quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Crônica da quarta-feira



Os zoológicos nunca me convenceram, nem quando eu era pequenininha. Uma excrescência nos dias atuais, depósitos de animais ali colocados para servir exclusivamente ao prazer que o ser humano encontra em observar o exótico, o diferente, sem com ele se misturar, defendido, protegido e separado por cercas e fossos. Minha última experiência do naipe remonta alguns anos, quando, por insistência de filhos e sobrinhos, durante uma estada em São Paulo, rendi-me aos apelos de visitar o exemplar daquela cidade, supostamente o melhor que havia no País.          
     Pode até ser, mas, ainda assim, tinha um defeito grave: era zoológico e, como tal, um museu de seres que sentem e se mexem. Jurei nunca mais, e nunca mais mesmo.Era verão e, só para reforçar, verão paulista, que em nada se compara ao nosso em termos de brisa. E aqui fazendo um adendo, acho uma graça danada quando os sulistas e sudestinos ameaçam achar um absurdo que nós, nordestinos, ousemos abrir a boca para dizer: “Ai que calor” quando lá estamos. Outro dia, em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, quase sou linchada. Posso jurar que nunca na vida, exceto quando tenho sonhos de cremação ou de ser lentamente assada na fogueira, como um pernil, senti semelhante bafo.
      E tome a gente a andar, eu e minha irmã fazendo a escolta, empurradas pelos gritos irritantemente felizes dos pirralhos. Devia estar na TPM, o que automaticamente me transformava também num animal, numa fera hormonal. E tome anta, cachorro-vinagre, camelo, cervo, chimpanzé e um monte de bicho que a gente procurava no mapa apenas para cumprir tabela, já que estava por ali mesmo. E foi aí que a ficha caiu, que a vida imita o zoo, ou será o contrário? Copia tal e qual a escala decrescente daqueles animais que a gente realmente deseja encontrar, daqueles que se estiver no caminho a gente até dá uma olhadinha, aqueles que francamente a gente preferia não ver, os que nos causam uma tremenda indiferença, para não dizer tédio, ou os que nos causam asco e, finalmente, aqueles que a gente pensava que valia a pena, mas quando se deparou frente a frente constatou que a realidade era, de fato, decepcionante. Já tive namorados e ficantes em todos os níveis acima, a mesma sensação despertada pelo zoológico do comportamento humano foi desencadeada por aquele passeio pelo flamejante zoológico paulista.
      Na lista dos mais apetecíveis estão sempre os grandes mamíferos: elefante africano, girafa, hipopótamo, onça, orangotango, rinoceronte-branco. Ôpa. Aí já começavam as decepções. De branco mesmo eu só tinha a garantia do nome escrito na placa, pois o bicho, ao ser alocado num terreno coberto de barro, estava da cor da coleção outono de Ronaldo Fraga, só tons terrosos. Mas, vambora, adiante, que o que eu queria mesmo era uma cerveja. Na categoria “até dou uma olhadinha” as aves de bela plumagem. Levam o troféu “prefiro não ver” os répteis, anfíbios, invertebrados e sua longa lista de cágado-cabeçudo, lagartixa-leopardo, sapo cururu e aranha-caranguejeira.
      A mais pentelha das sobrinhas, de vozinha fininha e muito mimosinha, no entanto, encasquetou que a gente não podia deixar o recinto sem ver o pinguim de Magalhães. Por mim, eu já tinha parado no tal chifrudo barroso. Mas sabe como é menino, né? E toca a andar, e toca a consultar mapa, e nada do recalcitrante Spheniscus magellanicus. E a paciência já estava no magellanicus. Até que enfim, encontramos, horas depois. Entocado, num corredor periférico, tão mirradinho, tadinho, tão sem charme no seu existir, tão não Discovery Chanel, tão insignificante. Lembrou um cara que eu tive. E que até hoje eu me pergunto, por que foi mesmo que eu me esforcei tanto pra achar?

Flávia de Gusmão é autora de:
 Sexo@Cidade
101 crônicas escolhidas 
Autor:Flávia de Gusmão
Editora: Flávia de Gusmão  
Edição: 1ª
Ano 2012
Autor: Flávia de Gusmão
Baseado vida/obra:  Otoniel Abílio da Costa
Editora: Caleidocópio
Assunto: Gastronomia
Edição:
Ano: 2011

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Os donos de outubro


Fecho a janela deste mês abrindo a porta da sala dos aniversariantes de outubro. Vale a pena rever as postagens que este blog já fez com o nome de cada um deles.

 12 de outubro é de Fernando Sabino que informou querer ser criança quando crescesse.


Vinicius de Moraes, o homem que fazia questão de viver apaixonado, nasceu no dia 19 de outubro e estaria hoje com 99 anos.


Menino sábio criador do homem maluquinho,Ziraldo, povoou a infância de meus filhos e também me divertiu desde o Pasquim.Nasceu no dia 21 de outubro.


 Graciliano Ramos, escrevia enxuto como ninguém e foi quem primeiro pensou em alimentar os alunos 
da escola pública para resolver problema de evasão e pouco rendimento, nasceu no dia 27 e teria hoje 120 anos.


E, por fim, o incrível Carlos Drummond de Andrade  dono do dia 31 e de tanta coisa linda que nos embala o coração até hoje.


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A Dança da Sombra Na Parede, Olegário Mariano

A sombra dança na parede do quarto.
Não é minha. Não tem meus gestos nem meus cabelos,
Não tem a imobilidade das coisas mortas,
Mas tem o instinto dos seres vivos.
Abre os braços e chama alguém para junto dela.
Este alguém, de olhos velhos e de rosto sulcado,
Conserva-se imóvel olhando os seus gestos,
Conserva-se imóvel sentindo nos braços
O cheiro de rosas que ficou na pele,
Que ficou no corpo, que ficou na boca,
O gosto de sangue na língua ferida
Que a a sombra deixou antes de ser sombra,
Quando era, na alvura dos lençóis de linho,
Um corpo moreno de gestos elásticos,
De boca sangrando, de pernas nervosas,
De pele cheirosa nos lençóis de linho.
Agora este cheiro, este medo, esta agonia
E estes braços de louco querendo arrancar
A sombra que dança na parede vazia...

(Em: Mundo Encantado, ano:1955- que está incluido no 2º vol. de Toda Uma Vida de Poesia da  Ed. José Olímpio, ano:1957)



Leia também: O Poço da Panela,  de Olegário Mariano, versão completa e na grafia original clicando aqui


sábado, 27 de outubro de 2012

Sábado cheio de Graça! Salve Graciliano.

 
 
                    Hoje Graciliano Ramos faria 120 anos,  quem me conhece sabe do quanto gosto do alagoano fumante inveterado, apreciador de cachaça e chatão. Falar a respeito de Graciliano Ramos?  vou nada! vários jornais e revista fazem isso hoje. Todos com mais capacidade. Não quero me aventurar de expert em literatura e acabar cometendo faltas, enganos absurdos. Aqui no Recife ao velho Graça vão ser dedicadas as próximas segunda e terça-feiras de um seminário na Academia Pernambucana de Letras, público pequeno pela pouca divulgação e pouco movimentar-se da APL em direção ao público.  Fico feliz em saber que no Rio de Janeiro a Flip   deu o ar de  sua graça e dedicou  sua feira ao autor. A Flip de 2013 homenageará Graciliano Ramos. Palmas para Paraty.

Três lançamentos marcam os 120 anos de nascimento de Gracilianos Ramos:

O Velho Graça (Ed.boitempo)
Biografia ampliada - Dênis de Moraes

Box contendo: Caetés,São Bernardo, Angústia e Vidas Secas 
(4 primeiros romances de G.R)-Ed.Record 








Garranchos -Ed.Record - coletânea de inéditos, 
organizada por:Thiago Mia Salla, contendo contos da adolescência de G.R, artigos nunca publicados e uma peça teatral.









Não deixe de ler: http://livroerrante.blogspot.com.br/2011/10/graciliano-ramos-politico-como.html

Crônica - cantada:Chegança, Antônio Carlos Nóbrega


Sou Pataxó,
sou Xavante e Cariri,
Ianonami, sou Tupi
Guarani, sou Carajá.
Sou Pancararu,
Carijó, Tupinajé,
Potiguar, sou Caeté,
Ful-ni-o, Tupinambá.
Depois que os mares dividiram os continentes
quis ver terras diferentes.
Eu pensei: "vou procurar
um mundo novo,
lá depois do horizonte,
levo a rede balançante
pra no sol me espreguiçar".
eu atraquei
num porto muito seguro,
céu azul, paz e ar puro...
botei as pernas pro ar.
Logo sonhei
que estava no paraíso,
onde nem era preciso
dormir para se sonhar.
Mas de repente
me acordei com a surpresa:
uma esquadra portuguesa
veio na praia atracar.
De grande-nau,
um branco de barba escura,
vestindo uma armadura
me apontou pra me pegar.
E assustado
dei um pulo da rede,
pressenti a fome, a sede,
eu pensei: "vão me acabar".
me levantei de borduna já na mão.
Ai, senti no coração,
o Brasil vai começar.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Ziraldo, 80 anos!!

 Hoje é aniversário de Ziraldo e o blog publica entrevista concedida pelo autor à Agência O Globo:

Ziraldo, um menino oitentão

Às vésperas de completar 80 anos, Ziraldo rechaça os mitos da velhice, diz que a libido é mais importante que a ereção e mostra-se pronto a mudar de ideia quando necessário, ao admitir que Monteiro Lobato era racista. Não perdoa, contudo, os amigos que o atacaram por ter recebido indenizações por reparação a danos sofridos durante a ditadura militar. "Eles fizeram questão de me linchar."

Ziraldo, 80. Como é isso?
Oitenta é quando o cara pode ser chamado de ancião. Antes, é garoto. Se bem que na minha turma de oitentões não tem ancião: Zuenir (Ventura), Roberto Farias, Sérgio Ricardo, Ferreira Gullar, Zé Hugo Celidônio, Alberto Dines, Jaguar, Antônio Abujamra. Não tenho essa coisa de ter saudade da infância, esse papo de que infância é vida boa... Tenho saudades sim da adolescência, do rostinho colado no DCE em BH, da "nossa música", "September song". Mas da infância? Eu quero é a minha mãe.

Mas logo você, o rei da garotada?
Eu sei ler olho de criança. Lembro do meu olhar quando queria mentir para meu avô. E tenho lembranças do sentimento de menino. Disso eu lembro. Mas essa coisa de ser criança grande eu não aceito. Toda criança grande é um imbecil. Um irresponsável. Bons momentos mesmo são os da vida adulta. Por isso é preciso viver com intensidade para, quando velho, não ficar se lamentando, falta isso, falta aquilo. Se tivesse comido as mulheres que podia nos bares certos, o Itamar não ficava naquela fissura no camarote.

Será? A fissura acaba?
Rapaz, se a Pfizer tivesse feito uma pílula para a libido em vez de um remédio para ereção, ia ficar dez vezes mais rica. Está cheio de velho aí que simplesmente não quer sexo. Dá muito trabalho, mexe com a rotina. E quem já usou sabe: sem estar a fim, a pílula azul não funciona. Mas é claro, se a mente continua jovem, o aspecto físico não há como ignorar. Eu mesmo estou com falência múltipla dos órgãos.

Falência múltipla?
Calma, é figurativo. É que venho trabalhando como um condenado. Tenho cinco stents no coração, mas estou bem. Controlo a pressão alta, mas não faço nenhum regime, não tirei sal, não tenho grandes cuidados, bebo uísque. Mas ontem, quando me levantei no fim do batente, não tive forças para ir até o quarto. Então, eu percebi: caramba, eu estou com 80 anos! É algo que a gente só entende quando chega lá. Não adianta livrinho.

Mas você envelheceu bem. Reputado um dos homens mais bonitos da sua geração.
É... eu era bonitinho. Mas não tinha a menor ideia na época. Hoje, quando eu vejo umas fotos minhas dos 40, percebo: porra, eu era mesmo bonito. A viúva sabia... Foram 49 anos de convivência diária. Vida que segue, casei com minha prima e atual mulher. Filha de um tio que foi muito importante para mim: ele me levou à zona pela primeira vez em Caratinga, Minas Gerais, em completa segurança e respeito. Depois, no Rio, conheci as francesas da Lapa.

Vamos ter uma grande festa para os "quatre-vingts"?
Olha, quando fiz 70 minhas filhas deram uma festa no Copacabana Palace que foi a maior festa que já houve no Rio. Severino Araújo ainda regendo, a cidade inteira lá, governador, deputado. Então, já tive a minha festa. Todo ser humano tem que ter a sua festa. Já cumpri. Com 80, não quero. Depois, esqueço de convidar alguém, que nem o Geraldinho Carneiro nos meus 70. Ele foi a única pessoa do mundo que não foi convidada. Trabalhou muito mal a rejeição.

E você? Lida bem?
Não, eu trabalho a rejeição mal para burro. Sempre fui muito exibido: saía do trabalho, ia para a vida. Fui jurado de tudo que é festival. O povo aplaudia calorosamente, mas me lembro de uma vez em que um sujeito ficou sério e não aplaudiu. Isso me deixou arrasado, eu precisava saber o porquê e nunca soube. Agora, estou numa fase de aceitação. Não tem ninguém falando mal de mim.

Falando em falar mal, como foi, para você, lidar com a onda de ataques por causa das indenizações da ditadura?
Nossa senhora, que desgosto. As seções de cartas deitaram e rolaram. O Millôr, Deus o tenha, fez uma das frases mais cruéis: "Então era um investimento, e não um ideal?" Ô, Millôr! Será que passou pela cabeça de alguém ir para a esquerda visando a receber indenização no futuro?

O que aconteceu, afinal?
Fomos listados pelo Sindicato dos Jornalistas, com aval do Barbosa Lima Sobrinho, para receber o que a lei permitia. O Millôr teve lucidez e não foi. Mas muitos aceitaram o convite do sindicato, como eu e Jaguar. Fomos lá, entregamos a documentação e nunca mais falamos do assunto, não entramos com ação. Dezenove anos depois eu recebo um telefonema do Estado perguntando quanto eu ganhava na época. "Do que estão falando?", eu quis saber. "O senhor vai ser indenizado." Respondi que não tinha emprego na época, fecharam várias publicações, fora as prisões e os processos. Aí disseram que eu ia receber R$ 4.500. Há ainda uma dívida de R$ 2 milhões corrigidos, por causa dos anos todos que se passaram. Não sei se é justo. Está dentro da lei. Mas, se eu tivesse que escolher, acho que não deveria existir. Tem gente recebendo sem motivo.

Então por que não devolver, ou doar para caridade?
Como você sabe o que eu faço com o dinheiro? Se eu estou doando ou não para caridade, não compete a ninguém saber. Mas não adianta, o que quer que eu diga, um certo pessoal vai sempre gritar que sou um ladrão, como muitos amigos, com inveja, ou só pelo prazer de bater em cabra amarrado. Amigos que fizeram questão de me linchar sem dar sequer um telefonema para me ouvir.

E o debate sobre o racismo de Monteiro Lobato?
Ziraldo:Quando fiz a camiseta para o bloco Que Merda é Essa, não conhecia ainda as cartas e os textos para adulto que seriam publicados pela imprensa em seguida. Mudei de ideia, claro. A prova de que Monteiro Lobato era racista é exuberante e bem documentada. Ele era eugenista. Chega a dizer que o Brasil não atingiu o nível de civilização para ter uma Ku-Klux-Klan. Só não fiquei mais triste porque, na verdade, nunca fui realmente um fã. Sempre fui mais de Super-Homem e Fantasma. Agora, na obra infantil ele continua a ser o criador de alguns dos personagens mais emblemáticos da literatura. Emília, junto com Capitu, Rê Bordosa e, agora, Carminha, é das personagens femininas mais importantes. E Tia Nastácia é a mais simpática e a mais querida do "Sítio". Não precisamos proibir livros. Precisamos é melhorar a capacidade dos professores para discernir. Num país que tem 90% de analfabetismo funcional o pessoal devia era estar preocupado em fazer uma revolução em que nenhuma criança cresça sem aprender a ler, escrever, contar e interpretar.
 

Janelas de hotéis: Cecília Meireles




Quem sabe o que vamos encontrar quando, num hotel desconhecido, abrimos pela primeira vez a janela do quarto? Por trás das cortinas, das vidraças, das veneziana, há uma inocente imagem desprevenida que se entrega aos olhos - à nossa alma, afinal - coma mais tranquila naturalidade.
   Oh! inesperadas imagens que assinalam o nosso primeiro encontro com uma cidade; que são  como estampas de um livro de viagens subitamente aberto; que se tornam inequecíveis e, muitas vezes, são o anúncio e a síntese de quanto iremos ver depois em nossas andanças pelas ruas, em nossa aproximação de pessoas e objetos.
    Relembro uma janela sobre o Central Park; tão alta, tão alta, que dava a medida do mundo vertiginoso a que pertencia. Mas o sossego das árvores, mas os vultos humanos que se moviam naquela profundidade, e que pareciam todos infantis,amenizavam os tumutos e ruídos; a vida era como submarina, distante e silenciosa. A altitude criava um clima de ausência,de renúncia, de isenção, como o que se experimenta nas viagens aéreas. Toda a enorme grandeza que se dissolvia, contemplada tão de cima! E a paz que resta, abolidos os fenômenos, as ilusões...
     Uma janela de Amsterdão mostrava a cidade como um desenho finamente traçado, com suas torres, suas fachadas pontudas, delicados pormenores arquitetônicos... - e, no primeiro plano, um canal, um barco cheio de flores; o passado e o presente, a graça e o trabalho da vida holandesa, tudo aquilo que depois se vai descobrindo  pouco a pouco e se pode chegar a amar profundamente.
    Em Bombaim, uma janela onde crocitavam corvos; mas de repente, a claridade matinal, a rua cheia de figuras coloridas, um carregador transportando à cabeça um grande tapete enrolado; outro, com um tabuleiro de comidas; mulheres com saris vermelhos flutuando à brisa e ao andar; turbantes, gorros,vestimentas ocidentais...
     Em Calcutá, o sol vermelho, redondo, dardejante... O puxador de carrinhos a banhar-se num jorro d'água, na esquina. As casas ainda todas fechadas. Casas? Palácios. O barbeiro sentado na calçada, à oriental, à espera da freguesia. 
     Em Patna, a janela abria para um enorme terreiro. Havia flores de ervilha de todas as cores. E havia a grande mangueira sob a qual um grupo de crianças tranquilamente ouvia as histórias que uma mulher contava.
     Oh! as janelas dos hotéis! As que abrem para pátios interiores, ou de serviço onde, às vezes, por estar um automóvel desmantelado, ou por onde passam cozinheiros de altíssimos gorros brancos, ou  arrumadeiras saltitantes e maliciosas como se estivesséssemos representando Molièrre...
     Uma janela sobre um jardim chuvoso; plantas gotejantes, um silêncio de séculos e, por entre as frondes, uma pincelada de prata vagamente azulada: o mar de Tibiríades e toda a sua história!
    Uma janela em Jerusalém: uma longa árvore seca e, muito lá em cima, um passarinho que canta.Oh! para quem? Para mim que o escuto? Para a cidade? Para o mundo? Para si mesmo? Um passarinho que canta, apenas.
    Passei nessas janelas e em muitas outras quando agora em São Paulo, ao correr a cortina, me encontrei diante de um pequeno claustro. Quem podia imaginar tal encontro, na cidade rumorosa, inquieta, trabalhadora, ansiosa, ambiciosa?
    Pequeno claustro com seus arcos, suas galerias, suas fontes, seus azulejos e balaustradas. Um adorável silêncio pousa com a brisa nas palmeiras, nos oleandros em flor, nas pequenas  moitas dos arbustos. Passarinhos e borboletas vão e vêm, param e passam. Às vezes,  avista-se um jardineiro, com seu regador verde, a borrifar plantas. (O relógio da torre bate cada quarto de hora.) Às vezes, um carmelita oferece na palma da mão qualquer coisa para comer a uns macaquinhos que andam numa árvore. E à tardinha é certo que algum carmelita caminhe pelos quatro lados do claustro, atento ao seu breviário, com o panejamento do hábito oscilando largamente ao ritmo de seus passos.
     Com a perspectiva desta janela, o claustro e seus personagens são uma verdadeira miniatura medieval. O tom amarelado da arquitetura é o de um pergaminho envelhecido. (Pode ser que os passarinhos e as borboletas ainda tragam de algum lugar as letras góticas que possam compor, nos espaços livres, palavras celestiais.)

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Segunda-feira poética: Lêdo Ivo

Soneto da porta

Quem bate à minha porta não me busca.
Procura sempre aquele que não sou
e, vulto imóvel atrás de qualquer muro,
é meu sósia ou meu clone, em mim oculto.

Que saiba quem me busca e não me encontra:
sou aquele que está além de mim,
sombra que bebe o sol, angra e laguna
unidos na quimera do horizonte.

Sempre andei me buscando e não me achei:
E ao pôr-do-sol, enquanto espero a vinda
da luz perdida de uma estrela morta,

sinto saudades do que nunca fui,
do que deixei de ser, do que sonhei
e se escondeu de mim atrás da porta.

domingo, 21 de outubro de 2012

sábado, 20 de outubro de 2012

Crônica-cantada:Princípio do Prazer - Geraldo Azevedo


Juntos vamos esquecer,
Tudo que doeu em nós
Nada vale tanto pra rever
O tempo que ficamos sós
Faz a tua luz brilhar
Pra iluminar a nossa paz
O meu coração me diz
Fundamental é ser feliz
Juntos vamos acordar o amor
Carícias, canções, deixa  entrar o sol da manhã
A cor do som, eu com você sou muito mais
O princípio do prazer
Sonho que o tempo não desfaz
O meu coração me diz
Fundamental é ser feliz

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Eu não sabia: Romero Britto para crianças!

Acabei de saber que o pintor brasileiro residente em NY, Romero Britto lançou seu segundo livro infantil. Eu não sabia do primeiro.  Se você também não sabia,vamos, então, começar do começo: Onde Está o Urso da Amizade? foi lançado em 2011 pela Editora Globo. É um livro que explora bem o lado sensorial das crianças. O subtítulo: Levante as abas e sinta as texturas, já explica esse objetivo. As crianças inicialmente atraidas pelo colorido intenso que caracteriza os desenhos de Romero Brito vão ler a maciez do pato a textura da  gravata com os dedinhos.  Cores divertidas é o segundo livro, lançado recentemente é   pela Ed.Globinho.   Para recuperar o colorido total dos animais da fazenda, as crianças vão ter de  de encaixar peças nos lugares descoloridos. As pecinhas estão no final do livro e a criançada vão colorizar os animais a seu gosto. Provavelmente nenhum animal ficará muito difrente do que o famoso pintor faria, afinal sua obra para adultos tem formas e cores infantis.        Recomendo os livros.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Fliporto 2012 - de 15 a 18 de novembro em Olinda- PE



Já comprei meus ingressos para Mia Couto/ Eduardo Agualusa, Edney Silvestre/ Cristiane Torloni e aula espetáculo do encerramaneto da Feira, com Ariano Suassuna. E você ? Vai perder?  Tem muita coisa e além de tudo é em Olinda, que por si vale conhecer.  Vejam mais a respeito, clicando aqui  e para adquirir ingressos, clique aqui.
Aguardo você.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Na delegacia, Carlos Drummond de Andrade

- Madame, queira comparecer com urgência ao Distrito.
Seu filho está detido aqui.
-Como? O senhor ligou errado. Meu filho detido? Meu filho vive há sei meses na Bélgica, estudando Física.
-E a senhora só tem esse?
-Bom, tenho também o Caçulinha, de dez anos.
- Pois é o Caçulinha.
- O senhor está brincando comigo. Não acho graça nenhuma. Então um menino de dez anos foi parar na Polícia?
- Madame vem aqui e nós explicamos.
A senhora correu ao Distrito, apavorada. Lá estava o Caçulinha, cabeça baixa, silencioso.
- Meu filho, mas você não foi ao colégio? que foi que aconteceu?
Não se mostrou inclinado a responder,
-Que foi que meu filho fez, seu comissário? Ele roubou? Ele matou?
- Estava com um colega fazendo bagunça numa casa velha da Rua Soares Cabral. Uma senhora que mora em frente telefonou avisando, e nós trouxemos os dois para cá. O outro garoto já foi entregue à mãe dele. Mas este diz que não quer voltar para casa.
A mãe sentiu uma espada muito fina atravessar-lhe o peito.
-Que é isso meu filho? Você não quer voltar para casa?
Continuava mudo.
-Eu disse a ele, madame - continuou o comissário - que se não voltasse para casa teria de ser entregue ao Juiz de Menores. Ele me perguntou o que é o Juiz de Menores. Eu expliquei, ele disse que ia pensar.
- Meu filho, meu filhinho - disse a senhora, com voz trêmula - então você não quer mais ficar com a gente? prefere ser entregue ao Juiz de Menores?
Caçulinha conservava-se na retranca. O policial conduziu a senhora para outra sala.
- O que esses garotos estavam fazendo é muito perigoso. Brincavam de explorar uma casa abandonada, onde à noite dormem marginais. Madame compreende, é preciso passar um susto nos dois.
A senhora voltou para perto de Caçulinha, transformada:
- Sai daí já seu vagabundo, e vamos para casa.
O mudo recuperou a fala:
- Eu não posso voltar, mãe.
- Não pode? Espera aí que eu te dou não-pode.
E levou-o pelo braço, ríspida. Na rua, Caçulinha tentou negociar:
- A senhora me deixa passar na Soares Cabral? Deixando, eu volto direto para casa, não faço mais besteira.
- Passar em Soares Cabral, depois desse vexame? Você está  louco.
-Eu preciso mãe. Tenho de pegar uma coisa lá.
-Que coisa?
- Não sei, mas tenho de pegar. Senão me chamam de covarde. Aceitei o desafio dos colegas, e se não trouxer um troço da casa velha para eles, fico desmoralizado.
-Que troço?
-O pessoal diz que lá tem ferros para torturar escravo, essas coisas. Eu e o Edgar estávamos procurando, ele mais como testemunha, eu como explorador. Mãe, a senhora quer ver seu filho sujo no colégio, quer? Tenho de levar nem que seja um pedaço de cano velho, uma fechadura, uma telha.
A mãe estacou para pensar. Seu filho sujo no colégio?
Nunca. Mas e o perigo dos marginais? E a polícia? E seu marido? Vá tudo para o inferno. Tomou uma resolução macha, e disse para Caçulinha:
-Quer saber de uma coisa? Eu vou com você a Soares Cabral.

Em: O Poder Ultra Jovem -Ed. José Olímpio 1974)


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Segunda-feira poética: Oswald de Andrade/ Ascenço Ferreira

Um título para dois poemas, dois autores, duas épocas, duas visões
História Pátria, Oswald de Andrade

Lá vai uma barquinha carregada de 
                                              Aventureiros
Lá vai uma barquinha carregada de
                                               Bacharéis
Lá vai uma barquinha carregada de
                                               Cruzes de Cristo
Lá vai uma barquinha carregada de
                                               Donatários
Lá vai uma barquinha carregada de
                                               Espanhóis
                                          Paga prenda
                                          Prenda os espanhóis!     
Lá vai uma barquinha carregada de
                                           Flibusteio
Lá vai uma barquinha carregada de
                                           Governadores
Lá vai uma barquinha carregada de
                                            Holandeses
Lá vai uma barquinha cheinha de índios
Outra de degradados
Outra de pau de tinta
          Até que o mar inteiro
          Se acoalhou de transatlânticos
          E as barquinhas ficaram
          Jogando prenda coa raça misturada
          No litoral azul de meu Brasil.

História Pátria, Ascenso Ferreira 
HisH
Plantando mandioca, plantando feijão,
colhendo café, borracha, cacau,
comendo pamonha, canjica, mingau,
rezando de tarde nossa ave-maria,
Negramente...
Caboclamente...
Porguesamente...
A gente vivia.

De festas no ano só quatro é que havia :
Entrudo e Natal, Quaresma e Sanjoão !
Mas tudo emendava num só carrilhão !
E a gente vadiava, dançava, comia...
Negramente...
Caboclamente...
Portuguesamente...
Todo santo dia !

O Rei, entretanto, não era da terra !
E gente pra Europa mandou-se estudar...
Gentinha idiota que trouxe a mania
de nos transformar
da noite pro dia...

A gente que tão
Negramente...
Caboclamente...
Portuguesamente...
Vivia !

(E foi um dia a nossa civilização
tão fácil de criar!)

Passou-se a pensar,
passou-se a cantar,
passou-se a dançar,
passou-se a comer,
passou-se a vestir,
passou-se a viver,
passou-se a sentir,
tal como Paris
pensava,
cantava,
comia,
sentia...
A gente que tão
Negramente...
Caboclamente...
Portuguesamente...
                                                                                                                                         Vivia !

domingo, 14 de outubro de 2012

Finalista TopBlog 2012

Este blog, é finalista da edição 2012 do Prêmio TopBlog na categoria Literatura. 
Conto com seu apoio para continuar bem cotada no segundo turno.
Para votar basta clicar no selo dourado  que está ao lado direito  da tela. 
Vote, com seu(s) email(s), seu Twitter e com seu Facebook.

   Blogueira agradece.

1º domingo de Alexandre: História de uma guariba, Graciliano Ramos




              Um domingo destes, contou Alexandre aos amigos, vesti o guarda-peito e o gibão, cobri-me com o chapéu de couro e acendi o cachimbo, pus o aió a tiracolo, peguei a espingarda, resolvido a desenferrujá-la, se aparecesse caça graúda. Saí pelo terreiro, dei umas voltas nos arredores, andei, virei, mexi, afinal encontrei numa vereda, subi a ladeira dos preás e, sem encontrar bicho que merecesse uma carga de chumbo e um dedal de pólvora, cheguei à imburana, perto da cerca de ramos. Aí, como o calor apertasse, tirei o aió, o chapéu, o gibão e o guarda peito, estirei-me no chão e passei uma hora de papo pra cima, fumando e pensando nos aperreios deste mundo velho. Sentia-me bem triste,meus amigos, bem desanimado. Eu, homem de família, nascido na grandeza, criado na fartura, tendo o que precisava, do bom e do melhor,estava por baixo, muito por baixo:deitado em garranchos de folhas secas, a cabeça num travesseiro de couros dobrados. Fui-me amadornando, o cachimbo me caiu dos dentes, fiquei assim meio leso, nem adormecido nem acordado, vendo e ouvindo as coisas em redor e misturando tudo e casos antigos, De repente uns gritinhos finos me chamaram a atenção. Esfreguei os olhos, sentei-me, espalhei aquelas embrulhadas que se juntavam no meu interior. E enxerguei uma espécie de velho barbudo saltando, fazendo caretas, guinchando e assobiando, como se mangasse de mim. Atentando na visagem esquisita, reconheci uma guariba. Levei mais que depressa a lazarina ao rosto, mas não pude atirar: o animal sacudia-se danadamente, sem oferecer alvo.  Depois saltou  por cima de uma touceira de macambira e virou fumaça. Larguei-me atrás dela, andei meia hora examinando marcas de pés no chão, ramos quebrados, cabelos nas cascas dos paus.  Na verdade eu estava com pouca sorte naquele dia: os sinais  diminuíram tomaram diversas direções, sumiram-se completamente. Aí os gritinhos e os assobios voltaram. Pareciam vir de todos os lados, e eu não conseguia adivinhar onde se escondia a peste do bicho. Disse comigo, arreliado: - “Aqui há mandinga, na certa. Das coisas deste mundo nunca tive medo, com os poderes de Deus, mas em negócios de feitiçaria não entro. Fujo e entrego os pontos. Deve andar na vadiação pelo menos meia dúzia de guaribas. “uns risinhos safados me responderam pela direita e pela esquerda, por diante e por detrás. Fiz o pelo - sinal, rezei o credo, agarrei-me à Virgem Maria de dispus-me a entrar em casa. Aquela história começava a azucrinar-me. Ora sim senhores. Acreditem vossemecês que não acertei o caminho? É exato, achei-me numa atrapalhação, areado pela primeira vez na vida, completamente desorientado. Incrível, meus amigos, a coisa mais espantosa que até hoje me aconteceu. Ali pertinho de casa, com o Sol nas alturas, as árvores, as árvores iluminadas, tudo muito claro, perdido no mato, eu, um sujeito acostumado a varar capoeira no lombo de bicho brabo. Não podia haver disparate maior. Tenho vergonha de contar isso. Nunca me vi, antes ou depois, em situação igual. Se pudesse fumar, descansar, espairecer, arrumar as idéias que fervilhavam no espírito. Infelizmente o cachimba tinha ficado debaixo da imburana. E, sem chapéu, aguentando a quentura do meio-dia num verão puxado, sentia o miolo derreter-se e a vista escurecer.


História de uma guariba - final

 Decidi acompanhar os rastos da guariba, na esperança de que eles me levassem a alguma estrada. Não levaram. Tomei outro rumo. Trabalho perdido: uma confusão dos pecados. E, à toa, joguei-me para a frente, embirando-me nos cipós, furqndo-me nos espinhos, falando assim cá por dentro: “- Agora nem volto nem torço. Nesta marcha vou até o fim do mundo. Todo o caminho dá na venda.” Andei uma légua, pouco mais ou menos. Os assobios e os gritos desapareceram. Ri-me de mim mesmo, achando graça naquela trapalhada:”  -Isto não tem pé nem cabeça. Sonhei provavelmente, estive sonhando e variando. Peguei no sono, levantei-me sem acordar direito e corri de um lado para outro, vendo e ouvindo coisas que não existem.” Pensando assim, entrei num carreiro que me pareceu conhecido. Encontrei   uma cerca de ramos e um formigueiro de formiga branca, subi uma ladeira, alcancei o alto de um monte, onde topei a imburana. Bem. Respirei aliviado: era ali que eu tinha adormecido pela manhã. Estava perto de casa, a umas quinhentas braças ou menos. Procurei os couros que havia largado no chão e não percebi nem sombra deles. – “que diabo é isto¿” perguntei cá comigo. E comecei a arear-me de novo, julguei que talvez a imburana não fosse o pé de pau visto poucas horas antes. No meio da desordem enxerguei na terra folhas secas e gravetos espalhados. Tinha-me deitado ali, de papo para o ar, sem dúvida. Mas onde estavam os meus arreios? Era o que eu não podia saber. Tudo naquele dia me andava pelo avesso. Disse baixinho: -“Valha-me Nossa Senhora do Amparo. Com certeza desci hoje da cama com o pé esquerdo e não fiz as minhas orações m regra! Foi por isso que o demônio se soltou e buliu comigo.” Deitei-me, resolvido a descansar um instante, porque o calor não era deste mundo e a cabeça me ardia desesperadamente. Fechei os olhos, tornei a abri-los, chateado: aquele desconchavo todo e por fim o desaparecimento dos picuás não me deixavam sossegar. Nessa altura, descobri lá em cima, quase escondida na folhagem da imburana, a guariba escanchada num galho, vestida no guarda – peito e no gibão., com o chapéu na cabeça. Trazia o aio a tiracolo. Meteu a mão nele, tirou o corrimboque, bateu a pedra-de-fogo, acendeu o cachimbo, e pôs-se a fumar regalada, balançando-se. Os senhores já viram bicho fumar? Era cada baforada que ninguém imagina. Pafo! Pafo! Pafo! Perdi os estribos com semelhante desaforo, gritei: - “Seiscentos diabos!” E levantei a espingarda: queria botar as coisas em pratos limpos, saber se aquela infeliz era vivente de fôlego ou alma penada. Aí se deu um caso extraordinário. A guariba conheceu as minhas intenções, pregou-me o olho e falou deste jeito: - “Seu Alexandre, vamos fazer um negócio? -Vá criar seus filhos, que eu vou criar os meus.” Atirou-me lá de cima o cachimbo, o aió, o gibão, o guarda-peito e o chapéu. Fiquei assombrado, de queixo caído, nem tive coragem de atirar. Aceitei a proposta e deixei que a desgraçada fosse embora em paz. 


 em: Alexandre e Outros Heróis, Graciliano Ramos