segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Quadrinhos. Quem não gosta?

    Pela versatilidade, os quadrinhos atravessaram gerações sempre bem sucedidos. Divertidos, satíricos,pornográficos, politacamente corretos ou incorretos, didáticos, conseguem atingir público enorme e eclético.  No Brasil a publicação de HQ começou nos idos 1869.


Abaixo a imagem de um dos primeiros e últimos personagens de HQ do Brasil:

Zé Caipora, de Ângelo Agostini (1869)








Turma da Mônica jovem, de Maurício de Souza


Sobre HQ, este blog já publicou e você pode ler clicando aqui.

Segunda-feira poética: Manuel Bandeira

Oceano

Olho a praia. A treva é densa.
Ulula o mar, que não vejo,
Naquela voz sem consolo,
Naquela tristeza imensa
Que há na voz do meu desejo.

E nesse tom sem consolo
Ouço a voz do meu destino:
Má sina que desconheço,
Vem vindo desde menino,
Cresce quanto em anos cresço.

-Voz de oceano que não vejo
Da praia do meu desejo...


sábado, 28 de janeiro de 2012

Chico César: "livro é um companheirão!", diz o músico no Pé na Porta


Aniversariantes de janeiro: Marçal Aquino

Clique na imagem p/ saber sobre M.A

Dia dos namorados

O rapaz e a moça entraram na pousada e, de um jeito tímido, ele perguntou o preço da diária. O velho Lilico informou e o rapaz e a moça trocaram um olhar em que faiscaram jóias de diversos tamanhos. A maior delas era a cumplicidade. 

Enquanto o rapaz preenchia a ficha de entrada, a moça se afastou um pouco para examinar melhor o quadro na parede — e pude vê-la por inteiro. 

Era muito bonita. Tinha os cabelos e a pele claros. Alta, magra, ossos salientes nos ombros. Estava no mundo há pouco mais de uma década e meia e, com certeza, alguém que recusara já havia escrito poemas desesperados pensando nela. Ou cortado os pulsos — o que é quase a mesma coisa. 

Embora não merecesse, o quadro recebeu toda sua atenção por alguns instantes. Era uma pintura ordinária. Eu já tivera a oportunidade de analisá-la durante as longas tardes em que a chuva me impedia de sair para caminhar pela cidade. Uma cidade habitada, fora da temporada turística, por velhos, aposentados e hippies extemporâneos. Gente que tentava, de um jeito ou de outro, ser esquecida. 

O quadro: penso que o artista havia experimentado um momento de genuína felicidade ao contemplar, em algum canto do país, aquelas montanhas, aquele prado, aqueles cavalos. E, generoso, decidira compartilhar esse momento com o resto da humanidade. Mas a verdade é que fracassara. A arte não é feita de boas intenções. 

O olhar com que a moça se despediu — para sempre — daquela obra continha um pouco de piedade. E, com isso, ela me conquistou em definitivo.

O velho Lilico entregou a chave ao rapaz, que se voltou e sorriu para a moça. Seu ar era de alguém vitorioso. Mas sou capaz de apostar que a mão que ele juntou à dela, antes de subirem a escada de madeira, tinha a palma molhada de suor. Havia um princípio de rubor no rosto dela. Eram muito jovens e estavam vivendo um grande momento, mas não sabiam disso ainda. Essas coisas a gente só compreende depois.

Lilico deixou o balcão da recepção e foi até a copa, onde falou alguma coisa para Jair, um de seus empregados. Em seguida veio até a mesa que eu ocupava.

"Gosto de gente que chega para hospedar-se sem nenhuma bagagem", ele comentou.

"E a felicidade que eles carregam, não conta?", eu perguntei.

Ele examinou o tabuleiro, como se estivesse tentando rememorar a jogada que pretendia fazer antes de ser interrompido pela chegada do casal.

"Mandei o Jair levar uma garrafa de champanhe para eles. Cortesia da casa”.

"Fez bem", eu disse.

"Gozado, sabe quem essa moça me lembrou?"

Eu disse: "Sei".

"Acho que foram os olhos dela", ele falou. "Muito parecidos."

Retomamos o jogo e não falamos mais do casal. Eu, porém, continuei pensando neles. Num dia como aquele, anos antes, uma mulher, que entrava comigo num hotel bem diferente daquela pousada, me dissera: "Hoje eu vou te dar um presente muito especial".

Um pouco depois da meia-noite interrompemos o jogo e o velho Lilico recolheu as peças e guardou o tabuleiro. E eu já estava no meio da escada, a caminho do meu quarto, quando ele perguntou:

"Você ainda pensa nela?"

"De vez em quando eu penso."

"E por que você não vai atrás dela? Vocês dois ainda têm alguns anos pela frente."

"A mágica não acontece duas vezes", eu disse.

O velho Lilico balançou a cabeça.

"Você sabe que só em filme francês antigo o herói termina seus dias em hotéis vagabundos, escrevendo livros que nunca irá publicar”.

Eu me limitei a sorrir. Então ele me desejou "boa noite" e voltou para a recepção.

Eu subi a escada e, ao chegar ao corredor, parei diante da porta do quarto que o casal ocupava e tentei ouvir alguma coisa. Mas tudo estava silencioso. Entrei nó meu quarto e, enquanto me despia, pensei no velho Lilico. Ele tinha razão: ainda me restavam alguns anos pela frente. E essa era a pior parte da história.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Perplexidade, Maria Judite de Carvalho

A criança estava perplexa. Tinha os olhos maiores e mais brilhantes do que nos outros dias, e um risquinho novo, vertical, entre as sobrancelhas breves. «Não percebo», disse.
Em frente da televisão, os pais. Olhar para o pequeno écran era a maneira de olharem um para o outro. Mas nessa noite, nem isso. Ela fazia tricô, ele tinha o jornal aberto. Mas tricô e jornal eram alibis. Nessa noite recusavam mesmo o écran onde os seus olhares se confundiam. A menina, porém, ainda não tinha idade para fingimentos tão adultos e subtis, e, sentada no chão, olhava de frente, com toda a sua alma. E então o olhar grande a rugazinha e aquilo de não perceber. «Não percebo», repetiu.
«O que é que não percebes?» disse a mãe por dizer, no fim da carreira, aproveitando a deixa para rasgar o silêncio ruidoso em que alguém espancava alguém com requintes de malvadez.
«Isto, por exemplo.»
«Isto o quê»
«Sei lá. A vida», disse a criança com seriedade.
O pai dobrou o jornal, quis saber qual era o problema que preocupava tanto a filha de oito anos, tão subitamente.
Como de costume preparava-se para lhe explicar todos os problemas, os de aritmética e os outros.
«Tudo o que nos dizem para não fazermos é mentira.»
«Não percebo.»
«Ora, tanta coisa. Tudo. Tenho pensado muito e...Dizem-nos para não matar, para não bater. Até não beber álcool, porque faz mal. E depois a televisão...Nos filmes, nos anúncios...Como é a vida, afinal?»
A mão largou o tricô e engoliu em seco. O pai respirou fundo como quem se prepara para uma corrida difícil.
«Ora vejamos,» disse ele olhando para o tecto em busca de inspiração. «A vida...»
Mas não era tão fácil como isso falar do desrespeito, do desamor, do absurdo que ele aceitara como normal e que a filha, aos oito anos, recusava.
«A vida...», repetiu.
As agulhas do tricô tinham recomeçado a esvoaçar como pássaros de asas cortadas.

                              

Obras de Maria Judite de Carvalho (Lisboa 18.09.1921- Lisboa 1998):Tanta Gente, Mariana (contos), Lisboa: Europa América, 1988.
 As Palavras Poupadas (contos), Lisboa: Europa América,1988.
 Paisagem sem Barcos (contos), Lisboa: Europa América, 1990.
 Os Armários Vazios (romance), Lisboa: Livraria Bertrand, 1978.
 O Seu Amor por Etel (novela), Lisboa: Movimento, 1967.
 Flores ao Telefone (contos), Lisboa: Portugália Editora, 1968.
 Os Idólatras (contos), Lisboa: Prelo Editora, 1969.
 Tempo de Mercês (contos), Lisboa: Seara Nova, 1973.
 A Janela Fingida (crónicas), Lisboa: Seara Nova, 1975.
 O Homem no Arame (crónicas), Amadora: Editorial Bertrand, 1979.
 Além do Quadro (contos), Lisboa: O Jornal, 1983.
 Este Tempo (crónicas) Lisboa: Editorial Caminho, 1991.
 Seta Despedida (contos), Lisboa: Europa América, 1995.
 A Flor Que Havia na Água Parada (poemas), Lisboa: Europa América,1998 (póstumo).
 Havemos de Rir! (teatro), Lisboa: Europa América,1998 (póstumo).

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Do blog para SAMPA.

São São Paulo meu amor,
São São Paulo quanta dor
São oito milhões de habitantes de cada canto e nação
Que se agridem cortesmente correndo a todo vapor
Se amando com todo ódio, se odeiam com todo amor
São oito milhões de habitantes, aglomerada solidão
Com mil chaminés e carros gazeados aprestação
Porem com todo defeito te carrego no meu peito
São São Paulo meu amor
São São Paulo quanta dor
Salvai-nos por caridade, pecadoras invadiram
Todo centro da cidade armadas de ruge e batom
Dando vivas ao bom humor num atentado contra o pudor
A família protegida, o palavrão reprimido
Empregador que condena, uma bomba por quinzena
Porém com todo defeito te carrego no meu peito
São São Paulo meu amor
São, São Paulo quanta dor
Santo Antonio foi demitido dos ministros de cupido
Armados da eletrônica casam pela TV
Crescem flores de concreto, céu aberto ninguém vê
Em Brasília é veraneio, no Rio é banho de mar
O país todo de férias, aqui é so trabalhar
Porém com todo defeito te carrego no meu peito
São São Paulo meu amor
São São Paulo quanta dor.

Nota:Música vencedora do IV Festival da M.P.B da TV Record de 1968
Hoje a cidade de São Paulo completa 458 anos.

Aniversariantes de Janeiro: Viriato Correia


V.C na Academia Bras. de Letras
clique na imagem.
A Proclamação da República

(Parte 1)

- Assisti tudo e tudo, dizia-me o velho Joaquim Gonçalves, uma tarde em que conversávamos na varanda de sua casa em Santa Teresa. Conheço a proclamação da República como testemunha visual. Eu era, como ainda sou, republicano. Sabia de tudo e tudo acompanhei.
- Conte-me isso.
- A história da proclamação da República ainda por aí muito embrulhada. Contam-na sem a verdade exata, apesar de ainda haver hoje vivas muitas das figuras principais do movimento. Quer ouvir-me?
- Com todo o prazer.
- No começo do mês de novembro de 1889 sentia-se que a Monarquia estava profundamente abalada. A propaganda da República havia chegado ao seu ponto culminante. Benjamin Constant, Quintino, Deodoro, Lopes Trovão, etc., eram os homens do dia. Para não me alongar começarei da véspera do célebre dia 15, em que o trono foi posto abaixo.
Ao anoitecer de 14, corria na rua do Ouvidor a notícia da prisão de Benjamin e de Deodoro. Dizia-se que o governo, considerando esses dois militares perigosos ao regímen, mandara-os encerrar numa fortaleza. O boato era falso. Tinha-o espalhado o major Sólon, com o intuito apenas de precipitar os acontecimentos. A coletividade republicana, com o boato, ferveu nas ruas, nas redações dos jornais e nos quartéis. Os batalhões sublevaram-se. Pela madrugada os chefes da propaganda tiveram que ser acordados em suas casas, para vir à rua comandar o movimento. Ao amanhecer de 15, a coluna revolucionária, tendo Benjamin à frente, descia a rua Visconde de Itaúna em direção ao Campo de Santana. Nas proximidades do gasômetro, Deodoro, que passava de carro, uniu-se à tropa. O velho marechal voltava do quartel do 1o regimento de cavalaria, onde não mais encontrara a força para comandar. Ao dobrar a rua Visconde de Itaúna para o campo de Santana, Deodoro salta do carro e monta o cavalo do alferes Eduardo Barbosa. Era já dia claro. A frente da coluna vai entrando no campo. No ângulo da estação da estrada de ferro estão colocados batalhões dos imperiais marinheiros e da polícia da corte que o governo ali mandara estacionar, para repelir a força revoltosa. O chefe revolucionário vai passando. Quer a polícia, quer os marinheiros não sabem o que fazer. Ele interpela-os violentamente:
- Então não fazem continência?
O major Valadão, que comandava a polícia, gritou um viva ao levante. O batalhão inteiro correspondeu-o.
O Visconde de Ouro Preto, chefe do gabinete, tinha reunido no quartel do campo de Santana os generais do estado-maior do ministro da Guerra. Sabia que as forças revolucionárias marchavam para ali, e era urgente uma medida, urgentíssimo que se enviassem tropas para bater os rebeldes em caminho. Floriano Peixoto, o barão do Rio Apa, o visconde de Maracaju, todos os generais, dissuadiram-no. As forças do quartel não se podiam mover de maneira tão rápida.
E quando Deodoro se postou com os seus batalhões defronte da fachada do quartel, o visconde, nervoso, tornou a reunir os generais. Não se tomava medida alguma? Não se desajolavam aqueles homens dali? Não havia meios e forças para os pôr fora?
- Não, respondeu Floriano.
- Não, confirmou Maracaju.
- Não, foi também a resposta do barão.
Ouro Preto percebeu tudo. A revolta estava ramificada pelo quartel adentro, pelo exército inteiro. Não podia confiar numa só farda. Resistência não havia nenhuma possível.
E sentou-se para redigir o telegrama em que depôs nas mãos do Imperador, em Petrópolis, o pedido de demissão do gabinete.



                     A República                                                 
                                                   (Parte 2)

Às 8 horas da manhã, Deodoro, terminando de dispor a tropa, vai colocar-se com Benjamin e com o seu estado-maior em frente ao portão central do quartel general. Quintino Bocaiúva chega, a cavalo, para unir-se às forças da revolução. Dentre a soldadesca, ao aparecer o jornalista, há brados, vivando a República. Deodoro, contrariado com os vivas, agita o braço e ordena silêncio.
Lá de dentro do quartel mandam-lhe dizer que a metralhadora que o governo ali colocara para combater a sublevação, está às suas ordens. Pouco depois o chefe do movimento conferencia com o brigadeiro Almeida Barreto, que volta a colocar-se à frente das forças do governo. Ordena ao tenente coronel Silva Telles que suba ao quartel para intimar o ministério, que lá dentro está reunido, a abandonar o seu posto. Minutos mais tarde Floriano Peixoto vem conferenciar com o marechal revolucionário.
São 9 horas da manhã. O governo lá em cima parece que se não decide a deixar o poder. Deodoro está impaciente, todos estão agitados. O velho soldado tem um gesto resoluto. Com o seu estado-maior e um piquete aproxima-se do portão, que se conserva fechado. O capitão Pedro Paulo abre as duas imensas portas de ferro. Deodoro entra a galope quartel adentro. Ao passar em frente à metralhadora que lhe tinham mandado oferecer, ordena ao oficial que a comanda:
- Tirem daqui este trambolho.
Segue em direção do 7o batalhão de infantaria, que ali está para combatê-lo, e manda a música tocar. Um capitão do 7o grita um viva ao velho marechal e a tropa inteira o aclama. Todas as forças que estão dentro do quartel vivam o chefe revolucionário. Há um ruído ensurdecedor de músicas e brados festivos.
Lá dentro, na sala em que está reunido o ministério, ouve-se tudo aquilo silenciosamente, trocando olhares. Ouro Preto acaba de verificar, com mais segurança, que não tem ninguém ao lado do governo. O próprio Floriano, com quem o ministério tanto contara, revelara-se um conspirador.
Passam-se alguns minutos dilaceradores.
No pé da escada aparece Deodoro com o seu cortejo. Os ministros esperavam-no. Ao entrar na sala, o velho soldado saúda ligeiramente com a cabeça a Maracaju:
- Adeus, primo Rufino!
A sala tinha-se enchido num segundo; militares, titulares, políticos, homens do povo e um único jornalista, o repórter da Gazeta de Notícias, rapaz que eu conhecia de vista.
Deodoro encaminha-se para o presidente do gabinete. Era um silêncio de esfriar. O chefe revolucionário, com uma eloqüência que ninguém lhe conhecia, começa a falar. Ali estava, à frente do exército, para vingar as injustiças inexplicáveis que o governo vinha fazendo ao soldado brasileiro.
- À armada também! repete Deodoro.
E continuou. Estava doente, estava de cama, mas ao saber que os seus camaradas queriam que dirigisse aquele movimento, teve forças para levantar-se do leito. Não era homem que temesse perigos, pois só temia a Deus. As afrontas que o exército, e também a armada, - acrescentou ao novo aparte de Benjamin - vinham sofrendo do governo chegavam ao seu termo. Estava ali para não mais consenti-las. Não se compreendia que homens políticos, que só cuidavam de interesses pessoais, maltratassem os soldados, os verdadeiros, os únicos defensores da pátria. Ele, que ali estava falando, crescera e se fizera, não pisando as pedras das ruas do Rio de Janeiro, mas nos campos de batalha, ao zunir das balas e ao troar dos canhões. Tinha serviços que o visconde, como simples político, nunca podia compreender e avaliar. Durante três dias e três noites, para aludir ao acaso a uma passagem da sua vida militar, combatera no Paraguai, dentro de um lodaçal, com água pelos joelhos. Eram serviços que lhe davam direito a chefiar o levante que tinham por fim acabar com as diminuições que se faziam à honra do exército.
- Está o ministério deposto, conclui. Vamos organizar outro, de acordo com as indicações que vou levar ao Imperador. Os ministros podem retirar-se.
E apontando o visconde:
- Menos o senhor e menos o ministro da Justiça, que ficarão presos, a fim de que, sejam deportados para a Europa.
E passeando pela sala, no meio do silêncio geral:
- O visconde é teimoso, mas eu sou muito mais teimoso que o visconde.
Ouro Preto ouve tudo silenciosamente, sem um gesto, numa impassibilidade de nobreza ofendida, agitando o trancelim do pincenê. E, quando Deodoro não tem mais nada que dizer, fala:
- Não é só no campo da batalha que se serve à pátria e por ela se fazem sacrifícios. Estar aqui ouvindo as suas palavras, neste momento, não é menos penoso que passar alguns dias e noites num pantanal.
E antes que o outro retruque:
- Fico ciente do que resolveu a meu respeito. É o vencedor, pode fazer o que lhe aprouver. Submeto-me à força.

A República
(Parte 3)

Até ali não se tinha ouvido uma só palavra, a mais vaga alusão à República. O que havia era justamente o contrário, era a declaração de Deodoro de que ia levar ao Imperador as indicações para o novo ministério, que ia organizar com os seus companheiros do movimento.

- Depois disso continuou o velho Joaquim Gonçalves, Deodoro retirou-se para a sua residência. Estava seriamente doente. Tinha estado de cama nos dias anteriores e da cama se levantara para chefiar o movimento.
Ao chegar à porta de casa, ali mesmo no Campo de Santana n. 99, fraquejavam-lhe as pernas e doía-lhe o corpo. Aquilo fora uma imprudência para a sua saúde.
Para subir as escadas de sua casa teve que apoiar-se aos ombros de dois homens.
A esposa, dona Marianinha, veio recebê-lo à porta do quarto e, vendo-o naquele abatimento, alarmou-se, mandando fechar imediatamente a cancela da rua. Ali não lhe entraria ninguém para visitar o marido!
Nas rodas republicanas a decepção era horrível. O movimento tinha sido feito com o fim único de derribar o trono e, em momento nenhum, Deodoro falara em República. Sempre aquela história da deposição do ministério!
Que se devia fazer? Aproveitar o levante para dar a República como proclamada? Não seria perigoso? Não seria impossível?
As ligações de Deodoro com o Imperador eram as mais estreitas e o monarca talvez tivesse meios de dominar o velho soldado, invocando a sua antiga fidelidade.
Naquela situação de mãe de S. Pedro é que se não podia ficar. Seria o ridículo estrondoso, a vergonha irremediável.
Estavam os republicanos reunidos no campo da Aclamação n. 17, no Instituto dos Cegos, que Benjamin Constant dirigia.
Para muitos deles, o trono estava logicamente derrubado. Que importava que o chefe da insurreição não tivesse aludido à República, se a insurreição fora, um movimento de republicanos?!
Havia necessidade de tomar-se uma medida pronta e decisiva. E que medida seria essa? O manifesto da República, a única.
Mas ninguém se decidia. Os propagandistas olhavam-se, entreolhavam-se, aos grupos, cochichando. O cair da tarde ia enchendo a sala de sombras.
Benjamin levantou-se. Estava visivelmente fatigado das vigílias da noite anterior e das impressões violentas daquele dia. Levantou-se e, encaminhando-se para uma das portas, disse com um bocejo:
- Estou muito cansado, vou tomar um banho morno.
O coronel Jaime Benévolo, que estava sentado a dois passos, ergueu-se de súbito, atravessando-se-lhe à frente, tomando-lhe a passagem numa energia surpreendente:
- Não! O senhor não toma banho nenhum. Vamos, sim, redigir o manifesto da República e organizar o ministério!
Benjamin caiu em si. Realmente era preciso fazer-se alguma coisa. Era quase noite e nada ainda se tinha feito para firmar o caráter do movimento.
E veio sentar-se à mesa. Os camaradas de propaganda cercaram-no. Redigiu-se o manifesto, lavraram-se as nomeações.
Aquilo devia ser levado a Deodoro para ser assinado. Com os papéis na mão, Benjamin perguntou no meio da sala:
- Quem leva isto ao velho?
Jaime Benévolo adiantou-se:
- Eu!
E partiu. Era já noite fechada.
À porta do chefe revolucionário a luta foi tremenda. Estava fechada a cancela, ninguém a podia transpor. Eram ordens de dona Marianinha. Benévolo teve que empregar violência para chegar ao quarto do enfermo. Deodoro, numa crise de dispnéia, sofria, com a esposa ao lado, a agitar-lhe uma ventarola.
Jaime Benévolo expôs-lhe a situação. O velho soldado repeliu o manifesto e os decretos de nomeação dos ministros. Não, não! Ele não faria aquilo.
O emissário, porém, não era homem de esmorecer. Pintou impressionantemente o ridículo que ia cair sobre a cabeça dos militares e sobre toda a propaganda republicana. Embora ele, Deodoro, não tivesse falado em República, todo o mundo sabia que aquilo era um levante de republicanos. Já corria pela cidade que a República havia sido proclamada...
- Não! não! repetia o velho. O ministério já não existe; amanhã vou falar ao Imperador.
Benévolo não se dava por vencido. Amanhã, quando se soubesse que a revolta conseguira apenas derribar o ministério, e não o trono, como era o desejo de todos, ninguém levaria a sério o exército. E o ridículo maior cairia sobre ele, Deodoro, como o chefe da tropa. Ninguém conseguiria convencer o país de que o movimento não tinha sido feito para proclamar a República...
Ou por se ter convencido, ou por se ter cansado, Deodoro começou a amolecer. Benévolo insistia. Mostrava a necessidade de aproveitar-se a vitória para um feito grandioso, mostrava o glorioso papel que o velho militar teria na história do futuro. Àquela hora, no paço, o Imperador cercado dos seus estava a organizar o ministério sob a indicação de Ouro Preto.
- Mas é o Ouro Preto quem vai indicar o seu substituto? perguntou o marechal escandalizado.
- É! Já indicou o Silveira Martins!
Deodoro ergueu-se. O ministério de Silveira Martins seria a mesma coisa que o de Ouro Preto! O soldado, o verdadeiros defensor da pátria, continuaria diminuído, humilhado... Não era possível! Era um abuso! E falou, falou, falou. E quando, com um novo acesso de dispnéia, acabou de falar, Benévolo passou-lhe às mãos os papéis.
- Uma pena, pediu o velho para dentro.
Trouxeram-lhe a pena e o tinteiro. Assinou a proclamação da República e a nomeação dos primeiros ministros do novo regímen.
Nas rodas monárquicas o desnorteamento não era menor. Chamado com urgência de Petrópolis, d. Pedro II descera, para o paço cercado das figuras eminentes da monarquia.
Ouro Preto apresentou-lhe a demissão do ministério. E como o Imperador lhe pedisse a indicação do seu substituto, o visconde lembrou o nome de Silveira Martins. Ficou assentado que Silveira Martins chefiaria o novo gabinete.
Era já noite e ninguém, no paço, imaginava que o golpe daquela manhã tivesse fins republicanos. Unicamente a deposição do ministério.
A não ser a entrada e saída das grandes figuras da monarquia, nada havia de anormal nas vizinhanças do paço. Às 9 da noite entrou o conselheiro Saraiva para falar ao Imperador, e só saiu às 11. Até essa hora não se tinha podido reunir o Conselho de Estado. Só depois das 11, o Conselho se reuniu. D. Pedro nada sabia ainda do manifesto de Deodoro. O conselheiro Andrade Figueira pô-lo então a par de tudo. Acabava de saber pelo seu genro, o major-de-engenheiros Roberto Trompowsky, que os propagandistas haviam conseguido que Deodoro transformasse a revolta numa vitória da República. Estava proclamado o novo regímen.
Aquela notícia faz prolongar a reunião. O Imperador parece não acreditar na queda do trono. Em vez de Silveira Martins, resolve confiar a chefia do gabinete ao conselheiro Saraiva. São quase duas da madrugada. Saraiva, chamado com urgência, vem imediatamente. Aceita o gabinete, mas em primeiro lugar precisa saber as intenções de Deodoro. Vai escrever-lhe uma carta e, pela resposta, saberá se é verdade ou não que ele proclamou a República.
Senta-se e escreve ao chefe revolucionário, comunicando-lhe que estava encarregado de organizar o novo ministério, mas que o não queria fazer sem com ele entender-se. E conclui convidando-o a vir ao paço no dia seguinte.
O major Trompowsky, a pedido do sogro, vai levar a carta a Deodoro, no campo da Aclamação. São três da manhã. À porta do proclamador há guardas. O major consegue ser levado ao quarto do novo chefe de Estado. Deodoro lê a carta. Nada tem que responder. Já havia proclamado a República!.
- Proclamei-a sem sangue, sem desacato à família imperial, para evitar que mais tarde ela fosse feita de modo contrário.
E o velho Joaquim Gonçalves concluiu:
- Foi assim que se fez a República. Eu vi tudo. Eu sabia de tudo.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Cantigas de Encurtar Caminho, Olegário Mariano

Bate o luar pelas encostas
Banha vales e grotões.
Que noite clara e comprida!
Entro no atalho da vida
Com um grande saco nas costas,
Cheio de recordações.


A luz do luar, de mansinho,
As sombras de noite espanta:
Quem canta encurta caminha,
Mata saudades quem canta.

Pesa-me êste desalento
Que a alma me aperta e espezinha
"Caminha" - murmura o vento
Dizem as nuvens: " Caminha!..."

Vem do silêncio das matas
Rumor de fonte e cachoeira.
Cantam minhas alpercatas
Cantando a canção da poeira.

Tudo canta! A flor do mato,
Uma ave noturna, um grilo.
Canta o veio de regato,
Canta o luar no céu tranqüilo.

Canta o bacurau na serra,
Canta o sapo na lagoa.
Sobe do hálito da terra
O canto da vida boa.

Tanto amor! Tanta promessa
Nesta vida em que definho!...

E eu vou cantando baixinho...
Quem canta chega depressa,
Quem canta encurta caminho.


Do livro: Cantigas de encurtar Caminho (1949)

Este blog manteve a grafia original.

domingo, 22 de janeiro de 2012

História bonita:D. Iraci, formada pedagoga aos 79 anos


D. Iraci Gomes da Costa Marques não  despertaria a atenção de ninguém  brincando de escolinha na infância pobre da Cidade do Crato – CE, afinal pobreza e brincadeira sempre existiram e conviveram em paz.  Trabalhar  duramente na roça, não ter oportunidade de estudar, casar  cedo e ter muitos filhos, também não é novidade no universo feminino do Nordeste. Não é  até hoje, lamentavelmente. Então por que D.Iraci veio parar no blog, como protagonista de História bonita?

Acontece que esta senhora não é sopa! Vamos ver: aprendeu a ler brincando de escolinha, ainda no Ceará, e teve seu sonho de ser  professora interrompido durante décadas a fio.  Já morando em Salgueiro, sertão de Pernambuco para onde migrou, e com 21 anos, casou e teve seis filhos.   Vidinha dura, mesmo que nada incomum, D.Iraci permaneceu apenas alfabetizada até os 41 anos de idade quando, enfim, cursou o ensino fundamental, fazendo EJA que é a modalidade de ensino, para quem já não é mais criança.  Passo seguinte, três anos depois, foi fazer o segundo grau também na mesma modalidade. Foi aprovada com nota máxima nas duas etapas.  Naquelas condições de vida, terminar o segundo grau já seria um feito extraordinário, porém a tenaz D. Iraci ousou buscar seu sonho de criança e partiu para o ensino superior. Foi a 13ª colocada, entre 120 concorrentes, no curso de Pedagogia do vestibular da FASHUSC. Novamente nos bancos escolares aos 76 anos e cercada de gente que bem poderia ser seus bisnetos, D. Iraci Gomes da Costa Marques sempre obteve as melhores notas em todas as disciplinas.  Formou-se em 2011.  Palmas pra ela.  Acabou?  a notícia no blog sim. Acabou. Nas intenções daquela senhora não: pretende fazer pós graduação, porque segundo ela “ a gente deve ser rico no saber” e em março deste ano lançar um livro na Biblioteca Pública de Salgueiro, a cidade que lhe acolheu.  Alguém duvida?  a blogueira não duvida.

Ah, esqueci: a Faculdade de Ciências Humanas do Sertão Central é particular e foi a própria dona Iraci que custeou seu curso, com pagamento descontado direto de sua aposentadoria.  Acabou?  Não.  Tem mais: 4 dos 6 filhos dela também são formados.

Bonito, não?  Aplaudamos de pé a pedagoga Iraci Gomes da Costa Marques, 79 anos.



Fontes: Diário de Pernambuco – 22.01.2012 e blog do Alvinho Patriota

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Aniversariantes de Janeiro: Euclides da Cunha

Clique na imagem para saber sobre E.A

Eu Quero


Eu quero à doce luz dos vespertinos pálidos

Lançar-me, apaixonado, entre as sombras das matas

_ Berços feitos de flor e de carvalhos cálidos

Onde a Poesia dorme, aos cantos das cascatas...


Eu quero aí viver _ o meu viver funéreo,

Eu quero aí chorar _ os tristes prantos meus...

E envolto o coração nas sombras do mistério,

Sentir minh'alma erguer-se entre a floresta de Deus!


Eu quero, da ingazeira erguida aos galhos úmidos,

Ouvir os cantos virgens da agreste patativa...

Da natureza eu quero, nos grandes seios túmidos,

Beber a Calma, o Bem, a Crença _ ardente a altiva.


Eu quero, eu quero ouvir o esbravejar das águas

Das asp'ras cachoeiras que irrompem do sertão...

E a minh'alma, cansada ao peso atroz das mágoas,

Silente adormecer no colo da so'idão...



Euclides da Cunha, 1883

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Bingo! Está Nascendo um Novo Autor


     Final do ano passado informei sobre o lançamento de um livro de poesias: Vencidas As Primaveras Insípidas,  de Francisco Borges Neto.
     Frank, como nós chamamos, é um amigo virtual e participante-fundador da comunidade Livro Errante no Orkut. Reluto em informar ou indicar  livro que ainda não li, somente por ser amiga do autor ou pelo pedido deste.  Com Francisco Borges Neto, foi diferente. Baseada nas leituras que autor fazia em nosso grupo, na forma de expressar-se e na seriedade com que entregou-se à sua primeira produção, chegando a quase desaparecer de nosso convívio, deixei de lado minha chatice, dei crédito ao jovem, pedi para anunciar o lançamento e comprei o livro.
    Pedi autorização para publicar um dos poemas aqui, pouco depois de iniciar a leitura.  
    Não lí de imediato. Apesar de ter poucas páginas, gastei vários dias para terminar. Poesia é para se degustar. Me deixei levar pelo lirismo do autor, que explorou bem a musicalidade da língua, as imagens das coisas mais simples. Acho, até, que posso salientar: lirismo, musicalidade e simplicidade como a pedra de toque de Vencidas As Primaveras Insípidas. 
    Em suma: confiei,arrisquei e ... bingo! Acertei. Está nascendo um bom autor. 

Poeta-Estrela
Francisco Borges Neto

Os poetas mortos são as estrelas do universo
distantes milhares de anos-luz
e que se apagaram.
Os seus poemas são os raios infinitos e brilhantes...
que ainda iluminam a vida na Terra
apesar do poeta-estrela desdourado.

  

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Melhores lugares para ler fora de casa

Os escritores Marcelino Freire (PE) e Fabrício Carpinejar (RS) escolheram os melhores lugares para ler fora de casa, na cidade de São Paulo.

São várias as sugestões,  vou colocar aqui apenas as que me mataram de inveja.


Biblioteca Alceu Amoroso Lima
R. Henrique Schaumann 777 - Pinheiros



Café do Espaço Unibanco
R.Augusta 1470 - Consolação
Praça do Pôr-do-Sol
Pinheiros
Parque Mário Covas
Avenida Paulista com min. Rocha Azevedo

Parque Burle Marx
Marginal Pinheiros

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Budum Filho, Luis Fernando Veríssimo.

            Uma comissão da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul esteve investigando a violência na TV, quetão que preeocupa pais, educadores, sociólogos e que é bastante controvertida. Qual seria a influência da violência da TV nos espectadores? Haveria uma relação direta entre o aumento da criminalidade no Brasil e a crescente violência diariamente presente nos filmes importados da nossa TV? A TV estaria dando maus exemplos?

Infelizmente, a comissão da Assembléia gaúcha não pôde ouvir o conhecido facínora Cedenir de Tal, vulgo Budum Filho. Seu depoimento, muito elucidativo, teria sido mais ou menos assim:

Deputado: Conte-nos um pouco da sua vida de crimes, Sr. Budum
Budum Filho: Comecei fazendo pequenos crimes, em casa. Éramos 18 irmãos morando no mesmo barraco e todos criminosos. Eu tinha 7 anos, era o caçula. Precisava chamar a atenção, senão não comia, entende? Até que um dia consegui chamar a atenção deles.

Deputado: O que foi que o senhor fez, Senhor Budum?
Budum Filho:Matei a mãe.

Deputado: Muito bem. O senhor acha que foi influenciado pela TV quando escolheu a carreira do crime?
Budum Filho:Naquele tempo nós não tinhamos TV. Depois eu roubei uma e aí, sim, comecei a ser influenciado.

Deputado: O senhor passava o dia na frente da televisão, a sua mente,ainda inocente, absorvendo toda aquela violência, é isso?
Budum Filho: Isso aí excelência. Passava a noite na rua, assaltando para viver, e de dia ficava na frente da televisão sendo desencaminhado. Aprendi muita coisa na TV.

Deputado: Por exemplo?
Budum Filho:Aprendi a largar ferro de passar no pé das pessoas e fazer as pessoas engolirem banana de dinamite e depois acender o pavio...

Deputado: Tudo isso em filmes policiais estrangeiros?
Budum Filho:Não, em desenho animado. Eu era louco por desenho animado

Deputado: Mais tarde, já adulto, o senhor continuou sendo levado à violência pela TV...
Budum Filho:Exatamente. Morava com um colega de profissão. O Tadeu Arranca-Unha, e um dia tivemos uma discussão por causa da TV. Ele queria ver um filme de Greta Garbo e eu queria ver o teipe do jogo. No fim eu degolei ele e ele ficou quieto.

Deputado: Perfeito. Até hoje o senhor continua aprendendo novos métodos de violência com a TV, não é verdade?
Budum Filho: É. Tenho visto uns filmes sensacionais. ensinam cada coisa... Abrem o peito do cara e vão direto no coração. Coisas assim instrutivas.


Deputado: Esta série eu acho que não conheço...
Budum Filho: Não é série. É aquela parte científica do Fantástico. Só estou esperando a oportunidade de pôr em prática o que eles ensinaram.

Deputado: Sr.Budum, acho que ...
Budum Filho:Aquela de enfiar uma agulha na cabeça de um ratinho é sensacional...
Deputado: Obrigado, senhor Budum.




Crônica do livro: Pai Não Entende Nada
Ed.L&PM 1991
Nota: esta crônica foi escrita antes da reforma ortográfica e o blog manteve a grafia original

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Segunda-feira poética, Mário Quintana

Eu Escrevi um Poema Triste

Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!

domingo, 15 de janeiro de 2012

Crônica cantada: Assis Valente,Brasil Pandeiro




Chegou a hora dessa gente bronzeada
Mostrar seu valor
Eu fui à penha fui pedir à padroeira para
Me ajudar
Salve o morro do vintém, pendura-saia,
Eu quero ver
Eu quero ver o tio Sam tocar pandeiro
Para o mundo sambar
O tio Sam está querendo conhecer
A nossa batucada
Anda dizendo que o molho da baiana
Melhorou seu prato
Vai entrar no cuscuz, acarjé e abará
Na Casa branca já dançou a batucada
De ioiô i iaiá
Brasil, esquentai vossos pandeiros iluminai os terreiros
Que nós queremos sambar
Há quem sambe diferente
Noutras terras, outra gente
Um batuque de matar
Batucada, reuni vossos valores
Pastorinhas e cantores
Expressões que nâo têm par
Oh! Meu Brasil
Brasil, esquentai vossos pandeiros..

Aniversariantes de Janeiro: João Cabral de Melo Neto




João Cabral de Melo Neto: 09.01.1920

Próximo aniversariante de janeiro: Euclides da Cunha

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Aniversariantes de Janeiro: Rubem Braga

Aula de Inglês
 
—  Is this an elephant?
Minha tendência imediata foi responder que não; mas a gente não deve se deixar levar pelo primeiro impulso. Um rápido olhar que lancei à professora bastou para ver que ela falava com seriedade, e tinha o ar de quem propõe um grave problema. Em vista disso, examinei com a maior atenção o objeto que ela me apresentava.

Não tinha nenhuma tromba visível, de onde uma pessoa leviana poderia concluir às pressas que não se tratava de um elefante. Mas se tirarmos a tromba a um elefante, nem por isso deixa ele de ser um elefante; mesmo que morra em conseqüência da brutal operação, continua a ser um elefante; continua, pois um elefante morto é, em princípio, tão elefante como qualquer outro. Refletindo nisso, lembrei-me de averiguar se aquilo tinha quatro patas, quatro grossas patas, como costumam ter os elefantes. Não tinha. Tampouco consegui descobrir o pequeno rabo que caracteriza o grande animal e que, às vezes, como já notei em um circo, ele costuma abanar com uma graça infantil.

Terminadas as minhas observações, voltei-me para a professora e disse convincentemente:
—  No, it's not!
Ela soltou um pequeno suspiro, satisfeita: a demora de minha resposta a havia deixado apreensiva. Imediatamente perguntou:
—  Is it a book?
Sorri da pergunta: tenho vivido uma parte de minha vida no meio de livros, conheço livros, lido com livros, sou capaz de distinguir um livro a primeira vista no meio de quaisquer outros objetos, sejam eles garrafas, tijolos ou cerejas maduras — sejam quais forem. Aquilo não era um livro, e mesmo supondo que houvesse livros encadernados em louça, aquilo não seria um deles: não parecia de modo algum um livro. Minha resposta demorou no máximo dois segundos:
—  No, it's not!
Tive o prazer de vê-la novamente satisfeita — mas só por alguns segundos. Aquela mulher era um desses espíritos insaciáveis que estão sempre a se propor questões, e se debruçam com uma curiosidade aflita sobre a natureza das coisas.
—  Is it a handkerchief?
Fiquei muito perturbado com essa pergunta. Para dizer a verdade, não sabia o que poderia ser um handkerchief; talvez fosse hipoteca... Não, hipoteca não. Por que haveria de ser hipoteca? Handkerchief! Era uma palavra sem a menor sombra de dúvida antipática; talvez fosse chefe de serviço ou relógio de pulso ou ainda, e muito provavelmente, enxaqueca. Fosse como fosse, respondi impávido:
—  No, it's not!
Minhas palavras soaram alto, com certa violência, pois me repugnava admitir que aquilo ou qualquer outra coisa nos meus arredores pudesse ser um handkerchief.

Ela então voltou a fazer uma pergunta. Desta vez, porém, a pergunta foi precedida de um certo olhar em que havia uma luz de malícia, uma espécie de insinuação, um longínquo toque de desafio. Sua voz era mais lenta que das outras vezes; não sou completamente ignorante em psicologia feminina, e antes dela abrir a boca eu já tinha a certeza de que se tratava de uma palavra decisiva.
—  Is it an ash-tray?
Uma grande alegria me inundou a alma. Em primeiro lugar porque eu sei o que é um ash-tray: um ash-tray é um cinzeiro. Em segundo lugar porque, fitando o objeto que ela me apresentava, notei uma extraordinária semelhança entre ele e um ash-tray.  Era um objeto de louça de forma oval, com cerca de 13 centímetros de comprimento.

As bordas eram da altura aproximada de um centímetro, e nelas havia reentrâncias curvas — duas ou três — na parte superior. Na depressão central, uma espécie de bacia delimitada por essas bordas, havia um pequeno pedaço de cigarro fumado (uma bagana) e, aqui e ali, cinzas esparsas, além de um palito de fósforos já riscado. Respondi:
—  Yes!
O que sucedeu então foi indescritível. A boa senhora teve o rosto completamente iluminado por onda de alegria; os olhos brilhavam — vitória! vitória! — e um largo sorriso desabrochou rapidamente nos lábios havia pouco franzidos pela meditação triste e inquieta.  Ergueu-se um pouco da cadeira e não se pôde impedir de estender o braço e me bater no ombro, ao mesmo tempo que exclamava, muito excitada:
—  Very well!  Very well!
Sou um homem de natural tímido, e ainda mais no lidar com mulheres. A efusão com que ela festejava minha vitória me perturbou; tive um susto, senti vergonha e muito orgulho.

Retirei-me imensamente satisfeito daquela primeira aula; andei na rua com passo firme e ao ver, na vitrine de uma loja,alguns belos cachimbos ingleses, tive mesmo a tentação de comprar um. Certamente teria entabulado uma longa conversação com o embaixador britânico, se o encontrasse naquele momento. Eu tiraria o cachimbo da boca e lhe diria:
--  It's not an ash-tray!
E ele na certa ficaria muito satisfeito por ver que eu sabia falar inglês, pois deve ser sempre agradável a um embaixador ver que sua língua natal começa a ser versada pelas pessoas de boa-fé do país junto a cujo governo é acreditado.


Rubem Braga  - 12.01.1913


Próximo aniversariante de Janeiro: João Cabral de Melo Neto

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Lição de Moral, Clarice Lispector

             Um dia desses um chofer de taxi, e eu entrevisto muitos, foi quem se encarregou de me entrevistar. Fez-me várias perguntas indiscretas e, entre elas, uma bastante estranha: a senhora se sente uma mulher igual a todo mundo? (ele era tão nortista que não dizia mulher, dizia muler) Respondi sem saber ao certo ao que respondia: "mais ou menos". "Pois eu", continuou ele, me sinto igual a todo mundo. Já fui mendigo minha senhora. E hoje sou chofer. E mesmo tendo sido mendigo, me sinto igual a todo o mundo. É, por isso que lhe estou dando uma lição de moral”. Merecia eu esta lição? Não sei porque  despedimo-nos com a maior efusão, um desejando felicidade ao outro. Na certa estávamos  precisados.


              Uma conhecida minha ficou surpreendida, quando lhe contei: sempre pensara que, uma vez mendigo, último ponto de parada de uma pessoa, nunca mais se mudava. Mas aquele não só saiu  como está com dinheiro bem ganho num carro por ele comprado a prestações. E não só saiu da mendicância, mas estava pronto para dar lição de moral a uma muler que não a pediu. Lição de moral eu detesto. Quando percebo que a conversa está descambando para isso – outros, os moralistas, diriam “subindo para isso” – retraio-me toda, e uma rigidez muda me toma. Luto contra. E estou piorando nesse sentido.


(In: Aprendendo a Viver. Ed.Rocco 2004)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Melhores leituras de 2011

Estes foram os melhores livros que li em 2011:

  • A Costureira e o Cangaceiro , Frances de Pontes Peebles
  • A Dama da Amêndoas,Marina Fiorato
  • A Máquina de Fazer Espanhóis, valter hugo mãe
  • Cartão Postal, Lívia García-Roza
  • Desculpe a Nossa Falha, Ricardo Ramos
  • Eu não Vim Fazer Discurso, Gabriel García Márquez
  • O Peixe de Amarna, Cícero Sandroni
  • O Tempo Entre Costuras, María Dueñas
  • Peixe na Água, Mário Vargas Llosa
  • Senhora das Savanas, Hilton Marques

Aniversariante de hoje

João Cabral de Melo Neto

"...E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina."



domingo, 8 de janeiro de 2012

A Carta, Mário Quintana

Hoje encontrei dentro de um livro uma velha carta amarelecida,
Rasguei-a sem procurar ao menos saber de quem
                                                               seria...
Eu tenho um medo
Horrível
A essas marés montantes do passado,
Com suas quilhas afundadas,com
Meus sucessivos cadáveres amarrados aos mastros
                                                              e gáveas...
Ai de mim,
Ai de ti, ó velho mar profundo,
eu sempre venho à tona de todos os naufrágios!