segunda-feira, 30 de abril de 2012

Segunda-feira poética: Matutando o que é você, César Feitoza

Matutando o que é você
Em meu quarto eu estava tão demente
Numa tarde sem ter o que fazer
Em você eu pensei tão docemente
E sobre o que eu queria te dizer
Sobre como eu, matuto, poderia
Declarar de uma vez o que eu sentia
Dei por mim: só faltava o que e o quando
Pois o como seria versejando
Um rimar matutando o que é você
Você é caminhão de tripa assada
Com mais duas carretas de farinha
Você é acordar de manhãzinha
Escutando o cantar da passarada
Você é o amor de madrugada
Provocando a insônia dos amantes
Você é o fervor dos viajantes
A buscar o abraço da chegada
Você é comer queijo e mel de engenho
Sob a fresca sombrura do umbuzeiro
Você é projeção mental do cheiro
Da lembrança mais bela que eu tenho
Você é a alegria em cor brejeira
Morenando demais meus pensamentos
Você é a tristeza em meus lamentos
Como um pátio vazio ao fim da feira
Você é sussurrar bem de mansinho
Num ouvido palavras de amor
Você é o cantar do aboiador
Indicando à boiada o caminho
Você é meu calor no inverno frio
Chuvarada na terra esturricada
Saparia cantando na invernada
De paixão é sentir o arrepio
Você é querer bem de bem querente
Cafungado fungado no cangote
Você é a razão desse meu mote
És de mim tão igual e diferente
Você é a lapada com caldinho
Que eu tomo pensando em você
É paixão que acalento sem querer
Pois não queres seguir o meu caminho
Você é tudo aquilo que eu diria
E não disse talvez por esquecer
Você é meu espelho em outro ser
Espelhando de bom o que eu queria
Você é histeria e é prazer
Ao se ver à primeira vez o mar
Sua luz me inspira a rimar
Um rimar matutando o que é você.

Agradeço a colaboração do professor César Feitoza que me enviou esta poesia.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Para Inglês Ver, Fernando Sabino

    Tenho de ir a bordo de um navio inglês despedir-me de um amigo. Pois nada mais fácil: basta passar na Polícia Marítima e tirar a respectiva licença.
    A Polícia Marítima é ali na estação rodoviária: pego o elevador e subo até lá. Encontro uma funcionária tranquila e muito boazinha à minha espera. Está ali para isso, inteiramente às minhas ordens. É paga para servir-me.
    -Desejo ir a bordo de um navio - explico.
    - O senhor tem carteira de identidade?
    Tenho: já fui fichado e sujei os dedos de tinta, como um criminoso qualquer - em Minas Gerais, já se vão alguns séculos. O retratinho positivamente é de outra pessoa: um jovem magro, de olhos assustados para a objetiva e para a vida.
    A moça pega a minha carteira, olha, deixa em cima da mesa e então vai no fundo da sala consultar um sujeito, provavelmente chefe dela. Ao fim de meia hora de consulta começo a perder a paciência e vou até lá para saber qual é o embaraço. Não há embaraço algum, me explicam com um sorriso, estamos apenas conversando.
    - Escuta essa - diz o chefe, que é um sujeito jovial, pondo-me a mão no ombro.
    Tenho de escutar, já com o riso engatilhado para qualquer eventualidade, a última do português.
    Não é boazinha?
    Ótima. Mas por falar nisso, o navio...
    Outra anedota - quem conta desta vez é o funcionário magro que estava debruçado no balcão e que veio de lá muito lampeiro para renovar o repertório. Espero com paciência o final, um final idiota, para introduzir com jeito a minha humilde reividicação:
    - Vocês me desculpem, mas o navio vai partir...
    - É isso mesmo, o navio - volta-se a moça solícita: - como é o nome?
    - Do navio?
    - Não, o seu.
    Digo meu nome, ela toma nota num papelzinho, depois de vacilar um pouco: este nome não me é estranho... Já não sei por que diabo ela pediu minha carteira de identidade, que ficou la, em cima da mesa.
    - Agora o senhor tem de ir à Inspetoria.
    Apanho a carteira, a papeleta que ela me estende, agradeço e saio. Ao fundo o chefe e o magrelo ficam trocando tapinhas, às gargalhadas.
    A Inspetoria é na Avenida Rodrigues alves. Precipito-me escada abaixo, saio correndo pela rua: daqui a pouco o navio vai mesmo sair, já estou ouvindo um apito. Na Inspetoria um velho mal-encarado examina o papelzinho, e, sem levantar os olhos, pergunta se trouxe selo. Não, não trouxe, o senhor me desculpe mas eu não sabia que era preciso trazer selo. O rapazinho da outra mesa espicha o pescoço: o senhor pode comprar ali na Alfândega, recomenda-me. Leve trocado: se não tiver, convém trocar antes no bar da Praça Mauá.
    - Lá só vendem até as duas e meia - torna o velho:  - O senhor tem de ficar esperto, são quase duas e meia.
    Fico esperto, saio em disparada para comprar o selo, volto botando a alma pela boca.
    - Agora tem de ir ao segundo andar para o carimbo. Enfrento uma fila em frente ao guichê, porque parece que todo mundo do Rio de Janeiro resolveu vir tirar licença para entrar em navio.
    - Licença para navio? Não é aqui não: ali no outro guichê.
    No outro guichê não tem ninguém. Pergunto ao funcionário dependurado ao telefone quem é que vai carimbar essa joça - e lhe estendo o papel.
   - Me dá aqui que eu mesmo carimbo.
   Pega o papel e, sem largar o telefone, estende um braço quilométrico por entre a grade do guichê, apanha o carimbo, dá uma carimbada decidida.
    - Pronto. Agora só falta a assinatura do inspetor.
    Isso mesmo: eu ia me esquecendo do mais importante, que é justamente a assinatura do inspetor.
Que é no primeiro andar. Saio trotando pelas escadas até o primeiro andar, conformado com a minha sorte: e se o inspetor tiver saído para tomar café? Melhor desistir do navio logo de uma vez, também por que diabo faço tanta questão de ir a bordo? Por que não me despedi de meu amigo ontem na casa dele?
    Mas o inspetor está, parece até que à minha espera. Alegre, bonachão, nunca ví ninguém assinar um papel com tamanha rapidez:
    - Pronto: com isso o senhor entra no navio que quiser.
    - Licença assinada, selada, carimbada e sacramentada, saio correndo debaixo do sol quente até o navio. Não, ainda não partiu: está lá me esperando, posso ficar tranquilo.
    E então, não fosse inglês o navio e ainda assim chega é a hora de verificar a existência de alguma coisa feita para inglês ver: ninguém - absoluta, total, completa e definitivamente ninguém, nem inglês nem brasileiro - me pede que exiba qualquer espécie de licença para subir a bordo.

(in A Companheira de Viagem,Record 1965)

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Segunda-feira poética: Soneto, Florbela Espanca

Leia sobre a autora, clicando aqui
Para aqueles fantasmas que passaram,
Vagabundos a quem julguei amar,
Nunca os meus braços lânguidos traçaram
O voo dum gesto para os alcançar ...

Se as minhas mãos as garras se cravaram
Sobre um amor em sangue a palpitar...
- Quantas panteras bárbaras mataram
Só pelo raro gosto de matar!

Minha alma é como a pedra funerária
Erguida na montanha solitária
Interrogando a vibração dos céus!

O amor dum homem? - Terra tão pisada,
Gota de chuva ao vento baloiçada...
Um homem? - quando eu sonho o amor dum Deus! ...

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Quarta-feira é dia de: A Mala, Sergei Dovlátov

Na Seção de Vistos e Registros, a cadela me diz:
- Cada passageiro tem direito a três malas. Esta é a norma. É a instrução especial do ministério.
Não fazia sentido contra-argumentar. Mas, é claro, contra-argumentei:
- Só três malas?! E o que fazer com as coisas?
- Por exemplo?
- Por exemplo, a minha coleção de carrinhos de corrida.
- Venda - replicou, sem dar atenção, a burocrata.
Depois acrescentou, franzindo um pouco a testa:
- Se o senhor não estiver satisfeito com alguma coisa, redija uma reclamação.
- Estou satisfeito - digo.
Depois da prisão, eu estava satisfeito com tudo.
- Pois então seja mais moderado...
Em uma semana já havia feito a mala. E, como se verificou, bastava-me apenas uma única mala.
Por pouco não chorei de dó de mim mesmo. Tenho 36 anos. Durante 18 deles, trabalhei. Gasto tudo o que ganho. Tenho, como descobri, alguns bens. E o resultado é uma mala. Ainda que de tamanho bem modesto. Quer dizer que sou um miserável? Como isso foi acontecer?!
Livros? Mas eu só tinha basicamente livros proibidos. Daqueles que não deixam passar na alfândega. A solução foi distribuí-los entre amigos, com o chamado "arquivo".
Manuscritos? Já mandei faz muito tempo para o Ocidente, por meios secretos.
Mobília? A escrivaninha, consignei-a numa loja de móveis usados. A cadeira me foi tomada pelo artista Tchóguin, que até então se virava com caixotes. O resto eu joguei fora.
E assim parti com uma mala. A mala era de madeira compensada, com revestimento de tecido e reforços niquelados nos cantos. Não tinha cadeado. O jeito foi amarrá-la com barbante.
Sergei Dovlátov: Russia 1941- 1990
Em algum tempo no passado, viajei com ela aos acampamentos dos pioneiros.1 Na tampa, estava escrito a tinta: "Grupo Jovem. Serioja2 Dovlátov". Perto disso, alguém riscou amigavelmente: "Limpador de merda". O tecido estava rasgado aqui e ali.
Do lado de dentro da tampa, havia fotografias coladas. Rocky Marciano, Armstrong, Joseph Brodsky, Lollobrigida numa roupa transparente. O funcionário da alfândega tentou descolar a Lollobrigida à unha. Só conseguiu arranhar.
Mas em Brodsky ele não tocou. Tudo o que fez foi perguntar: "Quem é esse?". Respondi que era um parente distante.
No dia 16 de maio, cheguei à Itália. Fiquei hospedado no hotel Dina, em Roma. A mala, enfiei-a debaixo da cama.
Logo recebi um pagamento qualquer de revistas russas. Comprei sandálias azuis, jeans flanelados e quatro camisas de linho. Assim, não abri a mala.
Em três meses, estava de mudança para os Estados Unidos. Para Nova York. De início, morei no hotel Rio. Depois, com amigos no Flushing. E, finalmente, aluguei um apartamento num bairro decente. Botei a mala num canto distante do armário embutido. Não soltei o barbante.
Passaram-se quatro anos. Minha filha tornou-se uma jovem americana. Nasceu meu filho. Já adolescente, começou a aprontar. Um dia, minha mulher, sem paciência, gritou:
- Já para o armário!
Meu filhote passou uns três minutos no armário. Depois eu o libertei e perguntei:
- Você ficou com medo? Chorou?
- Não. Sentei na mala.
Então eu tirei a mala. E a abri.
Na parte de cima tinha um jaquetão bem decente, com duas fileiras de botões. Para entrevistas, simpósios, leituras, recepções solenes. Suponho que serviria também para uma cerimônia do Prêmio Nobel.
Mais adiante, uma camisa de algodão e sapatos embrulhados em papel. Debaixo deles, uma jaqueta de veludo cotelê com forro de pele sintética. À esquerda, um chapéu de inverno de foca falsa. Três pares de meias finlandesas de crepe. Luvas de chofer. E, para terminar, um cinto de oficial feito de couro.
No fundo da mala, havia uma página do "Pravda"3 de maio de 1980. Na manchete, lia-se: "Vida longa aos estudos!". No centro, um retrato de Karl Marx.
Ainda estudante primário, eu adorava desenhar líderes do proletariado mundial. Sobretudo Marx. Era rabiscar um borrão qualquer -e já ficava parecido...
Examinei a mala vazia. No fundo, Karl Marx. Na tampa, Brodsky. Entre eles, uma vida perdida, sem valor, a única.
Fechei a mala. Dentro dela, rolavam retumbantes as naftalinas. As coisas, em pilhas variadas, estavam na mesa da cozinha. Era tudo o que eu tinha acumulado em 36 anos. Por toda a minha vida na pátria. Pensei: "Não é possível que isso seja tudo!". E respondi: "Sim, isso é tudo".
E então, como se diz, apoderaram-se de mim as memórias. Possivelmente elas se esconderam nas pregas daquele trapo miserável. E agora escapavam para fora. Memórias que acabariam se chamando "De Marx a Brodsky". Ou até, quem sabe, "O que Eu Adquiri". Ou, digamos, apenas "A Mala".
Mas, como sempre, o prólogo tomou mais que o esperado.

Quem não lê....




     Insisto sobre a inutilidade de distribuir livro, fazer campanha nas escolas etc.  visando  melhorar o nível de leitura de crianças e jovens. Não funciona.  Não, sem investir  muito na alfabetização das crianças. Começa no ensino fundamental a formação de centenas de milhares de analfabetos funcionais que temos espalhados pelo país.  Lamentavelmente os  pais e, acreditem, professores também não leem e sem o exemplo do mais próximo a situação se perpetua.  Vejo, entristecida e preocupada um monte de universitários escrevendo grandes barbaridades. Não leem, por certo. Mas também tiveram péssima alfabetização.  Adianta dar livro??



segunda-feira, 16 de abril de 2012

Segunda-feira poética: As Minhas Asas, Almeida Garrett



Eu tinha umas asas brancas
asas que um anjo me deu,
que, em me cansando da terra,
batia-as,voava ao céu

-Eram brancas, brancas, brancas,
como as do anjo que mas deu.
Eu incente como elas,
por isso voava ao céu.

Veio a cobiça da terra,
vinha para me tentar;
por meus montes de tesouros
minhas asas não quis dar

- Veio a ambição coas grandezas,
vinham para mas cortar,
davam-me poder e glória;
por nenhum preço as quis dar.

Porque as minhas asas brancas
asas que um anjo me deu,
em me eu cansando daa terra,
batia-as voava ao céu.
Mas uma noite sem lua
que eu contemplava as estrêlas,
e já suspenso da terra
ia voar para elas,
- Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrêlas...
Vi, entre a névoa da terra,
outra luz mais bela que elas.
E as minhas asas brancas
asas que um anjo me deu,
para a terra me pesavam,
já não me erguiam ao céu.

Cegou-me esta luz funesta
de enfeitiçados amôres...
Fatal amor, negra hora.
Foi aquela hora de dores!
-Tudo perdi nessa hora
que provei nos meus amôres,
o doce fel do deleite
o acre prazer das dores.

E as minhas asas brancas
asas que unm anjo me deu,
pena a pena me caíram...
nunca mais voei ao céu.

(Flores sem fruto, 1845)

(Nota: o blog manteve a grafia original)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Grupo reune-se virtualmente para ler

Bilhetinhos que seguem para os donos dentros dos seus livros
Pequeno grupo de leitores, reune-se no Orkut unicamente para ler.   Há cinco anos os vorazes leitores  oferecem e pedem emprestado livros de qualquer gênero, autor ou nacionalidade. Os envios são feitos pelos Correios, uma vez que os integrantes são de vários estados do Brasil.  O sistema é bem sucedido por algumas razões, dentre elas o custo da leitura. Tendo em vista que o participante só precisa pagar o valor da postagem do livro, é possível  fazer a leitura de 4 exemplares desembolsando valor igual ao da compra de um livro apenas.  Outra vantagem é a possibilidade de conhecer títulos e autores através dos comentários e indicações do grupo. Todos os livros voltam aos seus respectivos, depois de passarem meses ou até anos, seguindo de mão em mão, voltm a seus respectivos donos. Integrante que sou, posso dizer de minha satisfação com o sistema de leitura desenvolvido em 2007 pelo grupo do Orkut. Através dele pude ler  uma quantidade de livros jamais imaginada, mesmo sendo leitora contumaz e também conhecer autores formidáveis.    Dentro do grupo, que leva o mesmo nome deste blog, os leitores mais constantes têm uma média de leitura de 45 livros por ano. Para nossa realidade uma média sensacional. É preciso salientar que não há restrição a nenhum livro, mesmo assim na média dos vorazes leitores não consta nenhum auto-ajuda.  
Palmas para o grupo Livro Errante, lá do Orkut então.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

A Espera, Richardson Nochelli


Estátua de Brigitte Bardot - Búzios, RJ
Dizem, e quem sou eu para desdizer, que há tempos ela está ali, imóvel, os pés tocando o mar, os olhos perdidos no horizonte e um breve sorriso misterioso nos lábios. Dizem, como eu disse, que faz mais tempo que o próprio tempo, de uma época em que o mundo fazia sentido, e os sentimentos eram verdadeiros e quem seria eu, novamente, para negar? Tudo não passou de um caso de amor, é o que falam, e, eu me pergunto, há nesta vida algum caso que não seja de amor?
            Conta a lenda que a pobrezinha que ali está se condenou pelo amor de um marinheiro valente e belo guerreiro, mas desses sem rumo nem dinheiro, desses que, como tantos outros, lhe prometeu o mundo, mas que só lhe deu o mar, salgado e profundo, a banhar-lhe os pés descalços, pela ação do tempo, sempre a esperar.
            Ali, onde a vê, ela se sentou esperando por seu dragão marinho, e há boatos ainda hoje de que de lá não se moveu por sete dias inteiros, sete sois e sete luas! Vindo apenas após estes sete cabalísticos dias a esboçar o primeiro movimento, o movimento de pequenas e continuas gotas de tristeza que brotavam de seus olhos, e seguindo com esse único e solitário movimento por um tempo infinito, tanto tempo que não se pode mais contar. Pouco se sabe como se manteve viva por este tempo, tem quem afirme que ela fez um acordo com o mar, ela o alimentava de lágrimas e ele a alimentava de carícias, uma troca de afeto entre prisioneiros condenados por amar demais.
            Os dias viraram semanas, meses, anos, as lágrimas viraram sal, formando estalactites duras como aço e puras como almas, que pendiam de todo o seu corpo, dando-lhe a aparência de uma amazona marítima encouraçada de sal pelo próprio mar, a personificação de uma deusa qualquer sofrendo do sentimento que a tornou mortal.
            Houve, enfim, um dia em que dela nada mais se via, engolida por seu pranto condenável em um esquife sólido, branco e abandonado, um destes blocos onde os amantes traçam corações e juras de eterno amor, crendo seguro algo tão mutável como rochas, ou sentimentos. Seu último movimento, uma lágrima solitária, veio desprender numa suave manhã de primavera, selando, e secando, a fonte feia e misteriosa onde pássaros faziam ninho, onde as flores subiam aos nós, e onde, naquele momento, se apoiava aflito um jovem senhor recém desembarcado, de cabelos esvoaçantes, corpo marcado e um sofrido olhar de promessa não cumprida, nas mãos, um maço de cartas apertadas contra um coração apertado ainda mais.
            Poderia, por horas a fio, contar sobre com que agonia este jovem percorreu trôpego, ruas e estradas, vielas e becos, buscando em casas e casebres, bares e pousadas, informações sobre sua amada, alguém com o sol nos cabelos e a lua nos olhos, alguém com o fogo nos lábios e o gelo na alva pele, perderíamos horas falando de suas histórias rapidamente espalhadas, sobre a prisão inesperada, sobre a peste superada ou sobre as guerras vencidas, mas não, não havia viva alma por toda a redondeza que, dentro dos seis meses a que se seguiram, soubessem de tal donzela, prometida ao guerreiro corajoso que a viria desposar, ao marinheiro que prometeu-lhe céus, mas deu-lhe apenas mar.
            Louco, desatinado, ele já não sabe o que fazer, sequer sabe bem o que ser uma vez que seu ser se perdeu para sempre, sua busca infrutífera e seus passos desconexos o levam até o duro bloco calcário, marcado por tantos casais, onde um dia aportou. Tantas frases românticas, tantas juras de amor que o pobre perde o juízo, rasgando envelopes e cartas que, amassados, trazia consigo, frases, poemas e elegias à sua rainha da beleza, eternamente perdida, palavras há tanto escritas e agora inúteis. Atira papeis ao vento que os prende, ao acaso, em dobras irregulares do repugnante bloco cinzento e, num último lampejo de insanidade, lança-se ao mar como se aos braços do amor. Como um beijo roubado abre a boca e suga a água fria e salgada e sente seu corpo liquefazer-se, aos poucos torna-se mar, aos poucos torna-se onda, aos poucos deixa de tornar-se e passa a ser e foi, a mais bela onda que já se formou por estas costas, dizem ainda que não foi com violência mas com ternura que a onda bateu no bloco espantando pássaros, arrancando flores e destruindo as cartas. Foi com amor que a onda traçou contornos tão belos em bloco tão feio, foi com carinho que, da couraça, surgiu a mais bela princesa de pedra, branca como o brilho lunar, forte como a mais dura rocha, em seu colo jazia o corpo do jovem marinheiro com seus cabelos ao vento, ambos entrelaçados de maneira mágica, com leves sorrisos brincando em suas faces e com os corpos tatuados das mais belas frases, poemas e elegias, pela força do mar ou do amor, sobras gravadas na pele das cartas que cumpriam seus destinos.
            Parece-me, se bem me lembro, que passado algum tempo o corpo do jovem simplesmente desapareceu, foi como que por magia, uns afirmam que ele se fundiu à pedra, outros que ele se transformou num belo e pequeno peixe dourado, mas o que importa qual é a verdade? Nada verdadeiramente importa quando em jogo está todo o sentimento que você pode carregar e algo tão forte quanto o que eles tiveram, ainda será contado e reavivado por muitos e muitos outros anos.
            Por fim, e se é verdade já não se sabe, mas nas primaveras em noites bonitas como essa, ainda é possível ouvir, carregado pelo vento, seus risos de donzela apaixonada e há quem jure que nestes momentos, enquanto o brilho prateado da lua a reverencia, todo um cardume de peixinhos dourados se aproximam para beijar seus pés.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Segunda-feira poética: Um Soneto de Esperança

Tento em vão, amor, encontrar a palavra
que me engane nesta noite fria,
como um inconformado que lavrara
a terra infértil do vazio em que sofria

E vazia nunca foste. Por que quisera
eu, cheio de nada, conter tua euforia
exasperante de menina? Quem dera
sorrir meu cração como sorriste um dia!...

Tua alegria, poente junto  ao crepúsculo,
amanhecia também como a fortaleza
da alvorada; e estremeço cada músculo

de meu corpo, em desespero, pela certeza
que habita traiçoeira, no minúsculo
verme que sou, a causa da tua tristeza.

Francisco Borges Neto

(Vencidas as Primaveras Insípidas - 2011)

domingo, 8 de abril de 2012

Outra vez Saramago no cinema.


Pela quinta vez Saramago tem livro adaptado para o cinema. Estou falando de O Homem Duplicado cujo título original é An Enemy. O livro foi lançado no Brasil em 2002 pela Cia. das Letras e o filme dirigido pelo canadense Denis Villenueve chegará às telas dos cinemas em 2013.

Tertuliano, o professor de história que descobre ter um sósia será vivido pelo  belo ator Jake Gyllenhaal que conhecemos pelo excelente desempenho em Brokeback Moutain.

As outras obras do escritor português que já foram adaptdas para o cinema são: Jangada de Pedra(2002), A Flor Mais Grande do Mundo(curta metragem), Ensaio Sobre a Cegueira(2008) e Embargo (2010).

(Fontes: JC, Revista O Grito, site de José Saramago)


sábado, 7 de abril de 2012

Crônica cantada:Gonzaguinha - Com a Perna No Mundo,

Acreditava na vida
Na alegria de ser
Nas coisas do coração
Nas mãos um muito fazer
Sentava bem lá no alto
Pivete olhando a cidade
Sentindo o cheiro do asfalto
Desceu por necessidade
O Dina
Teu menino desceu o São Carlos
Pegou um sonho e partiu
Pensava que era um guerreiro
Com terras e gente a conquistar
Havia um fogo em seus olhos
Um fogo de não se apagar
Diz lá pra Dina que eu volto
Que seu guri não fugiu
Só quis saber como é
Qual é
Perna no mundo sumiu
E hoje
Depois de tantas batalhas
A lama dos sapatos
É a medalha
Que ele tem pra mostrar
Passado
É um pé no chão e um sabiá
Presente
É a porta aberta
E futuro é o que virá, mas, e daí?
ô ô ô e á
O moleque acabou de chegar
ô ô ô e á
Nessa cama é que eu quero sonhar
ô ô ô e á
Amanhã bato a perna no mundo
ô ô ô e á
É que o mundo é que é meu lugar

sexta-feira, 6 de abril de 2012

História bonita (5):Tábata, da periferia para Harvard.

Uma medalhista olímpica brasileira, vinda da rede pública de ensino, está prestes a trocar o Brasil pelos Estados Unidos. Tábata Amaral de Pontes, de 18 anos, tem mais de 30 medalhas no currículo, entre competições nacionais e internacionais de física, matemática, química e astronomia. À época, a notícia era a aprovação dela na Universidade de São Paulo.

Estudante tem mais de 30 medalhas em olimpíadas escolares - André Lessa/AE-7/2/2012Estudante tem mais de 30 medalhas em olimpíadas escolares.Agora, o leque de opções aumentou. Filha de um cobrador de ônibus e de uma vendedora de flores, moradores da periferia de São Paulo, no extremo da zona sul, Tábata foi aprovada em seis universidades norte-americanas: Harvard, Caltech, Columbia, Princeton, Yale e Pennsylvania. Ela concluiu o ensino médio no Etapa, como bolsista.
A felicidade de Tábata só não é maior porque a confirmação da aprovação em Harvard, na quinta-feira, foi recebida três dias antes do falecimento de seu pai. Por conta disso, a jovem não pôde conversar com a reportagem.
Em fevereiro, antes de conhecer os resultados das universidades americanas, Tábata disse ao JT que a experiência poderia ajudá-la a contribuir com “a educação no País”. Ela é fundadora do programa Vontade Olímpica de Aprender, (VOA) que dá aulas de matemática para alunos de colégios públicos. À época, chegou a comentar: “parece impossível passar, mas esse é o meu sonho”.
(Felipe Oda, do Jornal da Tarde)

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Quarta-feira é dia de: Paulo Mendes Campos


       Para Maria da Graça 
     Agora, que chegaste à idade avançada de quinze anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no país das maravilhas. Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti. Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas.      Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca. Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: "Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?"
Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?" Essa indagação perplexa é o lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.
A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!" O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada, e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial e temos a presunção petulante de esperar dela grandes consequências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave. A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: "Oh, I beg your pardon!" Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gosta de gatos, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: "Gostarias de gatos se fosses eu?"
Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: "A corrida terminou! Mas quem ganhou?" É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhaste.
Disse o ratinho: "Minha história é longa e triste!" Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: "Minha vida daria um romance". Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: "Minha vida daria um romance!" Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: "Devo estar diminuindo de novo". Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente. E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor.
Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: "Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas". Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: é feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.
Paulo Mendes Campos.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Segunda Canção de Muito Longe, Mário Quintana

Havia um corredor que fazia cotovelo:
Um mistério encanando com outro mistério,
                                                           no escuro...

Mas vamos fechar os olhos
E pensar numa outra cousa...
Vamos ouvir o ruído cantado, o ruído arrastado
                                                         das correntes do algibe


Puxando a água fresca e profunda.
Havia no arco do algibe trepadeiras trêmulas
Nós nos debruçávamos à borda, gritando os nomes 
                                                        uns dos outros

E lá dentro as palavras ressoavam fortes,
                                                        cavernosas como vozes de leões.
Nós éramos quatro, uma prima, dois negrinhos e eu.
Havia os azulejos reluzentes, o muro do quintal
                                                        que limitava o mundo,
Uma paineira enorme e, sempre e cada vez mais,
                                                        os grilos e as estrelas...
Havia todos os ruidos, todas as vozes daqueles 
                                                        tempos...
As lindas e absurdas cantigas, tia tula ralhando 
                                                        os cachorros,
O chiar das chaleiras...
Onde andará agora o pince-nez da tia Tula
Que ela não achava nunca?

 A pobre não chegou a terminar a Toutinegra do Moinho,
Que saia em folhetim no Correio do Povo...!
A última vez que a vi, ela ia dobrando aquele 
                                                       corredor escuro.
Ia encolhida, pequenina, humilde. seus passos
                                                        não faziam ruído.
E ela nem se voltou para trás! 

Crônica cantada: Milton Nascimento - Morro Velho

No sertão da minha terra, fazenda é o camarada que ao chão se deu
Fez a obrigação com força, parece até que tudo aquilo ali é seu
Só poder sentar no morro e ver tudo verdinho, lindo a crescer
Orgulhoso camarada, de viola em vez de enxada
Filho do branco e do preto, correndo pela estrada atrás de passarinho
Pela plantação adentro, crescendo os dois meninos, sempre pequeninos
Peixe bom dá no riacho de água tão limpinha, dá pro fundo ver
Orgulhoso camarada, conta histórias prá moçada
Filho do senhor vai embora, tempo de estudos na cidade grande
Parte, tem os olhos tristes, deixando o companheiro na estação distante
Não esqueça, amigo, eu vou voltar, some longe o trenzinho ao deus-dará
Quando volta já é outro, trouxe até sinhá mocinha prá apresentar
Linda como a luz da lua que em lugar nenhum rebrilha como lá
Já tem nome de doutor, e agora na fazenda é quem vai mandar
E seu velho camarada, já não brinca, mas trabalha.