quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Hoje é dia de: A Matemática do Mais Forte, Malba Tahan

Chacal e leão na natureza
     O leão, o tigre e o chacal abandonaram, certa vez, a furna sóbria em que viviam e saíram, em peregrinação amistosa, a jornadear pelo mundo, à procura de alguma região rica em rebanhos de tenras ovelhinhas.
     Em meio de grande floresta, o temível leão que chefiava, naturalmente, o grupo, sentou-se já fatigado, sobre as patas traseiras, e, erguendo a cabeça enorme, soltou um rugido tão forte que fez tremer as árvores mais próximas.
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     Ao cair da tarde, guiados pelo chacal, chegaram os viajantes ao alto de um monte, não muito elevado, donde se descortinava uma pequena e verdejante planície.
     No meio dessa planície achavam-se descuidados, alheios ao perigo que os ameaçava, três pacíficos animais: uma ovelha, um porco e um coelho.
     Ao avistar a presa (...) o leão rosnou:
     - Ó tigre admirável! Vejo alí três belos e saborosos petiscos (...) Tú, que és vivo e esperto deves saber, com talento, dividir três por três. Faze, pois, com justiça e equidade, essa operação fraternal: dividir três caças por três caçadores!
     Lisonjeado com semelhante proposta, o vaidoso tigre (...) assim respondeu:
     - A divisão que generosamente acabais de propor, ó rei, é muito simples e pode fazer-se com relativa facilidade. A ovelha que é o maior dos três petiscos, o mais saboroso e, sem dúvida, capaz de saciar a fome de um bando de leões do deserto, cabe-vos de pleno direito. Aquele porquinho magro, sujo e despeciendo, que não vale uma perna da bela ovelha ficará para mim, que sou modesto e com bem pouco me contento. E, finalmente, aquele minúsculo e desprezível coelho, reduzidas carnes, indigno do paladar apurado de um rei tocará ao nosso companheiro, o chacal, como recompensa pela valiosa indicação que, há pouco, nos proporcionou.
     - Estúpido! Egoísta! rugiu o pavoroso leão, tomado de fúria indescritível. Quem te ensinou  a fazer divisões dessa maneira, imbecil?  Onde já viste uma partilha de três por três ser resolvida desse modo?
     E, erguendo a pesadíssima pata, descarregou na cabeça  o  desprevenido tigre tão violenta pancada que o atirou morto a alguns passos de distância.
     Em seguida, voltando-se para o chacal, que assistira estarrecido àquele trágico desfecho da divisão de três por três, assim falou:
     - (...) Estás vendo, amigo chacal, aqueles três apetitosos aninimais: a ovelha, o porco e o coelho? Pois bem: vais dividir os três por dois! Vamos fazer logo os cálculos pois preciso saber qual é o quociente exato que a mim cabe.
    - Não passo de um humilde e rude servo de Vossa Majestade, ganiu o chacal, em tom humílimo de respeito. Cumpre-me, pois,obedecer cegamente à ordem que acabo de receber. Vou, como se fora um sábio geômetra, dividir aqueles três animais por nós. A divisão matematicamente certa e justa é a seguinte: a admirável ovelha, manjar digno de um soberano, cabe aos vossos reais caninos, pois é indiscutível que sois o rei dos animais; o belo bacorinho deve caber, também, ao rosso real paladar, visto dizerem os entendidos que a carne de porco dá mais força e energia aos leões; e o saltitante coelho, com suas longas orelhas, deve ser também, por vós saboreado a título de sobremesa, já que aos
reis, por lei tradicional entre os povos, cabe sempre, como complemento dos opíparos banquetes os manjares finos e delicados.
     - Ó incomparável chacal! - exclamou o leão encantado com a partilha que acabava de apreciar. como são harmoniosas e sábias as tuas palavras! quem te ensinou esse artifício maravilhoso de dividir, com tanta perfeição e acerto, três por dois?
     - A patada com que vossa justiça puniu, há pouco, o tigre arrogante e ambicioso, ensinou-me a dividir, com segurança, três por dois, quando desses dois, um é o leão e o outro é o chacal! Na matemática do mais forte, penso eu, o quociente é sempre exato, e ao mais fraco, depois da divisão, nem o resto deve caber!
     E, desse dia em diante, fazendo sempre divisçoes dessa ordem, na mais torpe sabujice, viveu o astucioso chacal a sua vida de bajulador vil, a regalar-se com os sobejos que lhe deixava o leão.

(Nota da blogueira: o conto foi reduzido sem prejuizo para seu conteúdo)

Vamos aprender?
Para saber sobre o autor clique aqui.  Para saber sobre as palavras destacadas:

Furna: caverna, gruta.
Jornadear: caminhar, andar ( fazer uma jornada)
Despiciendo: desprezível, sem valor.
Equidade: justiça
Bacorinho: filhote de porco
Opíparo: abundante
Torpe sabujice: vergonhosa serviência
Sobejos: restos


Vamos perguntar?
O chacal tinha outra opção?


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Segunda-feira poética: As Duas Árvores, Olegário Mariano

Vendo esta árvore velha ao pé da adolescente,
Penso em nós dois. A luz e a treva, lado a lado.
As cigarras em ti cantam festivamente,
Nos meus braços o vento é um choro desolado.

Perto de ti, vivo de ti separado
Que a luz comum que cai sobre nós, de repente,
Em mim nada mais é que um reflexo prateado
Enquanto em ti abre clarões de sol nascente.

Não tenho nada mais para dar-te. Meus braços
Sem folhas,sem calor, torcidos nos espaços,
Cavam sombras de dor no barro da barranca.

E na luz estival que entre as duas se espelha,
A árvore nova olha com pena a árvore velha
Como gostas de olhar a minha cabeça branca.


(Do livro: Mundo encantado 1955) ortografia atualizada.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Por causa da Revista Veja

 Pequena antologia online: contos brasileiros de carnaval       (Postagem de março de 2011)
Folião cerebral, do tipo que sempre valorizou mais uma virada de enredo que uma virada de bateria, fiz um garimpo na grande rede instigado pela aposta de que seria possível montar uma boa antologia de contos de carnaval só com textos disponíveis online, de preferência na íntegra. Deu certo.
A meia dúzia de contos abaixo – todos acessíveis a quem clicar sobre os títulos, sem necessidade de baixar arquivos – deixa claro que as relações entre a folia momesca e a literatura brasileira, com perdão do clichê, sempre deram samba.
Destaque absoluto para o aterrorizante O bebê de tarlatana rosa, obra-prima de João do Rio, imbatível na captação do lado negro de uma festa solar. De resto, tons sombrios se fazem presentes – o que, pensando bem, não chega a ser surpresa – em praticamente todas as histórias.
Pena que o conto Caprichosos da Tijuca, de Marques Rebelo, e a crônica A batalha do Largo do Machado, de Rubem Braga, não estejam online. Presenças obrigatórias em qualquer antologia analógica sobre o tema, espero que esta menção compense de alguma forma sua ausência. O conto de Rubem Fonseca tem apenas um trechinho disponível, mas sua qualidade me levou a incluí-lo na lista mesmo assim.
Por fim, peço desculpas ao leitor pelo atrevimento de me meter em tão ilustre companhia, mas, caramba, é carnaval. Não há quem se fantasie de Napoleão?




Um folião chamado Rubem Braga   (Postagem de fevereiro de 2012)
Recebi há poucos dias da leitora Regina Porto uma mensagem em que ela informava ter preenchido por conta própria uma grave lacuna na literatura carnavalesca digital: depois de ler um post – publicado no Todoprosa no carnaval passado – em que eu, listando bons itens de literatura momesca disponíveis na internet, lamentava a ausência da monumental crônica Batalha do Largo do Machado, de Rubem Braga, ela foi lá e, voluntariosa, publicou o texto. Ei-lo. É imperdível.
Braga, o maior dos nossos cronistas, descreve uma batalha de ranchos e blocos no Largo do Machado, no Rio de Janeiro, no carnaval de 1935. Descrever é um verbo que soa pálido diante do desfile de palavras ofegantes que vemos passar na avenida, acotovelando-se, enquanto o sujeito das orações toca surdo e “a cuíca ronca, estomacal, horrível”:
É um profundo samba orfeônico para as amplas massas. As amplas massas imploram. As implorações não serão atendidas. As amplas massas amaram. As amplas massas hoje estão arrependidas. Mas amanhã outra vez as amplas massas amarão… As amplas massas agora batucam…Tudo avança batucando.
Situado num momento histórico anterior a todas a ideias de correção política, Braga não é paternalista, não bajula a tal “maior festa popular do mundo”, permite-se até enxergar uma “massa torpe e enorme” na multidão de “operários em construção civil, empregados em padarias, engraxates, jornaleiros, lavadeiras, cozinheiras, mulatas, pretas, caboclas”. Fala em “meninas mulatas, e mulatinhas impúberes e púberes, e moças mulatas e mulatas maduras, e maduronas, e estragadas mulatas gordas”. Racismo?
Pelo contrário. Naquele momento, meados dos sinistros anos 1930, o racismo começava a arrastar a Europa para o inferno, mas aqui tal molde era partido pelo próprio batuque, feito em mil estilhaços – como a gramática – pelo cronista que, na vertigem da folia, inventava um impensável superlativo de verbo para bradar, embriagado de tanta mulatice:
Morram as raças puras, morríssimam elas!
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Nota: Este blog publicou o segundo conto que o jornalista da Veja lamenta não ter encontrado: Caprichosos da Tijuca de Marques Rebêlo.

Crônica-cantada: Pilosofia Vurtuguesa, Eduardo Dusek


La la la láa. 2x
La la la la la

Ai uma coisa eu não aconcebo,
E nem posso aconcebeire,
Porque é que o sol nasce de dia,
Quando não devia seire.

Pois se de dia que é tudo tão claro,
O que o sol vem aqui fazeire?
Já que de noite quando é tudo escuro,
É que ele deveria de seire.

La la la láa. 2x
La la la la la

Ai portugal não foi para a guerra,
Mas tampouco também não acovardou-se,
Cobriu portugal com um pano,
Escreveu em cima: "portugal mudou-se".

Vocês tem vatapá e feijoada,
Lá nós temos vinho e bacalhau,
Se voces tem o Chico Buarque,
Lá nós temos o roberto leal.

La la la láa. 2x
Arrebita, arrebira, arrebita.
Ai cachopa se tu queres ser bonita,
Arrebita, arrebita, arrebita.

Vocês que dizem que nós somos burros,
Más viemos de longe e descobrimos o brasil,
Pois mais burra foi a argentina,
Que estava aqui do lado e não viu.

Quando chegamos avistamos esta terra,
Gritamos com um brado varonil,
Oaaaaaaaahhh, ai terra a vista!
Oaaaaaaaah, aaai! levei um tapa!

Acho que foi de pedro alvares cabral
Ou de ana maria rodrigues,
Ou pedro alvares e maria fica na lisboa de cima
Que eu fico na lisboa debaixo.

O moisés ou o marcos tem que mandar ensençar este teatro.
Opa! aaaaaaaii, aaaaaiii, "respeite um fadista com hemorroidas!"
Aaaaaaii, aaaaaaaaii, aaaaaaaii terra a vistaa!
Terra vista? opa! você disse "terra a vista"?

Pois hoje em dia é a prazo
Que se vende o Brasil

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Mudança no blog...

Amigos,

Havia informado mudanças no blog e venho cumprindo desde o ano passado.  O que iniciei por pura brincadeira passou a ser sério e me obrigou a ser bastante exigente com meu conteudo. Tendo em vista que muitos dos visitantes chegam ao blog por causa de pesquisa escolar e pelo fato de receber mensagens de estudantes em busca de material para algum uso, decidi melhorar mais ainda seu conteudo.  
Conto, para isso, com sua colaboração, caro internauta. Atualmente publico um poema às segundas-feiras; um conto ou crônica às quartas-feiras e no sábado uma música. Sem periodicidade definida, publico: história bonita, trazendo alguém que ascendeu através da escolarização; surpresa agradável, é um rápido comentário sobre um livro que tenha me agradado. Recentemente introduzi o comentário do internauta: nele qualquer pessoa fala o que achou de algo que tenha lido e a opinião do leitor pode ser totalmente diferente da opinião da blogueira.  Posto no blog, também, notícia relacinada a livro, premiação litarária etc.
Peço ao amigo internauta que deixe  aqui informado o que  gostaria ou não gostaria  de ver postado,  o que você acha que faço errado etc. Fique a vontade para deixar a sua opinião.
Vou considerar tudo. Caso prefira, fale diretamente usando o email que se encontra no  meu perfil.
Para que seu comentário seja postado, depois de redigir a menagem, escreva embaixo o seu nome, escolha a opção "anônimo"  e em seguida: "enviar".


Muito obrigada,
Regina

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A vingança, Fernando Sabino


     O irmão mais novo foi assassinado, numa rixa de botequim lá na cidade. A notícia lhe chegou logo, trazida à fazenda por um de seus vaqueiros. O assassino havia fugido, tomando rumo ignorado.
     - Se o senhor quiser, nós vamos caçar o homem, patrão.
     -Deixa – ordenou ele: Isso é serviço para mim.
     Na manhã seguinte, depois do enterro, montou no seu cavalo e partiu. Virou a região de pernas para o ar, colhendo informações aqui e ali: eram parcas as notícias do assassino. Acabou perdendo seu rastro e ao fim de uma semana regressou, estropiado, sujo, barba por fazer:
     - Não faço esta barba enquanto não der cabo dele – jurou.
     A mulher sugeriu-lhe que ao menos tomasse um banho. Recusou-se:
     - Quando raspar a barba eu tomo.
     E se deixou ficar, como estava, estirado na rede. Nos dias que se seguiram não fez outra coisa senão treinar pontaria, dando tiros de revólver no terreiro. Largou de lado a administração da fazenda. Em vão o pessoal o procurava, atrapalhado.
     - Não faço mais nada enquanto não liquidar o homem.
     Parecia um fantasma, andando pelos cantos, com sua idéia fixa na cabeça: sujo, barbado, descabelado e fedorento. Ninguém tinha coragem de se aproximar dele. À tarde deitava-se na rede, uma nuvem de mosquitos  o rodeava. Dali mesmo praticava tiro ao alvo: o mourão de porteira já estava todo marcado de bala.
     - Parece um bicho – queixava- se a mulher, tentando demovê-lo: - tira essa idéia desgraçada da cabeça!
     - Eu jurei que acabava com ele: então não sou homem de cumprir juramento¿
     - Acaba com ele mas toma um banho, homem de Deus!
     Às vezes chegava uma notícia e ele desaparecia por uns dias. Regressava cada vez mais sujo e barbado:
     - Esteve em Paracatu: escapou por pouco.
     Descansava uma semana e tornava a sair. Voltava, desanimado.
     -Dizem que fugiu para Goiás. Vou até o fim do mundo.
     No dia em que vieram lhe dizer que o homem havia morrido em Goiás, e de morte morrida, quase perdeu a cabeça:
     -E agora? Estou liquidado. Nunca mais faço a barba. Nunca mais tomo banho.
     Rogou duas pragas, cuspiu para o lado, passou a mão no revólver e saiu.
     No botequim da cidade, pôs-se a beber cachaça junto ao balcão.
     - Dizem que o homem morreu...
     - Estou me danando.
     - O senhor está vingado.
     - Vingado uma ova: não matei ele, essa é boa!
     - O senhor não pode matar um morto.
     - Mas também não posso mais fazer a barba.
Quem é aquele frajola?
     Numa das mesas ao fundo um cometa, recém chegado na cidade, contava lorotas para dois capiaus. Vestia um terninho tropical, usava sapato branco e marrom, camisa riscadinha e gravata borboleta de bolinhas. Tinha o cabelo esticado a brilhantina e era o que se podia mesmo chamar de frajola: usava óculos raibã, lenço colorido no bolso do paletó, e com gestos delicados ia enchendo de fumo americano um cachimbo americano de espuma-do-mar. Viajava de cidade em cidade negociando miraculosas mercadorias:
     -Vejam o meu caso – dizia no momento, todo pernóstico: -Também saí de um lugarejo como este e hoje sou isto que vocês vêem.
     Junto ao balcão o barbudo o observava.
     - Quem é esse boneco? -repetiu, carrancudo: - Não vou com a cara dele.
     - Chama-se Clodomir – informaram-lhe.
     - Clodomir? Isso é lá nome de gente?
     Sacou do revólver, e antes que o impedissem, fez pontaria,  atirou. A bala acertou em cheio no cachimbo que Clodomir acabava de levar à boca, espatifando-o no ar. A estupefação foi geral. Clodomir se deixou ficar, estatelado de susto. O homem soprou calmamente a fumaça da arma e colocou-a no coldre:
     - Quer saber de uma coisa¿ Estou vingado.
     No mesmo dia tomou um banho, fez a barba.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Segunda-feira poética: Poema de Quem Ficou, Manuel Lopes



Eu não te quero mal
por esse orgulho que tu trazes;
por esse teu ar de triunfo iluminado
com que voltas…

… O mundo não é maior
que a pupila dos teus olhos:
tem a grandeza
da tua inquietação e das tuas revoltas.

… Que teu irmão que ficou
sonhou coisas maiores ainda,
mais belas que aquelas que conheceste…
Crispou as mãos à beira do mar
e teve saudades estranhas, de terras estranhas,
com bosques, com rios, com outras montanhas
– bosques de névoa, rios de prata, montanhas de oiro–

que nunca viram teus olhos
no mundo que percorreste…




(Mindelo,Cabo Verde- 23 de Dezembro de 1907 — Lisboa, 25 de Janeiro de 2005)Manuel António de Sousa Lopes -Foi um ficcionista, poeta e ensaísta, um dos fundadores da moderna literatura cabo-verdiana e que, com Baltasar Lopes da Silva e Jorge Barbosa, foi responsável pela criação da revista Claridade.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Crônica cantada: Noite dos Mascarados:Chico Buarque, Odete Lara e MPB-4



Quem é você?
- Adivinha, se gosta de mim!
Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:
- Quem é você, diga logo...
- Que eu quero saber o seu jogo...
- Que eu quero morrer no seu bloco...
- Que eu quero me arder no seu fogo.
- Eu sou seresteiro,
Poeta e cantor.
- O meu tempo inteiro
Só zombo do amor.
- Eu tenho um pandeiro.
- Só quero um violão.
- Eu nado em dinheiro.
- Não tenho um tostão.
Fui porta-estandarte,
Não sei mais dançar.
- Eu, modéstia à parte,
Nasci pra sambar.
- Eu sou tão menina...
- Meu tempo passou...
- Eu sou Colombina!
- Eu sou Pierrô!
Mas é Carnaval!
Não me diga mais quem é você!
Amanhã tudo volta ao normal.
Deixa a festa acabar,
Deixa o barco correr.
Deixa o dia raiar, que hoje eu sou
Da maneira que você me quer.
O que você pedir eu lhe dou,
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A Mulher Que Matou os Peixes

"Essa mulher que matou os  peixes infelizmente sou eu. Mas juro a vocês que foi sem querer. Logo eu! que não tenho coragem de matar uma coisa viva! até deixo de matar uma barata ou outra."

Clarice Lispector assim começa o livro. Na maior franqueza diz que é ela mesma a mulher que matou os peixes, acrescenta que foi sem querer e mostra-se espantada com o que fez por ser uma pessoa sem coragem para tal maldade.  Li esse livro e achei formidável, porque a autora  escreveu como quem conversa francamente. De início já sabemos que foi sem querer, que acredita que as crianças leitoras vão entendê-la e informa que só vai contar como matou os dois peixinhos vermelhos no final do livro. Pondo-se no lugar do leitor responde que vai deixar para o fim porque precisa falar de outros bichos que teve em casa. Fala de uma gata que teve uma grande ninhada, e de como adoeçeu quando os filhote foram dados; diz  que barata é um bicho natural, porque está na casa sem ser convidada, fala que rato também é mas que não tem na sua casa porque todas as mães têm medo de rato. Prossegue falando de uma dedetização,  entra com uma lagartixa,mosquito. Todos, bichos naturais.  Em seguida vem os bichos convidados: dois coelhos, dois patos, pinto,Dilermando um cachorro comprado na Itália, que dava trabalho para tomar banho, depois o cachorro chamado Jack.  Acrescenta um fato inusitado: a visita de um macaco à sua casa quando morava nos USA ...  Clarice discorre esses fatos cotidianos e verdadeiros de sua infancia e fase adulta de uma maneira simples e divertida e o leitor só se dá conta dos peixinhos mortos, quando realmente no final do livro ela explica como matou.  Agrada crianças e adultos.  Grande Clarice Lispector!!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Conto de carnaval:Batalha do Largo do Machado, Rubem Braga


  
     Como vos apertais, operários em construção civil, empregados em padarias, engraxates, jornaleiros, lavadeiras, cozinheiras, mulatas, pretas, caboclas, massa torpe e enorme, como vos apertais! E como a vossa marcação é dura e  triste! E sobre essa marcação dura a voz do samba se alastra rasgada:
“implorar
Só a Deus
Mesmo assim às vezes não sou atendido.
Eu amei...”
     É um profundo samba orfeônico para as amplas massas. As amplas massas imploram. As implorações não serão atendidas. As amplas massas amaram. As amplas massas hoje estão arrependidas. Mas amanhã outra vez as amplas massas amarão... As amplas massas agora batucam...Tudo avança batucando. O batuque é uniforme. Porém dentro dele há variações bruscas, sapateios duros, reviramentos tortos de corpos no apertado. Tudo contribui para a riqueza interior e intensa do batuque. Uma jovem mulata gorducha pintou-se bigodes com rolha queimada. Como as vozes se abrem espremidas e desiguais, rachadas, ritmadas, e rebentam, machos e fêmeas, muito para cima dos fios elétricos, perante os bondes paralisados, chorando, altas, desesperadas!
     Como essas estragadas vozes mulatas estalam e se arrastam no ar, se partem dentro das gargantas  vermelhas. Os tambores surdos fazem o mundo tremer em uma cadência negra, absoluta. E no fundo a cuíca geme e ronca, nos puxões da mão negra. As negras estão absolutas com seus  corpos no batuque.Vede que vasto crioulo que tem um paletó que foi dólmã de soldado de Exército Nacional, tem gorro vermelho, calça de casemira arregaçada para cima do joelho, botinas sem meias, e um guarda-chuva preto rasgado, a boca berrando, o suor suando. Como são desgraçados e puros, e aquela negra de papelotes azuis canta como se fosse morrer. Os ranchos se chocam, berrando, se rebentam, se misturam, se formam em torno do surdo de barril, à base de cuícas, tamborins e pandeiros que batem e tremem eternamente.  Mas cada rancho é um íntegro, apenas os cordões se dissolvem e se formam sem cessar, e os blocos se bloqueiam.
     Meninas mulatas, e mulatinhas impúberes e púberes, e moças mulatas e mulatas maduras, e maduronas, e estragadas mulatas gordas. Morram as raças puras, morríssimam elas! Vede tais olhos ingênuos, tais bocas de largos beiços puros, tais corpos de bronze que é brasa, e testas, e braços, e pernas escuras, que mil escalas de mulatas! Vozes de mulatas, cantai,condenadas, implorai, implorai,só a Deus, nem a Deus, à noite escura arrependidas. Pudesse um grande sol se abrir no céu da noite, mas sem deturpar nem iluminar a noite, apenas se iluminando, e ardendo, como uma grande estrela do tamanho de três luas pegando fogo, cuspindo fogo no meio da noite! Pudesse esse astro terrível chispar, mulatas, sobre vossas cabeças que batucam no batuque.
     O apito comanda, e no meio do cordão vai um senhor magro, pobre louro, que leva no colo uma criança que berra, e ele canta também com uma voz que ninguém pode ouvir. As caboclas de cabelos pesados na testa suada com os corpos de seios grandes e duros, caboclos, marcando batuque. Os negros e mulatos inumeráveis, de macacão, de camisetas de seda de mulher, de capa de gabardine apenas, chapéus de palha, cartolas, caras com vermelhão. Batucam.



      Vai  se formar uma briga feia, mas o cordão berrando o samba corta a briga, o homem fantasiado de cavalo dá um coice no soldado, e o cordão empurra e ensurdece os briguentos, e tudo roda dentro do samba. Olha a clarineta quebrada, o cavaquinho oprimido, o violão que ficou surdo e mudo, e que acabou rebentando as cordas sem se fazer ouvir pelo povo e se mudando em caixa, o pau batendo no pau, o chocalho de lata, o tambor marcando, o apito comandando, os estandartes dançando o bodum pesado.
     Mas que coisa alegre de repente nesses sons pesados e negros, uma sanfoninha cujos sons tremem vivos, nas mãos de um moleque que possui um olho furado. Juro que iam dois aleijados de pernas de pau no meio do bloco, batendo no asfalto as pernas de pau.
Com que forças e suores e palavrões de barqueiros do Volga esses homens imundos esticam a corda defendendo o território sagrado e móvel do povo glorioso da escola de samba na Praia Funda! No espaço conquistado as mulatas vestidas de papel verde e amarelo, barretes brancos, berram prazenteiras e graves, segurando arcos triunfais individuais de flores vermelhas. Que massa de meninos no rabo do cortejo, meninos de oito anos, nove, dez, que jamais perdem a cadência, concebidos e gerados e crescidos no batuque, que batucarão até morrer!
     De repente o lugar em que estais enche demais, o suor negro e o soluço preto inundam o mundo, as caras passam na vossa cara, os braços dos que batucam espremem vossos braços, as gargantas que cantam exigem de vossa garganta o canto da igualdade, liberdade, fraternidade. De repente em redor do asfalto se esvazia e os sambas se afastam em torno, e vedes o chão molhado, e ficais tristes, tendes vontade de chorar de desespero.
     Mas outra vez, não pára nunca, a massa envolve tudo. Pequenos cordões que cantam marchinhas esgoeladas correm empurrando, varando a massa densa e ardente, e no coreto os clarins da banda militar estalam.
     Febrônio  fugiu do manicômio no  chuvoso dia de sexta-feira, 8 de fevereiro de 1935... Foi preso no dia 9 à tarde. Neste dia de domingo. 10 de fevereiro pela manhã, o Diário de notícias publica na primeira página de segunda seção:
     “ A sensacional fuga de Febrônio, do Manicômio Judiciário, onde se achava recolhido desde 1927, constituiu um verdadeiro pavor para a população carioca. A sua prisão, ocorrida na tarde de ontem, veio trazer a tranqüilidade ao espírito de todos, inclusive ao das autoridades que o procuravam.”
     Que repórter alarmado! Injuriou, meus senhores, o povo e as autoridades. Encostai-vos nas paredes, população! Mas eis que  na noite do dia chuvoso de domingo, 10 de fevereiro ouvimos:
“ Bicho Papão
Bicho Papão
Cuidado com o Febrônio
Que fugiu da Detenção...”
     Isso ouvimos no Largo do Machado, e eis que nosso amigo Miguel, que preferiu ir batucar em Dona Zulmira, lá também ouviu, naquele canto glorioso do Andaraí, a mesma coisa. Como se esparrama pelas massas da cidade esparramada essa improvisação de um dia? As patas inumeráveis batem no asfalto com desespero. O asfalto porventura não é vosso eito, escravos urbanos e suburbanos?
     A cuíca ronca, ronca, estomacal, horrível, é um ronco que é um soluço, e eu também soluço e canto, e vós também fortemente cantais bem desentoados com este mundo. A cuíca ronca no fundo da massa escura, dos agarramentos suados, do batuque pesadão, do bodum. O asfalto está molhado nesta noite de chuvoso domingo. Ameaça chuva, um trovão troveja. A cuíca de São Pedro também está roncando. O céu também sente fome, também ronca e soluça e sua de amargura¿
     Nesta mormacenta segunda-feira, 11 de fevereiro, um jornal diz que “ a batalha de confete de Largo do Machado esteve brilhantíssima”.
     Repórter cretiníssimo, sabei que não houve lá nem um só miserável confete. O povo não gastou nada, exceto gargantas,e dores e almas, que não custam dinheiro. Eis que ali  houve, e eu vi, uma batalha de roncos e soluços, e ali se prepararam batalhões para o Carnaval – nunca  jamais “ a grande festa do Rei Momo” – porém a grande insurreição armada de soluços.
Rubem Braga fev. 1935