quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Prêmio Jabuti 2012

Na noite de ontem, 28, foram entregues os Prêmios Jabuti da edição 2012.  Os principais ganhadores desta 54ª premiação foram:






Míriam Leitão e Stella Maris Rezende 

Lista com todos os vencedores do 54º Prêmio Jabuti - 2012

1. Capa
1º - A anatomia de John Gray - Leonardo Iaccarino - Editora Record

2. Ilustração
1º - Bananas podres - Ferreira Gullar - Casa da palavra

3. Ilustração de Livro Infantil e Juvenil
1º - Mil e uma estrelas - Marilda Castanha - Editora SM

4. Arquitetura e Urbanismo 
1º - A arquitetura de Croce, Aflalo e Gasperini - Fernando Serapião - Editora Paralaxe
- Editora Record
5. Artes
1º - Samico - Weydson Barros Leal - Editora Bem-te-vi

6. Biografia
1º - Fernando Pessoa: uma quase autobiografia - José Paulo Cavalcanti Filho - Editora Record

in memoriam: Eu vi o mundo - Cícero Dias - Cosac & Naify
7. Ciências Exatas
1º - Eletrodinâmica de Ampére - André Koch Torres Assis e João Paulo Martins De Castro Chaib - Editora UNICAMP

8. Ciências Humanas
1º - A política da escravidão no Império do Brasil: 1826-1865 - Tâmis Parron - Editora Civilização Brasileira

9. Ciências Naturais
1º - Fundamentos da Paleoparasitologia - Luiz Fernando Ferreira, Karl Jan Reinhard e Adauto Araújo (orgs.) - Editora Fiocruz
2º - Energia Eólica - Série Sustentabilidade - Eliane A. Faria Amaral Fadigas - Editora Manole

10. Ciências da Saúde
1º - Clínica Psiquiátrica - A visão do Depto. e do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP - EurípedeZaterka e Jaime Natan Eisig - Editora Atheneu
11. Comunicação
1º - O império dos livros: instituições e práticas de leitura na São Paulo Oitocentista - Marisa Midori Deaecto - EduspCosac & Naify
12. Contos e Crônicas
1º - O Destino das metáforas - Sidney Rocha - Editora Iluminuras

13. Didático e Paradidático
1º - Mundo Leitor - linhas da vida: caderno do orientador - Áureo Gomes Monteiro Junior, Celia Cunico, Marcia Porto e Rogerio Coelho - Ahom Educação

14. Direito
1º - Direitos da criança e do adolescente em face da TV - Antonio Jorge Pereira Júnior - Editora Saraiva

15. Economia, Administração e Negócios
1º - Aprendizagem organizacional no Brasil - Claudia Simone Antonello e Arilda Schmidt Godoy - Artmed

16. Educação
1º - Alfabetização no Brasil: uma história de sua história - Maria do Rosário Longo Mortatti (org.) - Editora Cultura Acadêmica - Oficina Universitária
17. Fotografia
1º - Os Chicos - Fotografia - Leo Drumond - Nitro Editorial
18. Gastronomia
1º - Ambiências: histórias e receitas do Brasil - Mara Salles - Editora DBA

19. Infantil
1º - Benjamin: Poemas com desenhos e músicas - Biagio D'Angelo - Editora Melhoramentos

20. Juvenil
1º - A mocinha do Mercado Central - Stella Maris Rezende - Editora Globo

21. Poesia
1º - Alumbramentos - Maria Lúcia Dal Farra - Editora Iluminuras

22. Psicologia e Psicanálise
1º - Estrutura e constituição da clínica psicanalítica: uma arqueologia das práticas de cura, psicoterapia e tratamento - Christian Ingo Lenz Dunker - Annablume Editora

23. Reportagem
1º - Saga brasileira: a longa luta de um povo por sua moeda - Miriam Leitão - Editora Record

24. Romance
1º - Nihonjin - Oscar Nakasato - Editora Saraiva

25. Tecnologia e Informática
1º - Inteligencia Artificial: Uma abordagem de aprendizado de máquina - Katti Faceli, Ana Carolina, João Gama, Andre Carlos Ponce - Grupo Gen

26. Teoria/Crítica Literária
1º - A Espanha de João Cabral e Murilo Mendes - Ricardo Souza de Carvalho - Editora 34

27. Turismo e Hotelaria
1º - História do Turismo no Brasil entre os séculos XVI e XX - Paulo de Assunção - Editora Manole

28. Projeto Gráfico
1º - Linha do tempo do design gráfico no Brasil - Chico Homem de Melo e Elaine Ramos Coimbra - Cosac & Naify

29. Tradução
1º - Odisseia - Trajano Vieira - Editora 34

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Quarta-feira é dia de conto

Teoria do Consumo Conspícuo, Rubem Fonseca

     Estávamos dançando abraçados, de frente, da maneira convencional. Ela não queria brincar no cordão,nem queria outra sorte de abraços, nem queria tirar a máscara. Eu gritava n meio do barulho, pedia no seu ouvido: "tira a máscara, meu bem". Ela nada. Ou melhor, sorria, os dentes mais lindos do mundo, de boca aberta. Eu via os molares lá no fundo.
     Dançamos a noite toda. No princípio, fiquei muito excitado. Depois, fiquei cansado somente; mas continuamos abraçados, bem apertados. Eu só via o seu queixo, que era branco e redondo; e a boca. Da boca para cima nada. Nem os olhos a máscara deixava ver direito.
     Me contaram uma história de um par mascarado que dançava no carnaval. Ele estava vestido de cachorro e tinha uma máscara de gente; ela estava vestida de gente  e tinha máscara de gata. Tiraram a máscara ao mesmo tempo. Debaixo da máscara da gata estava a cara de uma mulher; debaixo da máscara de de gente estava a cara de um cachorro; o que tinha corpo de cachorro era cachorro mesmo: as aparências não enganam.
     Era o último dia de carnaval e todo carnaval eu sempre fora com uma mulher diferente para a cama. Já na terça feira, mais um pouco o carnaval acabava e eu não teria mantido a tradição. Era uma espécie de superstição como a desses sujeitos que todo o ano vão à igreja dos Barbadinhos. Eu temia que algo malévolo ocorresse comigo se eu deixasse de cumprir aquele ritual.
     À meia noite começaram a cantar no salão, com o mais genuíno dos masoquismos, "é hoje só, amanhã não tem mais".
     Essa advertência, de que era aquele o último dia, me deixou muito preocupado.continuávamos dançando, ela rindo a três por dois,jogando a cabeça para trás, boca aberta, e eu olhando os seus molares; cheio de medo, pois era só hoje, amanhã não tinha mais.
     Nossa conversa era feita de olhares e apertos, pois o barulho da orquestra, dos gritos e apitos, não permitia que conversássemos. de vez em quando apertava a mão dela e ela retribuia; prendia a perna dela entre as minhas, ou a minha entre as dela e novamente sentia receptividade. Beijava-a no pescoço, na orelha; ela raspava na minha nuca uma unha pontuda e afiada como se fosse uma faca.
     O tempo doi passando, passando e acabou. Já era de manhã. saimos do baile e, como era verão, o sol iluminava todo mundo. Todos estavam feios, suados, sujos. Aparecia  em certas caras a bura do labio fino engrossado de batom; peitos postiços saíam de posição;sapatos altos quebravam o salto e algumas mulheres viravam anãs de repente; sovacos fediam; dedos dos pés surgiam calosos e imundos.
     Só a minha amiga continuava bonita e fresca como se fosse uma rosa. E de máscara.
     "Já é dia", disse para ela. "Você já pode tirar a máscar." 
     "Você quer mesmo que eu tire?" perguntou ela.
     Íamos andando pela ria, sós. As outras pessoas tinham desaparecido.
     "Já é dia", repeti, achando boa a razão que eu apresentava. "Além do mais,o carnaval acabou", disse com certa tristeza. "Hoje é quarta-feira de cinzas."
     "Você quer mesmo que eu tire?" tornou ela.
     "Já é dia", insisti.
     Continuamos andando. Eu de mau humor.
     "Vamos para a minha casa?" perguntei urgente e sem esperança.
     "Não posso tirar a máscara", disse ela.
     "Não tira",disse eu, decididamente. Mas estava apreensivo. Não havia tempo a perder.     "Vamos".
     Como ela não respondesse, eu a peguei por um braço e a levei para minha casa.
     Quando entramos ela disse:
     "Não posso." 
     "Tirar a máscara?"
     "Quem falou em tirar a máscara?" disse ela, botando as mãos no rosto e dando um passo para trás.
     "Eu não falei em tirar a máscara", defendi-me. "Foi você dizendo 'não posso'."
     "Eu não falei na máscara", protestou ela. "Não posso outra coisa."
     Eu me sentei e tirei os sapatos.
     "Nós dois estamos perdendo o nosso tempo", disse eu. "É melhor você ir embora."
     "Você não entende", disse ela.
     Num gesto dramático, tirou a máscara.
     "Não suporto o meu nariz", disse com desafio na voz.
      Era um nariz muito bonito, arrebitado.
     "O seu nariz é muito bonito", disse eu. Você é toda muito bonita
     "Não sou não", disse ela, com jeito de quem ia chorar. "Vocês homens são todos iguais. 'E daí?"
     "O meu problema é não ter duzentos contos.Você me dá duzendos contos?"
     "Duzentos contos?"
     "Você me dá duzentos contos?" argüiu ela, coo se estivesse me pondo à prova. De boca fechada, me olhava fixamente.
     Eu me levantei e vi minha caderneta de cheques do banco. Tinha duzentos justos.
     "Dou", disse. Fiz um cheque e entreguei a ela.
     "Depois eu pago", disse ela.
     "Não precisa", disse eu olhando o relógio. "Hoje já é quarta-feira."
     "Pago sim.Vou trabalhar e pago. Eu não gosto de dever a ninguém."
     "Está certo; você paga".
     Bocejamos os dois.
     "Os médicos são muito caros, você não acha? Duzentos contos só para operar um nariz", disse ela.
     Foi  andando em direção à porta.
     Eu estava tão cansado que continuei sentado.
     "Você vai querer me ver de nariz novo?", perguntou ela.
     Eu tive vontade de dizer: "você não precisa de um nariz novo, está gastando dinheiro à-toa; além do mais, me deixou completamente na miséria levando os últimos duzentos contos da minha indenização trabalhista." Mas achei que isso não seria gentil da minha parte e disse somente: "vou."
     "Tchau", disse ela, saindo e fechando a porta.
     Deixou a máscara em cima de uma cadeira. Era preta, de cetim, com um perfume forte e bom. botei a máscaa e fui para a cama. Estava quase dormindo quando me lembrei de tirá-la: um sujeito qu sempre dorme de janelas abertas, não pode dormir com uma máscara que lhe cobre o nariz.

(Em: Os Prisioneiros,Ed.:Codecri- 1963)

Nota: o blog manteve a grafia  do ano de lançamento do livro.

Consumismo conspícuo:  descreve gastos esbanjadores em bens e serviços adquiridos principalmente com  o propósito de mostrar renda ou riqueza. Na mente do consumidor conspícuo, tal exibição serve como meio para ter ou manter status.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Prêmio Portugal Telecom 2012

O grande vencedor do Portugal Telecom deste ano é  o escritor, artista plástico e gato valter hugo mãe. O autor é angolano e tem várias obras incluisive em literatura infanti. Na noite deste dia 26  valter hugo mãe foi vencedor da categoria romance e também levou o Grande Prêmio Portugal Telecom (o melhor livro). O livro premiado é A Máquina de Fazer Espanhóis.


Os brasileiros Nuno Ramos  e  Dalton Trevisan foi vencedores nas  categoria poesia e  contos respectivamente.


A partir do ocaso de António Jorge da Silva, barbeiro de 84 anos que é depositado em um asilo depois de perder a mulher, Mãe analisa a decadência de um país. As lembranças do narrador, o próprio Silva, são de um imenso Portugal, robusto e potente, diferente da frágil economia que ele se tornou sob o chapéu da União Europeia. O título do livro é metáfora desse novo país, que injeta em seus habitantes um sentimento de inferioridade diante da sempre rival Espanha e o desejo de migrar para lá. Vale a pena atentar para o estilo bastante particular de Mãe, que escreve em caixa baixa e subverte a pontuação, do que resulta uma prosa bastante orgânica (Revista Veja- 23.06.12)


Nota: a blogueira tem esse livro e disponibiliza para qualquer pessoa da Nova LE


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Descobrindo Olegário Mariano (2)



O recifence que ocupou a cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras, foi parceiro de Joubert de Carvalho em pouco mais de duas dezenas de músicas, quase todas de sucesso popular.  Hoje trago Maringá, uma toada cuja primeira gravação foi de Carlos Galhardo, mas aqui está  em versão instrumental com a viola caipira de Paulo Santana e também com a dupla Tonico e Tinoco.  Vale explicar: foi a  sra. Elizabeth Thomas, mulher do presidente da Cia. Melhoramentos do Norte do Paraná, que em 1947  sugeriu que se desse à cidade que estava se formando o nome de Maringá.




Maringá
Joubert de Carvalho e Olegário Mariano

  Foi numa leva
Que a cabocla Maringá
Ficou sendo a retirante
Que mais dava o que falar

E junto dela
Veio alguém que suplicou
Pra que nunca se esquecesse
De um caboclo que ficou

Maringá, Maringá
Depois que tu partiste
Tudo aqui ficou tão triste
Que eu garrei a imaginar

Maringá, Maringá
Para haver felicidade
É preciso que a saudade
Vá bater noutro lugar

Maringá, Maringá
Volta aqui pro meu sertão
Pra de novo o coração
De um caboclo assossegar

Antigamente uma alegria sem igual
Dominava aquela gente da cidade de Pombal
Mas veio a seca, toda chuva foi-se embora
Só restando então as água
Dos meus olhos quando chora

Maringá...Maringá

Maringá...Maringá

Maringá, Maringá
Volta aqui pro meu sertão
Pra de novo o coração
De um caboclo assossegar


sábado, 24 de novembro de 2012

Crônica cantada :Seu Delegado - Badi Assad


Mas seu doutor já não posso mais
Vou dar fim na minha vida
Vou viver em paz

Seu delegado já não posso mais
Vou dar fim na minha vida
Vou viver em paz

Pois sou viúvo e tenho um filho homem
Arrumei uma viúva e fui me casar
Mas minha sogra que é muito teimosa
Com o meu filho foi se matrimoniar
Desse matrimônio nasceu um garoto
Desde esse dia que eu ando louco
Esse garoto é filho do meu filho
Sendo filho da minha sogra
Irmão da minha mulher
Ele é meu neto e eu sou cunhado dele
Minha sogra é minha nora
Meu filho, meu sogro é

Dessa confusão eu já nem sei quem sou
Acaba esse garoto sendo meu avô
Acaba esse garoto sendo meu avô ...

Mas seu doutor já não posso mais
Vou dar fim na minha vida
Vou viver em paz

Seu delegado já não posso mais
Vou dar fim na minha vida
Vou viver em paz

Pois sou viúvo e tenho um filho homem
Arrumei uma viúva e fui me casar
Mas minha sogra que é muito teimosa
Com o meu filho foi se matrimoniar
Desse matrimônio nasceu um garoto
Desde esse dia que eu ando louco
Esse garoto é filho do meu filho
Sendo filho da minha sogra
Irmão da minha mulher
Ele é meu neto e eu sou cunhado dele
Minha sogra é minha nora
Meu filho, meu sogro é

Dessa confusão eu já nem sei quem sou
Acaba esse garoto sendo meu avô
Dessa confusão eu já nem sei quem sou
Acaba esse garoto sendo meu avô

Seu doutor ...
Seu delegado ...

Mas seu doutor já não posso mais
Vou dar fim na minha vida
Vou viver em paz

Seu delegado já não posso mais
Vou dar fim na minha vida
Vou viver em paz.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Pequenas notícias...

Quem, como eu, gostou do cativante livro de Marçal Aquino Eu Receberia As Piores Notícias dos Seus Líndos Lábios, mas não viu o filme, já pode adquirí-lo em DVD


 







O escritor Mário Vargas Llosa  recebeu o Prêmio Carlos Fuentes na cidade do México. Na solenidade, o peruano  ressalta que  Carlos Fuentes com livro A Região Mais Transparente, lançado em 1958,foi um marco na literatura latinoamericana.

A professora caboverdense Inocência da Mata da Universidade de Porto (PT)  faz palestra hoje, dia 23, com tema: Extração da Oralidade e as Fronteiras dos Saberes: Memória de (des) Construção do Saber Historiográfico nos Cinco Países Africanos de Língua Portuguesa.
Local: Sala de Seminários- 12º andar do CFCH da UFPE
Hora: 10h 
Aberto ao público.






No Instituto Miguel de Cervantes do Recife a partir das 17:20h de hoje dia 23.11 o prof.dr em filologia da literatura espanhola, faz palestra sobre Características da Literatura Catalã.
Local: Av.Agamenon Magalhães 4535 Derby
Entrada franca, respeitada a capacidade do auditório.
Telefone do Instituto Cervantes: 3334 0450

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Morro de Inveja dos Cronistas

    Maçada fenomenal  e  acabei de ler Feliz Por Nada, na sala de espera do médico.  Se eu tivesse a habilidade da autora, daquela tarde teria feito uma crônica. Iria imaginar, o que levou cada paciente a aguardar mais de duas horas para ser atendido, se não foi a  vontade de validar o nome paciente, com que são consideradas cada pessoa que pacientemente espera...
     Talvez pudesse inventar que o médico da sala 2, fosse cliente ( não paciente porque esse não espera) do médico da sala 1 onde vou ser atendida.  E como seria essa consulta?  o mais novo explicando ao de cabelos branquinhos o que este já sabe e que aprendeu primeiro...
     A moça que faz os eletrocardiogramas, afere  pressão, peso, altura e mede a circunferência da cintura comentou sobre o Ronaldinho, fenômeno: tem 107cm de circunferência e  tenta perder peso no programa domingueiro Fantástico. - Ela falou por falar ou, não muito discreta, me chamou de gorda?   Oh dúvida cruel!  Se eu fosse cronista com certeza me aproveitaria das intermináveis horas gastas em salas de espera para, inventar mentiras sobre as realidades dos consultórios ou soltar o verbo mesmo, sem enfeitar nada.
     Quem faz crônica tem alguma vantagem sobre o romancista: não precisa prestar atenção nos personagens, não lida com enredo longo, ambientação... nada! pega um fato cotidiano, narra acrescentando uns enfeites e pronto. As histórias estão nas ruas pulando em cima dos autores. Completas ou parciais se oferecem ao escritor. Morro de inveja dos cronistas... 

     Semana passada, à esta hora, estava me preparando para ir para um hospital.
     Jejum desde o almoço, tranquila, organizando a bolsa me bate sede. É só saber que não posso, começo a sentir sede. Nada que um desviar de atenção não resolva, afinal não gosto de água mesmo!  Bem, chego lá no tempo combinado pelo médico e desse momento em diante fui acometida de um mal diferente, mas já dito antes: inveja de cronistas.      Aprendi, e quase sempre consigo, me distanciar de algum fato ou ambiente e soltar a imaginação feito quem solta menino em loja de brinquedo. Nisso vou longe.
     Conversava com minhas filha e irmã, formidáveis acompanhantes, mas também prestava atenção à decoração da sala de espera, às portas que se multiplicavam cada uma com uma informação útil aos funcionários do hospital. 
      Sem nada que me impedisse o caminhar, fui levada em cadeira de rodas por uns corredores que me atrapalharam a orientação. Sei lá onde estava! Comecei a me divertir:  se eu quiser fugir não vai dar certo!   vou amarrar a mocinha gentilíssima com esse lençol! Enquanto eu passeio livre por aqui Dr.B está engarrafado no transito, arrá ganhei do médico! Que horas são? Salto alto em cadeira de rodas isso eu não aprendi com Glorinha Kalil. Antes que eu pudesse pensar mais asneiras chegamos ao apartamento. Minhas acompanhantes,  não faziam ideia de que além do coração furado, eu estava também de miolo mole.  Ficamos no 105 até a hora de ir para o procedimento propriamente dito.
     Já devidamente paramentada, lá fui eu novemente em cadeira de rodas .... outra viagem: outros corredores e portas, desorientada que sou, não sabia se subia, se descia se já os conhecia,  Melhor. Vou acompanhando tudo. Tenho idade de 8 anos e me encantam as novidades. Minha filha, tranquila, acompanha.  Responde o que é perguntado e pergunta o que precisa.  Não vê no hospital nada além de coisas de hospital. Que bom que ela é normalíssima. Na sala do procedimento,  enquanto, novamente de pensamentos soltos, quero saber por que eu falo cirurgia e eles falam procedimento. Fico atenta aos movimentos e são muitos. Cadê o equipamento? Ele já está trazendo. Lá vem o anestesista me explicar que vai ter de ser geral, por causa do transesofágico. 
     Ele, sorridente, organizando seus equipamentos e eu imaginando que podia nevar breve e, nesse caso, só eu ficaria petrificada. Todos os demais com muitas roupas, poderiam resistir e fugir. Eu tinha as pernas presas. Lá vem uma médica me perguntar sobre alergias a medicamentos, dois enfermeiros falavam de salgadinhos e vinhos. Sim, eles fazendo coisas corriqueiras pela milésima vez, e eu no centro, um frio de matar.   Precisa mesmo ser tão frio, ou em alguns pacientes urge congelar os miolos?     
     Lá vem o sorridente de novo: - Quando eu tirar isso de seu nariz, a senhora respira por aqui, usando a boca, viu? não vai durar 3 seguntos, tá certo?
- Tá. Pois sim! Quando terminar estou apagadinha total, vou lá me lembrar de fazer isso! E, se fizer, nem vou saber que fiz.   
-Eu vou botar anestesia aqui, viu? fique t-r-a-n-q-u-i.... 21:30h zzzzzzzzzzzzzz.
     Semana passada aprendi que UTI, não é lugar para paciente dormir. Minha irmã aprendeu isso no HC de São Paulo e me explicou. O paciente precisa estar com todas as funções cerebrais ativas, por isso o corpo médico hospitalar faz barulho. É de propósito. Boa ideia.
     Se não me engano passei umas 8 horas na UTI. Nenhuma intercorrência. Faz parte do procedimento. Nesse tempo, ouvi alguém cantar músicas religiosas à direita. À esquerda alguém tirava e colocava algo numa máquina que, sem óculos e meio grogue,me pareceu tratar-se de um caixa eletrônico. O cantor não parava, nem saia do lugar. Alguém me espionava e vinha verificar minha temperatura a qualquer sinal de sonolência. Água, jantar,termômetro, pastilha pra garganta ressecada, tudo!   Menos me deixar dormir. Melhor me divertir, então.

      Fiquei quietinha e de olhos fechados. Vou enganá-los!!     Para quê?   Fui descoberta e aí começou a maratona de aferição de pressão. Nada de mais se fosse daquele jeito tradicional, com o paramádico lhe pondo tensiômetro. Nada! foi com máquina que além de me apertar muito o braço ainda fazia barulho!  E isso a intervalos regulares.  Também teve discussão acalorada entre umas enfermeiras.    Lugarzinho movimentado, barulhento e cheio de coisas indefinidas, princialmente se você não enxerga bem sem os óculos.     
      Era manhã do dia seguinte, minhas pacientes e centradas acompanhantes já tinham ido para o apartamento quando saí, novamente em cadeira de rodas, deixando o cantor ainda fazendo seus louvores.
 Tive alta 24 horas depois, voltando pra casa com meus filhos e genro. Satisfeita por ter corrigido um defeito cardiológico congênito, num hospital onde, juro, apesar do enfado natural, me diverti. 
     Eu lamento profundamente não ser cronista porque UTI é lugar maluco o suficiente. De lá é possivel narrar  ou inventar coisas.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Segunda-feira poética:Príncipes da poesia (2)

O Segundo príncipe dos poetas brasileiros, escolhido em votação organizada pela revista carioca FonFon é Alberto de Oliveira, poeta parnasiano de Saquarema- RJ.











 Vaso Chinês
Estranho mimo aquele vaso! Vi-o,
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármor luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado.

 Fino artista chinês, enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tinta ardente, de um calor sombrio.

Mas, talvez por contraste à desventura,
Quem o sabe?... de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura.

Que arte em pintá-la! A gente acaso vendo-a,
Sentia um não sei quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa. 



Veja também o principe da poesia número 1 clicando aqui

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Os livros mais difíceis de ler até o final.

O jornal italiano Corriere Della Sera, com o apoio do Facebook e Twitter, pesquisou quais os livros que os italianos não conseguiam ler até o final.  Na lista me surpreendeu a indicação de livro de Garcia Márquez, porque esse livro foi daqueles que peguei e não quis largar. Ulisses jamais me atraiu e A Montanha Mágica, continua esperando minha dispoição para leitura. De Thomas Mann gostei muito e indico O Eleito
Vamos aos livros considerados mais difíceis de ler até o fim:

100  anos de Solidão - Gabriel Garcia Márquez











Ulisses - James Joyce











*Pé Na Estrada - Jack Kerouc
*O Homem Sem Qualidades -Robert Musil










*A Montanha Mágica - Thomas Mann











*O Som e a Fúria - Willian Faulkner
*Guerra e Paz - Leon Tolstoi











Frateli d'Itália - Alberto Arbasino

 Sem edição em Português








Horcynus Orca -Stefano D'arrigo
 Sem edição em português














L'arcobelo -Thomas Pynchon
Em português: O Arco iris da gravidade - edição esgotada
Em inglês (foto): Gravity's Rainbow









Petróleo - Pier Paolo Pasolini




















 O Pêndulo de Faulcout - Umberto Eco











Fontes: Leia já, Corriere Della Sera e Wikipedia, Livraria Cultura

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Patrício, conto de Jaime Hipólito

     O ar de agosto estava quente e nenhum vento soprava. Não se mexiam as folhas das árvores e o sol queimava como fogo a terra seca. No quarto, Patrício respirava ainda, mas honorata sabe que ele já não terá muitas horas de vida.
     Estava lá, estirado numa rede, o corpo já quase sem mobilidade e pálido como chumbo. Patrício sentia que os músculos das pernas começavam a ficar rígidos e havia uma dormência subindo das mãos para os ombros. Uma agonia geral mordia-o por dentro e o impacientava. seria um alívio se pudesse arrancar-se dalí e ganhar as serras, e de lá jogar-se sobre os abismos, ou, alcançando o rio, nele tirar-se como uma pedra.
     Mas Patrício não tem nenhum ânimo e sente-se aniquilado. Tenta mudar a posição do corpo, já não consegue. E está só, no quarto. Sabe que honorata está lá fora, mas não chamará por ela. Fora grosseiro quando recusou tomar o remédio e agora é ter coragem para enfrentar o pior. "Ainda sou homem", tenta dizer. Engasga-se. Na verdade, gostaria  de gritar por Honorata. Que também sofre, lá dentro.
     Honorata lembra-se de que Patrício quis ser sempre um menino sem juizo. Criara-o para não ver um inocente morrer à míngua, sem uma mãe. Mas juízo de gente, quem que o viu jamais querer ter? Sempre escoheu ser um menino ruim. Um malino. Tinha que acabar se trocando por uma cabrocha, que miséria. ainda ontem não foi ela que passou ali pela frente, sacudindo-se, arrotando felicidade? E já sabia de tudo. Da desgraça por caua dela. como se gostar daquilo? Morreu por quem?
     Honorata não esquece que Patrício era um meninozinho enjeitado. Não tinha ninguém por ele no mundo. Cresceu montado em lombo de jumento. Filho sem pai, sem uma voz grossa em cima, aí Patrício tinha que chegar a isso. Honorata lembra-se de que ele não tinha ainda doze anos, fugiu pela primeira vez de casa. Anoiteceu, não amanheceu. Com Jesuino, homem barbado, largou-se para a cidade. Dois dias passou sem aparecer, o safado. Outro teria pedido para ir. Patrício bem que desde cedo quis mostrar quem era. Para o que nasceu. Agora está alí, se acabando por uma cabrocha. Pior para ele. Ninguém o salvará, Honorata sabe. Não há médico. Nem tem quem corra à cidade atrás de um. Está certa de que Patrício morrerá. Por gosto, mas dói. Foi a vida inteira um moleque cabeçudo, sempre quis ser ruim, não quis nunca dar para gente, aí, mas é duro ver um vivente morrer. E Honorata sofre.
     O sol já se põe, escurecendo a fazenda. Em volta é como se o mundo fosse se fechando. Tornando-se  irrespirável. Honorata tem certeza de que tem a consciência limpa. Deus é testemunha. Filho enjeitado é que é um caso sério. Um fardo que a gente carrega.
     Agora já é noite. A luz do candeeiro clareia muito mal a casa. Honorata não sabe o que fazer. Não aparece um vizinho, que todos moram longe, Honorata vai ao quarto de Patrício. Volta. Vai novamente. Nota-o com feições endurecidas, os olhos sonolentos, quebrados. Faz uma última tentativa para obrigá-lo a tomar um pouco de leite. O coraçao de Honorata é um peso dentro do peito.
     Patrício fita-a. Ela  se aproxima mais. Vem-lhe  à memória o dia em que o trouxe da cidade. A mãe legítima jamais poderia criá-lo de modo decente. Coitada. Depois Patrício veio crescendo. Com três anos era muito mimoso, moreninho claro de cabelinhos  ruivos e os olhinhos como duas quixabas. Sabia dizer todas as palavras. Sabia tudo.
     Honorata vê que já é bem tarde da noite. Quando Juca, o marido, morreu, não fazia esse silêncio. Morreu no mesmo quarto onde agora está Patrício. A diferença é que havia gente em volta. Juca tinha amigos na redondeza, e eles vieram. Agora, ninguém aparece. Não há uma mão que ajude. Ao menos uma voz para quebrar o silêncio. Tinha que acontecer essa miséria. Morresse de tudo, Patrício. De tifo, como o pai. Uma cobra o picasse. Mas nunca se matasse por gosto. Isso nunca, por Deus.
     Honorata se debruça toda sobre a rede de Patrício. Verifica que ele já não se mexe. Não bole com mais nada. Está frio e com olhos parados.
     Honorata chora com todas as forças.

Estórias Gerais, Jaime Hipólito- série: Letras Potiguares
Ed.AS Editores
Ano: 2003.
Imagem: folha do exemplar.