidos?  São. Na idade deles, você também era. No momento são mais corajosos que você, caro policial.          
     Estão protestando  contra tudo, perdidos até consigo mesmos, mas fazem isso - repare - sem nada que lhes proteja.  Vejo daqui, caro policial, que você está perplexo e aborrecido: vai  passar horas olhando um bando de jovem malucos carregando cartazes com dizeres os mais diversos,  e sem entender o que eles querem.  Ótimo!! muito melhor passar horas entediado que minutos correndo atrás de bandido armado.  Não está entendendo?  É o seguinte: esse bando de jovens esquisitos, são os mesmos que sentam nos ônibus e metrôs, com seus filhos.  Os pais deles passam 4 meses por ano, fazendo o mesmo que você: pagando impostos pra não ter escolas decentes, pra não ter médicos quando precisam. 
     Esses jovens que passam na avenida estão perdidos, sem rumo algum, procuram por um caminho porque o país onde nasceram, está sem direção.  No país deles e no seu país, o governo abandonou a decência em troca da fantasia de copas de futebol.   Caro policial, esses manifestantes, mesmo que estabanados, metidos a valente ou reis do pedaço,  estão fazendo o que você gostaria, mas não pode.  Você precisa trabalhar ganhando pouco, correndo risco, fazendo turnos estafantes. Então, aproveite e deixe que esses jovens esquisitos façam o que você gostaria.   
    
Baixar o cassetete numa moça que, se duvidar, podia ser sua filha?  para quê?  Pra depois sair na internet e ser mais odiado?  Alie-se ao manifestante. Faça diferente:  arrume-se com seus colegas e formem uma parede de proteção. Deixe eles passarem à sua frente. Mesmo que algum deles, mais idiota do que a idade permite, grite na sua cara, olhando nos seus olhos, uns xingamentos disparatos, deixe ele seguir em frente. Vai ser só mais um idiota. Oh, são tantos nessa cidade!  No final de tudo, você volta pra casa toma um banho e terminará o dia em paz. Quem sabe esses manifestantes até consigam melhorar alguma coisa e você, indiretamente, será beneficiado?

                            
  Caro governador Eduardo Campo,  vou tratá-lo por você, minha idade permite.
     Estive lembrando do que me ocorreu há uns muitos anos, quando saí do colégio no final das aulas e me dirigi com mais duas colegas para a avenida Guararapes como fazíamos diariamente para tomar ônibus de volta para casa. Por todo o trajeto havia policiais militares. Caminhamos pela avenida Cde.da Boa Vista, naquela época tão bonita,cruzando com soldados a cavalo. Apesar de amedrontadas, seguimos para fazer o que devíamos: tomar ônibus para voltar pra casa. No centro, onde se concentravam praticamente todos os terminais de ônibus da cidade, o impacto foi maior: não podíamos ficar em lugar algum.  
     Havia policial a cavalo em todos os pontos e soldados  armados até os dentes, na frente e dentro da agência central dos Correios, do antigo cinema Trianon, da agência da CEF e provavelmente em outros lugares mais, que não chegamos a ver tão grande era nosso pavor.  
     Em nossa última tentativa de voltar, entramos na rua da Palma, sem sucesso: 4 soldados (a essa altura, só Deus sabia a cor da farda), tomaram posição daquele jeito brusco e rápido que eles sabem fazer pondo-se bem espigados e com a arma cruzada na diagonal sobre o peito (sei lá que arma era, não entendo disso até hoje!-todas são pavorosas) e um deles diz: "passa não!".  A gente era adolescente!!  
   Falei nisso, caro Eduardo, pra dizer do desnecessário, do desigual.  Eram 3 adolescentes, magras, baixinhas e abobalhadas tentando voltar pra casa.  Eram quatro fardados, homens feitos e armados que cumpriam ordens. Os dois lados faziam seus papeis. Até aquele momento foi assim. Congele-se a cena.
     Dia 20 de junho, muitos anos depois da situação que passei, vários jovens irão às ruas cumprir seu papel: dizer que estão insatisfeitos. Vou concordar com eles no que eles tem para reclamar. Mesmo que de forma confusa, muito confusa até, esses manifestantes têm do que reclamar sim.  
     Vê-los  nesses movimentos, me enternece e me tira o sentimento de desesperança que senti sinceramente até o mês passado.  
    Dos pais e pessoas com sua idade, governador, não era possível vir nada. Estão todos dando duro pra sobreviver à inflação que está voltando sem controle. Esperar o quê das autoridades, governador?  O crédito que a elas foi dado, não vingou. Lamentar pra quê?      
     Eles estão certos, Eduardo. Essa  arena levou dinheiro que devia ir pra outros lugares, nosso transporte é sofrível, as escolas de nosso estado caem aos pedaços literalmente.  Coisas assim não irritam?  Sim. A indignação é necessária e louvável. Você faz uso político da indignação. É ela que leva à mudanças.  
     Sob meu ponto de vista,você, governador,   cresceria muito como pessoa se, ao contrário do soldado que apenas nos impediu a passagem, protegesse esses manifestantes.    
     Se você PUBLICAMENTE der ordem a seus comandados policiais de que compareçam FARDADOS E DESARMADOS  aos locais de concentração e manifestação terá garantida a paz e, mais que tudo, o respeito de todos eles.  Cá pra nós, os rapazes e moças estão cobertos de razão. São destemperados impulsivos e arrogantes sim, mas não podem ser considerados perigosos a ponto de precisar de pelotão armado de nada.  Pense nisso.

                      
Prezado Stéphane Hessel,  infelizmente a natureza não permitiu que você completasse 100 anos. Se assim tivesse acontecido, teria sabido pela imprensa que jovens brasileiros, enfim, fizeram o que você tanto pediu: indignaram-se!  Quase garanto, que nenhum deles leu seu livro. Não importa:  você ficaria felicíssimo se pudesse saber que indignaram-se. Que sejam, então, bem sucedidos.


Regina Porto, 18.06.2013