sexta-feira, 29 de junho de 2012

Internauta comenta: Viagem ao Crepúsculo, Samarone Lima


Samarone Lima
     É um livro sobre a vida cotidiana em Cuba nos dias atuais.. O autor fez uma viagem á Ilha em 2009 e se depara com uma realidade bem diferente daquela expressa por setores da esquerda brasileira. Samarone resolve então escrever um livro com entrevistas de cubanos, que lutam duramente pela sobrevivência. Não foi preciso teorizar, pois a realidade falou por si só. E o que vemos é uma realidade muito triste. A carência de bens de consumo muito grande. E a renda é insuficiente para sobrevivência: cerca de $ 10 dólares mensais. Quem tem parentes nos Estados Unidos e recebe ajuda aí o padrão de vida melhora consideravelmente. Em Cuba nada funciona sem o suborno, propina. É a lei da selva. Algo me surpreendeu: quando o cubano conhece e confia no visitante aí despeja suas mágoas, fazendo profundas queixas sobre a ditadura dos irmãos Castro.      
     Teve um depoimento de um velho que foi comovente, dizendo, chorando, que não suportava mais o governo comunista dos Castro.
     Por que não fazem protestos, passeatas? aí é que está: prá todo lado tem os CDRs, membros do Comitê de Defesa da Revolução, os alcaguetes do regime, em cada quarteirão, em cada canto da Ilha. E dissidência é punida com anos de cadeia.
     Viagem ao crepúsculo é um livro que o leitor sente que valeu a pena a leitura. É Cuba em preto e branco.

Comentário de Nivaldo Silva - Brasília-DF, junho 2012 


Samarone Lima
Ed.:Grupo Paes
2ª edição 2012
R$40,00 (Liv.Cultura)



quinta-feira, 28 de junho de 2012

30 melhores livros infantis de 2011 - Revista Crescer


Um Amor de Botão
Texto e ilustrações: Pauline Carlioz
Tradução: Luciano vieira machado
Ed.Salamandra
Indicação: 5 anos
R$51,00

Telefone Sem Fio
Criação;Ilan Brenman e Renato Maricoti
Indicação: 3 anos
R$35,00

Bruxinha Zuzu
Ilustrações: Eva Furnari
Ed.Moderna
Indicação: 3 anos
R$29,50



Selvagem
Ilustrações:Roger Mello
Ed.Global
Indicação: 4 anos 

O Artesão
Ilustrações: Walter Lara 
Indicação: 4 anos
R$30,00

A Vida Secreta das Árvores
Texto: Gela Wolf e Sirish Rao 
Ilustrações: Dinga Bai,Bhajju Shyam e Ram Singh Urveti
Indicação: 8 anos
R$68,30

Sombra
Ilustrações:Suzy Lee
Ed.Cosac Naify
Indicação: 4 anos

As Lavareiras Fuzarqueiras
Texto: John Yeoman
Ilustrações: Quentin Blake
Tradução: Eduardo Brandão
Ed.: Cia. das Letrinhas
Indicação: 4 anos
R$30,50

Margarida
Texto e ilustrações: André neves
Ed.: Brinque Books
Indicação: 4 anos

Pato! Coelho
Texto: Amy Krouse Rpsenthal
Ilustrações: Tom Lichenheld
Tradução: Cassiano Elek Machado
Ed.:Cosac Naify
Indicação: 3 anos
R$37,00

É Um Livro
Texto e ilustrações: Lane Smith
Tradução: Julia Maritz Schwarcz
Indicação: 5 anos
R$29,50

Avô Conta Outra Vez
Texto: José Jorge Letria
Ilustrações; André Letria
ed.: Peirópolis
Indicação: 3 anos
R$40,00

A História do Leão Que Não Sabia Escrever
Texto e ilustrações: Martim Baltsc
Tradução: Monica Stahel
Ed.: WMF Martins Fontes
Indicação: 6 anos

10 Patinhos
Texto e ilustrações: Graça Lima
Ed.Cia das letras
Indicação: 2 anos
R$29,50

Que João é Esse? Que Maria é Essa?
Texto: Lalau
Ilustrações; Laurabeatriz
Ed.:Cia das Letrinhas
Indicação: 4 anos
R$31,50

Trudi e kiki
Texto e ilustrações:Eva Fumari
Ed.: Moderna
Indicação: 6 anos
R$28,50

Sábado Na Livraria
Texto: Sylvie Neeman
Ilustrações: Olivier Tallec
Tradução: Cassia Silveira
Ed.: Cosac Naify
R$45,00

O Que é Uma Criança
Texto e ilusteações: Beatrice Alemagna
Tradução: Monica Stahel
Ed.: WMF Martins Fontes

Mamãe é Um Lobo!
Texto; Ilan Brenman
Ilustrações: Gilles Eduardo
Ed.: Brinque Book
Indicação:3 anos
R$35,00 



quarta-feira, 27 de junho de 2012

Ah, Se A Gente Não Precisasse Dormir (Melhores livros infantis de 2011)

Neste livro, crianças de diversas idades foram convidadas para comentar obras do artista Keith Haring. As obras são organizadas em temas – símbolos, histórias, emoções, trabalho em grupo, imaginação e diversão – e, para cada uma, há depoimentos descontraídos de crianças, um texto apresentando o trabalho e perguntas que convidam os leitores a contarem suas interpretações dos desenhos de Haring. Um livro – como Keith Haring – repleto de leveza e ironia, inventividade e energia, que estimula a percepção visual e lida com a arte moderna de uma maneira contemporânea.(Do site da editora)

Ah Se a Gente Não Precisasse Dormir
Concepção: Désirée la Valette e David Stark
Ilustrações: Keith Haring
Ed.:Cosac Naify
Indicação: 6 anos
R$ 48,00 (Liv.Cultura)

Este é um dos 30 melhores livros infantis de 2011 escolhidos pela Revista Crescer.

Veja também:
A Lua Dentro do Côco
Ode a Uma Estrela
 O Livro Redondo
O Que Tem Dentro de Sua Fralda  
Uma Lagarta Muito Comilona 
Yumi

Um Dia Aziago,Felício dos Santos


     Se a nossa religião não declarasse ser isso uma superstição, eu acreditaria em dias aziagos. Realmente há certos dias em que o caiporismo nos persegue tanto, que parecem influenciados por alguma coisa oculta...
    Assim dizia o Alberto a alguns amigos ao redor de uma mesinha de café, ali na rua S.José, junto ao Círculo Católico.
     Ora, ora, disse Anísio. Você crê nessas coisas?
     - Pois eu creio em dias aziagos: para mim, são todos, de Ano Bom a S.Silvestre, disse o F.B dando largas risadas à sua neurastenia  pessimista.
    - E você,Rômulo, que pensa a esse respeito?
    - Eu?  e sorriu com seu ar de beatitude sincera.
Eu não admito que um bom cristão não se conforme com a vontade de Deus. Sendo esse  nosso dever sempre, não há dias aziagos: há dias de provações que devem ser aceitos com resignação, se não, com alegria... Porque às vezes o caiporismo, bem analisado, é cômico.
     - Sim, não há dúvida, mas...
    -Ora, Alberto, está você ansioso por nos contar alguma historieta de dia aziago...
    - Historieta não, é a verdade. Vou contar-lhes o que sucedeu. Não me lembro mais que dia era, mas sim que ao levantar-me da cama, bem cedo, dei uma forte canelada num caixote, e vinha gemendo quando entrava a lavadeira, a velha Vicência.
    - “Eh! Eh! Disse ela, tome sentido que hoje é dia aziago...” Não sei por quê, aquilo me impressionou: resolvi começar o dia ouvindo missa.
    Boa idéia, disse Rômulo.
    -Fui à Glória. Ao sair da igreja, vi à porta, uma senhora bem vestida, conversando com outra, e tendo na mão uma grande bolsa.  Eu tinha visto pregado na parede, um aviso, que as esmolas nesse dia seriam para o Bom Pastor. Fui logo metendo a mão na bolsa de senhora meu níquel. Ela assustou-se com o movimento que fiz: recuou um pouco, receando que eu tivesse querido roubar-lhe alguma coisa, e ficou a olhar-me boquiaberta e com os olhos arregalados.
    - Pus um níquel, disse eu, é esmola.
    - Um níquel! E, abrindo a bolsa, lá o achou.
    - Ora essa, seu brejeiro, pensa que sou alguma mendiga?
    - Esmola para o Bom Pastor.
    - Ah! E que tenho eu com o Bom Pastor? Já se viu impertinência igual?
        Foi logo chegando muita gente a indagar... Eu já estava com medo que enchessem , quando,por felicidade, acudiu a senhora que estava esmolando para o Bom Pastor e recolheu o masinado níquel.
    - Oh! Disse Cabral, essa é mesmo de quem anda no mundo da lua.
    - Sim, sim, mas por que andam agora as senhoras com essas bolsas enormes? Mas, vamos adiante.
   Saindo da Igreja, fui à estação da Estrada de Ferro tomar um trem de subúrbios. Precisava chegar cedo à casa de uma pessoa de quem esperava uma proteção num negócio que nisso dependia. Estava eu na entrada da estação quando chegava a multidão de passageiros dos subúrbios. Dirige-se a mim uma senhora, e, apontando para um bonde parado, perguntou-me com ar de provinciana recém-chegada.
    - Isto é barca?
    - Não, senhora, isto é bonde.
    - Ora, quer mangar comigo ? Pergunto se... é... barca disse acentuando as palavras.
    - Minha senhora, bem se vê que não conhece o Rio de Janeiro. Eu também sou de Minas, por que hei de caçoar da senhora¿ Isto não é barca: é bonde...
    -E esta? Não seja malcriado... Pergunto qual destes que estão chegando é barca?
    - Nenhum, minha senhora, são todos bondes, aqui não há barcas. As barcas são...
    - Que desaforo! Pois eu não sei o que são bondes?
O senhor é muito atrevido querendo meter à bulha uma senhora séria. Sabe com quem está falando¿
    E começou a levantar a voz fazendo afluir gente, e até um guarda civil. Este ia se dirigindo a mim, com ar ameaçador, ouvindo a senhora gritar e levantar o guarda chuva  querendo me agredir. Com dificuldade consegui explicar que não tinha compreendido que a mulher queria saber qual era o bonde que ia às barcas.
    -Então, você não entendeu logo o engano? disse o Anísio.
    - Não, palavra. Se a mulher não tivesse parecido uma mineira simples, eu não teria querido prestar-lhe uma informação de puro obséquio.
   -Mas a influência agourenta  continuou. Tomei o trem e cheguei à casa da pessoa a quem eu fora recomendado, e que pouco conhecia. Ia, portanto, preparando a lábia para ser bem acolhido.
    A casa tinha uma grande varanda: fui aí recebido por uma criada que levou o meu cartão ao patrão.
    Eu sabia que a senhora estava muito doente e, por isso, não estranhei que ele não viesse logo.
   Pus-me a passear no jardim.
   Ao cabo de uma meia hora, entrou pelo portão um carregador trazendo caixão de defunto que colocou na varanda...
    -E esta! Disse eu aos meus botões. Cheguei em mau dia... Defunto em casa!...
   -entrei de novo na varanda para tomar o chapéu, disposto a partir, quando abriu-se a porta e apareceu o dono da casa, aconchegando ao pescoço a gola do paletó desabotoado: perguntou-me o que desejava.
    -Desculpe, disse eu, virei outro dia...
   - Por que não hoje?
    -Estou vendo que há incômodo grave em casa e...
   Olhando eu o caixão, o homem também se voltou e deu com vista nele...Ficou aterrado!
       -Que é isto¿ meu Deus! Quem trouxe isto aqui?
Que horror! E minha mulher passando tão mal! Que agouro... Oh! Senhor, que história é esta¿
E, tremendo, aproximou-se do caixão. Leu a nota que vinha pregada, e pôs-se a gritar.
    -Ó Sebastião, ó Miquelina, corram todos. Vá o senhor também, por favor, chamar o carregador. Não é para aqui.  O número 60 antigo é no fim da rua. Ora, valha-me Deus!
    Saí correndo, mas achando o carregador, tratei de tomar o trem e voltar para a cidade.
   -Realmente, disse Plácido, foi muito caiporismo!
    Muito¿ disse Alberto, pois ainda houve mais. Eram 11 horas, dirigi-me à repartição na qual eu era supranumeráro. Lá chegando, soube que tinha sido dispensado por falta de verba...


Vocabulário desta crônica:
Caiporismo – s.m.: azar, má sorte
Neurastenia – s.f.: mau humor,irritabilidade, neurose.
Beatitude – s.f.: felicidade, tranqüilidade.
Brejeiro - adj.: vadio, malicioso
Impertinência - s.f. atrevimento.
Encher- v. amolar, chatear.
Malsinado- adj. De mau agouro, que teve mau destino
Provinciano – adj. Que é do interior
Mangar- v.t.: zombar
Meter à bulha- colocar em má situação, em maus panos, em confusão.
Afluir –v.t.: ajuntar,chegar,aglomerar.
Agourento  adj.: de mau agouro, que traz má sorte.
Aterrado – aterrorizado, cheio de terror.
Supranumerário – adj. Que está a mais.

terça-feira, 26 de junho de 2012

A Lua Dentro do Côco (Melhores livros infantis de 2011)

Lançado em 2010 pela editora Projeto, o livro apresenta através de versos uma antiga história chinesa, que se torna ainda mais encantadora devido às ilustrações de Guazzelli e o projeto gráfico de Marcio Koprowski, que dá movimento a poesia.
Macaquinho tem o coco,
Tem o coco e não é bobo,

E no coco o macaquinho
Leva a lua de mansinho.

Lua dentro de um coco,
Coco em cima do coco,

Cabeça do macaquinho
Andando devagarinho,

Lua leve, coco pesado,
Água que espirra de lado,

Cada bugio quer a lua
Que flutua, que flutua.

- Me dá a lua, me dá a lua,
Ela é minha e não sua

A Lua Dentro do Côco
Texto: Sérgio Capparelli
Ilustrações: Guazzelli
Ed.: Projeto
Indicação: 5 anos
R$42,00

Este é um dos 30 melhores livros  infantis de 2011 escolhidos pela Revista Crescer

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Ode a Uma Estrela, Pablo Neruda (Melhores livros infantis de 2011)

Trata-se de uma das mais belas e inspiradas adaptações da obra do poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973) para o universo infantil. A poesia aborda o aprisionamento de uma estrela e a dificuldade em manter o furto em segredo, dado o brilho intenso do corpo celeste.

Ode a Uma Estrela
Texto:Pablo Neruda
Ilustrações; Elena Odriozola
Tradução: Carlito Azevedo
Ed.Casac Naify
Indicação: 7 anos


Este é um dos 30 melhores livros infantis de 2011 escolhidos pela Revista Crescer.

domingo, 24 de junho de 2012

Segunda-feira poética: Estudantes, Cecília Meirelles


Derramaram-se as estudantes pela praça,
num lampejo de sedas e braceletes;
cestas de flores,
tapete aberto,
caleidoscópio.

Saltam as tranças reluzentes,
desenrolam-se os véus,
ofegam as blusas em cores de pedras preciosas

O vento incha e enrodilha os vastos calções frazidos,
plasma nos corpos adolescentes panos tenuíssimos.
E o sol ofusca os negros olhos cingidos de colírio.

Grande festa na rua matinal,
sob árvores imensas,
entre tabuleiros de bétel
e grãos amarelos.

As estudantes falam com gestos delicados,
com atitudes de estátua,
enleadas em pulseiras,
e nas mãos, com ideogramas de dança,
levantam cadernos, esquadros,
num bailado novo:

e medem a vida
e descrevem o universo.
                                                      Que mundo construirão?

Veja também:
Segunda-feira poética: 

A Amiga Deixada 
Cantiguinhas 

Crônica cantada: Quem me levará sou eu - Paula Fernandes (Dominguinhos)





Amigos a gente encontra
O mundo não é só aqui
Repare naquela estrada
Que distância nos levará
As coisas que eu tenho aqui
Na certa terei por lá
Segredos de um caminhão
Fronteiras por desvendar
Não diga que eu me perdi
Não mande me procurar
Cidades que eu nunca vi
São casas de braços a me agasalhar
Passar como passam os dias
Se o calendário acabar
Eu faço contar o tempo outra vez, sim
Tudo outra vez a passar
Não diga que eu fiquei sozinho
Não mande alguém me acompanhar
Repare, a multidão precisa
De alguém mais alto a lhe guiar
Quem me levará sou eu
Quem regressará sou eu
Não diga que eu não levo a guia
De quem souber me amar

sexta-feira, 22 de junho de 2012

O Livro Redondo, Caulos (Os Melhores livros infantis de 2011)

Bola, balão, laranja – tudo cabe numa caixa quadrada, mas são redondos como o nosso mundo – como o nariz do palhaço, a gema do ovo, a roda da bicicleta, a lua cheia no céu... (sinopse skoobs) 

O Livro Redondo
Texto e Ilustrações: Caulos
Indicação: 4 anos
 Ed.Rocco
R$29,00 (Liv.da Travessa)

Este é um dos 30 melhores livros infantis de 2011 escolhidos pela Revista Crescer.
Leia do mesmo autor: O Livro Quadrado

Veja também:
YUMI

quinta-feira, 21 de junho de 2012

O Que Tem Dentro de Sua Fralda? (Melhores livros infantis de 2011)

Ratinho é um personagem muito curioso e nada escapa dele, nem mesmo as fraldas de seus amiguinhos. Ao final da história ele apresenta o penico para eles, e todos deixam suas fraldas para começar a usá-lo também.
O texto é fácil e estimula as crianças a abrirem as abas e descobrirem o que há lá dentro.

O Que Tem Dentro de Sua Fralda?
Texto e Ilustração de:Guidovan Genechen
Tradução:Vania Maria Lange
Ed.: Brinque Book
Indicação: 1 ano
R$39,00 (Liv.Saraiva)  
Este é um dos 30 melhores livros infantis de 2011 escolhidos pela Revista Crescer


Veja também:
Uma Lagarta Muito Comilona

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Quarta-feira é dia de :No circo, Aluízio de Azevedo

     Terminava a primeira parte do espetáculo quando D.Olímpia entrou no circo pelo braço do pai.
     Havia uma grande enchente, o público vibrava ainda sob a impressão do último trabalho exibido,que devia ter sido maravilhoso, porque o entusiasmo explodia por toda a platéia e de todos os lados gritavam ferozmente: "Scott! À cena Scott" Dois sujeitos de libré azul com alamares dourados conduziam para o interior do teatro um cavalo que acabava de sair. Muitos espectadores, de chapéu no alto da cabeça, estavam de pé e batiam com a bengala nas ostas das cadeiras; das galerias trovejava barulho infernal e, por entre aquela descarga atroadora, só o nome do idolatrado acrobata sobressaia exclamado com delírio por mil vozes:
     "Scott" Scott"
     Olímpia sentiu-se aturdida; o pai, no íntimo, arrependia-se de lhe ter feito a vontade, cansentindo em levá-la ao circo; mas o médico recomendara tanto que não a contrariassem...  e ela havia mostrado tanto empenho no capricho de ir, aquela noite, ao politeama...
     De repente, um grito uníssono partiu da multidão. Estalaram as palmas com mais ímpeto; choveram chapéus; arremessaram-se leques e ramalhetes. Scott havia aparecido.
     - Bravo! Bravo,Scott!!
     E os aplausos recrudesceram ainda.
     O ginasta que entrara de carreira, parou em meio da arena, aprumou o corpo, sacudiu a cabeleira anelada e, voltando-se para a direita e para a esquerda, tirava beijos sorrindo, no meio daquela tempestade gloriosa. Depois de agradecer, estalou graciosamente os dedos e retirou-se de costas a dar cambalhotas no ar.
     Desencadeou-se de novo a fúria dos seus admiradores, e ele teve de voltar à cena ainda uma vez, mais triunfante.
     Olímpia, entretanto,com a cabeça pendida para a frente, o olhar fito, os lábios entreabertos, dir-se-ia hipnotizada, tal era a sua imoblidade. O pai tentou chamá-la à conversa; ela respondeu por monossílabos.
     - Queres... vamos embora.
     - Não.
     Na segunda parte do espetáculo, a moça parecia divertir-se. Não despregava a vista de Scott, a quem cabia a melhor parte dos trabalhos da noite.
     O mais famoso era a sorte dos voos. Consistia em dependurar-se ele a um trapézio muito alto, deixar-se arrebatar pelo espaço e, em meio ao trajeto, soltar as mãos, dar uma cambalhota e agarrar-se a um outro trapézio que o esperava do lado oposto. Cada um destes saltos levantava sempre uma explosão de "bravos". Scott havia feito já, por duas vezes o seu voo arriscado; faltava-lhe o último e o mais perigoso. Diferencia-se este dos primeiros em que o acrobata, em vez de lançar-se de frente,tinha de ir de costas e voltar-se no ar, para alcançar o trapézio fronteiro. O público palpitava ansioso até que Scott afinal assomou no alto do trampolim armado nas torrinhas, junto ao teto. Cavou-se logo um fundo silencioso nos espectadores. Os corações batiam com sobressalto; todos os olhos estavam cravados na esbelta figura do artista, que, lá muito em cima, parecia, nas suas roupas justas de meia, a estátua de uma divindade olímpica. Destacava-se-lhe bem o largo  peito hercúleo guardado pelos grossos braços nus, emcontraste com os rins, mais estreitos que suas nervosas coxas, cujos,músculos de aço se escapelavam ao menor movimento do corpo.
     Com uma das mãos segurava o trapézio, enquanto com outra limpava  o  suor da testa. Depois tranquilamente, sem o menor abalo prendeu o lenço na cinta bordada de lantejoulas e deu volta ao corpo. Ouviu-se a respiração ofegante do público. Scott sacudiu o braço do trapézio, experimentou-o, puxou-o afinal contra o colo e deixou-se arrebatar de costas. Em meio do circo desprendeu-se, gritou "hop!" deu uma volta no ar e lançou-se  de braços estendids para o outro trapézio. Mas o voo fora mal calculado e o acrobata não encontrou onde agarrar-se. Um terrível bramido como cem tigres a que rasgassem a um só tempo o coração, ecoou por todo o teatro.Viu-se a bela figura de Scott, um instante, solto no espaço, virar para baixo a cabeça e cair na arena, estatelada, com pernas abertas.
     O recinto do circo encheu-se logo. Nos camarotes, mulheres desmaiaram em gritos; algumas pessoas fugiam espavoridas, como se houvesse um incêndio. Ninguém mais se entendia; nas torrinhas, passavam uns por cima dos outros, numa avidez aterrada, disputando ver se conseguiam distinguir o acrobata. Este, todavia, sem acordo e quase sem vida, agonizava por terra, a vomitar sangue. Olímpia, lívida, trêmula, estonteada, quando deu por si, achou-se, sem saber como, ao lado do moribundo. ajoelhou-se no chão, tomou-lhe a cabeça no regaço, vergou-se toda sobre ele, procurando sentir nas faces frias o derradeiro calor daquele corpo escultural.
     Scott teve um estremecimento geral do corpo, contraiu-se,vergou a cabeça para trás, volveu para a moça os seus límpidos olhos comovidos agora turvados pela morte, cerrou os dentes e num arranco supremo soltou um gemido derradeiro. E o corpo do acrobata escapou das mãos finas de Olímpia, inanimado. 

terça-feira, 19 de junho de 2012

Uma Lagarta Muito Comilona ( melhores livros infantis de 2011).


 O autor conta a divertida história de uma lagarta gulosa que come de tudo. Come até as páginas do livro! Em um livro cheio de cores e muito divertido, Eric Carle nos mostra a semana da lagarta. Por meio de repetições, este livro ajuda a criança a memorizar os dias da semana e os números de 1 a 5.
Uma Lagarta Muito Comilona, é um dos 30 melhores livros infantis de 2011 escolhidos pela revista Crescer.
Textos e ilustrações: Eric Carle
Tradução: Miriam Gabbai
Ed: Kalandrake
Indicação: 2 anos
R$ 26,90 (Liv. Saraiva)


Veja também:
Por Que O Elvis Não Latiu?
YUME
O Que Você Tem Dentro de Sua Fralda? 

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Yumi, (melhores livros infantis de 2011)


Sabem aquelas bonequinhas de madeira, tradicionais do Japão? as Kobeshi?  Pois bem, Yumi é uma delas. Yumi, vai contando sua história e mostrando as tradições japonesas: das comidas, das roupas, dos brinquedos e bichinhos de estimação num livro primoso com páginas dobráveis e belas ilustrações.

YUMI, é um dos 30 melhores livros infantis escolhidos pela revista Crescer e que neste ano está em sua 7ª edição.
Textos e ilustrações: Annelore Parot
Tradução: Eduardo Brandão.
Ed: Cia das Letrinhas
R$39,50 (Liv. Saraiva)


Veja também:
Por Que O Elvis Não Latiu?

Segunda-feira poética: Jogos Frutais, João Cabral de Melo Neto

 
De fruta é tua textura
e assim concreta;
textura densa que a luz
não atravessa.
Sem transparência:
não de água clara, porém
de mel, intensa.

Intensa é tua textura
porém não cega;
sim de coisa que tem luz
própria, interna.
E tens idêntica
carnação de mel de cana
e luz morena.

Luminosos cristais
possuis internos
iguais aos do ar que o verão
usa em setembro.
E há em tua pele
o sol das frutas que o verão
traz no Nordeste.

É de fruta dó Nordeste
tua epiderme:
mesma carnação dourada.
solar e alegre.
Frutas crescidas
no Recife relavado
de suas brisas.

Das frutas do Recife.
de sua família.
tens a madeira tirante.
muito mais rica.
E o mesmo duro
motor animal que pulsa
igual que um pulso.

De fruta pernambucana
tenso animal,
frutas quase animais
e carne carnal.
Também aquelas
de mais certa medida,
melhor receita.

o teu encanto está
em tua medida,
de fruta pernambucana,
sempre concisa.
E teu segredo
em que por mais justo tens
corpo mais tenso.

Tens de uma fruta aquele
tamanho justo; .
não de todas. de fruta
de Pernambuco.
Mangas,mangabas
do Recife. que sabe
mais desenhá-las.
És um fruto medido.
bem desenhado;
diverso em tudo da jaca,
do jenipapo.
Não és aquosa
nem fruta que se derrama
vaga e sem forma.

Estás desenhada a lápis
de ponta fina.
tal como a cana-de-açúcar
que é pura linha.
E emerge exata .
da múltipla confusão
da própria palha.

És tão elegante quanto
um pé de cana,
despindo a perna nua
de dentre a palha.
E tens a perna
do mesmo metal sadio
da cana esbelta.

o mesmo metal da cana
tersa e brunida
possuis, e também do oiti,
que é pura fibra.
Porém profunda
tanta fibra desfaz-se
mucosa e úmida.

Da pitomba possuis.
a qualidade
mucosa, quando secreta,
de tua carne.
Também do ingá,
de musgo fresco ao dente
e ao polegar.

Não és uma fruta fruta
só para o dente,
nem és uma fruta flor,
olor somente.
Fruta completa:
para todos os sentidos,
para cama e mesa.



domingo, 17 de junho de 2012

Por Que o Elvis Não Latiu? (melhores livros infantis de 2011)

Primeira pergunta que o garoto faz quando, entra em casa e seu cachorro não late nem lhe abana o rabo: Por que o Elvis não latiu?  Robertson Frizeiro é quem, num primoroso livro, responde à pergunta.  A morte de um animal de estimação apesar de tão doída é uma realidade e o autor traz de forma poetica e acessível a vida real tanto para pais quanto para as crianças. 

Por Que O Elvis Não Latiu é um dos 30 melhores livros infantis escolhidos pela revista Crescer e que neste ano está em sua 7ª edição.

Texto: Robertson Frizeiro
Ilustraçoes: Tayla Nicoletti
Ed.: 8Inverso
R$20,40 (Liv.Saraiva) 


Veja também:
YUMI

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Aulinha



 já inalei muita fumaça de lamparina, mais valeu apena.


 Aos mais apressados uma sugestão: toda vez que você escrever MAIS numa frase, verifique  a correção trocando o advérbio mais por menos. Se a frase fizer sentido, estará correta. Vamos ver?

Já inalei muita fumaça, MENOS valeu a pena.   A frase faz sentido?  Não faz. Então está escrita errada.
 
 Vamos corrigir?
Já inalei muita fumaça de lamparina, MAS valeu a pena

A frase copiada do facebook, contém outro erro: apena.A expressão é valer a pena.

A frase correta é, portanto:

Já inalei muita fumaça de lamparina, mas valeu a pena. 
 

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Quarta-feira é dia de: Olhos de Preá, Carlos Drummond de Andrade

     Nem tudo no ano escolar foi pichação de parede, pedra jogada na testa da polícia.Quem era de estudar estudou, fez pesquisa, juntou coisas para provar. Aí organiza-se uma exposição, mas que seja bem bacana.Sem ar de museu antigo, objetos falando, contando o esforço de aprender e transmitir, a alegre descoberta da natureza pela moçada.
     A turma do científico¹ quer lá saber de apresentar só desenhos e fotos. Durante o ano, andou por Manguinhos e Butantã², trabalhou em laboratórios, adquiriu saber de experiências feito. Então vai mostrar os soros, as vacinas, os pequenos animais empalhados que documentam a praxis, como gosta de dizer um líder da turma.
     - É pouco. A gente tem de trazer animais vivo, para demonstração na hora. Do contrário, vão pensar que não foi a gente que fez essa coisada toda aí.
     -Claro. O negócio é partir para a vivissecção³ diante do pessoal da velha guarda.
toca a procurar cobaia, as parece que as cobaias, não participando do interesse pelas ciências experimentais, entraram em recesso neste verão. Cobaia adora ser tratada de porquinho-da-índia e viver em paz no jardim à beira d'água; mas se chama do cobaia, vê nesse nome conotações ingratas, e dá no pezinho.
     Os rapazes procuraram em vão. Até que um se lembrou:
     - Preá é a mesma coisa.
     - Quem não tem cobaia caça com preá - concordaram, abusando da preposição.
     E preá, por sorte, não foi difícil de arranjar. Um aluno que mora em Jacarepaguá comprou um, de um vendedor de bichos caçados, Deus sabe onde. Levou-o para casa, telefonou para a turma, decidiu-se que o preá seria a grande vedeta, popr ocasião de visita do Governador.
     - O ou a? No livro de Dona Flávia sobre mamíferos. Preá é feminina, como a sabiá do Chico(4).
     - O gênero do substantivo não importa, importa é o sexo. É preá macho ou fêmea?
     Era fêmea. E uma doçura de fêmea, no pelo, nos olhos, sobretudo nos olhos. A preá olhava para os rapazinhos, para a casa, para o mundo, com ar de quem acha tudo inofensivo e bom de existir. era uma preá desejosa de acabar com o muro erguido entre os seres chamados racionais e os seres chamados irracionais, como se todos, preás e não preás, fossem da mesma e única família possível no mundo, uma infinita, solidária família.
     - Afasta o diabo dessa diabinha pra lá - pediu um colega.
     - Assim, como    é que a ciência pode avançar?
     - Eu não me deixo levar por olhinhos de preá - repeliu o futuro grande cirurgião de transplantes.
     - Comigo é no interesse da humanidade. A preá está ótima, novinha, músculos tenros, a demonstração vai ser uma beleza.
     - Diz-que a carne dela,   nessa idade, é uma coisa.
     - E você tem coragem de cozinhar e comer uma preá destinada ao serviço da ciência, bandido?
     Se as opiniões se dividiam, a graça era uma só, e tão evidente queaté Zerbini em potencial acabou reconhecendo que cortar um bichinho assim talvez não fosse o melhor número da exposição. Aqueles olhos...
     - Rosados, você já viu uma tonalidades dessas?
     - Rosados e luminosos.
     - Luminosos e confiantes - descobriu a moça.
     - Isso! Eles confiam na gente. Pessoal, não pode ser! - bradou o comprador da preá. E peremptório:
     - Essa não passa pelo facão de jeito nenhum, e vai se chamar Andréia, como nossa coleguinha, que descobriu o segredo dos olhos dela.
     Eis aí porque, ao visitar a exposição dos alunos do Colégio de Aplicação da Universidade da Guanabara(5), o governador Negrão Lima não poderá apreciar a técnica dos jovens vivisseccionistas. Os olhos a preá venceram a parada contra a ciência. 
(O Poder Ultra Jovem - Ed. José Olímpio 1974)

Notas do blog:
(1) - Manguinhos e Butantã - Clique para conhecer  os dois maiores centros de estudos e pesquisas científicas do pais.
(2) - Três últimos anos escolares que antecediam o vestibular. Tinha aulas específicas para quem cursaria faculdade de ciencias da saude, exatas e humanas.
(3) - Vivissecção - operação feita em animais vivos,para estudo de certos fenômenos fisiológicos.
(4) - Refere-se à música "Sabiá" - "que eu hei de ouvir cantar uma sabiá "-
(5) - Estado da Guanabara existiu onde hoje é o território do município do Rio de Janeiro de 1960 até 1975