segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Segunda -feira poética: O Ator, Carlos Drummond de Andrade

Era uma escravo fugido
por si mesmo libertado.
Meu bisavô foi à Mata
vender burro brabo fiado.
Chega lá, deita no rancho
para pitar descansado.
Duzendas, trezentas léguas
em macho bem arreado,
por muito que um homem seja
de ferro, fica estrompado.
"Vou dormir, sonhar meu sonho
de cobre e mulher trançado.
Por favor ninguém me amole
que trago dependurado
no arção de sela meu coldre
com pau-de-fogo. Obrigado."
"Dormir tão cedo, meu amo?
se no rancho do outro lado
do rio tem espetac'lo
que há de ser de vosso agrado.
faz tres dias que ninguém cuida
na roça e no povoado
senão de ver esta noite 
A Vingança do Passado."
Nem mais se recorda o velho
que estava mesmo pregado.
De noite à luz do candeeiro,
o drama tem outra face.
É como se à letra antiga
outro valor se juntasse.
O rosto do ator imerge
de repente na penumbra
e uma pungência maior
entre cangalhas ressumbra.
Metade luz e metade
mistério, a peça caminha
estranha.Dormem lá fora
a tropa e a besta madrinha.
Na noite gelada a história
fala de nobres de Espanha
e do dote de uma virgem
conspurcada pela sanha
caprina de DãoFernando.
E depois de mil malícias
o vil exclama: "Calor,
ai que calor que abrasa um conde!"
"Que ouço? Que fuça é esta?"
Meu avô salta do banco.
O fidalgo enxuga a testa
que a luz devassa, mostrando
a estelar cicatriz
do seu escravo fugido
bem por cima do nariz.
Empurrando a uns e outros,
meu avô acode à cena
e brandindo seu chicote
(pois anda sempre com ele
emroça,brejão ou vila)
fustiga o conde sem pena:
"Bacalhau, ai  bacalhau
que te abrase o rabo, diabo.
Acaba esta papeata
senão sou eu que te acabo."
Era uma vea um artista
pelo berço mui dotado.
Ficou a noite mais trista
na tristidão do calado.
Cada qual se retirando
achava bem acertado.
Cumpre-se a lei. Está escrito:
a cada um o seu gado.
Para um escravo fugido
não há futuro, há passado,
pelo que lá vai o conde
tocando o burro e vigiado.
A tropa sai caminhando
pelo segundo reinado.