quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Quarta-feira é dia de: Terapia do Joelhaço, Martha Medeiros

Imagem: Pedro Uhart
     Sentado em sua poltrona de couro marrom, ele me ouviu com a mão apoiada no queixo por dez minutos, talvez doze minutos, até que me interrompeu e disse: "tu estás enlouquecendo".
     Não é exatamente isso que se sonha ouvir de um psiquiatra. Se você vem de uma família conservadora que acredita que terapia é pra gente maluca, pode acabar levando o dignóstico a sério. Mas eu não venho de uma família conservadora, ao menos não tanto.
     Comecei a gargalhar e em segundos estava chorando. " Como assim, enlouqueceu??"
     Ele riu. Deixou a cabeça pender para um lado e me deu o olhar mais afetuoso do mundo, antes de dizer: "Querida, só existem duas coisas no mundo: o que a gente quer e o que a gente não quer".
     Quase levantei da minha poltrona de couro marrom ( também tinha uma) para esbravejar: "Então é simples desse jeito? O que a gente quer e o que a gente não quer? Olhe aqui, dr. Freud (um pseudônimo para preservar sua identidade), tem gente que faz análise durante catorze anos, às vezes mais ainda, vinte anos, e você me diz nos meus primeiros quinze minutos de consulta que a vida se resume aos nossos desejos e nada mais? Não vou lhe pagar um tostão?
     Ele jogou a cabeça para trás e sorriu de um jeito  ainda mais doce. Eu joguei a cabeça para frente, escondi os olhos com as mãos e chorei um pouquinho mais. Não é fácil ouvir uma verdade à queima roupa.
     "Tem gente que precisa de muitos anos para entender isso, minha cara." Suspirei e deduzi que era uma homenagem: ele me julgava capaz daquela verdade sem precisar frequentar seu consultório até ficar velhinha. Além disso, fiz as contas e percebi que ele estava me poupando de gastar uma grana preta.
     Tá, e agora, o que eu faço com essa batata quente nas mãos, com essa revelação perturbadora?
     Passo adiante, ora. Extra, extra, só existe o seu desejo. É o desejo que manda. Esse troço que você tem aí dentro da cachola, essa massa cinzenta, parecendo um quebra-cabeças, ela só lhe distrai daquilo que realmente interessa: o seu desejo. O rei, o soberano, o infalível, é ele, o desejo. Você pode silenciá-lo à força, pode até matá-lo, caso não tenha forças para enfrentá-lo, mas vai sobrar o que de você? Vai restar sua carcaça, seu zumbi, seu avatar caminhando pelas ruas desertas de uma cidade qualquer. Você tem coragem de desprezar a essência do que faz você existir de fato?
     É tão simples que nem seria preciso terapia. Ou nem seria preciso mais do que meia dúzia de consultas. Mas quem disse que, sendo complicados como somos, o simples nos contenta? por essas e outras estamos todos enlouquecendo. 

Feliz Por Nada - Martha Medeiros
Ed.:L&PM