quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Na delegacia, Carlos Drummond de Andrade

- Madame, queira comparecer com urgência ao Distrito.
Seu filho está detido aqui.
-Como? O senhor ligou errado. Meu filho detido? Meu filho vive há sei meses na Bélgica, estudando Física.
-E a senhora só tem esse?
-Bom, tenho também o Caçulinha, de dez anos.
- Pois é o Caçulinha.
- O senhor está brincando comigo. Não acho graça nenhuma. Então um menino de dez anos foi parar na Polícia?
- Madame vem aqui e nós explicamos.
A senhora correu ao Distrito, apavorada. Lá estava o Caçulinha, cabeça baixa, silencioso.
- Meu filho, mas você não foi ao colégio? que foi que aconteceu?
Não se mostrou inclinado a responder,
-Que foi que meu filho fez, seu comissário? Ele roubou? Ele matou?
- Estava com um colega fazendo bagunça numa casa velha da Rua Soares Cabral. Uma senhora que mora em frente telefonou avisando, e nós trouxemos os dois para cá. O outro garoto já foi entregue à mãe dele. Mas este diz que não quer voltar para casa.
A mãe sentiu uma espada muito fina atravessar-lhe o peito.
-Que é isso meu filho? Você não quer voltar para casa?
Continuava mudo.
-Eu disse a ele, madame - continuou o comissário - que se não voltasse para casa teria de ser entregue ao Juiz de Menores. Ele me perguntou o que é o Juiz de Menores. Eu expliquei, ele disse que ia pensar.
- Meu filho, meu filhinho - disse a senhora, com voz trêmula - então você não quer mais ficar com a gente? prefere ser entregue ao Juiz de Menores?
Caçulinha conservava-se na retranca. O policial conduziu a senhora para outra sala.
- O que esses garotos estavam fazendo é muito perigoso. Brincavam de explorar uma casa abandonada, onde à noite dormem marginais. Madame compreende, é preciso passar um susto nos dois.
A senhora voltou para perto de Caçulinha, transformada:
- Sai daí já seu vagabundo, e vamos para casa.
O mudo recuperou a fala:
- Eu não posso voltar, mãe.
- Não pode? Espera aí que eu te dou não-pode.
E levou-o pelo braço, ríspida. Na rua, Caçulinha tentou negociar:
- A senhora me deixa passar na Soares Cabral? Deixando, eu volto direto para casa, não faço mais besteira.
- Passar em Soares Cabral, depois desse vexame? Você está  louco.
-Eu preciso mãe. Tenho de pegar uma coisa lá.
-Que coisa?
- Não sei, mas tenho de pegar. Senão me chamam de covarde. Aceitei o desafio dos colegas, e se não trouxer um troço da casa velha para eles, fico desmoralizado.
-Que troço?
-O pessoal diz que lá tem ferros para torturar escravo, essas coisas. Eu e o Edgar estávamos procurando, ele mais como testemunha, eu como explorador. Mãe, a senhora quer ver seu filho sujo no colégio, quer? Tenho de levar nem que seja um pedaço de cano velho, uma fechadura, uma telha.
A mãe estacou para pensar. Seu filho sujo no colégio?
Nunca. Mas e o perigo dos marginais? E a polícia? E seu marido? Vá tudo para o inferno. Tomou uma resolução macha, e disse para Caçulinha:
-Quer saber de uma coisa? Eu vou com você a Soares Cabral.

Em: O Poder Ultra Jovem -Ed. José Olímpio 1974)