quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Teoria do Consumo Conspícuo, Rubem Fonseca



     Estávamos dançando abraçados, de frente, da maneira convencional. Ela não queria brincar no cordão,nem queria outra sorte de abraços, nem queria tirar a máscara. Eu gritava n meio do barulho, pedia no seu ouvido: "tira a máscara, meu bem". Ela nada. Ou melhor, sorria, os dentes mais lindos do mundo, de boca aberta. Eu via os molares lá no fundo.
     Dançamos a noite toda. No princípio, fiquei muito excitado. Depois, fiquei cansado somente; mas continuamos abraçados, bem apertados. Eu só via o seu queixo, que era branco e redondo; e a boca. Da boca para cima nada. Nem os olhos a máscara deixava ver direito.
     Me contaram uma história de um par mascarado que dançava no carnaval. Ele estava vestido de cachorro e tinha uma máscara de gente; ela estava vestida de gente  e tinha máscara de gata. Tiraram a máscara ao mesmo tempo. Debaixo da máscara da gata estava a cara de uma mulher; debaixo da máscara de de gente estava a cara de um cachorro; o que tinha corpo de cachorro era cachorro mesmo: as aparências não enganam.
     Era o último dia de carnaval e todo carnaval eu sempre fora com uma mulher diferente para a cama. Já na terça feira, mais um pouco o carnaval acabava e eu não teria mantido a tradição. Era uma espécie de superstição como a desses sujeitos que todo o ano vão à igreja dos Barbadinhos. Eu temia que algo malévolo ocorresse comigo se eu deixasse de cumprir aquele ritual.
     À meia noite começaram a cantar no salão, com o mais genuíno dos masoquismos, "é hoje só, amanhã não tem mais".
     Essa advertência, de que era aquele o último dia, me deixou muito preocupado.continuávamos dançando, ela rindo a três por dois,jogando a cabeça para trás, boca aberta, e eu olhando os seus molares; cheio de medo, pois era só hoje, amanhã não tinha mais.
     Nossa conversa era feita de olhares e apertos, pois o barulho da orquestra, dos gritos e apitos, não permitia que conversássemos. de vez em quando apertava a mão dela e ela retribuia; prendia a perna dela entre as minhas, ou a minha entre as dela e novamente sentia receptividade. Beijava-a no pescoço, na orelha; ela raspava na minha nuca uma unha pontuda e afiada como se fosse uma faca.
     O tempo doi passando, passando e acabou. Já era de manhã. saimos do baile e, como era verão, o sol iluminava todo mundo. Todos estavam feios, suados, sujos. Aparecia  em certas caras a feiura do lábio fino engrossado de batom; peitos postiços saíam de posição;sapatos altos quebravam o salto e algumas mulheres viravam anãs de repente; sovacos fediam; dedos dos pés surgiam calosos e imundos.
     Só a minha amiga continuava bonita e fresca como se fosse uma rosa. E de máscara.
     "Já é dia", disse para ela. "Você já pode tirar a máscara." 
     "Você quer mesmo que eu tire?" perguntou ela.
     Íamos andando pela ria, sós. As outras pessoas tinham desaparecido.
     "Já é dia", repeti, achando boa a razão que eu apresentava. "Além do mais,o carnaval acabou", disse com certa tristeza. "Hoje é quarta-feira de cinzas."
     "Você quer mesmo que eu tire?" tornou ela.
     "Já é dia", insisti.
     Continuamos andando. Eu de mau humor.
     "Vamos para a minha casa?" perguntei urgente e sem esperança.
     "Não posso tirar a máscara", disse ela.
     "Não tira",disse eu, decididamente. Mas estava apreensivo. Não havia tempo a perder.     "Vamos".
     Como ela não respondesse, eu a peguei por um braço e a levei para minha casa.
     Quando entramos ela disse:
     "Não posso." 
     "Tirar a máscara?"
     "Quem falou em tirar a máscara?" disse ela, botando as mãos no rosto e dando um passo para trás.
     "Eu não falei em tirar a máscara", defendi-me. "Foi você dizendo 'não posso'."
     "Eu não falei na máscara", protestou ela. "Não posso outra coisa."
     Eu me sentei e tirei os sapatos.
     "Nós dois estamos perdendo o nosso tempo", disse eu. "É melhor você ir embora."
     "Você não entende", disse ela.
     Num gesto dramático, tirou a máscara.
     "Não suporto o meu nariz", disse com desafio na voz.
      Era um nariz muito bonito, arrebitado.
     "O seu nariz é muito bonito", disse eu. Você é toda muito bonita
     "Não sou não", disse ela, com jeito de quem ia chorar. "Vocês homens são todos iguais. 'E daí?"
     "O meu problema é não ter duzentos contos.Você me dá duzentos contos?"
     "Duzentos contos?"
     "Você me dá duzentos contos?" argüiu ela, coo se estivesse me pondo à prova. De boca fechada, me olhava fixamente.
     Eu me levantei e vi minha caderneta de cheques do banco. Tinha duzentos justos.
     "Dou", disse. Fiz um cheque e entreguei a ela.
     "Depois eu pago", disse ela.
     "Não precisa", disse eu olhando o relógio. "Hoje já é quarta-feira."
     "Pago sim.Vou trabalhar e pago. Eu não gosto de dever a ninguém."
     "Está certo; você paga".
     Bocejamos os dois.
     "Os médicos são muito caros, você não acha? Duzentos contos só para operar um nariz", disse ela.
     Foi  andando em direção à porta.
     Eu estava tão cansado que continuei sentado.
     "Você vai querer me ver de nariz novo?", perguntou ela.
     Eu tive vontade de dizer: "você não precisa de um nariz novo, está gastando dinheiro à-toa; além do mais, me deixou completamente na miséria levando os últimos duzentos contos da minha indenização trabalhista." Mas achei que isso não seria gentil da minha parte e disse somente: "vou."
     "Tchau", disse ela, saindo e fechando a porta.
     Deixou a máscara em cima de uma cadeira. Era preta, de cetim, com um perfume forte e bom. botei a máscara e fui para a cama. Estava quase dormindo quando me lembrei de tirá-la: um sujeito que sempre dorme de janelas abertas, não pode dormir com uma máscara que lhe cobre o nariz.


Nota: o blog manteve a grafia  do ano de lançamento do livro.

Consumismo conspícuo:  descreve gastos esbanjadores em bens e serviços adquiridos principalmente com  o propósito de mostrar renda ou riqueza. Na mente do consumidor conspícuo, tal exibição serve como meio para ter ou manter status.